A relação entre alimentação e microbioma intestinal é cada vez mais estudada. Proteínas, hidratos de carbono, gordura, fibra alimentar e açúcares podem influenciar a quantidade e a composição dos microrganismos que vivem no intestino. Mas a relação não é simples: o próprio estado metabólico da pessoa, os medicamentos, o peso corporal e intervenções como a cirurgia bariátrica também podem modificar profundamente o microbioma.
Um estudo publicado em setembro de 2026 no European Journal of Clinical Nutrition analisou precisamente esta questão em adultos com obesidade submetidos a cirurgia bariátrica. Os investigadores procuraram perceber se alterações na ingestão de macronutrientes estavam associadas a alterações na composição e nas funções potenciais do microbioma intestinal.
O que foi estudado?
Tratou-se de um estudo piloto e exploratório que incluiu 29 adultos com obesidade submetidos a cirurgia bariátrica. Cerca de 93% dos participantes eram mulheres.
Foram estudadas pessoas antes da cirurgia e, num grupo de 19 participantes, novamente entre seis e dez meses depois. Foram incluídas duas técnicas cirúrgicas: gastrectomia vertical e bypass gástrico Roux-en-Y.
Os investigadores recolheram registos alimentares de três dias e avaliaram a ingestão de proteínas, gordura, hidratos de carbono, fibra e outros componentes da alimentação. Também utilizaram o Healthy Eating Index 2015 para estimar a qualidade global da dieta.
Para estudar o microbioma, foram analisadas amostras de fezes através de sequenciação metagenómica shotgun. Esta técnica permite avaliar não apenas os microrganismos presentes, mas também o potencial funcional associado aos seus genes.
O que encontraram?
Os resultados mostraram associações entre vários componentes da alimentação e diferentes características do microbioma intestinal.
A ingestão de fibra solúvel, fibra insolúvel e o índice glicémico da alimentação apresentaram relações particularmente interessantes com a composição microbiana e com vias funcionais relacionadas com nutrientes.
A ingestão total de fibra e de fibra solúvel esteve associada a maior diversidade microbiana. Por outro lado, a ingestão de açúcares adicionados apresentou uma associação inversa com um indicador de diversidade do microbioma no período pós-operatório.
Também foram identificadas associações entre ingestão de gordura, hidratos de carbono e determinados grupos bacterianos.
Um resultado particularmente interessante foi a identificação da alteração da ingestão total de hidratos de carbono como um dos fatores que ajudaram a prever alterações na composição global do microbioma entre o período pré e pós-operatório.
A fibra alimentar pode ser especialmente importante
Entre os vários componentes estudados, a fibra merece atenção especial.
A fibra alimentar não é simplesmente um nutriente que passa pelo sistema digestivo sem ser utilizado. Diferentes tipos de fibra podem ser utilizados pelos microrganismos intestinais como substrato, originando metabólitos que podem participar na comunicação entre o intestino e o organismo.
Neste estudo, a ingestão de fibra solúvel e insolúvel esteve relacionada com várias vias funcionais dos microrganismos intestinais. O aumento da ingestão de fibra solúvel depois da cirurgia também esteve associado a alterações em vias relacionadas com o metabolismo de aminoácidos e com a degradação de determinados compostos.
Estes resultados são biologicamente interessantes, mas não significam que aumentar a fibra provoque necessariamente todas essas alterações. O desenho do estudo permite identificar associações, mas não demonstrar uma relação de causa e efeito.
E os hidratos de carbono?
Os hidratos de carbono tiveram igualmente um papel relevante nas análises.
O estudo identificou associações entre a quantidade de hidratos de carbono ingeridos e alterações na composição do microbioma. O índice glicémico da alimentação também esteve relacionado com determinados grupos bacterianos.
É importante, contudo, não interpretar estes resultados como uma defesa de dietas muito baixas em hidratos de carbono. O estudo não comparou diferentes dietas com o objetivo de determinar qual seria a melhor alimentação para a saúde intestinal.
O que mostra é que a quantidade e a qualidade dos hidratos de carbono podem fazer parte da complexa relação entre alimentação e microbioma.
A cirurgia bariátrica também altera o microbioma
Um dos pontos fundamentais para interpretar este estudo é que não estamos perante uma simples experiência alimentar.
A cirurgia bariátrica modifica profundamente a fisiologia digestiva, a quantidade de alimentos ingeridos, a velocidade do trânsito gastrointestinal, a absorção de nutrientes e vários sinais hormonais relacionados com o metabolismo.
Por isso, alterações no microbioma depois da cirurgia não podem ser atribuídas exclusivamente à alimentação.
