Quais são os maiores riscos para a saúde humana nas próximas décadas? Uma nova análise publicada na revista The Lancet procura responder a esta questão, avaliando ameaças que vão desde a obesidade e a saúde mental até às alterações climáticas, à resistência aos antibióticos, aos conflitos nucleares e à utilização maliciosa da inteligência artificial.
A Comissão da The Lancet sobre as ameaças globais à saúde no século XXI analisou dados de 204 países e territórios e identificou 17 ameaças com potencial para provocar perdas muito significativas de saúde até 2100. O trabalho, liderado por Christopher J. L. Murray e Natalia Kanem, procura ajudar os responsáveis políticos a perceber onde a prevenção, a inovação e o investimento podem fazer maior diferença.
Uma das conclusões mais interessantes é que as ameaças com maior potencial para captar a atenção pública nem sempre são aquelas que poderão provocar a maior perda acumulada de anos de vida saudável. A obesidade, a educação e a desigualdade económica surgem entre os fatores com maior potencial de impacto evitável.
Como foram identificadas as 17 ameaças à saúde?
Os investigadores avaliaram centenas de possíveis ameaças e selecionaram 17 que cumprem critérios relacionados com a dimensão potencial do problema, a disponibilidade de dados para construir projeções e a possibilidade de intervir através de políticas públicas, financiamento ou inovação.
A análise abrange o período entre 2025 e 2100 e considera diferentes cenários futuros. Em vez de assumir que o futuro seguirá inevitavelmente uma trajetória específica, os investigadores procuraram estimar a diferença entre cenários mais favoráveis e menos favoráveis.
Para comparar problemas muito diferentes, utilizaram os anos de vida ajustados por incapacidade, conhecidos pela sigla inglesa DALY. Este indicador combina os anos perdidos por morte prematura com os anos vividos com doença ou incapacidade.
As estimativas representam perdas de saúde potencialmente evitáveis através de intervenções adequadas. Não correspondem a previsões certas do número de mortes que ocorrerão, nem significam que todas as ameaças tenham a mesma probabilidade de acontecer.
Quais são as 17 ameaças globais à saúde?
A comissão identificou ameaças de natureza muito diferente, que podem ser agrupadas em vários domínios:
- Doenças crónicas e comportamentos: obesidade, tabagismo, hipertensão arterial, consumo elevado de álcool, problemas de saúde mental e envelhecimento com problemas de saúde.
- Ambiente e infeções: alterações climáticas, poluição atmosférica, resistência aos antimicrobianos, pandemias naturais e desnutrição infantil.
- Condições sociais e económicas: desigualdade de rendimentos, baixo nível de escolaridade e redução ou colapso da ajuda internacional ao desenvolvimento na área da saúde.
- Conflitos e riscos tecnológicos: conflitos convencionais, conflitos nucleares e utilização maliciosa da inteligência artificial.
Esta classificação mostra que a saúde pública não depende exclusivamente dos hospitais, dos medicamentos ou dos comportamentos individuais. Também é influenciada pela educação, pela economia, pela segurança internacional, pela qualidade do ambiente e pelas decisões políticas.
A obesidade destaca-se entre os maiores problemas evitáveis
Um dos resultados mais relevantes da comissão diz respeito à obesidade. Os investigadores estimaram que a diferença entre cenários mais e menos favoráveis poderia representar 23,1 mil milhões de anos de vida ajustados por incapacidade potencialmente evitáveis até 2100.
Esta estimativa não significa que todas estas perdas irão acontecer. Representa a dimensão do benefício potencial associado a uma evolução mais favorável da obesidade e dos fatores que lhe estão associados.
A obesidade resulta de uma interação complexa entre alimentação, atividade física, sono, ambiente, predisposição genética, medicamentos e condições socioeconómicas. Por isso, a prevenção não deve ser reduzida a uma questão de força de vontade individual.
O acesso a alimentos nutritivos, a disponibilidade de espaços seguros para caminhar, as condições de trabalho, a publicidade alimentar e a possibilidade de praticar atividade física influenciam os comportamentos ao longo da vida.
