Durante muito tempo acreditou-se que a principal função dos músculos era apenas permitir o movimento. Hoje sabemos que o músculo é muito mais do que isso. Quando se contrai durante o exercício físico, funciona como um verdadeiro órgão endócrino, libertando proteínas chamadas miocinas.
Estas moléculas entram na corrente sanguínea e comunicam com vários órgãos, incluindo o cérebro, o coração, o fígado, o tecido adiposo e os ossos.
É uma das razões pelas quais os benefícios do exercício vão muito além do aumento da força ou da massa muscular.
Como atuam as miocinas?
Sempre que realizamos exercício, sobretudo treino de força e atividade aeróbia, as fibras musculares produzem diferentes tipos de miocinas.
Estas substâncias ajudam a:
• Reduzir a inflamação crónica.
• Melhorar a sensibilidade à insulina.
• Favorecer a utilização da gordura como fonte de energia.
• Proteger o sistema cardiovascular.
• Estimular a regeneração muscular.
• Melhorar a comunicação entre músculos e cérebro.
Quanto mais regularmente exercitamos os músculos, maior tende a ser a libertação destas moléculas benéficas.
Miocinas e saúde cerebral
Uma das áreas mais promissoras da investigação é o efeito das miocinas no cérebro.
Algumas destas proteínas estimulam a produção do BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor), frequentemente conhecido como o “fertilizante do cérebro”.
O BDNF favorece:
• A formação de novas ligações entre neurónios.
• A aprendizagem.
• A memória.
• A capacidade de adaptação do cérebro.
• A sobrevivência das células nervosas.
É por isso que pessoas fisicamente ativas apresentam, em média, menor risco de declínio cognitivo e de algumas doenças neurodegenerativas.
Podem ajudar a combater a inflamação?
Sim.
Uma das funções mais importantes das miocinas é equilibrar a resposta inflamatória do organismo.
Enquanto a gordura visceral produz diversas substâncias pró-inflamatórias, o músculo ativo liberta miocinas com efeito anti-inflamatório.
Este equilíbrio pode reduzir o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e contribuir para um envelhecimento mais saudável.
Quanto exercício é necessário?
Não é necessário treinar durante horas.
As recomendações internacionais sugerem:
• Pelo menos 150 minutos por semana de atividade física moderada.
• Dois ou mais dias por semana de treino de força envolvendo os principais grupos musculares.
Mesmo pequenas quantidades de exercício realizadas de forma consistente já estimulam a produção de miocinas e proporcionam benefícios para a saúde.
Conclusão
Cada vez que treina, os seus músculos fazem muito mais do que produzir movimento. Funcionam como uma verdadeira “farmácia natural”, libertando miocinas que comunicam com todo o organismo.
Estas moléculas ajudam a reduzir a inflamação, melhoram o metabolismo, protegem o coração e podem contribuir para preservar a memória e a saúde cerebral durante o envelhecimento.
Por isso, quando pratica exercício físico, não está apenas a fortalecer os músculos. Está também a investir na saúde do seu cérebro e de todo o organismo.
Referências Científicas
Pedersen BK, Febbraio MA. Muscles, exercise and obesity: skeletal muscle as a secretory organ. Nature Reviews Endocrinology.
https://www.nature.com/articles/nrendo.2012.49
Pedersen BK. The Physiology of Optimizing Health with a Focus on Exercise as Medicine.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34271683/
American College of Sports Medicine (ACSM).
National Institute on Aging.
https://www.nia.nih.gov