Os próprios autores salientam que a cirurgia bariátrica pode alterar o microbioma independentemente das mudanças na dieta. Esta questão é particularmente importante porque, depois da intervenção, os participantes reduziram a ingestão de calorias e hidratos de carbono e aumentaram proporcionalmente a ingestão de gordura, proteína e fibra total.
O que significa isto para a saúde intestinal?
O estudo reforça uma ideia cada vez mais relevante: quando falamos de alimentação e saúde intestinal, provavelmente é demasiado simplista concentrarmo-nos apenas nas calorias.
A composição da alimentação pode influenciar o ambiente intestinal através da quantidade de fibra, açúcares adicionados, gordura, hidratos de carbono e outros componentes alimentares.
Uma alimentação com maior presença de vegetais, leguminosas, fruta, cereais integrais e outros alimentos ricos em fibra fornece diferentes substratos aos microrganismos intestinais. No entanto, o microbioma de cada pessoa é influenciado por muitos outros fatores, pelo que não existe atualmente uma dieta universal capaz de produzir um determinado perfil microbiano.
É possível usar o microbioma para personalizar a alimentação?
Esta é uma das áreas mais interessantes da investigação atual.
Se determinadas características do microbioma estiverem relacionadas com a resposta a diferentes alimentos, poderá no futuro ser possível desenvolver estratégias nutricionais mais individualizadas.
Mas este estudo ainda está muito longe de permitir esse tipo de aplicação clínica.
Os investigadores classificam o trabalho como gerador de hipóteses. A amostra é pequena, algumas análises são exploratórias e existem diferenças importantes entre os participantes e entre os tipos de cirurgia.
Além disso, algumas análises foram realizadas sem ajustar para fatores como idade, sexo ou tipo de cirurgia, devido ao reduzido número de participantes.
As principais limitações
O tamanho da amostra é provavelmente a principal limitação. Foram estudados apenas 29 adultos antes da cirurgia e 19 no período pós-operatório.
Existe também uma limitação importante relacionada com o desenho do estudo. Parte das análises é transversal, o que dificulta estabelecer uma sequência temporal clara entre alimentação e microbioma.
O período de avaliação pós-operatória também não foi exatamente igual para todos os participantes. Além disso, alterações na medicação e no uso de suplementos não foram completamente acompanhadas.
Finalmente, diferentes técnicas de cirurgia bariátrica foram analisadas em conjunto. Como o bypass gástrico e a gastrectomia vertical produzem alterações fisiológicas diferentes, este fator poderá influenciar o microbioma.
O que podemos retirar deste estudo?
Este trabalho não demonstra que uma determinada dieta seja capaz de “melhorar o microbioma” de forma garantida. O seu principal contributo é mostrar que diferentes componentes da alimentação estão associados a diferentes características da comunidade microbiana intestinal.
A fibra alimentar surge como um dos componentes mais interessantes, especialmente pela relação observada entre fibra solúvel, fibra insolúvel, diversidade microbiana e determinadas vias funcionais.
Também merece atenção a relação observada entre hidratos de carbono, índice glicémico, açúcares adicionados e composição bacteriana.
Para a prática diária, estes resultados são compatíveis com uma abordagem alimentar baseada em variedade e qualidade, em vez de procurar uma única proporção perfeita de proteínas, gorduras e hidratos de carbono.
O mais importante é que os resultados sejam interpretados como parte de uma área científica em desenvolvimento. Estudos maiores, prospetivos e com controlo mais rigoroso dos fatores clínicos serão necessários para determinar se estas associações podem futuramente ser transformadas em estratégias nutricionais personalizadas.
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Conclusão
A alimentação e o microbioma intestinal estão intimamente relacionados, mas essa relação é complexa e bidirecional. O estudo de 2026 em adultos submetidos a cirurgia bariátrica encontrou associações entre macronutrientes, especialmente fibra, hidratos de carbono e açúcares adicionados, e diferentes características do microbioma.
A fibra alimentar destacou-se pela associação com maior diversidade microbiana e com várias vias funcionais relacionadas com o metabolismo de nutrientes. Ainda assim, não é possível concluir que estas alterações sejam causadas diretamente pela dieta.
O verdadeiro interesse deste trabalho está em mostrar como a investigação do microbioma poderá, no futuro, ajudar a compreender melhor a resposta individual à alimentação. Para já, a evidência apoia uma visão mais ampla: qualidade da dieta, variedade alimentar e ingestão adequada de alimentos ricos em fibra são provavelmente mais relevantes do que procurar uma fórmula nutricional única baseada apenas nos macronutrientes.
Referências
- Lande SJ, Stephney LM, Gonzalez Ramirez LA, et al. Dietary macronutrient intake and the gut microbiome in adults undergoing bariatric surgery. European Journal of Clinical Nutrition. 2026.
- Artigo original – European Journal of Clinical Nutrition
- DOI: 10.1038/s41430-026-01800-8