Na prática, promover uma alimentação equilibrada, aumentar a atividade física, reduzir o sedentarismo e melhorar o acesso à prevenção e ao tratamento da obesidade são medidas importantes. Estas intervenções devem ser acompanhadas por políticas que tornem as escolhas saudáveis mais acessíveis.
Educação e desigualdade também são questões de saúde
A comissão estimou que melhorar os níveis de escolaridade poderia evitar 16,1 mil milhões de anos de vida ajustados por incapacidade até 2100. Para a desigualdade de rendimentos, a estimativa correspondente foi de 13,8 mil milhões.
Estes resultados ajudam a compreender por que motivo a educação e as condições económicas são determinantes da saúde. A escolaridade pode facilitar o acesso a informação, melhorar as oportunidades profissionais e aumentar a capacidade de compreender e utilizar os serviços de saúde.
Por sua vez, a desigualdade económica pode limitar o acesso a alimentação adequada, habitação segura, cuidados preventivos e tratamentos. Pessoas que vivem em condições desfavoráveis estão frequentemente expostas a vários fatores de risco ao mesmo tempo.
É importante não interpretar estas estimativas como prova de que uma única intervenção educativa ou económica produzirá automaticamente os benefícios calculados. Os resultados dependem de políticas concretas, da sua implementação e das condições de cada país.
Inteligência artificial e conflitos nucleares: riscos menos frequentes, mas potencialmente catastróficos
Entre as ameaças identificadas, duas destacam-se pelo seu potencial para colocar em risco a própria sobrevivência humana: os conflitos nucleares e a utilização maliciosa da inteligência artificial.
Os conflitos nucleares podem provocar mortes imediatas em grande escala, destruir infraestruturas essenciais e desencadear consequências ambientais e alimentares que ultrapassam largamente as regiões diretamente atingidas.
A utilização maliciosa da inteligência artificial levanta preocupações relacionadas com a criação ou utilização de agentes biológicos perigosos, a amplificação de ameaças e outras formas de utilização de tecnologias avançadas para causar danos.
A comissão estimou que a redução dos riscos associados à utilização maliciosa da inteligência artificial poderia evitar 10,4 mil milhões de anos de vida ajustados por incapacidade. Para os conflitos nucleares, a estimativa foi de 9,35 mil milhões, considerando também consequências como a fome nuclear.
Estas projeções não significam que tais catástrofes sejam inevitáveis ou que a sua probabilidade seja elevada. Demonstram antes que, mesmo quando a probabilidade é incerta, as consequências potenciais justificam medidas de prevenção, cooperação internacional e mecanismos de controlo.
Alterações climáticas, poluição e resistência aos antibióticos
As alterações climáticas e a poluição atmosférica continuam a representar ameaças importantes para a saúde. O calor extremo, a deterioração da qualidade do ar e as alterações ambientais podem agravar doenças cardiovasculares e respiratórias, aumentar a vulnerabilidade de determinados grupos e comprometer os sistemas de produção alimentar.
A comissão estimou que limitar o aquecimento global a uma trajetória mais favorável poderia evitar cerca de 1,89 mil milhões de anos de vida ajustados por incapacidade no período analisado. Este valor não abrange necessariamente todas as consequências possíveis das alterações climáticas, incluindo alguns efeitos indiretos difíceis de quantificar.
Outra ameaça é a resistência aos antimicrobianos. Quando bactérias e outros microrganismos deixam de responder aos medicamentos habitualmente utilizados, infeções comuns podem tornar-se mais difíceis de tratar.
O uso adequado de antibióticos, a prevenção de infeções, a vacinação, a vigilância epidemiológica e o desenvolvimento de novos tratamentos são componentes essenciais da resposta. A resistência antimicrobiana exige uma abordagem integrada, envolvendo a saúde humana, a saúde animal e o ambiente.
Saúde mental, tabagismo e hipertensão arterial continuam a ser prioritários
A comissão inclui também problemas de saúde mental, tabagismo e hipertensão arterial entre as principais ameaças à saúde global.
