Treino de força aumenta o apetite? O que diz um novo estudo em homens mais velhos

Treino de força aumenta o apetite? O que diz um novo estudo em homens mais velhos October 10, 2026Leave a comment

Uma das dúvidas que aparece com frequência quando alguém começa a fazer treino de força é bastante simples: será que treinar vai aumentar o apetite?

A pergunta faz sentido. O exercício aumenta o gasto energético e, intuitivamente, poderíamos pensar que o organismo vai responder aumentando a fome para compensar essa energia.

Mas a relação entre exercício, fome e ingestão alimentar parece ser mais complexa.

Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista Physiology & Behavior analisou precisamente esta questão em homens mais velhos. Os investigadores avaliaram o que acontecia ao apetite depois de 12 semanas de treino de força realizado duas vezes por semana.

O resultado principal foi interessante: o treino de força não provocou alterações estatisticamente significativas no apetite.

O que foi estudado?

O estudo foi uma análise secundária de um ensaio clínico randomizado e incluiu 33 homens mais velhos, com uma idade média de 67 anos.

Os participantes tinham um índice de massa corporal médio de 25,4 kg/m² e foram divididos entre um grupo que realizou treino de resistência e um grupo que manteve a sua atividade física habitual.

O grupo de exercício realizou duas sessões de treino de força por semana durante 12 semanas, utilizando uma intensidade correspondente a aproximadamente 80% de uma repetição máxima.

Para avaliar o apetite, os investigadores utilizaram escalas visuais que permitiam avaliar diferentes sensações relacionadas com a alimentação ao longo de 24 horas.

Foram analisados, entre outros aspetos, fome, saciedade, sensação de estar cheio e vontade de comer.

O treino de força aumentou a fome?

Não.

Depois das 12 semanas de intervenção, os investigadores não encontraram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos relativamente à fome.

Também não encontraram alterações significativas na saciedade, na sensação de plenitude, na quantidade de comida que os participantes antecipavam consumir ou numa medida global de apetite.

Quando os investigadores analisaram a resposta ao longo das 24 horas, chegaram à mesma conclusão.

Não houve uma alteração significativa na área sob a curva das diferentes medidas de apetite.

Ou seja, neste grupo específico de homens mais velhos, 12 semanas de treino de força não parecem ter provocado uma compensação alimentar evidente através do aumento do apetite.

Então porque é que algumas pessoas sentem mais fome quando começam a treinar?

Este estudo não significa que ninguém possa sentir mais fome depois de começar a fazer exercício.

A resposta individual pode variar bastante.

O gasto energético de uma pessoa, o tipo de treino, a duração das sessões, a intensidade, o nível de atividade física diária, o sono e a alimentação podem modificar a resposta.

Também é importante distinguir entre uma alteração real do apetite e uma maior oportunidade para comer.

Por exemplo, alguém que começa a treinar pode passar a fazer uma refeição adicional porque considera que “merece” comer depois do treino. Nesse caso, o aumento da ingestão alimentar pode não resultar necessariamente de uma alteração fisiológica da fome.

Da mesma forma, algumas pessoas podem terminar uma sessão de exercício com pouca vontade de comer e só sentir fome várias horas depois.

Treino de força e controlo do peso

Este resultado é particularmente interessante quando pensamos no treino de força como parte de uma estratégia para controlar o peso corporal.

Existe por vezes a ideia de que começar a treinar força pode dificultar o emagrecimento porque o aumento do apetite irá compensar automaticamente as calorias gastas.

O estudo não apoia essa conclusão, pelo menos nesta população e neste contexto.

Os participantes fizeram treino de resistência durante três meses sem apresentarem uma alteração significativa nas medidas de apetite avaliadas.

É importante, contudo, não transformar este resultado numa promessa de perda de peso.

O estudo analisou principalmente o apetite, não demonstrou que o treino de força provoque necessariamente perda de peso ou redução de gordura corporal.

Treino de força não serve apenas para gastar calorias

Na minha perspetiva, este é um ponto muito importante.

Quando falamos de exercício para controlar o peso, é fácil cair na ideia de que o principal objetivo é gastar o maior número possível de calorias.

Mas o treino de força tem uma função muito mais abrangente.

O objetivo pode ser preservar ou aumentar a força, manter massa muscular, melhorar a capacidade funcional e ajudar a pessoa a continuar fisicamente ativa.

Durante um processo de emagrecimento, preservar músculo torna-se especialmente importante.

