Ácido úrico e disfunção erétil podem estar mais relacionados do que se pensava. Um estudo publicado na revista científica Communications Biology encontrou uma associação entre níveis elevados de ácido úrico e maior risco de disfunção erétil em homens jovens e identificou um possível mecanismo biológico que poderá explicar esta relação.
O trabalho, publicado em 9 de agosto de 2025, analisou dados clínicos de homens e realizou experiências em modelos animais para investigar se a hiperuricemia poderia contribuir diretamente para alterações da função erétil. (Nature)
É importante, contudo, interpretar estes resultados com prudência. Embora o estudo apresente evidência experimental de um possível mecanismo causal, grande parte da evidência em humanos continua a ser observacional.
O que é o ácido úrico?
O ácido úrico é o produto final da degradação das purinas, substâncias presentes naturalmente no organismo e também em determinados alimentos.
Normalmente, o ácido úrico circula no sangue e é eliminado principalmente através dos rins. Quando existe produção excessiva ou eliminação insuficiente, os seus níveis podem aumentar, situação denominada hiperuricemia.
Quando os níveis são suficientemente elevados, podem formar-se cristais de urato, responsáveis pela gota.
No entanto, o ácido úrico elevado pode estar presente sem provocar sintomas de gota. É precisamente por isso que a hiperuricemia tem despertado interesse científico relativamente a outros problemas metabólicos e cardiovasculares.
O que descobriu o novo estudo?
Os investigadores analisaram inicialmente dados clínicos de homens jovens e encontraram uma relação entre níveis mais elevados de ácido úrico e disfunção erétil.
Num dos conjuntos de dados, um aumento de 100 μmol/L de ácido úrico esteve associado a mais de 2,5 vezes maior probabilidade de disfunção erétil.
Os autores encontraram resultados semelhantes noutro grupo de participantes. Além disso, quando os homens foram divididos de acordo com a gravidade da hiperuricemia, os resultados sugeriram que a frequência de disfunção erétil aumentava à medida que aumentavam os níveis de ácido úrico. (Nature)
Este resultado é interessante porque a disfunção erétil não depende apenas de fatores psicológicos ou hormonais. A capacidade de obter e manter uma ereção está intimamente ligada à saúde dos vasos sanguíneos, à circulação e ao funcionamento do músculo liso do pénis.
Porque é que o ácido úrico pode interferir na ereção?
É aqui que o estudo apresenta uma das suas principais novidades.
Durante uma ereção, é necessário que o músculo liso dos corpos cavernosos relaxe, permitindo a entrada e retenção de sangue no pénis.
Os investigadores identificaram uma possível ligação entre o ácido úrico e uma proteína denominada MLCK, ou cadeia leve da quinase da miosina.
Segundo os resultados experimentais, o ácido úrico consegue entrar nas células do músculo liso dos corpos cavernosos e interagir com a MLCK.
Essa interação parece impedir a degradação normal da proteína através de um processo celular denominado ubiquitinação.
Como consequência, a MLCK permanece mais estável e ativa.
O resultado final é um aumento da fosforilação da MLC2, um processo associado à contração do músculo liso.
Em termos simples: níveis elevados de ácido úrico poderão favorecer a contração do músculo dos corpos cavernosos, dificultando o relaxamento necessário para uma ereção adequada. (Nature)
O que aconteceu nos animais?
Para investigar melhor esta hipótese, os investigadores utilizaram ratos geneticamente modificados para desenvolver hiperuricemia.
Nestes animais, os níveis de ácido úrico aumentaram aproximadamente 3,5 vezes relativamente aos animais de controlo.
A partir das 20 semanas, os ratos com hiperuricemia começaram a apresentar uma redução significativa dos indicadores de função erétil.
Um aspeto importante é que, nas primeiras fases, os animais não apresentavam diferenças relevantes relativamente a alguns fatores habitualmente associados à disfunção erétil, como obesidade, hipertensão, alterações dos lípidos ou diabetes.
Isto permitiu aos investigadores estudar de forma mais específica o possível efeito do ácido úrico. (Nature)
Reduzir o ácido úrico melhorou a função erétil
Outra parte interessante da investigação foi testar se a redução do ácido úrico poderia alterar o problema.
Nos animais, os investigadores utilizaram diferentes estratégias farmacológicas para diminuir o ácido úrico, incluindo febuxostate e benzbromarona, além de outro composto experimental.
Também utilizaram um inibidor da MLCK.
Os resultados indicaram que estas intervenções conseguiram recuperar a função erétil nos ratos com hiperuricemia.
Este resultado reforça a hipótese de que a relação entre ácido úrico e disfunção erétil não seja apenas uma coincidência estatística.
Ainda assim, é fundamental não transformar automaticamente um resultado obtido em animais numa recomendação de tratamento para seres humanos. (Nature)
Ácido úrico e saúde cardiovascular
Existe outra razão para prestar atenção à relação entre ácido úrico e função sexual.
A disfunção erétil pode funcionar como um marcador precoce de problemas vasculares.
As artérias do pénis são relativamente pequenas. Alterações na função vascular podem, por isso, manifestar-se através de dificuldades de ereção antes de problemas cardiovasculares mais graves se tornarem evidentes.
