A biomecânica pode ajudar a compreender o joelho, mas não explica, por si só, a dor. Esta distinção é importante quando avaliamos uma pessoa que sente dor ao agachar, correr, subir escadas ou treinar.
Durante muitos anos, algumas explicações sobre a dor no joelho foram apresentadas de forma demasiado simples. Um joelho entra mais para dentro, o pé roda, o quadril aduz, existe determinada carga sobre a articulação e, a partir daí, conclui-se que essa alteração mecânica é a causa da dor.
O problema é que a relação entre movimento, carga e dor é bastante mais complexa.
A investigação mais recente reforça precisamente esta ideia. Existem diferenças biomecânicas associadas a determinadas condições do joelho, incluindo a dor femoropatelar. No entanto, encontrar uma associação entre uma determinada forma de movimento e a presença de dor não significa demonstrar que esse movimento seja a causa da dor.
O que é, afinal, a biomecânica?
A biomecânica estuda a forma como o corpo se movimenta e como as forças são produzidas, transmitidas e distribuídas durante o movimento.
No caso do joelho, podemos observar variáveis como a flexão e extensão, a rotação, a posição da anca e do pé, a velocidade do movimento, a força muscular, a carga externa e as forças que atuam sobre diferentes estruturas.
Esta informação é extremamente útil.
Permite-nos compreender como uma pessoa executa um agachamento, uma corrida, um salto ou uma subida de escadas. Permite também perceber como diferentes segmentos do corpo participam no movimento.
Mas existe uma diferença fundamental entre descrever um movimento e explicar uma dor.
São duas perguntas diferentes.
Um movimento diferente não significa necessariamente um movimento lesivo
Imagine duas pessoas a fazerem um agachamento.
Uma mantém o joelho praticamente alinhado com o pé. A outra apresenta uma maior aproximação do joelho à linha média do corpo.
Seria tentador concluir imediatamente que a segunda pessoa está a executar o movimento de forma incorreta.
Mas essa conclusão não é obrigatoriamente válida.
As pessoas têm diferentes estruturas corporais, diferentes amplitudes de movimento, diferentes níveis de força, diferentes experiências motoras e diferentes estratégias para realizar a mesma tarefa.
Uma determinada estratégia pode ser perfeitamente tolerada por uma pessoa e menos tolerada por outra.
Por isso, observar uma diferença de movimento não nos permite automaticamente dizer que encontrámos a causa da dor.
Associação não é causalidade
Este é provavelmente um dos conceitos mais importantes quando falamos de biomecânica e dor no joelho.
Um estudo pode encontrar uma associação entre determinada característica biomecânica e pessoas com dor femoropatelar. Isso significa que as duas coisas aparecem relacionadas naquele grupo.
Mas não significa necessariamente que a alteração biomecânica tenha provocado a dor.
Pode existir uma relação causal. Pode ser uma consequência da dor. Pode resultar de uma adaptação ao movimento. Pode ainda ser apenas uma das várias características presentes numa pessoa com dor.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 sobre a biomecânica do pé e tornozelo em pessoas com dor femoropatelar encontrou algumas diferenças entre pessoas com e sem dor, incluindo maior queda do navicular. No entanto, os autores salientam que grande parte da evidência disponível é limitada e que os estudos predominantemente transversais não permitem estabelecer causalidade.
E o famoso valgo dinâmico?
O chamado valgo dinâmico é frequentemente utilizado para explicar dores no joelho.
Durante determinados movimentos, como um agachamento unilateral, um step-down ou um salto, podemos observar uma combinação de movimentos da anca, joelho e pé que faz com que o joelho pareça deslocar-se para dentro.
É uma variável interessante para observar.
Mas transformar essa observação numa regra — “o joelho entrou para dentro, por isso está a causar dor” — é uma simplificação excessiva.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em agosto de 2026 encontrou diferenças biomecânicas entre homens e mulheres com dor femoropatelar durante determinadas tarefas. Nas mulheres, por exemplo, foram observados maiores valores de adução da anca e abdução do joelho durante o agachamento unipodal. No entanto, a própria revisão incluiu apenas cinco estudos, com 170 participantes, e vários resultados baseavam-se em estudos individuais.
