A dieta que protege o planeta também protege a nossa saúde?

A dieta que protege o planeta também protege a nossa saúde? September 4, 2026Leave a comment

A Dieta de Saúde Planetária (Planetary Health Diet) foi criada para responder a dois grandes desafios: melhorar a alimentação humana e, simultaneamente, reduzir o impacto ambiental da produção de alimentos. Mas será que uma dieta pensada para proteger o planeta é realmente uma dieta saudável?

Um novo estudo publicado em 26 de agosto de 2026 procurou responder precisamente a esta questão. Os investigadores avaliaram o chamado Planetary Health Diet Index (PHDI) e compararam-no com diferentes medidas utilizadas para avaliar a qualidade de uma alimentação saudável em vários países.

Os resultados sugerem que existe uma relação importante entre uma alimentação mais próxima da Dieta de Saúde Planetária e vários indicadores de qualidade nutricional. No entanto, o estudo também mostra que “mais sustentável” e “mais saudável” não são conceitos completamente equivalentes. (ScienceDirect)

O que é a Dieta de Saúde Planetária?

A Planetary Health Diet surgiu a partir do trabalho da EAT-Lancet Commission, que procurou definir um padrão alimentar capaz de contribuir para a saúde humana e, simultaneamente, diminuir a pressão sobre os recursos naturais.

A ideia central não é simplesmente eliminar carne ou tornar a alimentação vegetariana.

Em termos gerais, este padrão alimentar privilegia:

  • legumes e hortícolas;
  • fruta;
  • leguminosas;
  • frutos secos;
  • cereais integrais;
  • óleos insaturados, como o azeite;
  • quantidades moderadas de peixe, ovos e lacticínios;
  • menor consumo de carne vermelha;
  • menor consumo de açúcares adicionados;
  • menor utilização de gorduras saturadas.

Portanto, existe uma grande sobreposição entre a Dieta de Saúde Planetária e vários princípios de uma alimentação considerada saudável.

A grande diferença é que a primeira acrescenta uma preocupação adicional: o impacto ambiental daquilo que comemos.

O que é o Planetary Health Diet Index?

Para estudar se as pessoas estão próximas deste padrão alimentar, os investigadores podem utilizar o Planetary Health Diet Index, ou PHDI.

O índice foi desenvolvido em 2021 e possui 16 componentes, com uma pontuação que pode chegar aos 150 pontos. Quanto maior a pontuação, maior é a adesão às recomendações da Dieta de Saúde Planetária. (PubMed Central (PMC))

O índice considera diferentes grupos alimentares.

Por exemplo, uma alimentação com maior presença de frutas, hortícolas, leguminosas e frutos secos tende a obter uma melhor pontuação. Pelo contrário, quantidades elevadas de carne vermelha, açúcares adicionados ou determinados tipos de gordura penalizam a pontuação.

Mas existe uma questão importante: ter uma alimentação sustentável significa necessariamente ter uma alimentação nutricionalmente adequada?

Foi precisamente esta questão que motivou o novo estudo.

O grande estudo publicado em agosto de 2026

O trabalho publicado no American Journal of Clinical Nutrition analisou dados alimentares de 152.004 pessoas com 15 ou mais anos, provenientes de 45 inquéritos realizados em 26 países.

Os dados foram obtidos através da plataforma FAO/WHO GIFT, que reúne informação sobre o consumo alimentar individual em diferentes populações.

Os investigadores utilizaram registos alimentares e recordatórios de 24 horas para calcular o PHDI e depois compararam os resultados com diferentes indicadores de uma alimentação saudável.

Entre esses indicadores estavam a adequação nutricional, o consumo de fruta e hortícolas, a ingestão de carne vermelha não processada e a proporção de energia proveniente de alimentos ultraprocessados. (ScienceDirect)

Este desenho permitiu fazer uma pergunta muito interessante:

O PHDI consegue identificar pessoas que realmente têm uma alimentação nutricionalmente mais saudável?

Maior adesão esteve associada a melhor adequação nutricional

Os resultados foram, em grande parte, favoráveis.

Uma maior pontuação no Planetary Health Diet Index esteve associada a uma maior adequação global de nutrientes.

Ou seja, pessoas com maior adesão à Dieta de Saúde Planetária tendiam a apresentar uma alimentação que fornecia uma maior proporção das necessidades nutricionais avaliadas.

Esta associação foi observada em diferentes níveis de rendimento dos países.

No entanto, os investigadores encontraram uma diferença importante quando compararam o PHDI com outros índices alimentares.

