Arroz, pão e massa podem aumentar o risco de fibrilhação auricular?

Arroz, pão e massa podem aumentar o risco de fibrilhação auricular? September 4, 2026Leave a comment

Um estudo prospetivo japonês publicado em 24 de agosto de 2026 analisou a relação entre o consumo de hidratos de carbono, arroz, massa e pão e o risco de desenvolver fibrilhação auricular. Os resultados não mostram que arroz, pão ou massa aumentem diretamente esse risco.

A alimentação é cada vez mais estudada na prevenção das doenças cardiovasculares. Mas quando falamos de fibrilhação auricular, uma das arritmias cardíacas mais frequentes, ainda existem muitas perguntas sem resposta.

Será que a quantidade de hidratos de carbono que consumimos pode influenciar o risco de desenvolver fibrilhação auricular?

E será que alimentos comuns como arroz, pão ou massa podem ter alguma influência?

Um novo estudo realizado no Japão procurou responder a estas questões através do acompanhamento de milhares de adultos durante mais de uma década.

Os resultados são interessantes, mas também mostram como é importante distinguir entre hidratos de carbono em geral e os alimentos específicos que os fornecem.

O que é a fibrilhação auricular?

A fibrilhação auricular é uma alteração do ritmo cardíaco caracterizada por uma atividade elétrica irregular das aurículas, as duas câmaras superiores do coração.

Em vez de as aurículas contraírem de forma coordenada, a atividade elétrica torna-se desorganizada.

O resultado pode ser um ritmo cardíaco irregular e, em algumas pessoas, uma frequência cardíaca elevada.

A fibrilhação auricular é importante porque está associada a um maior risco de acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e outras complicações cardiovasculares.

O risco não depende apenas da alimentação.

Idade, hipertensão arterial, excesso de peso, diabetes, consumo de álcool, sedentarismo e outras doenças cardiovasculares também podem contribuir para o desenvolvimento da arritmia.

Por isso, a alimentação deve ser encarada como apenas uma das peças do puzzle.

O novo estudo japonês

O estudo foi publicado em 24 de agosto de 2026 na revista BMJ Open. Trata-se de um estudo de coorte prospetivo, baseado na população japonesa da Suita Study.

Os investigadores analisaram 5.229 adultos, com idade média de 56,9 anos. Cerca de 46,5% eram homens.

Os participantes preencheram um questionário de frequência alimentar, que permitiu estimar o consumo de diferentes nutrientes e alimentos.

Foram avaliados:

  • hidratos de carbono totais;
  • hidratos de carbono simples;
  • hidratos de carbono complexos;
  • arroz;
  • massa;
  • pão.

Os participantes foram depois acompanhados durante uma média de 13,1 anos.

Durante esse período, 226 pessoas desenvolveram fibrilhação auricular. No total, foram acumulados 68.668 pessoas-ano de acompanhamento.

O que aconteceu nos homens?

Foi nos homens que surgiu o resultado mais interessante.

Os investigadores encontraram uma associação entre uma maior ingestão de hidratos de carbono totais e um maior risco de fibrilhação auricular.

Quando compararam o grupo de homens com maior consumo de hidratos de carbono com o grupo com menor consumo, o risco relativo estimado foi de 2,51, depois dos ajustamentos utilizados no modelo final.

Isto significa que, nesse modelo estatístico, os homens no grupo de maior ingestão apresentaram uma incidência de fibrilhação auricular aproximadamente 2,5 vezes superior à do grupo de menor ingestão.

Mas há uma ressalva muito importante.

Isto não significa que comer mais hidratos de carbono provoque fibrilhação auricular.

O estudo é observacional. Os investigadores observaram o que as pessoas consumiam e acompanharam o que aconteceu posteriormente.

Não distribuíram aleatoriamente dietas diferentes aos participantes.

Portanto, não é possível afirmar uma relação direta de causa e efeito.

E os hidratos de carbono simples?

