Ter um gato pode afetar a saúde mental das crianças? O que diz o estudo mais recente

Ter um gato pode afetar a saúde mental das crianças? O que diz o estudo mais recente September 11, 2026Leave a comment

Ter um animal de estimação durante a infância é frequentemente associado a benefícios emocionais, sociais e até físicos. Cuidar de um animal pode ensinar responsabilidade, criar uma relação afectiva e proporcionar companhia.

Mas será que todos os animais têm exactamente o mesmo impacto?

Um estudo realizado no âmbito do projecto INMA — Infancia y Medio Ambiente, em Espanha, encontrou uma associação inesperada: crianças que tinham um gato apenas aos 4–5 anos apresentaram mais problemas emocionais e comportamentais aos 7–8 anos.

O trabalho analisou 1.893 famílias e foi publicado em 2025. Os resultados chamaram a atenção porque não foram observados da mesma forma relativamente aos cães ou às aves.

No entanto, existe uma questão fundamental:

O estudo não demonstra que ter um gato provoque problemas de saúde mental.

Esta distinção é essencial para interpretar correctamente os resultados.

O que foi estudado?

Os investigadores acompanharam crianças participantes no projecto INMA e recolheram informação sobre a presença de animais de estimação quando as crianças tinham aproximadamente 1 ano e 4–5 anos.

Posteriormente, quando tinham 7–8 anos, os investigadores avaliaram problemas emocionais e comportamentais através do Strengths and Difficulties Questionnaire (SDQ).

O questionário permite avaliar diferentes dimensões do comportamento infantil.

Entre elas encontram-se problemas chamados internalizantes, relacionados com aspectos como sintomas emocionais, preocupação ou dificuldades com os pares, e problemas externalizantes, que incluem comportamentos, hiperactividade e dificuldades de atenção.

Os investigadores analisaram diferentes tipos de animais:

  • cães;
  • gatos;
  • aves;
  • e outros animais, como coelhos, hamsters, peixes ou tartarugas.

Esta distinção foi importante porque os resultados não foram iguais para todos.

O que aconteceu com as crianças que tinham gatos?

O resultado mais surpreendente apareceu nas crianças que tinham um gato apenas aos 4–5 anos.

Neste grupo, os investigadores encontraram maior frequência de problemas internalizantes e externalizantes aos 7–8 anos.

Para os problemas internalizantes, o risco relativo foi de 1,37, enquanto para os problemas externalizantes foi de 1,26.

Isto significa que existia uma associação estatística entre ter um gato nesse período específico da infância e apresentar mais dificuldades posteriormente.

Mas atenção:

1,37 não significa que 37% das crianças tenham desenvolvido problemas de saúde mental.

Trata-se de uma medida relativa da associação observada entre os grupos.

Além disso, a existência de uma associação estatística não prova que o gato tenha provocado os problemas.

E os cães?

Uma das características interessantes do estudo foi o facto de os resultados encontrados nos gatos não terem sido observados da mesma forma nos cães.

Não foi encontrada uma associação estatisticamente significativa entre ter um cão e os problemas de saúde mental avaliados aos 7–8 anos.

Isto é importante porque impede uma conclusão simplista do género:

“Ter animais de estimação faz mal às crianças.”

Os dados não mostram isso.

Pelo contrário, os resultados sugerem que diferentes animais podem estar associados a diferentes experiências familiares e comportamentais.

E outros animais?

Também apareceu um resultado interessante relativamente aos animais menos comuns.

As crianças que tinham outros animais de estimação de forma consistente, tanto aos 1 como aos 4–5 anos, apresentaram menos problemas internalizantes aos 7–8 anos.

O risco relativo foi de 0,80, sugerindo uma associação protectora de aproximadamente 20% para este tipo de problemas.

Mais uma vez, não devemos interpretar isto como prova de que coelhos, peixes ou tartarugas previnem ansiedade ou outros problemas emocionais.

O resultado é uma associação observada numa população específica.

Então, os gatos podem prejudicar a saúde mental?

Não podemos concluir isso.

É precisamente aqui que uma notícia científica pode facilmente transformar um resultado interessante numa conclusão exagerada.

O estudo é observacional.

Os investigadores observaram o que acontecia naturalmente nas famílias, em vez de atribuírem aleatoriamente gatos a determinadas crianças e compararem os resultados.

Por isso, existem muitas diferenças entre as famílias que podem ajudar a explicar os resultados.