O próprio estudo salienta a relação conhecida entre disfunção erétil e doença cardiovascular. (Nature)
Isto significa que um homem que desenvolve disfunção erétil persistente não deve simplesmente assumir que se trata de uma consequência normal do envelhecimento.
Pode ser uma oportunidade para avaliar fatores de risco como:
- pressão arterial;
- glicemia;
- colesterol;
- triglicéridos;
- função renal;
- peso e perímetro abdominal;
- tabagismo;
- atividade física;
- qualidade do sono;
- níveis de ácido úrico.
Ter ácido úrico elevado significa que vou ter disfunção erétil?
Não.
Este é um dos pontos mais importantes.
O estudo encontrou uma associação forte em determinados grupos e apresentou experiências em animais que sugerem um possível mecanismo biológico.
Mas isso não significa que todos os homens com ácido úrico elevado desenvolverão disfunção erétil.
A função sexual é influenciada por múltiplos fatores.
Diabetes, hipertensão, obesidade, doença cardiovascular, tabagismo, determinados medicamentos, alterações hormonais, problemas neurológicos, ansiedade, depressão, stress e problemas de relacionamento podem contribuir para a disfunção erétil.
Além disso, o estudo em humanos foi baseado em dados retrospectivos e questionários de função erétil. Portanto, não permite estabelecer sozinho uma relação causal definitiva em humanos. (Nature)
O que podemos fazer para controlar o ácido úrico?
A primeira medida é saber se existe realmente hiperuricemia.
Uma simples análise sanguínea pode determinar o nível de ácido úrico.
Quando está elevado, a avaliação deve considerar o contexto individual. Função renal, alimentação, peso corporal, consumo de álcool, medicamentos e antecedentes de gota podem influenciar os valores.
A alimentação também pode desempenhar um papel.
É geralmente aconselhável reduzir o consumo excessivo de álcool, especialmente cerveja, moderar alimentos muito ricos em purinas quando existe indicação clínica e evitar excesso de bebidas açucaradas ricas em frutose.
Manter um peso saudável e praticar exercício físico regularmente também faz parte de um estilo de vida metabolicamente saudável.
Contudo, pessoas com hiperuricemia significativa ou gota podem necessitar de tratamento farmacológico. A decisão deve ser individualizada por um profissional de saúde.
Exercício físico também pode ajudar?
A atividade física regular é importante para a saúde cardiovascular e metabólica e pode contribuir para melhorar vários fatores associados à disfunção erétil.
Caminhar, correr, fazer treino de força e reduzir o tempo sedentário são estratégias úteis para melhorar a condição física.
O objetivo não é utilizar o exercício como um tratamento específico para baixar o ácido úrico ou curar a disfunção erétil, mas integrá-lo numa estratégia global de saúde.
Uma boa capacidade cardiovascular, peso adequado, controlo da pressão arterial e melhor sensibilidade à insulina podem contribuir para uma melhor saúde vascular.
Um sinal sexual que não deve ser ignorado
A principal mensagem deste estudo não é que o ácido úrico seja a causa de todos os casos de disfunção erétil.
A mensagem mais interessante é outra: a função sexual pode fornecer informação importante sobre a saúde metabólica e vascular do homem.
O trabalho publicado em Communications Biology em 9 de agosto de 2025 acrescenta uma possível explicação molecular para a associação entre hiperuricemia e disfunção erétil, envolvendo a proteína MLCK e a contração do músculo liso dos corpos cavernosos. (Nature)
São necessários estudos clínicos maiores e, sobretudo, ensaios em humanos que demonstrem se baixar especificamente o ácido úrico reduz a incidência ou melhora a disfunção erétil.
Até lá, níveis elevados de ácido úrico devem ser encarados como uma informação de saúde que merece avaliação — especialmente quando coexistem hipertensão, alterações do colesterol, diabetes, excesso de peso ou sintomas cardiovasculares.
Conclusão
A investigação publicada em 2025 sugere que o ácido úrico elevado pode estar diretamente envolvido na disfunção erétil, através de alterações no músculo liso dos corpos cavernosos.
O estudo combina dados humanos com experiências em ratos e identifica a via ácido úrico–MLCK como possível mecanismo.
Ainda não é possível afirmar que baixar o ácido úrico previna a disfunção erétil em todos os homens. Mas os resultados reforçam a importância de olhar para a função sexual como parte da avaliação global da saúde metabólica e cardiovascular.
Se a disfunção erétil surgir de forma persistente, vale a pena investigar não apenas a questão sexual, mas também a saúde cardiovascular, metabólica e hormonal.
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Nota importante
Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui avaliação médica. Alterações do ácido úrico, gota ou disfunção erétil persistente devem ser avaliadas por um profissional de saúde.
Links e fontes
Estudo original – Communications Biology, 9 de agosto de 2025: investigação sobre a relação entre ácido úrico elevado e disfunção erétil, incluindo o mecanismo envolvendo MLCK. Ver o estudo completo na Nature / Communications Biology
DOI do estudo: referência científica oficial do artigo de Gang Shen e colaboradores. Consultar o DOI do estudo