Artrose do joelho: treino de força ou restrição do fluxo sanguíneo?

Artrose do joelho: treino de força ou restrição do fluxo sanguíneo? October 15, 2026Leave a comment

A artrose do joelho é uma das condições que mais pode dificultar a prática de exercício físico, sobretudo a partir dos 40 anos. A dor, a rigidez e a perda de força podem tornar tarefas simples, como subir escadas, levantar de uma cadeira ou caminhar durante períodos prolongados, mais exigentes. Mas será necessário evitar o treino de força quando o joelho dói? Um estudo publicado em outubro de 2026 analisou uma alternativa interessante: a restrição do fluxo sanguíneo aplicada sem exercício, comparando-a com o treino de resistência de intensidade moderada.

Os resultados ajudam a perceber melhor as possibilidades e os limites destas abordagens. Embora todas tenham produzido melhorias ao longo de oito semanas, o treino de resistência convencional foi superior para aumentar a força do quadricípite. Por outro lado, a restrição do fluxo sanguíneo a uma pressão mais elevada apresentou melhores resultados numa medida de capacidade funcional dos membros inferiores.

O que é a artrose do joelho e porque é importante preservar a força muscular?

A artrose do joelho é uma condição articular caracterizada por alterações progressivas nas estruturas da articulação, incluindo a cartilagem, o osso subcondral e a membrana sinovial. Pode manifestar-se através de dor, rigidez e dificuldade em realizar movimentos que anteriormente eram simples.

Um dos problemas associados à artrose é a redução da força muscular, particularmente do quadricípite, o grupo muscular situado na parte anterior da coxa. Este músculo desempenha um papel fundamental na extensão do joelho, na marcha, na subida de escadas e na capacidade de nos levantarmos de uma cadeira.

Quando a dor leva uma pessoa a reduzir a atividade física, pode instalar-se um ciclo difícil de interromper: menos movimento, perda de força, menor capacidade funcional e maior dificuldade em realizar as tarefas diárias.

É por isso que o exercício terapêutico e o treino de força assumem um papel importante na gestão da artrose. O objetivo não é simplesmente fortalecer os músculos, mas melhorar a capacidade de realizar atividades quotidianas, respeitando a tolerância individual e a condição clínica de cada pessoa.

Como foi realizado o estudo?

O ensaio clínico aleatorizado incluiu 75 pessoas com artrose do joelho, com idades compreendidas entre os 45 e os 60 anos. Os participantes foram distribuídos por três grupos, que realizaram intervenções diferentes durante oito semanas.

  • Treino de resistência de intensidade moderada: os participantes realizaram exercícios de força para os membros inferiores, incluindo prensa de pernas, extensão do joelho, flexão do joelho e trabalho dos gémeos.
  • Restrição passiva do fluxo sanguíneo a 50%: foi aplicada uma braçadeira na coxa para restringir parcialmente o fluxo sanguíneo, sem os participantes realizarem exercício durante a aplicação.
  • Restrição passiva do fluxo sanguíneo a 70%: foi utilizado o mesmo princípio, mas com uma pressão relativa superior, individualizada de acordo com a pressão necessária para ocluir o fluxo sanguíneo no membro.

As três intervenções decorreram em 16 sessões supervisionadas, duas vezes por semana. No grupo de treino de força, foram realizados três conjuntos de 12 repetições por exercício, utilizando uma carga correspondente a 60% da força máxima estimada.

Os investigadores avaliaram a força do quadricípite, a intensidade da dor, a mobilidade, a capacidade funcional dos membros inferiores, o impacto da artrose e a perceção global de melhoria. As avaliações foram realizadas no início, após quatro semanas e no final das oito semanas.

Treino de força: a melhor opção para aumentar a força do quadricípite

Um dos resultados mais relevantes foi a superioridade do treino de resistência de intensidade moderada no aumento da força do quadricípite. No final das oito semanas, este grupo apresentou resultados superiores aos dois grupos que receberam apenas a intervenção passiva de restrição do fluxo sanguíneo.

