Fragilidade e doença cardiovascular: pode a reabilitação através do exercício recuperar a capacidade física?

Fragilidade e doença cardiovascular: pode a reabilitação através do exercício recuperar a capacidade física? October 10, 2026Leave a comment

Quando uma pessoa mais velha tem uma doença cardiovascular, é frequente existir uma preocupação adicional: será que o exercício é seguro quando também existe fragilidade?

A resposta não deve ser simplesmente “sim” ou “não”. Depende da condição cardiovascular, do grau de fragilidade, da capacidade física atual e, sobretudo, da forma como o exercício é avaliado e doseado.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada recentemente na revista Ageing Research Reviews analisou precisamente esta questão. Os investigadores procuraram perceber se programas de reabilitação cardiovascular e outras intervenções direcionadas para a fragilidade poderiam melhorar a capacidade funcional de pessoas mais velhas com doença cardiovascular e fragilidade.

Os resultados são interessantes: foram observados benefícios em algumas medidas de capacidade física, incluindo a força dos membros inferiores, a distância percorrida em seis minutos e alguns indicadores de fragilidade.

Mas existe uma ressalva importante: a certeza global da evidência foi considerada muito baixa.

O que é a fragilidade?

A fragilidade não é simplesmente “ser velho”.

É um estado de maior vulnerabilidade perante acontecimentos que, noutra pessoa, poderiam ter consequências menores.

Uma pessoa frágil pode apresentar menor força muscular, menor resistência física, perda de peso involuntária, fadiga, redução da velocidade da marcha ou dificuldade em realizar determinadas tarefas.

O problema é que a fragilidade pode criar um ciclo difícil de interromper.

A pessoa sente-se mais fraca, reduz a atividade física, perde ainda mais capacidade muscular, passa a ter mais dificuldade em caminhar e começa a evitar determinadas atividades.

Com o tempo, a redução do movimento pode contribuir para uma perda adicional de capacidade.

É precisamente neste ponto que o exercício pode ter um papel importante.

Porque é que a fragilidade é particularmente importante na doença cardiovascular?

Uma doença cardiovascular pode limitar a capacidade de realizar exercício. Se, simultaneamente, existir fragilidade, a pessoa pode apresentar ainda menos reserva funcional.

Imagine alguém que fica cansado depois de caminhar uma distância relativamente curta.

Se essa pessoa passa a evitar a caminhada por receio de se cansar, pode perder progressivamente força e resistência.

Quando voltar a tentar caminhar, a tarefa pode parecer ainda mais difícil.

É por isso que a intervenção não deve olhar apenas para o coração.

É necessário considerar também os músculos, a marcha, o equilíbrio, a força, a resistência e a capacidade de realizar as atividades do quotidiano.

O que analisou a nova revisão?

Os investigadores realizaram uma revisão sistemática de estudos que avaliaram intervenções direcionadas para pessoas mais velhas com doença cardiovascular e fragilidade ou pré-fragilidade.

Foram incluídos 16 estudos, dos quais 13 eram ensaios clínicos randomizados e três eram estudos não randomizados de intervenção.

No total, foram incluídos 1716 participantes.

Os investigadores analisaram diferentes resultados relacionados com capacidade funcional, fragilidade, força, marcha, atividades da vida diária, qualidade de vida, hospitalização e mortalidade.

Esta diversidade é importante porque a reabilitação cardiovascular não é constituída necessariamente por um único exercício.

Pode envolver treino físico, educação, acompanhamento clínico e diferentes estratégias de gestão da condição cardiovascular e da fragilidade.

Melhorou a capacidade funcional?

Em algumas das medidas analisadas, sim.

Os investigadores encontraram efeitos favoráveis na Short Physical Performance Battery, uma bateria de testes utilizada para avaliar diferentes componentes da capacidade física em pessoas mais velhas.

Também foi observado um aumento na distância percorrida no teste de caminhada de seis minutos.

Este resultado é particularmente interessante porque caminhar é uma das capacidades mais importantes para a autonomia.

Não estamos a falar apenas de desempenho desportivo.

Estamos a falar da capacidade de andar até às compras, deslocar-se dentro de casa, sair para passear ou realizar outras atividades sem ficar excessivamente limitado pela fadiga.

E a força muscular?

A revisão encontrou também resultados favoráveis na força dos membros inferiores.

Este é um aspeto que considero fundamental.

À medida que envelhecemos, a força das pernas influencia muitas tarefas aparentemente simples.

Levantar-se de uma cadeira, subir escadas, entrar numa banheira, caminhar numa subida ou recuperar o equilíbrio depois de um pequeno desequilíbrio são tarefas que dependem da capacidade de produzir força.

Por isso, quando avaliamos o estado físico de uma pessoa mais velha, não devemos olhar apenas para o coração e para a capacidade aeróbia.

É igualmente importante perceber se a pessoa consegue utilizar os músculos para realizar as tarefas do dia a dia.

Treinar força depois de um problema cardiovascular?

Esta é uma questão que merece alguma atenção.

Existe ainda a ideia de que uma pessoa com doença cardiovascular deve evitar esforços de força.

Na realidade, quando existe indicação para exercício, o treino de resistência pode fazer parte de programas de reabilitação cardiovascular adequadamente supervisionados.

Naturalmente, isto não significa que qualquer pessoa com uma doença cardíaca possa começar imediatamente a levantar cargas elevadas.

