A alimentação tem um papel importante na prevenção das doenças cardiovasculares, mas nem sempre é fácil distinguir recomendações sustentadas pela ciência de ideias simplificadas sobre determinados alimentos. Os ovos fazem mal ao colesterol? O café protege o coração? As dietas cetogénicas são uma boa opção para melhorar a saúde metabólica? E os suplementos de ómega-3 reduzem o risco de enfarte?
Uma revisão narrativa publicada em outubro de 2026 no The American Journal of Medicine analisou algumas destas questões, comparando a evidência científica sobre alimentos, suplementos e padrões alimentares associados à saúde cardiovascular.
A principal mensagem é particularmente relevante: a qualidade global da alimentação parece ser mais importante para avaliar o risco cardiovascular do que a presença ou ausência de um alimento isolado.
O que analisou esta revisão científica?
O trabalho, intitulado Diet and Risk of Cardiovascular Disease, reuniu e discutiu a investigação disponível sobre componentes alimentares controversos e estratégias nutricionais associadas à prevenção cardiovascular.
Entre os temas abordados encontram-se o consumo de ovos, os diferentes métodos de preparação do café, o álcool, as dietas pobres em hidratos de carbono, os suplementos de ómega-3 e os padrões alimentares mediterrânico, DASH e Portfolio.
É importante esclarecer que se trata de uma revisão narrativa, não de um novo ensaio clínico. Os autores interpretam resultados de estudos anteriores para discutir o conjunto da evidência. Como acontece com este tipo de revisão, as conclusões dependem da qualidade dos estudos considerados e da interpretação dos investigadores.
Ovos e colesterol: devemos limitar o seu consumo?
Os ovos são frequentemente discutidos devido ao seu teor de colesterol alimentar. No entanto, avaliar o seu impacto na saúde cardiovascular apenas a partir desta característica é uma abordagem incompleta.
A revisão considera que um consumo moderado de ovos pode ser compatível com um padrão alimentar de boa qualidade. O contexto da alimentação e a forma de preparação são importantes para interpretar o seu potencial impacto.
Por exemplo, comer ovos acompanhados de legumes e outros alimentos pouco processados não corresponde à mesma refeição que consumir ovos frequentemente com enchidos, bacon, grandes quantidades de manteiga ou outros alimentos ricos em gordura saturada e sal.
Também é necessário considerar a resposta individual do colesterol sanguíneo. Algumas pessoas podem apresentar alterações mais significativas nos valores de LDL em resposta a mudanças no consumo de colesterol alimentar.
Assim, não existe fundamento para classificar automaticamente os ovos como prejudiciais ao coração. Contudo, quem apresenta colesterol LDL elevado ou risco cardiovascular aumentado deve avaliar o conjunto da alimentação e acompanhar os seus resultados laboratoriais com o profissional de saúde.
Café: a preparação pode fazer diferença
O café é outro alimento frequentemente associado a mensagens contraditórias. Alguns estudos observacionais relacionam o consumo habitual moderado com resultados cardiovasculares favoráveis, mas isso não significa que aumentar o consumo seja necessariamente benéfico para todas as pessoas.
A revisão destaca uma diferença importante entre métodos de preparação. O café não filtrado, como o preparado em prensa francesa ou através de determinados métodos de fervura, pode conter maiores quantidades de diterpenos, nomeadamente cafestol e kahweol.
Estes compostos podem aumentar o colesterol LDL. Os filtros de papel retêm uma parte significativa dos diterpenos, pelo que o café filtrado tende a ter um impacto mais favorável neste parâmetro.
Na prática, o método de preparação pode ser relevante para quem procura controlar o colesterol. Também importa considerar a quantidade de café consumida, a adição de açúcar e a resposta individual à cafeína.
Em pessoas sensíveis à cafeína, o café pode contribuir para palpitações, perturbações do sono ou aumentos transitórios da pressão arterial. Por isso, mesmo quando o consumo moderado é compatível com a saúde cardiovascular, a tolerância individual deve orientar a decisão.
