A vitamina K é habitualmente associada à coagulação do sangue e à saúde óssea. No entanto, a investigação científica tem vindo a mostrar que este nutriente pode desempenhar outras funções importantes no organismo.
Um dos dados mais recentes surgiu em 2026, num estudo publicado no The American Journal of Clinical Nutrition, que analisou a relação entre o consumo de vitamina K, a função pulmonar e o risco de doenças respiratórias.
A investigação acompanhou 179.062 participantes do UK Biobank durante aproximadamente 10,5 anos e encontrou uma associação entre maior consumo de vitamina K1 e melhores indicadores de função pulmonar. Os participantes com maior consumo de vitamina K1 apresentaram também uma taxa aproximadamente 16% inferior de desenvolvimento de doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) em comparação com aqueles com menor consumo.
Mas existe uma ressalva fundamental: este estudo é observacional. Ou seja, encontrou uma associação, mas não demonstrou que aumentar a ingestão de vitamina K1 provoque diretamente uma melhoria dos pulmões ou impeça a DPOC.
O que é a vitamina K?
A vitamina K é uma vitamina lipossolúvel, ou seja, dissolve-se em gordura. É essencial para a ativação de várias proteínas envolvidas em processos importantes do organismo.
Existem diferentes formas de vitamina K, sendo as mais conhecidas:
- Vitamina K1 ou filoquinona
- Vitamina K2 ou menaquinonas
A vitamina K1 encontra-se principalmente nos vegetais, sobretudo nos vegetais de folha verde.
Entre os alimentos ricos em vitamina K1 encontram-se:
- couve;
- espinafres;
- brócolos;
- rúcula;
- agrião;
- alface;
- couve-galega;
- repolho;
- outras hortaliças verdes.
A vitamina K2 apresenta várias formas e pode ser encontrada em determinados alimentos fermentados e produtos de origem animal.
Esta distinção é particularmente importante porque o estudo de 2026 sobre saúde pulmonar encontrou resultados mais consistentes para a vitamina K1, e não para a K2.
O que descobriu o estudo mais recente?
O estudo de Chengfeng Li e colaboradores utilizou dados do UK Biobank, uma das maiores bases de dados de investigação em saúde do mundo.
Os investigadores procuraram perceber se o consumo de vitamina K estava relacionado com três aspetos:
- função pulmonar;
- desenvolvimento de DPOC;
- desenvolvimento de asma.
Foram analisadas mais de 179 mil pessoas inicialmente sem DPOC ou asma, acompanhadas durante cerca de uma década.
Os resultados sugeriram que uma maior ingestão de vitamina K1 estava associada a melhor função pulmonar e a uma menor taxa de desenvolvimento de DPOC.
Por outro lado, não foi encontrada uma associação semelhante suficientemente consistente entre vitamina K e redução do risco de asma. Também não foram observados resultados equivalentes para a vitamina K2 relativamente à DPOC. (EatingWell)
Estes resultados são interessantes porque a DPOC é uma doença progressiva que pode provocar falta de ar, tosse e redução da capacidade respiratória.
Como poderia a vitamina K proteger os pulmões?
Uma das hipóteses envolve uma proteína chamada Matrix Gla Protein (MGP).
A vitamina K participa na ativação de proteínas dependentes de vitamina K, entre as quais a MGP. Esta proteína está envolvida na proteção dos tecidos contra processos de calcificação.
Nos pulmões existem estruturas constituídas por fibras elásticas que desempenham um papel fundamental na capacidade pulmonar de expandir e contrair durante a respiração.
Uma das hipóteses científicas é que a vitamina K possa contribuir para a manutenção destas estruturas através da ativação adequada de proteínas dependentes de vitamina K.
Existe ainda uma segunda possibilidade: os alimentos que fornecem grandes quantidades de vitamina K1 — particularmente os vegetais de folha verde — também fornecem vitamina C, folato, carotenoides, minerais, polifenóis e outros compostos bioativos.
Assim, pode ser difícil separar completamente o efeito da vitamina K do efeito de uma alimentação globalmente saudável.
É precisamente por isso que os resultados devem ser interpretados com alguma prudência.
Comer mais vegetais pode ser mais importante do que tomar vitamina K
Esta é provavelmente uma das mensagens mais importantes deste estudo.
Não devemos interpretar os resultados como uma recomendação para começar a tomar suplementos de vitamina K para proteger os pulmões.
O estudo analisou principalmente consumo alimentar, e não demonstrou que tomar cápsulas de vitamina K tenha o mesmo efeito.
Uma pessoa que aumente o consumo de couve, espinafres, brócolos e outras hortaliças está simultaneamente a aumentar a ingestão de vários nutrientes e compostos bioativos.
Por isso, os benefícios observados podem resultar da combinação de vários componentes da alimentação.
Na prática, faz mais sentido pensar na vitamina K como parte de um padrão alimentar saudável do que como um suplemento isolado.
Como aumentar naturalmente a vitamina K1?
Uma estratégia simples é aumentar a presença de vegetais verdes nas refeições.