Esta diferença é importante porque demonstra que a restrição do fluxo sanguíneo, quando aplicada sem exercício, não substituiu o estímulo muscular proporcionado pelo treino de força neste estudo.

O treino convencional exige que os músculos produzam força contra uma resistência. Esta contração muscular constitui um estímulo direto para melhorar a capacidade de produzir força e realizar tarefas funcionais.

Na prática, isto não significa que todas as pessoas com artrose devam utilizar cargas elevadas ou treinar com dor. A intensidade, a amplitude do movimento, o número de repetições e a escolha dos exercícios devem ser adaptados à condição do joelho e à capacidade da pessoa.

Em muitos casos, é possível começar com exercícios mais simples, amplitudes confortáveis e cargas reduzidas, aumentando progressivamente a exigência à medida que a tolerância melhora.

Restrição do fluxo sanguíneo: uma alternativa para quem tolera mal o exercício?

A restrição do fluxo sanguíneo, frequentemente identificada pela sigla inglesa BFR, consiste na utilização de uma braçadeira que limita parcialmente a entrada de sangue arterial e restringe de forma mais acentuada o retorno venoso.

Esta técnica tem sido estudada como complemento ao treino de baixa carga, procurando estimular adaptações musculares sem exigir as mesmas cargas externas utilizadas no treino de força convencional.

No entanto, é importante distinguir duas abordagens: a restrição do fluxo sanguíneo combinada com exercício e a aplicação passiva, em que a pessoa permanece em repouso durante os períodos de restrição. O estudo em análise investigou especificamente a segunda abordagem.

Esta distinção é fundamental. Os resultados obtidos com a restrição passiva não podem ser automaticamente extrapolados para protocolos que combinam a técnica com exercícios de força.

Na aplicação passiva, os investigadores utilizaram ciclos de cinco minutos de restrição, intercalados com períodos de três minutos de reperfusão. A pressão foi individualizada e reavaliada durante o programa.

Porque é que a pressão mais elevada apresentou melhores resultados funcionais?

O grupo submetido à restrição passiva a 70% da pressão de oclusão apresentou a maior melhoria na capacidade funcional dos membros inferiores, medida através de um questionário que avalia tarefas como caminhar, subir escadas e correr.

No final do estudo, os resultados desta medida foram superiores aos observados tanto no grupo de treino de resistência como no grupo submetido a 50% da pressão de oclusão.

Este resultado sugere que a pressão utilizada pode influenciar a resposta à intervenção. Contudo, não demonstra que uma pressão mais elevada seja sempre melhor, nem que possa ser aplicada indiscriminadamente a qualquer pessoa.

A pressão de oclusão depende de características individuais, incluindo as dimensões do membro e a resposta vascular. Por esse motivo, os valores utilizados no estudo não devem ser reproduzidos através de uma braçadeira convencional ou de um dispositivo sem controlo adequado.

Além disso, a melhoria numa escala de capacidade funcional não significa necessariamente que todos os participantes tenham passado a caminhar melhor ou a sentir menos dor na mesma proporção. Os resultados de um questionário devem ser interpretados em conjunto com outras medidas clínicas e funcionais.

A restrição do fluxo sanguíneo reduziu mais a dor?

Os três grupos apresentaram uma redução da dor ao longo das oito semanas. No entanto, os investigadores não identificaram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos para esta variável.

Este pormenor merece atenção. Embora os participantes tenham melhorado, não é possível concluir que a restrição passiva do fluxo sanguíneo tenha sido superior ao treino de força no controlo da dor.

O mesmo cuidado se aplica à mobilidade funcional medida através de um teste prático que envolve levantar-se de uma cadeira, caminhar, virar e voltar a sentar-se. Também neste resultado não foram observadas diferenças significativas entre as intervenções.

Assim, os dados apontam para vantagens diferentes consoante o resultado avaliado. O treino de força destacou-se no desenvolvimento da força muscular, enquanto a restrição a 70% apresentou resultados mais favoráveis numa medida de capacidade funcional autorreportada.