O resultado foi ainda mais evidente quando os investigadores analisaram especificamente os hidratos de carbono simples.

Nos homens, o grupo com maior consumo apresentou uma associação com maior risco de fibrilhação auricular.

No modelo final, o risco relativo estimado foi de 3,29 quando comparado o grupo de maior consumo com o de menor consumo.

Os hidratos de carbono simples incluem açúcares constituídos por moléculas simples ou pequenas combinações de açúcares, estando presentes naturalmente em alguns alimentos e também em muitos produtos alimentares com açúcares adicionados.

Aqui é importante não interpretar o resultado como “todos os hidratos de carbono simples são perigosos”.

Uma fruta, por exemplo, contém açúcares naturais, mas também fornece fibra, água, vitaminas e outros compostos bioativos.

O contexto alimentar é fundamental.

E os hidratos de carbono complexos?

A situação foi diferente para os hidratos de carbono complexos.

Os investigadores não encontraram uma associação significativa entre o consumo de hidratos de carbono complexos e o risco de fibrilhação auricular nos homens.

Nas mulheres, também não foram encontradas associações significativas consistentes entre hidratos de carbono totais, simples ou complexos e o risco de fibrilhação auricular no modelo final.

Esta diferença entre homens e mulheres é uma das questões que necessita de investigação adicional.

Então o arroz aumenta o risco?

Não foi isso que o estudo encontrou.

Esta é talvez a informação mais importante para quem lê o título da investigação.

Os investigadores analisaram especificamente o consumo de arroz, massa e pão.

Não encontraram uma associação estatisticamente significativa entre o consumo destes alimentos e o risco de fibrilhação auricular, nem nos homens nem nas mulheres.

Portanto, não é correto concluir que:

“Comer arroz aumenta o risco de fibrilhação auricular.”

O estudo não demonstrou isso.

O mesmo se aplica ao pão e à massa.

E o pão?

O pão também não apresentou uma associação significativa com o risco de fibrilhação auricular.

Isto é importante porque o pão pode representar fontes bastante diferentes de hidratos de carbono.

Um pão integral rico em fibra não é nutricionalmente equivalente a um produto refinado com pouca fibra e elevado teor de sal ou açúcar.

Por isso, mesmo quando um estudo encontra uma associação entre uma determinada quantidade de hidratos de carbono e um resultado de saúde, não podemos necessariamente atribuir esse efeito a um único alimento.

E a massa?

Também não foi observada uma associação significativa entre o consumo de massa e o risco de fibrilhação auricular.

Mais uma vez, isto reforça uma ideia importante: não devemos transformar um estudo sobre a quantidade e o tipo de hidratos de carbono numa lista de alimentos proibidos.

A massa pode ser consumida de formas muito diferentes.

Uma refeição composta por massa integral, vegetais, azeite e uma fonte adequada de proteína é nutricionalmente muito diferente de uma refeição baseada em massa refinada acompanhada de molhos muito ricos em gordura, sal e calorias.

O padrão alimentar completo importa.

Porque é que os resultados mudaram depois dos ajustamentos?

Este é um dos aspetos mais interessantes do estudo.

Os investigadores utilizaram diferentes modelos estatísticos.

Nos homens, a associação entre hidratos de carbono totais e fibrilhação auricular tornou-se significativa depois de ajustarem para alguns fatores alimentares, incluindo gordura, proteína e sal.

Mas quando foram acrescentadas outras características da alimentação — incluindo vegetais, fruta, bebidas açucaradas e doces e snacks — a associação manteve-se estatisticamente significativa no modelo final.

Já nas mulheres, algumas associações inicialmente observadas desapareceram depois dos ajustamentos.

Isto mostra como os resultados de estudos nutricionais podem ser extremamente complexos.

As pessoas não consomem nutrientes isolados.

Quem come mais hidratos de carbono pode simultaneamente comer menos gordura ou proteína.

Pode também consumir mais fruta e vegetais ou, pelo contrário, consumir mais produtos açucarados.