Por exemplo:
Almoço: peixe ou carne acompanhado de brócolos, couve ou uma grande salada.
Jantar: sopa de legumes, espinafres, rúcula, agrião ou outros vegetais verdes.
A vitamina K é lipossolúvel, pelo que a sua absorção pode beneficiar da presença de gordura na refeição. A utilização de pequenas quantidades de azeite, por exemplo, pode ser uma forma simples de combinar vegetais e gordura alimentar de qualidade.
Não é necessário transformar a alimentação numa dieta baseada exclusivamente em alimentos ricos em vitamina K.
A melhor estratégia continua a ser uma alimentação diversificada, com vegetais, fruta, leguminosas, cereais integrais, frutos secos, sementes, peixe e outras fontes de proteína adequadas às necessidades individuais.
E a vitamina K2?
A vitamina K2 é frequentemente apresentada na internet como uma vitamina particularmente importante para os ossos e para as artérias.
Embora existam mecanismos biológicos interessantes e estudos sobre a relação entre vitamina K2, metabolismo ósseo e calcificação vascular, não devemos extrapolar automaticamente esses resultados para a saúde pulmonar.
No estudo mais recente sobre vitamina K e pulmões, o sinal mais consistente foi observado com a vitamina K1, encontrada principalmente nos vegetais verdes. (EatingWell)
Portanto, neste momento, não existe fundamento científico suficiente para afirmar que tomar vitamina K2 melhora a função pulmonar.
Vitamina K e tabagismo: uma questão importante
A associação encontrada no estudo torna-se particularmente interessante quando pensamos nos fatores que prejudicam a saúde pulmonar.
O tabagismo é um dos principais fatores de risco para DPOC.
Mesmo que a vitamina K1 venha a demonstrar algum efeito protetor no futuro, isso não significa que uma alimentação rica em vitamina K possa compensar o efeito do tabaco.
Pelo contrário: deixar de fumar continua a ser uma das medidas mais importantes para proteger os pulmões.
Também são relevantes a atividade física regular, a redução da exposição à poluição atmosférica, a vacinação adequada e a identificação precoce de sintomas respiratórios persistentes.
Devemos tomar suplementos de vitamina K?
Para a maioria das pessoas saudáveis, não existe razão para começar a tomar vitamina K simplesmente porque este novo estudo encontrou uma associação com melhor saúde pulmonar.
Uma alimentação variada fornece vitamina K através de numerosos alimentos.
Além disso, a suplementação pode ser particularmente relevante para pessoas que utilizam determinados medicamentos anticoagulantes, uma vez que alterações importantes na ingestão de vitamina K podem interferir com o tratamento.
Por isso, quem utiliza anticoagulantes ou tem uma condição clínica específica deve falar com o médico antes de iniciar um suplemento.
Também é importante não confundir vitamina K1 e K2 com vitamina K3, uma forma sintética diferente que não deve ser utilizada como suplemento alimentar de rotina devido ao seu perfil de segurança.
O que podemos concluir?
A investigação mais recente acrescenta uma peça interessante ao conhecimento sobre a vitamina K.
O estudo publicado em 2026 encontrou uma associação entre maior consumo de vitamina K1 e melhor função pulmonar, além de uma taxa aproximadamente 16% inferior de DPOC entre as pessoas com maior consumo.
Mas a conclusão correta não é que “a vitamina K cura ou previne doenças pulmonares”.
A conclusão mais prudente é que uma alimentação rica em vegetais verdes, fontes importantes de vitamina K1, está associada a melhores indicadores de saúde pulmonar.
São necessários estudos adicionais, sobretudo ensaios clínicos, para determinar se a vitamina K tem realmente um efeito causal sobre a função pulmonar e se aumentar especificamente a sua ingestão pode modificar o risco de DPOC.
Enquanto isso, existe uma recomendação muito mais sólida: comer regularmente vegetais, praticar exercício, manter um peso saudável, evitar o tabaco e reduzir a exposição a poluentes.
A vitamina K pode ser mais uma peça importante desse puzzle — mas não é uma solução isolada para a saúde dos pulmões.
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Nota: este conteúdo é informativo e não substitui diagnóstico ou tratamento médico. Não sou médico nem nutricionista.
Referências
Estudo mais recente: Li C, Pokharel P, Sim M, Murray K, et al. Dietary vitamin K intakes, chronic obstructive pulmonary disease, adult asthma, and lung function: a prospective cohort study in the UK Biobank. The American Journal of Clinical Nutrition. 2026;123:101324. Publicado online em abril de 2026. DOI: 10.1016/j.ajcnut.2026.101324. (amedeo.com)
American Journal of Clinical Nutrition — estudo sobre vitamina K, DPOC, asma e função pulmonar: Dietary vitamin K intakes, chronic obstructive pulmonary disease, adult asthma, and lung function
UK Biobank: UK Biobank — plataforma de investigação em saúde
European Respiratory Society: European Respiratory Society — informação científica sobre saúde respiratória