Como aplicar estes resultados ao treino depois dos 40 anos?

Para quem trabalha com adultos que apresentam dor no joelho, a principal mensagem deste estudo não é substituir o treino de força por uma técnica alternativa. É compreender que a intervenção deve ser ajustada à capacidade da pessoa e que existem diferentes opções quando o exercício convencional é difícil de tolerar.

Quando o treino é possível, pode fazer sentido começar com exercícios que permitam controlar a carga e a amplitude articular. A prensa de pernas, a extensão do joelho e outros exercícios adaptados podem integrar um programa progressivo, desde que sejam adequados à avaliação individual.

É também importante observar a resposta durante a sessão e nas horas seguintes. A carga deve ser ajustada quando existe agravamento persistente dos sintomas, aumento significativo do inchaço ou redução da capacidade funcional.

Quando a dor impede a realização de exercício, a prioridade é avaliar a causa e identificar estratégias seguras para recuperar gradualmente a tolerância ao movimento. A restrição do fluxo sanguíneo pode ser considerada em determinados contextos clínicos, mas este estudo não demonstra que a aplicação passiva deva substituir a reabilitação ativa.

A técnica exige formação específica, equipamento apropriado e avaliação de contraindicações. Neste ensaio foram excluídas pessoas com determinadas condições, incluindo hipertensão, doença cardiovascular, problemas vasculares e antecedentes de tromboembolismo. Estes critérios reforçam a importância de uma avaliação profissional antes de considerar a sua utilização.

Limitações do estudo

Apesar de ser um ensaio clínico aleatorizado, os resultados devem ser interpretados com prudência. A amostra foi relativamente pequena, com 75 participantes, e a intervenção durou apenas oito semanas.

Os participantes tinham entre 45 e 60 anos e apresentavam determinados graus de artrose do joelho. Por isso, os resultados não podem ser generalizados automaticamente a pessoas mais velhas, a casos mais graves ou a pessoas com outras doenças associadas.

Outra limitação é o facto de a intervenção passiva não incluir exercício durante a restrição do fluxo sanguíneo. Os resultados não permitem determinar se a combinação de restrição com treino de baixa carga teria efeitos diferentes.

Serão necessários estudos com amostras maiores, períodos de acompanhamento mais longos e comparação entre diferentes protocolos para esclarecer melhor quais as pessoas que podem beneficiar desta técnica e em que circunstâncias.

Conclusão: o treino de força continua a ter um papel central

Este estudo mostra que existem alternativas em investigação para pessoas com artrose do joelho que têm dificuldade em tolerar o exercício convencional. Ainda assim, o treino de resistência de intensidade moderada foi a intervenção que mais aumentou a força do quadricípite.

A restrição passiva do fluxo sanguíneo a 70% da pressão de oclusão apresentou resultados promissores numa medida de capacidade funcional, sem exigir esforço físico durante a aplicação. No entanto, não foi superior ao treino de força na redução da dor ou na mobilidade medida através de um teste prático.

Na minha perspetiva, a mensagem mais útil é evitar soluções universais. A artrose não significa que uma pessoa tenha de deixar de treinar, mas também não justifica insistir num exercício que agrava persistentemente os sintomas. O objetivo deve ser encontrar uma forma de movimento tolerável, progressiva e adequada à situação individual.

Preservar a força muscular, manter a autonomia e melhorar a capacidade de realizar tarefas diárias são objetivos centrais. Sempre que possível, o exercício deve continuar a fazer parte da estratégia, com a seleção e a progressão ajustadas à resposta de cada pessoa.

Posso ajudar

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Referências

  • Tahoon AM, El Gamal FFG, Metawee SM, Khaled N, Abdelkader NA. Blood flow restriction with different loads versus moderate intensity resistive exercises in patients with knee osteoarthritis: a single-blind randomized controlled trial. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation. 2026;18:473. https://doi.org/10.1186/s13102-026-02068-y

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