Isto é importante porque demonstra que as diferenças biomecânicas existem, mas não nos autoriza a transformar cada diferença numa explicação individual da dor.
A dor é uma experiência do organismo, não apenas da articulação
A dor também não deve ser entendida simplesmente como um medidor direto de dano mecânico.
Duas pessoas podem apresentar alterações semelhantes numa imagem ou realizar um movimento semelhante e ter experiências completamente diferentes.
Além da carga mecânica, entram em jogo fatores como a capacidade física, o historial de atividade, a exposição recente ao exercício, o sono, o stress, experiências anteriores de dor, expectativas e contexto.
Isto não significa que “a dor esteja na cabeça”.
Significa que a dor é produzida pelo sistema nervoso a partir da informação disponível naquele momento e não funciona como uma escala mecânica perfeitamente proporcional ao grau de carga aplicada a uma estrutura.
O joelho pode tolerar carga
Esta ideia é particularmente importante para quem treina.
O joelho não é uma estrutura frágil que tenha de ser protegida de todas as forças.
Ao caminhar, subir escadas, correr, saltar ou fazer agachamentos, o joelho recebe carga. A capacidade de tolerar essa carga depende, entre outras coisas, da força, da exposição anterior, da recuperação e da progressão do treino.
Uma determinada carga pode ser perfeitamente tolerável hoje e tornar-se excessiva depois de uma alteração brusca no volume de treino.
Por exemplo, uma pessoa pode estar habituada a correr duas vezes por semana e, de repente, passar para cinco sessões. A biomecânica pode não ter mudado de forma significativa, mas a exposição total à carga mudou.
É por isso que, quando avalio um joelho com dor, não quero saber apenas “como se move?”.
Quero também saber:
- Quanto treino esta pessoa faz?
- O que mudou recentemente?
- Que movimentos provocam sintomas?
- Qual é a intensidade da dor?
- Quanto tempo demora a desaparecer?
- Como responde o joelho nas horas seguintes?
- Qual é a capacidade de força da pessoa?
- Que exercícios consegue realizar sem agravamento significativo?
Então devemos deixar de olhar para a biomecânica?
Não.
Na minha opinião, seria um erro passar de um extremo para o outro.
A biomecânica continua a ser uma ferramenta muito interessante para observar o movimento, compreender estratégias e escolher determinadas formas de progressão ou regressão do exercício.
O que devemos evitar é tratá-la como um diagnóstico automático.
Se uma pessoa apresenta uma determinada estratégia de movimento mas consegue treinar, progredir e recuperar sem sintomas relevantes, não vejo necessariamente uma razão para tentar corrigir essa estratégia apenas porque ela não corresponde ao movimento considerado ideal.
Por outro lado, se determinado movimento reproduz consistentemente os sintomas, podemos experimentar modificar a amplitude, a velocidade, a carga, o volume ou a própria tarefa e observar a resposta.
A biomecânica passa então a ser uma ferramenta de experimentação.
Modificar o movimento pode ser útil
Existe uma diferença importante entre dizer:
“Este movimento está errado.”
e dizer:
“Vamos experimentar outra estratégia e perceber se o joelho responde melhor.”
A segunda abordagem é muito mais interessante.
Permite utilizar a biomecânica sem transformar o movimento numa questão moral de certo ou errado.
Podemos reduzir temporariamente a profundidade de um agachamento, alterar a velocidade, diminuir a carga, modificar a amplitude de uma passada ou escolher outro exercício.
Depois observamos.
Se a pessoa melhora, temos informação útil.
Mais tarde, podemos voltar a aumentar gradualmente a exigência.
O objetivo não é encontrar o movimento perfeito
Esta é uma das ideias que considero mais importantes no treino de pessoas com dor.
Não procuro necessariamente o movimento biomecanicamente perfeito.