Os problemas de saúde mental podem comprometer a qualidade de vida, as relações sociais e a capacidade de trabalhar ou estudar. O acesso atempado a cuidados de saúde mental, a prevenção e a redução do estigma são importantes para diminuir a carga da doença.
O tabagismo continua associado a doenças cardiovasculares, respiratórias e vários tipos de cancro. A redução do consumo de tabaco depende de medidas de prevenção, apoio à cessação e políticas que diminuam a exposição e a iniciação do consumo.
A hipertensão arterial é outro fator de risco relevante, porque pode permanecer sem sintomas durante muitos anos. A medição regular da pressão arterial, o tratamento quando indicado e a adoção de hábitos de vida saudáveis podem reduzir o risco de complicações cardiovasculares.
O envelhecimento com problemas de saúde e a desnutrição infantil completam parte deste quadro. Os seus efeitos são diferentes, mas ambos mostram a importância de intervenções adequadas às várias fases da vida.
O que recomendam os investigadores?
A comissão apresenta três orientações gerais para reduzir as ameaças identificadas.
A primeira consiste em construir sistemas de saúde preparados para enfrentar crises, com capacidade de prevenção, vigilância, resposta e continuidade dos cuidados. A segunda é acelerar o investimento em inovação, incluindo novas tecnologias e intervenções capazes de reduzir riscos conhecidos. A terceira passa por melhorar a monitorização das ameaças emergentes, permitindo atualizar as avaliações à medida que surgem novos dados.
Estas medidas exigem cooperação entre governos, instituições científicas, profissionais de saúde, organizações internacionais e setor privado. As ameaças estão interligadas e, por isso, dificilmente serão resolvidas através de políticas isoladas.
O que significa este estudo para a saúde em Portugal?
Embora a análise seja global, várias das ameaças identificadas são relevantes para Portugal, incluindo a obesidade, o tabagismo, a hipertensão arterial, os problemas de saúde mental, o envelhecimento e as alterações climáticas.
As prioridades concretas devem, contudo, ser definidas com base nos dados nacionais e nas necessidades da população. Uma estimativa global não substitui a avaliação da prevalência dos fatores de risco, da capacidade dos serviços de saúde e das desigualdades existentes no país.
Na minha perspetiva, uma das mensagens mais importantes é que a prevenção não pode depender apenas das decisões individuais. A atividade física, a alimentação equilibrada e o abandono do tabaco são relevantes, mas o acesso a cuidados de saúde, a educação, o ambiente e as condições socioeconómicas também influenciam os resultados.
Conclusão: a saúde do futuro depende das decisões tomadas hoje
A Comissão da The Lancet sobre as ameaças globais à saúde no século XXI apresenta uma visão abrangente dos riscos que podem comprometer a saúde humana até 2100. Entre as 17 ameaças identificadas encontram-se a obesidade, a baixa escolaridade, a desigualdade económica, os conflitos nucleares, a utilização maliciosa da inteligência artificial, a poluição e a resistência aos antimicrobianos.
As estimativas representam perdas de saúde potencialmente evitáveis, e não previsões inevitáveis. A sua principal utilidade é mostrar que as escolhas políticas, os investimentos e as intervenções preventivas podem alterar a trajetória futura.
Para a população, continua a fazer sentido investir em hábitos saudáveis e recorrer aos cuidados preventivos recomendados. Para os governos e as instituições, o desafio é criar condições para que essas escolhas sejam possíveis e, simultaneamente, preparar os sistemas de saúde para riscos ambientais, sociais, tecnológicos e infecciosos.
O futuro da saúde não será determinado por uma única ameaça. Dependerá da capacidade de reconhecer problemas interligados e agir antes de estes se transformarem em crises.
Posso ajudar
Posso ajudar a integrar atividade física e hábitos saudáveis numa rotina sustentável, adaptada aos objetivos individuais e às limitações de cada pessoa, com foco na prevenção e na qualidade de vida.
Referências
- Murray CJL, Kanem N, Abed S, et al. The Lancet Commission on 21st century global threats to health. The Lancet. Publicado online a 10 de outubro de 2026. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(26)01714-9.
- Institute for Health Metrics and Evaluation. Global Burden of Disease Study. Global Burden of Disease.