Álcool: não devemos confundir associação com proteção
Durante muitos anos, o consumo moderado de álcool foi associado, em alguns estudos observacionais, a determinados benefícios cardiovasculares. Contudo, estas associações são difíceis de interpretar, porque as pessoas que consomem álcool moderadamente podem diferir das pessoas que não bebem em vários aspetos da saúde e do estilo de vida.
A revisão salienta que não é possível estabelecer um limiar de consumo de álcool que garanta um benefício cardiovascular seguro. O consumo excessivo numa única ocasião, conhecido como consumo episódico excessivo, está associado a consequências cardiovasculares prejudiciais.
O álcool pode ainda contribuir para o aumento da pressão arterial e para alterações do ritmo cardíaco, além de apresentar outros riscos para a saúde.
Consequentemente, não faz sentido recomendar que uma pessoa comece a beber vinho ou outra bebida alcoólica com o objetivo de proteger o coração. Existem estratégias de prevenção com melhor fundamentação e sem a exposição aos riscos associados ao álcool.
Dietas cetogénicas e pobres em hidratos de carbono
As dietas pobres em hidratos de carbono, incluindo a dieta cetogénica, podem produzir melhorias em alguns parâmetros metabólicos, como o peso corporal, os triglicéridos e determinados indicadores do controlo da glicemia.
No entanto, a resposta do colesterol LDL não é igual em todas as pessoas. Em alguns casos, sobretudo quando a redução dos hidratos de carbono é acompanhada por um aumento do consumo de gorduras de origem animal, pode verificar-se uma subida significativa do LDL e da apolipoproteína B, ou ApoB.
Este aspeto merece atenção porque o LDL e as partículas aterogénicas que contêm ApoB participam no desenvolvimento da aterosclerose. Uma melhoria dos triglicéridos ou do peso corporal não elimina automaticamente o risco associado a uma elevação persistente destes marcadores.
Também não devemos concluir que todas as dietas pobres em hidratos de carbono são prejudiciais. A composição da dieta faz diferença. Fontes de gordura predominantemente insaturada, como o azeite, os frutos secos e determinadas sementes, apresentam um perfil diferente do de uma alimentação rica em manteiga, carnes processadas e outras fontes de gordura saturada.
Se uma estratégia alimentar melhora o peso e os triglicéridos, mas aumenta consideravelmente o LDL, é importante avaliar os resultados em conjunto, em vez de considerar a intervenção bem-sucedida apenas porque alguns indicadores melhoraram.
Suplementos de ómega-3: mais não significa necessariamente melhor
Os ácidos gordos ómega-3 participam em vários processos fisiológicos e podem ser obtidos através de alimentos, como os peixes gordos, ou de suplementos.
A revisão descreve evidência favorável a determinadas intervenções com ómega-3 na redução do risco de doença coronária e enfarte do miocárdio, com efeitos que variam consoante a dose e a intervenção estudada.
Contudo, é fundamental distinguir o consumo habitual de peixe, os suplementos comuns de óleo de peixe e as formulações farmacológicas utilizadas em situações clínicas específicas. Estes produtos não são equivalentes em composição, dose ou evidência de benefício.
A revisão também chama a atenção para o risco de fibrilhação auricular associado a formulações de doses elevadas em populações de maior risco. Este aspeto impede que a suplementação seja considerada automaticamente inofensiva.
Para a maioria das pessoas, faz sentido começar por avaliar a qualidade da alimentação e a presença regular de fontes alimentares de ómega-3. A necessidade de suplementação deve depender do contexto clínico, dos objetivos e da orientação profissional, não apenas da ideia de que mais ómega-3 protege sempre mais o coração.
Dieta mediterrânica, DASH e Portfolio: o que têm em comum?
Entre as estratégias analisadas, a revisão destaca três padrões alimentares com evidência particularmente relevante para a saúde cardiovascular: a dieta mediterrânica, a dieta DASH e a dieta Portfolio.