Por exemplo, uma família que decide adoptar um gato quando a criança tem 4 anos pode ser diferente de outra família que nunca teve animais.

Pode existir uma diferença no contexto familiar, no número de irmãos, nas condições económicas, no espaço disponível em casa, no tempo dos pais, nas características da criança ou em muitos outros factores.

Mesmo quando os investigadores tentam controlar estatisticamente várias dessas características, nunca é possível eliminar completamente todas as possíveis variáveis de confusão.

Uma hipótese importante: causalidade inversa

Existe outra possibilidade especialmente interessante.

Talvez algumas famílias com crianças que já apresentavam determinadas características emocionais ou comportamentais fossem mais propensas a adoptar um gato.

Neste caso, a sequência poderia ser:

características da criança → decisão da família de ter um gato

e não:

gato → problemas emocionais da criança.

Esta possibilidade é conhecida como causalidade inversa.

O próprio contexto familiar também pode desempenhar um papel.

Um gato pode ser escolhido porque exige, em alguns aspectos, menos cuidados diários do que um cão.

Uma família com pouco tempo disponível pode preferir um animal que não necessite de passeios regulares.

Por isso, o tipo de animal escolhido pode funcionar parcialmente como um indicador das características da própria família.

Porque é que os investigadores consideraram os gatos diferentes?

Os autores apresentam várias hipóteses possíveis.

Uma delas está relacionada com a qualidade da ligação emocional entre a criança e o animal.

Os animais de estimação podem funcionar como fontes de companhia, conforto e segurança emocional.

A relação pode também proporcionar oportunidades para desenvolver empatia, responsabilidade e competências sociais.

No entanto, diferentes espécies apresentam comportamentos muito diferentes.

Um cão tende a procurar mais frequentemente interacção social com os humanos, enquanto os gatos podem apresentar comportamentos mais independentes.

Isto pode influenciar a natureza da relação estabelecida pela criança.

Mas esta é apenas uma hipótese.

O estudo não demonstra que uma menor interacção emocional com gatos seja responsável pelos resultados encontrados.

Outros estudos mostram resultados diferentes

É importante não analisar este estudo isoladamente.

A investigação sobre animais de estimação e saúde mental infantil apresenta resultados bastante variados.

Por exemplo, um estudo longitudinal australiano encontrou associação entre ter animais de estimação e menos sintomas emocionais e problemas com os pares, além de melhores indicadores de comportamento pró-social. A posse de cães também esteve associada a menor probabilidade de resultados anormais nas diferentes escalas analisadas.

Outro estudo acompanhou crianças desde a infância até à adolescência e encontrou que a exposição a animais de estimação com os quais existia uma forte ligação estava associada a menor risco de alguns problemas de saúde mental.

Isto demonstra que não existe uma resposta simples à pergunta:

“Os animais fazem bem ou mal à saúde mental das crianças?”

Provavelmente depende de vários factores.

A relação com o animal pode ser mais importante do que a espécie

Uma criança pode viver com um cão durante dez anos e praticamente não interagir com ele.

Outra pode desenvolver uma ligação muito forte com um gato.

Outra pode criar uma relação próxima com um coelho.

Por isso, simplesmente contar o número de animais existentes numa casa pode não ser suficiente para compreender os efeitos psicológicos.

Podem ser importantes:

  • a qualidade da relação;
  • o tempo passado com o animal;
  • a responsabilidade atribuída à criança;
  • o temperamento do animal;
  • a idade da criança;
  • o contexto familiar;
  • e a forma como os pais integram o animal na vida familiar.

Animais de estimação e desenvolvimento infantil

Apesar das limitações, existe uma base plausível para acreditar que os animais podem influenciar o desenvolvimento infantil.

Uma criança que ajuda a cuidar de um animal pode aprender conceitos como:

responsabilidade → rotina → empatia → cuidado → respeito pelos outros.

A interacção com animais também pode estimular actividade física e brincadeira.

Um cão, por exemplo, pode incentivar a criança a passar mais tempo ao ar livre e a caminhar.

Os animais podem ainda proporcionar companhia e uma fonte adicional de afecto.

Mas estes potenciais benefícios não significam que qualquer animal produza automaticamente benefícios psicológicos.

A relação entre criança e animal é muito mais complexa.

E a actividade física?

No caso dos cães, existe uma diferença particularmente interessante.

