A aterosclerose pode começar muito antes dos sintomas: 1 em cada 3 homens aos 30 anos já apresenta placas nas artérias

A aterosclerose pode começar muito antes dos sintomas: 1 em cada 3 homens aos 30 anos já apresenta placas nas artérias September 3, 2026Leave a comment

A aterosclerose é frequentemente associada à idade avançada, ao colesterol elevado ou às doenças cardiovasculares. No entanto, uma das maiores investigações recentes sobre o tema mostra que este processo pode começar muito mais cedo do que muitas pessoas imaginam.

Um estudo publicado em 29 de agosto de 2026 no New England Journal of Medicine encontrou sinais de aterosclerose em mais de metade dos adultos avaliados, incluindo pessoas muito jovens e sem diagnóstico prévio de doença cardiovascular.

O estudo faz parte do projeto REACT e analisou 16.808 adultos entre os 18 e os 70 anos, recrutados na Dinamarca e em Espanha.

Os investigadores procuraram diretamente placas de aterosclerose nas artérias, em vez de apenas estimarem o risco cardiovascular através de fatores como colesterol, pressão arterial, idade ou tabagismo.

Os resultados são particularmente relevantes para a prevenção das doenças cardiovasculares.

O que é a aterosclerose?

A aterosclerose é um processo em que placas de gordura, colesterol, células e outros componentes se acumulam na parede das artérias.

Com o passar do tempo, estas placas podem aumentar, alterar a estrutura da artéria e, em determinadas situações, contribuir para a redução do fluxo sanguíneo.

O problema é que a aterosclerose pode desenvolver-se durante muitos anos sem provocar sintomas.

Uma pessoa pode sentir-se perfeitamente saudável enquanto o processo já está presente nas suas artérias.

Em determinadas circunstâncias, uma placa pode romper-se e desencadear a formação de um coágulo. Se isso acontecer numa artéria que fornece sangue ao coração ou ao cérebro, pode ocorrer um enfarte do miocárdio ou um acidente vascular cerebral (AVC).

É precisamente esta fase silenciosa que o novo estudo procurou caracterizar.

O estudo que analisou milhares de pessoas

O estudo REACT incluiu 16.808 adultos dos 18 aos 70 anos, sem doença cardiovascular aterosclerótica conhecida.

Os participantes foram avaliados através de diferentes técnicas de imagem.

Os investigadores utilizaram ecografia vascular tridimensional para observar as artérias carótidas, localizadas no pescoço, e as artérias femorais, nas pernas.

Também utilizaram angiografia por tomografia computorizada (TC) para analisar as artérias coronárias, que fornecem sangue ao coração.

Desta forma, os investigadores conseguiram procurar diretamente sinais de aterosclerose em três territórios arteriais importantes.

É uma abordagem diferente daquela que simplesmente calcula o risco cardiovascular através de uma fórmula.

A aterosclerose já aparece nos jovens

Uma das conclusões mais importantes foi a presença de aterosclerose mesmo entre os adultos mais jovens.

Entre os participantes dos 18 aos 29 anos, foram identificadas placas em:

  • 8,7% dos homens
  • 6,7% das mulheres

Ou seja, aproximadamente 1 em cada 13 jovens adultos apresentava aterosclerose detetável nas artérias analisadas.

A prevalência aumentou progressivamente com a idade.

Nos homens entre os 30 e os 39 anos, a proporção chegou a cerca de 34,6%.

Isto significa que aproximadamente 1 em cada 3 homens na casa dos 30 anos apresentava placas de aterosclerose detetáveis.

Nas mulheres da mesma faixa etária, a prevalência foi de aproximadamente 21,3%.

Estes números não significam que todos estes indivíduos irão desenvolver um enfarte ou AVC.

Significam que o processo aterosclerótico já pode estar presente muito antes de aparecer uma doença cardiovascular clinicamente evidente.

Aos 60-70 anos, a situação é muito diferente

À medida que a idade aumentou, a presença de aterosclerose tornou-se cada vez mais frequente.

Entre os participantes dos 60 aos 70 anos, aproximadamente 9 em cada 10 pessoas apresentavam sinais de aterosclerose.

A prevalência atingiu níveis particularmente elevados nos homens.

Apenas 1,9% dos homens desta faixa etária não apresentavam placas detetáveis nos territórios avaliados, enquanto nas mulheres essa proporção era de 8,1%.

Mas o envelhecimento não esteve associado apenas a mais pessoas com aterosclerose.

Também esteve associado a mais quantidade de placa e maior número de territórios arteriais afetados.

A doença torna-se mais extensa com a idade

Nos participantes mais jovens, quando existia aterosclerose, esta estava frequentemente limitada a apenas uma região arterial.

Com o aumento da idade, tornou-se mais comum encontrar placas em várias artérias simultaneamente.

Entre os participantes dos 30 anos, placas em dois ou três dos territórios estudados estavam presentes em cerca de 6% dos homens e 2,6% das mulheres.

Nos 60-70 anos, a presença de placas nos três territórios atingiu 56,3% dos homens e 30,7% das mulheres.

Além disso, o volume das placas aumentou de forma marcada com a idade.

Isto sugere que a aterosclerose não aparece simplesmente num determinado momento da vida. Pode começar cedo e tornar-se progressivamente mais extensa.

Os homens parecem desenvolver aterosclerose mais cedo

Outra observação importante foi a diferença entre homens e mulheres.

Nos homens, a presença de aterosclerose aumentou mais cedo.

Os investigadores estimaram que os homens apresentavam uma espécie de avanço de aproximadamente 5 a 10 anos relativamente às mulheres na trajetória observada.

Nas mulheres, o aumento da prevalência tornou-se particularmente acentuado durante a meia-idade.