O Food Group Diversity Score (FGDS) e determinadas componentes do Global Diet Quality Score (GDQS) apresentaram associações ainda mais fortes com a adequação nutricional.

Isto significa que a Dieta de Saúde Planetária parece ser uma boa ferramenta para avaliar simultaneamente sustentabilidade e qualidade alimentar, mas não é necessariamente o melhor instrumento para avaliar todos os aspetos de uma alimentação saudável. (ScienceDirect)

Mais fruta e legumes

Outro resultado importante foi a associação entre uma maior pontuação no PHDI e uma maior probabilidade de atingir níveis adequados de consumo de fruta e hortícolas.

Os participantes com maior adesão ao PHDI tinham maior probabilidade de atingir o equivalente a pelo menos 400 gramas por dia de fruta e hortícolas, um valor frequentemente utilizado como referência internacional para uma alimentação saudável.

Mais uma vez, os índices baseados na diversidade alimentar apresentaram, em alguns contextos, uma capacidade ainda maior para identificar este padrão alimentar. (ScienceDirect)

Este resultado é relevante porque fruta e hortícolas fornecem fibra, vitaminas, minerais, polifenóis e outros compostos bioativos.

Além disso, quando substituem alimentos mais densos em energia e pobres em nutrientes, podem contribuir para melhorar a qualidade global da alimentação.

Menos carne vermelha e menos ultraprocessados

A maior adesão ao PHDI também esteve associada a um menor consumo de carne vermelha não processada.

Esta é uma característica importante da Dieta de Saúde Planetária.

A recomendação não implica necessariamente eliminar completamente a carne. O objetivo é reduzir o consumo de determinados alimentos de origem animal, especialmente carne vermelha, e aumentar a presença de alimentos vegetais.

O estudo encontrou também uma associação entre maior PHDI e uma menor proporção de energia proveniente de alimentos ultraprocessados.

Esta associação foi mais evidente em alguns grupos de rendimento dos países do que noutros.

Mais uma vez, é necessário cuidado na interpretação: o estudo encontrou associações, não demonstrou que simplesmente aumentar a pontuação PHDI provoque diretamente uma redução do consumo de ultraprocessados. (ScienceDirect)

A Dieta Planetária é igual à Dieta Mediterrânica?

Não.

Embora existam muitas semelhanças, os dois padrões alimentares não são exatamente iguais.

A Dieta Mediterrânica tradicional dá grande importância ao azeite virgem extra, vegetais, fruta, leguminosas, frutos secos, cereais, peixe e uma utilização moderada de produtos animais.

A Dieta de Saúde Planetária tem uma preocupação adicional muito forte com a sustentabilidade global e estabelece referências quantitativas para diferentes grupos alimentares.

Na prática, porém, uma alimentação mediterrânica bem construída pode aproximar-se bastante dos princípios da Dieta de Saúde Planetária.

Esta é uma boa notícia porque significa que não é necessário abandonar completamente os hábitos alimentares tradicionais para comer de forma mais sustentável.

Então a Dieta Planetária é saudável?

Em geral, os resultados mais recentes apontam nessa direção.

Uma maior adesão ao PHDI esteve associada a:

✔ maior adequação nutricional

✔ maior consumo adequado de fruta e hortícolas

✔ menor consumo de carne vermelha

✔ menor proporção de energia proveniente de ultraprocessados

Estes resultados reforçam a ideia de que existe uma importante sobreposição entre uma alimentação saudável e uma alimentação ambientalmente mais sustentável. (ScienceDirect)

Mas isso não significa que qualquer alimentação que obtenha uma pontuação elevada no PHDI seja automaticamente perfeita do ponto de vista nutricional.

Uma pontuação elevada não garante todos os nutrientes

Este é provavelmente um dos aspetos mais importantes para interpretar corretamente o estudo.

Uma alimentação pode aproximar-se das recomendações planetárias e, ainda assim, apresentar deficiências ou inadequações de determinados nutrientes, dependendo da forma como é construída.

Isto é especialmente relevante quando se reduzem significativamente alimentos de origem animal.

Nutrientes como vitamina B12, ferro, zinco, cálcio, iodo ou proteína podem exigir uma atenção especial em determinados padrões alimentares.

Por isso, não devemos transformar a Dieta de Saúde Planetária numa lista rígida de alimentos permitidos e proibidos.

O mais importante é avaliar a alimentação como um todo.