Procuro encontrar um movimento que a pessoa consiga realizar, que seja adequado ao objetivo, que produza um estímulo útil e que possa ser progressivamente desenvolvido.
Uma revisão abrangente publicada em 2026, que reuniu 116 revisões sistemáticas sobre exercício na osteoartrose do joelho, encontrou benefícios do exercício sobretudo na dor e função, enquanto os resultados especificamente relacionados com biomecânica foram muito menos consistentes e menos frequentemente avaliados. Os autores também salientaram que não existe um único tipo de exercício que possa ser considerado o mais eficaz para todas as pessoas com osteoartrose do joelho.
Para mim, esta informação é particularmente relevante.
O exercício pode mudar mais do que a biomecânica
Quando uma pessoa começa um programa de treino para um joelho com dor, podemos observar alterações na força, capacidade funcional, confiança no movimento, tolerância à carga e desempenho.
Essas alterações podem acontecer mesmo que não exista uma grande transformação visível na técnica do movimento.
Também podemos observar melhorias na dor sem conseguir apontar para uma única alteração biomecânica responsável por essa melhoria.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 sobre treino neuromuscular na dor femoropatelar avaliou dor, função, força, equilíbrio e cinemática dos membros inferiores. Isto mostra precisamente como a intervenção pode ser analisada através de vários resultados diferentes, em vez de se limitar à procura de uma única alteração mecânica.
Como penso sobre isto no treino
Quando alguém me diz que tem dor no joelho, a minha primeira preocupação não é descobrir qual é o músculo que está “desligado” ou qual é a articulação que está “fora do sítio”.
Quero perceber a pessoa.
Quero perceber o que consegue fazer, o que deixou de conseguir fazer, o que mudou, que carga tolera e como responde ao exercício.
Depois posso utilizar a observação do movimento para tomar decisões.
Se um exercício é demasiado exigente naquele momento, posso simplificá-lo.
Se é demasiado fácil, posso aumentar a exigência.
Se uma determinada variante provoca sintomas, posso experimentar outra.
E se uma pessoa consegue realizar um movimento que não parece perfeito mas o tolera bem, talvez não exista necessidade de o corrigir.
Conclusão
A biomecânica explica parte do que acontece no joelho, mas não explica sozinha a dor.
Movimentos, forças e cargas são importantes. Mas a dor resulta da interação de vários fatores e não pode ser reduzida a uma única variável biomecânica.
Por isso, em vez de procurar constantemente o movimento errado, considero mais útil procurar a relação entre movimento, carga, capacidade e resposta.
O objetivo do treino não é construir um joelho que nunca seja submetido a forças elevadas.
É ajudar a pessoa a desenvolver capacidade suficiente para lidar progressivamente com as exigências daquilo que quer fazer.
E talvez esta seja uma das mudanças mais importantes na forma como podemos olhar para o treino de alguém com dor no joelho: menos procura pelo movimento perfeito e mais atenção à capacidade de adaptação.
Posso ajudar
Posso ajudar a adaptar o treino à dor no joelho, ajustando exercícios, carga, amplitude e progressão às capacidades e objetivos de cada pessoa.
Referências
- Pallone L, et al. Biomechanical differences between females and males with patellofemoral pain: a systematic review and meta-analysis. Journal of Experimental Orthopaedics. 2026.
- Chaffe R, et al. Foot and Ankle Biomechanics in Individuals With Patellofemoral Pain: A Systematic Review and Meta-Analysis. Translational Sports Medicine. 2026.
- Maleki AA, et al. Effects of neuromuscular training on pain, physical function, balance, muscle strength, and lower limb kinematics in individuals with patellofemoral pain. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation. 2026.
- Impact of therapeutic exercises on pain-related outcomes in patients with knee osteoarthritis: an umbrella review of 116 systematic reviews. Frontiers in Pain Research. 2026.
- Nunes GS, et al. A Systematic Review with Meta-analysis of the Association between Changes in Muscle Strength and Clinical Outcome Changes in Patellofemoral Pain. Sports Medicine. 2026.