Esta diferença poderá estar relacionada com múltiplos fatores biológicos e hormonais, mas o estudo não permite reduzir a explicação a um único mecanismo.

O colesterol não conta toda a história

Uma das mensagens mais interessantes desta investigação é que avaliar apenas o risco cardiovascular tradicional pode não revelar toda a realidade.

Atualmente, a prevenção cardiovascular utiliza fatores como:

  • idade;
  • colesterol;
  • pressão arterial;
  • tabagismo;
  • diabetes;
  • outros fatores de risco.

Estes dados são extremamente importantes.

Mas eles são utilizados para estimar a probabilidade de desenvolver um evento cardiovascular.

O estudo REACT procurou responder a uma pergunta diferente:

A doença já está presente nas artérias?

E aqui surgiu uma diferença significativa.

Quando os investigadores compararam a presença de aterosclerose com o sistema de avaliação de risco SCORE2, verificaram que muitos participantes com placas não eram classificados como tendo um risco cardiovascular elevado.

Entre os participantes dos 40 aos 69 anos, o limiar de alto risco do SCORE2 identificou apenas cerca de 1,9% das pessoas que apresentavam aterosclerose silenciosa.

Isto não significa que o SCORE2 seja inútil.

Significa que estimativa de risco e presença de doença não são exatamente a mesma coisa.

Devemos fazer exames para procurar aterosclerose?

Não necessariamente.

Este é um ponto fundamental.

O estudo mostra que a aterosclerose silenciosa é muito comum, mas não demonstra que todas as pessoas devam realizar exames de imagem para procurar placas nas artérias.

A investigação foi desenhada para estudar a prevalência e distribuição da aterosclerose, e não para provar que fazer exames de imagem a pessoas saudáveis e tratar os resultados melhora a sobrevivência.

A própria equipa do REACT pretende estudar posteriormente se uma estratégia de prevenção orientada pela identificação direta da aterosclerose consegue melhorar os resultados cardiovasculares.

Portanto, ainda não podemos recomendar exames de imagem generalizados apenas com base neste estudo.

O que podemos fazer para prevenir a aterosclerose?

A grande vantagem da descoberta precoce da aterosclerose é que muitos dos fatores que contribuem para a sua progressão são modificáveis.

Não podemos alterar a idade ou a genética.

Mas podemos atuar sobre vários fatores relacionados com o risco cardiovascular.

A atividade física regular é uma das estratégias mais importantes.

O exercício contribui para melhorar a capacidade cardiovascular, pressão arterial, sensibilidade à insulina, composição corporal e perfil metabólico.

O treino de força também tem um papel relevante, especialmente com o avançar da idade, porque ajuda a preservar massa muscular, força e autonomia.

A alimentação é igualmente importante.

Uma alimentação baseada predominantemente em vegetais, fruta, leguminosas, cereais integrais, frutos secos, peixe e outras fontes nutricionalmente adequadas pode contribuir para um melhor perfil cardiovascular.

Também é importante controlar fatores como pressão arterial, colesterol LDL, glicemia, peso corporal e tabagismo.

E se tenho colesterol elevado?

A presença de colesterol elevado não significa automaticamente que exista uma determinada quantidade de placas nas artérias.

Da mesma forma, ter um valor de colesterol aparentemente adequado não garante que não exista aterosclerose.

O risco cardiovascular deve ser avaliado de forma individualizada, considerando o conjunto dos fatores de risco e, quando indicado, outros exames.

Por isso, não devemos interpretar este estudo como uma razão para todas as pessoas fazerem uma TC coronária.

A mensagem mais importante é que a prevenção cardiovascular deve começar antes do aparecimento dos sintomas.

A prevenção deve começar cedo

Talvez esta seja a maior mensagem deste estudo.

Se a aterosclerose já pode ser detetada em pessoas na casa dos 20 e 30 anos, esperar até à velhice para começar a cuidar da saúde cardiovascular pode significar perder décadas de oportunidade preventiva.

Não significa que um jovem de 25 anos deva viver preocupado com aterosclerose.

Significa que hábitos como exercício regular, alimentação adequada, não fumar, dormir bem e controlar fatores de risco devem ser encarados como investimentos de longo prazo.

A prevenção não começa quando aparece o primeiro enfarte.

Começa muito antes.

Conclusão

O estudo REACT, publicado em 29 de agosto de 2026 no New England Journal of Medicine, mostra que a aterosclerose silenciosa pode estar presente muito antes dos sintomas cardiovasculares.

Entre os 18 e os 29 anos, cerca de 1 em cada 13 adultos já apresentava placas nas artérias examinadas.

Nos homens na casa dos 30 anos, a prevalência chegou a 34,6%, enquanto nas mulheres foi de 21,3%.

Entre os 60 e os 70 anos, cerca de 9 em cada 10 participantes apresentavam aterosclerose detetável.

O estudo não significa que todas estas pessoas estejam destinadas a sofrer um enfarte ou AVC.

Significa algo talvez ainda mais importante: a doença cardiovascular pode começar décadas antes de se manifestar clinicamente.

Por isso, exercício físico, alimentação adequada, controlo da pressão arterial, colesterol, glicemia, peso corporal e abandono do tabaco continuam a ser ferramentas fundamentais para proteger as artérias ao longo da vida.

Posso ajudar

Ajudo-o a melhorar a saúde cardiovascular através de exercício personalizado, treino de força e estratégias adaptadas à idade, condição física e objetivos.

Links e fontes científicas

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2609059

Estudo original — New England Journal of Medicine
Prevalence of Silent Atherosclerosis across Adult Life
Publicado em 29 de agosto de 2026.

https://doi.org/10.1056/NEJMoa2609059

DOI oficial do estudo

https://clinicaltrials.gov/study/NCT06692127

REACT — registo do estudo clínico