O exercício físico pode influenciar o envelhecimento do organismo para além da força muscular, da capacidade cardiovascular e do controlo do peso. Um estudo publicado em 2026 na revista Nature Aging investigou a relação entre atividade física, envelhecimento dos ovários e adiponectina, uma hormona envolvida na regulação do metabolismo.
Os resultados sugerem que a atividade física poderá contribuir para preservar a função ovárica através de mecanismos biológicos específicos. Contudo, é importante distinguir os resultados observados em seres humanos daqueles demonstrados em experiências com animais.
O que investigaram os cientistas?
Os investigadores analisaram dados de 152 435 participantes do UK Biobank e utilizaram ainda informação de 12 418 participantes de outro estudo populacional norte-americano. Nas análises realizadas em seres humanos, observaram diferenças nos níveis de atividade física entre mulheres antes e depois da menopausa.
Estes resultados ajudam a compreender a relação entre atividade física e envelhecimento reprodutivo, mas não demonstram, por si só, que o exercício atrase a menopausa. Para investigar possíveis mecanismos biológicos, a equipa realizou também experiências com ratinhos.
Adiponectina: uma possível ligação entre exercício e saúde ovárica
A adiponectina é uma hormona produzida principalmente pelo tecido adiposo, com funções relacionadas com a sensibilidade à insulina e o metabolismo energético. Neste estudo, os investigadores identificaram também um papel relevante da sinalização da adiponectina nos ovários dos animais estudados.
Nos ratinhos, a atividade física aumentou os níveis de adiponectina no tecido ovárico. Quando os investigadores reduziram a disponibilidade desta hormona, parte dos efeitos protetores associados ao exercício diminuiu. Estes resultados sugerem que a adiponectina poderá participar nos mecanismos que ajudam a preservar a reserva ovárica.
É possível atrasar o envelhecimento dos ovários?
Nas experiências com animais, níveis mais elevados de atividade física estiveram associados a uma melhor preservação dos folículos ováricos. Os investigadores estudaram ainda o AdipoRon, uma substância experimental que ativa os recetores da adiponectina. Nos ratinhos, esta intervenção atrasou algumas alterações do envelhecimento ovárico e prolongou a vida reprodutiva.
Estes resultados são promissores para a investigação científica, mas não significam que o AdipoRon seja um tratamento disponível ou recomendado para mulheres. Também não permitem garantir que um determinado programa de exercício atrase a menopausa em seres humanos.
Como aplicar esta informação ao treino?
Na minha experiência, o treino deve ser pensado numa perspetiva de saúde a longo prazo. Para mulheres na meia-idade, a atividade física pode integrar treino de força, exercício aeróbio e trabalho de equilíbrio e mobilidade, ajustados à condição física, aos objetivos e à recuperação individual.
Não é necessário recorrer a sessões extenuantes para começar a beneficiar da atividade física. A regularidade, a progressão adequada e a capacidade de manter uma rotina ao longo do tempo são aspetos fundamentais. A escolha do treino deve considerar também o sono, o stress, as limitações físicas e as preferências individuais.
O estudo acrescenta conhecimento sobre os possíveis mecanismos biológicos que relacionam exercício e envelhecimento reprodutivo. Ainda assim, são necessários mais estudos em seres humanos para determinar se estas descobertas se traduzem efetivamente num atraso da menopausa ou numa melhoria da saúde reprodutiva. A atividade física continua a ser uma ferramenta importante para a saúde geral, mas não deve ser apresentada como um tratamento comprovado para travar o envelhecimento dos ovários.
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Referências científicas
- Li B, Zheng N, Luo T, et al. Physical activity delays ovarian aging in part through adiponectin-related signaling pathways. Nature Aging. 2026;6:1886–1900. Consultar estudo científico.
- Nature Aging. Exercise slows ovarian aging. Resumo científico do estudo. Ler resumo.
- UK Biobank. Informação e resumo da investigação sobre atividade física e envelhecimento dos ovários. Consultar publicação.
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