Perder peso não significa necessariamente perder apenas gordura. Sem uma estratégia adequada, parte da perda de peso pode corresponder a massa magra.

Por isso, uma estratégia de emagrecimento bem construída não deveria olhar apenas para o número apresentado pela balança.

Deveria também considerar força, massa muscular, capacidade física e composição corporal.

O que acontece depois dos 60 anos?

À medida que envelhecemos, preservar a força muscular torna-se cada vez mais importante.

A perda de força pode dificultar tarefas aparentemente simples, como levantar-se de uma cadeira, subir escadas, transportar compras ou caminhar durante períodos prolongados.

É por isso que o treino de resistência aparece de forma consistente nas recomendações de atividade física para adultos mais velhos.

O objetivo não deve ser apenas aumentar o tamanho dos músculos.

É também preservar a capacidade de utilizar esses músculos.

Uma pessoa pode ter uma determinada quantidade de massa muscular e, ainda assim, apresentar pouca força ou dificuldade em utilizar essa força de forma eficiente.

O treino permite trabalhar precisamente essa capacidade.

Duas sessões por semana podem ser suficientes para começar

Outro aspeto interessante deste estudo é a frequência utilizada.

Os participantes realizaram treino de resistência duas vezes por semana.

Isto não significa que duas sessões sejam a quantidade ideal para todas as pessoas. O volume necessário depende dos objetivos, experiência, idade, condição física e capacidade de recuperação.

Mas demonstra que não é obrigatório treinar todos os dias para introduzir um estímulo relevante.

Para alguém que ainda não treina, duas sessões semanais podem representar uma excelente forma de começar.

Depois, o programa pode evoluir de acordo com a resposta individual.

E se o objetivo for emagrecer?

O treino de força pode fazer parte de um programa de emagrecimento, mas não deve ser analisado isoladamente.

A perda de gordura depende, em última análise, do balanço energético ao longo do tempo.

Contudo, isso não significa que devamos transformar todo o processo numa simples contagem de calorias.

A qualidade da alimentação, a quantidade de proteína, a atividade física diária, o sono, o stress e a capacidade de manter o comportamento durante meses e anos também são importantes.

O exercício pode ainda ajudar a pessoa a manter uma maior capacidade física enquanto reduz peso.

Por isso, quando acompanho alguém que pretende perder gordura, não penso apenas em “queimar calorias”. Penso também em manter força, músculo e capacidade funcional.

O estudo tem limitações

Como acontece com qualquer investigação, estes resultados precisam de ser interpretados dentro do contexto em que foram obtidos.

A amostra foi pequena, com apenas 33 homens, e todos eram adultos mais velhos.

Além disso, este trabalho foi uma análise secundária de um ensaio clínico, e o protocolo de treino foi específico.

Por isso, não podemos concluir que todos os tipos de exercício, em todas as pessoas, tenham exatamente o mesmo efeito sobre o apetite.

Também não podemos afirmar que o treino de força nunca aumenta a fome.

O que podemos dizer é mais específico: neste grupo de homens mais velhos, 12 semanas de treino de resistência duas vezes por semana não produziram alterações significativas nas medidas de apetite avaliadas.

O que retiro deste estudo?

Para mim, a principal mensagem é simples.

Não devemos evitar o treino de força por receio de que ele provoque automaticamente um aumento do apetite e dificulte o controlo do peso.

O treino de força tem benefícios que vão muito além do número de calorias gastas durante uma sessão.

Com o envelhecimento, preservar força e capacidade muscular pode ser fundamental para manter autonomia e qualidade de vida.

E se o objetivo for perder gordura, o treino de força pode ser integrado numa estratégia mais abrangente, sem assumir que irá necessariamente provocar um aumento compensatório da fome.

Treinar para emagrecer não deve significar apenas gastar calorias. Deve também significar preservar aquilo que queremos manter: força, músculo e capacidade para nos movimentarmos.

Posso ajudar?

Ajudo pessoas a partir dos 40 anos a desenvolver força e capacidade física através de programas individualizados, adaptados aos objetivos, limitações, experiência e condição física.

Referências

  • Griffen C, Renshaw D, Hattersley J, Weickert MO, Duncan M, Broom DR. Appetite Responses Over 24-h Before and After 12-Weeks of Resistance Exercise in Older Male Adults: Secondary data analysis of a randomised trial. Physiology & Behavior. 2026;115512.
  • PubMed – PMID 42801941
  • DOI – 10.1016/j.physbeh.2026.115512

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