A intensidade, o volume, a frequência e o tipo de exercício devem ser ajustados à condição clínica e à capacidade física da pessoa.

Em algumas situações, começar com exercícios muito simples, como sentar e levantar de uma cadeira, pode ser mais adequado do que utilizar imediatamente máquinas ou pesos.

O exercício inicial não precisa de ser o exercício final.

O teste de caminhada de seis minutos diz-nos algo importante

Um dos resultados desta revisão que considero particularmente fácil de compreender é a melhoria da distância percorrida no teste de caminhada de seis minutos.

Este teste não pretende avaliar se alguém consegue correr depressa.

A pergunta é muito mais funcional: quanto consegue caminhar uma pessoa durante seis minutos?

Uma melhoria nesta capacidade pode representar uma alteração relevante para alguém que tinha dificuldade em realizar determinadas atividades quotidianas.

É uma boa lembrança de que o sucesso do exercício nem sempre deve ser medido pelo peso levantado ou pelo número de repetições.

Às vezes, conseguir caminhar mais alguns metros sem parar é uma grande conquista.

O exercício reduziu o risco de morte?

Aqui é importante travar o entusiasmo.

A revisão não encontrou um benefício claro na mortalidade por todas as causas.

Também não foi possível demonstrar de forma consistente benefícios em todas as medidas de capacidade funcional ou nas atividades da vida diária.

Por isso, não seria correto afirmar que estes programas de reabilitação reduzem comprovadamente o risco de morte.

Os resultados são mais modestos e, ao mesmo tempo, muito interessantes: existem sinais de que intervenções direcionadas para a fragilidade podem melhorar determinadas componentes da capacidade física.

A importância de recuperar função e não apenas tratar a doença

Na minha perspetiva, este é um dos pontos mais importantes do estudo.

Quando uma pessoa tem uma doença cardiovascular, é natural que a atenção esteja centrada no diagnóstico, nos medicamentos, nos exames e nos fatores de risco.

Tudo isso é fundamental.

Mas existe outra pergunta que não devemos esquecer:

“O que é que esta pessoa consegue fazer no seu dia a dia?”

Consegue levantar-se da cadeira?

Consegue caminhar durante 20 ou 30 minutos?

Consegue subir um lance de escadas?

Consegue transportar uma pequena carga?

Consegue sair de casa sem receio de perder o equilíbrio?

Estas capacidades representam a autonomia da pessoa.

Nem todo o exercício tem de ser intenso

Quando falamos de exercício cardiovascular, algumas pessoas imaginam imediatamente correr, pedalar rapidamente ou realizar sessões muito exigentes.

Para uma pessoa frágil com doença cardiovascular, esse pode não ser o ponto de partida adequado.

O treino pode começar com movimentos simples e progressivos.

Podemos trabalhar a capacidade de levantar e sentar, caminhar durante pequenos períodos, realizar exercícios de força com cargas leves ou moderadas e desenvolver progressivamente o equilíbrio.

À medida que a capacidade aumenta, o estímulo pode ser aumentado.

Esta progressão é particularmente importante porque o objetivo não é apenas completar uma sessão.

O objetivo é criar uma capacidade que permaneça depois da sessão.

Fragilidade não significa incapacidade permanente

Este é talvez o conceito que mais gostaria que uma pessoa retirasse deste artigo.

Ser frágil não significa necessariamente que a pessoa tenha de permanecer inativa.

A fragilidade é um estado que pode, em determinadas circunstâncias, ser parcialmente modificado através de intervenções adequadas.

A força pode melhorar.

A capacidade de caminhar pode melhorar.

O equilíbrio pode melhorar.

A confiança no movimento pode melhorar.

É claro que existem doenças e limitações que não podem ser simplesmente ultrapassadas através do exercício.

Mas reduzir ainda mais a atividade física por medo pode, em algumas situações, contribuir para uma perda adicional de capacidade.

O que retiro deste estudo?

Esta revisão sistemática reforça uma ideia que considero muito importante no trabalho com adultos mais velhos: o objetivo do exercício não deve ser apenas melhorar parâmetros físicos, mas preservar a autonomia.

Em pessoas com doença cardiovascular e fragilidade, os resultados disponíveis sugerem que intervenções de reabilitação direcionadas podem melhorar algumas medidas de capacidade funcional, incluindo força dos membros inferiores e desempenho na caminhada.

Contudo, a evidência ainda apresenta limitações importantes e foi classificada pelos autores como de certeza muito baixa.

Por isso, não devemos fazer promessas exageradas.

Devemos fazer aquilo que a ciência permite neste momento: utilizar o exercício como uma ferramenta potencialmente importante, mas de forma individualizada, progressiva e integrada no acompanhamento clínico da pessoa.

Envelhecer com uma doença cardiovascular não significa deixar de treinar. Muitas vezes, significa aprender a treinar de uma forma mais inteligente, mais segura e mais adaptada à capacidade que temos naquele momento.

Posso ajudar?

Ajudo pessoas acima dos 40 anos a recuperar força, mobilidade, equilíbrio e autonomia através de treino individualizado, progressivo e adaptado à sua condição.

Referências

  • Wang X, Yu J, Zhou W, Si H, Li M, Chen H, Yang X, Wang C. Frailty-targeted cardiovascular rehabilitation and management in older adults with cardiovascular disease and frailty: a systematic review and meta-analysis. Ageing Research Reviews. 2026;123:103383.
  • PubMed – PMID 42772577
  • DOI – 10.1016/j.arr.2026.103383

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