Por isso, tentar determinar o efeito de um único nutriente é difícil.

Porque é que os resultados são diferentes de estudos anteriores?

Os autores destacam que investigações anteriores realizadas nos Estados Unidos e na Europa chegaram a resultados diferentes.

Por exemplo, estudos anteriores encontraram associações entre ingestão de hidratos de carbono e fibrilhação auricular que não coincidem completamente com os resultados desta população japonesa.

Uma das explicações possíveis poderá estar relacionada com o tipo de alimentos que fornece os hidratos de carbono.

Os padrões alimentares variam significativamente entre países.

No Japão, o arroz é uma fonte tradicional importante de hidratos de carbono, enquanto em muitos países ocidentais existe maior consumo de trigo, pão e outros cereais.

Também existem diferenças no consumo de peixe, vegetais, bebidas alcoólicas, alimentos processados e outros componentes da alimentação.

Por isso, não é possível assumir que o resultado observado no Japão será necessariamente igual em Portugal.

Os hidratos de carbono devem ser eliminados?

Não.

Os hidratos de carbono são um dos três principais macronutrientes e podem fazer parte de uma alimentação saudável.

O problema está em reduzir a questão a “hidratos de carbono bons” e “hidratos de carbono maus”.

É mais útil avaliar:

  • a quantidade total;
  • a qualidade dos alimentos;
  • a quantidade de fibra;
  • o grau de processamento;
  • os açúcares adicionados;
  • o tamanho das porções;
  • o equilíbrio com proteína e gordura;
  • o padrão alimentar global.

Uma alimentação saudável não precisa de eliminar arroz, pão ou massa.

Pode, por exemplo, privilegiar versões integrais e combinar estes alimentos com vegetais, leguminosas, peixe, ovos ou outras fontes adequadas de proteína.

E os açúcares adicionados?

O resultado relacionado com hidratos de carbono simples merece atenção, sobretudo porque muitos alimentos ultraprocessados apresentam grandes quantidades de açúcares adicionados.

Bebidas açucaradas, doces, bolachas, sobremesas e determinados snacks podem contribuir para uma ingestão elevada de açúcar e calorias.

Uma ingestão excessiva e habitual destes produtos pode contribuir para ganho de peso, resistência à insulina e alterações metabólicas, fatores que podem estar relacionados com o risco cardiovascular.

Por isso, mesmo que este estudo não prove que o açúcar provoque fibrilhação auricular, reduzir o consumo excessivo de açúcares adicionados continua a ser uma estratégia sensata para a saúde metabólica e cardiovascular.

O peso corporal também importa

O excesso de peso é um dos fatores associados ao desenvolvimento e progressão da fibrilhação auricular.

O tecido adiposo, particularmente quando existe excesso de gordura abdominal, pode estar associado a inflamação, alterações metabólicas e alterações estruturais do coração.

Assim, uma alimentação que ajude a manter uma composição corporal saudável pode ter importância indireta na prevenção da fibrilhação auricular.

Neste contexto, não é necessário demonizar o arroz, pão ou massa.

É mais importante avaliar a quantidade total de energia, a qualidade dos alimentos e o padrão alimentar.

O exercício também tem um papel importante

A alimentação é apenas uma parte da prevenção cardiovascular.

A prática regular de exercício pode contribuir para melhorar a capacidade cardiorrespiratória, controlar o peso, melhorar a sensibilidade à insulina e ajudar a controlar a pressão arterial.

O treino de força também é importante, particularmente com o envelhecimento, porque ajuda a preservar massa muscular e função física.

No entanto, em pessoas com fibrilhação auricular conhecida, o programa de exercício deve ser adaptado à situação clínica individual e, quando necessário, acompanhado por profissionais de saúde.

O estudo tem limitações

Como qualquer investigação científica, este trabalho apresenta limitações.

Primeiro, trata-se de uma coorte observacional, pelo que não permite provar causalidade.