A dieta mediterrânica privilegia alimentos vegetais, hortícolas, fruta, leguminosas, cereais integrais, frutos secos e azeite, integrando também peixe e outras fontes de proteína em quantidades adequadas. O seu interesse reside na combinação de alimentos e nos hábitos que constituem o padrão alimentar.
A dieta DASH foi desenvolvida para ajudar a controlar a pressão arterial. Dá prioridade a hortícolas, fruta, cereais integrais, leguminosas e fontes adequadas de proteína, limitando o consumo excessivo de sódio e de determinados alimentos ricos em gordura saturada.
A dieta Portfolio procura melhorar o perfil lipídico através da combinação de alimentos como proteína de soja e outras proteínas vegetais, frutos secos, fibra viscosa e esteróis vegetais. A utilização conjunta destes componentes pode ajudar a reduzir o colesterol LDL.
Embora tenham características próprias, estes padrões partilham princípios importantes: maior presença de alimentos vegetais, melhor qualidade das fontes de gordura, ingestão adequada de fibra e menor dependência de produtos nutricionalmente menos favoráveis.
Não é necessário seguir um modelo de forma rígida para beneficiar destes princípios. A adaptação à cultura alimentar, às preferências, ao orçamento e às necessidades individuais é fundamental para conseguir manter as mudanças a longo prazo.
O que significa isto para quem quer proteger o coração?
Na minha experiência, é fácil perder tempo a tentar descobrir se um alimento específico é bom ou mau. Aqui prefiro uma abordagem mais abrangente: perceber o que a pessoa come habitualmente, quais são os seus fatores de risco e que alterações consegue manter durante anos.
Para melhorar a saúde cardiovascular, pode ser útil aumentar o consumo de leguminosas, hortícolas e cereais integrais, privilegiar fontes de gordura insaturada, moderar o consumo de sal e reduzir a presença habitual de carnes processadas e produtos ricos em gordura saturada.
A alimentação deve ser acompanhada por atividade física regular, treino de força adequado, sono suficiente e controlo dos fatores de risco. A pressão arterial, o colesterol LDL, os triglicéridos e, quando indicado, a ApoB ajudam a avaliar a evolução individual.
Também é importante não interpretar melhorias alimentares como garantia de que já não existe risco cardiovascular. A história clínica, os antecedentes familiares, o tabagismo e outros fatores podem justificar medidas preventivas adicionais.
Posso ajudar
Ajudo pessoas a melhorar a condição física, adaptar o treino às suas capacidades e construir hábitos sustentáveis. O exercício complementa uma alimentação equilibrada na promoção da saúde cardiovascular e funcional.
Conclusão
A revisão publicada no The American Journal of Medicine reforça que a alimentação deve ser avaliada como um padrão global, e não apenas através de alimentos ou nutrientes isolados.
Ovos e café podem integrar uma alimentação equilibrada, mas a quantidade e a preparação importam. O álcool não deve ser iniciado como estratégia de prevenção, as dietas cetogénicas exigem atenção à resposta do colesterol e os suplementos de ómega-3 não são adequados a todas as pessoas.
A dieta mediterrânica, a DASH e a Portfolio apresentam abordagens diferentes, mas partilham características que podem contribuir para melhorar a saúde cardiovascular.
O objetivo não é encontrar uma dieta perfeita ou um alimento milagroso. É construir uma alimentação de boa qualidade, acompanhar os fatores de risco e combinar hábitos sustentáveis com a prevenção clínica adequada.
Referências
- Sultan S, Mahdi M, Ahmed A, Sultan S, Birnbaum Y, Lavie CJ, Krittanawong C. Diet and Risk of Cardiovascular Disease. The American Journal of Medicine. Publicado em 1 de outubro de 2026. DOI: 10.1016/j.amjmed.2026.09.031. Consultar artigo no PubMed.
- National Heart, Lung, and Blood Institute. DASH Eating Plan. Informação científica sobre a dieta DASH.
- National Heart, Lung, and Blood Institute. Therapeutic Lifestyle Changes (TLC). Informação sobre alimentação e redução do colesterol.