Mais plantas, mas não necessariamente “zero carne”

Um dos erros mais comuns quando se fala sobre sustentabilidade alimentar é pensar que a única solução é eliminar completamente os produtos animais.

Não é isso que o conceito original pretende.

A Dieta de Saúde Planetária permite produtos de origem animal, mas recomenda quantidades relativamente moderadas.

O objetivo principal é alterar a proporção entre os diferentes grupos alimentares.

Em vez de uma refeição centrada num grande pedaço de carne acompanhado por uma pequena quantidade de vegetais, podemos imaginar o prato de forma diferente:

mais legumes + leguminosas + cereais integrais + frutos secos + azeite + quantidades moderadas de alimentos de origem animal.

Esta alteração pode melhorar simultaneamente a qualidade nutricional e reduzir o impacto ambiental da alimentação.

E os alimentos ultraprocessados?

O estudo de 2026 acrescenta outro argumento interessante.

Uma maior adesão ao PHDI esteve associada a menor proporção de energia proveniente de alimentos ultraprocessados. (ScienceDirect)

Embora sustentabilidade e processamento alimentar não sejam exatamente a mesma coisa, existe aqui uma possível convergência.

Uma alimentação baseada em:

  • legumes;
  • fruta;
  • feijão;
  • grão;
  • lentilhas;
  • frutos secos;
  • cereais integrais;
  • peixe;
  • ovos;
  • azeite;

tende a ser bastante diferente de uma alimentação dominada por produtos ultraprocessados, snacks, bebidas açucaradas e refeições altamente processadas.

Por isso, melhorar a qualidade da alimentação pode beneficiar simultaneamente saúde, composição corporal e sustentabilidade, embora cada uma destas dimensões deva ser avaliada separadamente.

O que significa isto para quem quer comer melhor?

Não é necessário começar a pesar todos os alimentos ou calcular uma pontuação PHDI diariamente.

Podemos retirar algumas ideias práticas bastante simples.

Primeiro: aumentar a quantidade e variedade de vegetais.

Segundo: consumir fruta diariamente.

Terceiro: incluir leguminosas regularmente.

Quarto: utilizar frutos secos e sementes em quantidades adequadas.

Quinto: privilegiar gorduras insaturadas, como o azeite.

Sexto: escolher cereais integrais com maior frequência.

Sétimo: reduzir o consumo habitual de carne vermelha.

Oitavo: limitar alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas.

E, sobretudo, procurar uma alimentação que seja nutricionalmente adequada, agradável e sustentável a longo prazo.

A dieta que protege o planeta também protege a nossa saúde?

A resposta mais correta, com base na evidência mais recente, é:

Pode contribuir para ambas, mas não devemos assumir que sustentabilidade é sinónimo automático de saúde.

O estudo publicado em 26 de agosto de 2026 é particularmente relevante porque avaliou mais de 152 mil pessoas em 26 países e mostrou que uma maior adesão ao Planetary Health Diet Index está associada a vários indicadores de uma alimentação saudável. (ScienceDirect)

Ao mesmo tempo, os investigadores demonstraram que medidas mais simples, como a diversidade dos grupos alimentares, podem ser ainda melhores para identificar determinados aspetos da qualidade nutricional.

A grande mensagem talvez seja esta:

uma boa alimentação não deve proteger apenas o planeta nem apenas o indivíduo. Idealmente, deve fazer as duas coisas.

E isso passa por uma alimentação predominantemente baseada em alimentos pouco processados, rica em vegetais, fruta, leguminosas, frutos secos e cereais integrais, com quantidades adequadas de proteína e gorduras de boa qualidade e um consumo moderado de produtos de origem animal.

Mais do que seguir uma dieta perfeita, o objetivo deve ser construir um padrão alimentar saudável, equilibrado, variado e sustentável ao longo dos anos.

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Links das fontes

Estudo mais recente — American Journal of Clinical Nutrition, 26 de agosto de 2026
Construct validity of the Planetary Health Diet Index: análise de 152.004 pessoas em 26 países

Estudo sobre a Dieta de Saúde Planetária em nove países europeus, incluindo Portugal — março de 2026
Are European diets healthy and sustainable? Evidence from nine countries using the planetary health diet framework

Desenvolvimento e validação do Planetary Health Diet Index — 2021
Development and Validation of an Index Based on EAT-Lancet Recommendations: The Planetary Health Diet Index

Comparação de diferentes índices da Dieta Planetária — 2026
One diet, many indices: heterogeneity in measuring adherence to the EAT-Lancet planetary health diet