Além disso, o consumo alimentar foi estimado através de um questionário de frequência alimentar, que pode apresentar erros de memória e não consegue representar perfeitamente toda a alimentação de uma pessoa ao longo de mais de uma década.

Os investigadores também não utilizaram monitorização Holter contínua em todos os participantes. Alguns casos de fibrilhação auricular paroxística poderão, portanto, não ter sido detetados.

Finalmente, trata-se de uma população urbana japonesa, pelo que os resultados não podem ser automaticamente generalizados para todas as populações. Os próprios autores defendem a necessidade de confirmação noutras populações.

O que podemos retirar deste estudo?

A mensagem não deve ser “deixe de comer arroz, pão e massa”.

Na realidade, o estudo encontrou ausência de associação significativa entre estes três alimentos e fibrilhação auricular.

O resultado que merece investigação adicional é a associação observada entre maior ingestão de hidratos de carbono totais e, sobretudo, hidratos de carbono simples, e maior risco de fibrilhação auricular nos homens.

Mesmo neste caso, não sabemos se os hidratos de carbono foram diretamente responsáveis pela associação.

É possível que outros componentes do padrão alimentar ou características dos participantes tenham contribuído para os resultados.

Como tornar a alimentação mais favorável ao coração?

Em vez de eliminar grupos alimentares inteiros, uma abordagem mais equilibrada passa por melhorar a qualidade da alimentação.

Pode ser útil:

Privilegiar alimentos pouco processados, como vegetais, fruta, leguminosas, cereais integrais, peixe e frutos secos, de acordo com as necessidades individuais.

Reduzir bebidas açucaradas e excesso de doces, diminuindo a ingestão de açúcares adicionados.

Escolher cereais integrais com maior frequência, quando são bem tolerados e adequados às necessidades da pessoa.

Controlar o excesso de sal, especialmente porque a hipertensão arterial é um importante fator de risco cardiovascular.

Manter um peso saudável, evitando tanto o excesso de gordura corporal como dietas excessivamente restritivas.

Praticar exercício regularmente, combinando atividade aeróbia e treino de força de acordo com a condição individual.

Conclusão

Um estudo de coorte prospetivo japonês, publicado em 24 de agosto de 2026, acompanhou 5.229 adultos durante uma média de 13,1 anos e analisou a relação entre hidratos de carbono, arroz, massa, pão e desenvolvimento de fibrilhação auricular. Durante o acompanhamento, 226 participantes desenvolveram a arritmia.

Nos homens, uma maior ingestão de hidratos de carbono totais e simples esteve associada a maior risco de fibrilhação auricular no modelo final. No entanto, não foi encontrada uma associação significativa entre o consumo de arroz, massa ou pão e o risco de fibrilhação auricular. Nas mulheres, os resultados foram inconclusivos e não demonstraram associações significativas no modelo final.

Assim, a resposta à pergunta “Arroz, pão e massa podem aumentar o risco de fibrilhação auricular?” é, com base neste estudo, não há evidência de que estes alimentos, isoladamente, aumentem esse risco.

Mais importante do que eliminar o arroz, o pão ou a massa é olhar para o padrão alimentar completo, privilegiando alimentos pouco processados, fibra, vegetais, fruta e fontes adequadas de proteína, enquanto se limita o excesso de açúcar, sal e alimentos ultraprocessados.

E, como este estudo é observacional, são necessárias mais investigações para perceber se a quantidade e o tipo de hidratos de carbono têm realmente um papel causal no desenvolvimento da fibrilhação auricular.

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Links das fontes

Estudo original — BMJ Open, publicado em 24 de agosto de 2026:
Association of carbohydrate, rice, noodle and bread consumption and atrial fibrillation risk in a Japanese urban population

Resumo do estudo no PubMed:
PubMed — Carbohydrate, rice, noodle, bread consumption and atrial fibrillation

Versão visual do estudo:
JoVE Visualize — Association of carbohydrate, rice, noodle and bread consumption and atrial fibrillation risk