Ter um cão pode aumentar as oportunidades para caminhar, brincar e passar tempo ao ar livre.

Isso pode criar uma ligação indirecta entre animal de estimação, actividade física e saúde mental.

A actividade física regular durante a infância está associada a múltiplos benefícios para a saúde física e psicológica.

No entanto, o estudo do projecto INMA não demonstra que esta seja a razão pela qual os resultados relativos aos cães foram diferentes dos gatos.

É apenas uma possível explicação para futuras investigações.

Não devemos escolher um animal apenas por razões de saúde mental

Os resultados deste estudo não justificam recomendar ou evitar gatos com base exclusivamente na saúde mental das crianças.

Escolher um animal de estimação deve envolver outras questões:

  • condições da habitação;
  • disponibilidade dos adultos;
  • idade da criança;
  • capacidade de cuidar do animal;
  • custos;
  • tempo disponível;
  • alergias;
  • segurança;
  • características comportamentais do animal;
  • e compromisso a longo prazo.

Um animal de estimação não deve ser utilizado como tratamento para problemas psicológicos infantis.

Se uma criança apresenta ansiedade persistente, tristeza, dificuldades de comportamento, problemas escolares ou alterações significativas na relação com outras pessoas, deve ser procurada uma avaliação adequada.

O que podemos aprender com este estudo?

Talvez a principal mensagem seja que a relação entre crianças e animais de estimação é mais complexa do que parece.

Não é correcto afirmar que:

“animais fazem bem às crianças”.

Também não é correcto concluir:

“gatos fazem mal à saúde mental infantil”.

A ciência disponível é muito mais interessante do que estas duas frases.

O estudo publicado em 2025 sugere que o momento em que o animal entra na vida da criança e o tipo de animal podem estar associados a diferentes resultados.

Mas também levanta a possibilidade de existirem factores familiares e individuais que expliquem parte dessas associações.

O que seria necessário investigar no futuro?

Seriam particularmente úteis estudos que acompanhassem crianças desde antes da aquisição do animal e avaliassem:

  • saúde mental antes e depois;
  • ligação emocional com o animal;
  • quantidade de tempo de interacção;
  • actividade física;
  • contexto familiar;
  • características comportamentais da criança;
  • e mudanças ao longo da adolescência.

Também seria interessante perceber se diferentes raças, temperamentos e níveis de interacção produzem resultados diferentes.

Outra questão importante é saber se os efeitos observados aos 7–8 anos permanecem durante a adolescência.

A infância é uma fase de desenvolvimento muito dinâmica.

Um resultado observado numa determinada idade não permite prever automaticamente o que acontecerá dez anos depois.

Conclusão

Um estudo realizado no âmbito do projecto INMA e publicado em 2025 encontrou uma associação entre ter um gato apenas aos 4–5 anos e apresentar mais problemas internalizantes e externalizantes aos 7–8 anos. Foram analisadas 1.893 famílias.

No entanto, este resultado não demonstra que os gatos causem problemas de saúde mental.

Não foram observadas as mesmas associações para os cães e, entre as crianças que mantiveram outros animais de estimação, foi encontrada uma associação com menos problemas internalizantes.

Além disso, outros estudos encontraram resultados favoráveis relativamente à relação entre animais de estimação e desenvolvimento socioemocional infantil.

Por isso, a conclusão mais equilibrada é que o impacto dos animais de estimação na saúde mental das crianças provavelmente depende do tipo de animal, da idade, da relação estabelecida e do contexto familiar.

Um gato não deve ser considerado prejudicial para uma criança com base neste estudo.

Mais importante do que escolher um animal por supostos benefícios psicológicos é garantir que existe uma relação segura, afectuosa e responsável entre a criança, a família e o animal.

Posso ajudar

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Referências e links

Estudo principal — projecto INMA, publicado em 2025:
Impact of pet ownership in early childhood at ages 1 and 4–5 years on mental health at ages 7–8 — PubMed

Estudo longitudinal sobre animais de estimação e desenvolvimento socioemocional infantil:
Pets Are Associated with Fewer Peer Problems and Emotional Symptoms, and Better Prosocial Behavior — ScienceDirect

Estudo sobre exposição a cães e gatos e saúde mental durante a adolescência:
Impact of pet dog or cat exposure during childhood on mental illness during adolescence — PubMed

Notícia que motivou este artigo:
One Common Pet Is Linked to Worse Mental Health in Young Kids, Study Finds — ScienceAlert