Um estudo comparou diretamente banho de água quente, sauna tradicional e sauna de infravermelhos. O resultado surpreendeu: o banho quente provocou as maiores alterações na temperatura corporal, circulação e resposta imunitária.
Os banhos quentes e as saunas são frequentemente apresentados como formas de relaxamento, recuperação e até como possíveis estratégias para melhorar a saúde cardiovascular.
Mas será que todas as formas de exposição ao calor provocam a mesma resposta no organismo?
Um estudo publicado no American Journal of Physiology-Regulatory, Integrative and Comparative Physiology comparou diretamente três métodos de aquecimento passivo: imersão em água quente, sauna tradicional e sauna de infravermelhos.
Os resultados foram claros: entre os três métodos testados, a imersão em água quente provocou a maior subida da temperatura corporal, o maior aumento do débito cardíaco e as alterações imunitárias mais evidentes. (Journals of Physiology)
O que é o aquecimento passivo?
Quando fazemos exercício, os músculos produzem calor e o organismo precisa de aumentar o fluxo sanguíneo para a pele e ativar mecanismos como a transpiração para controlar a temperatura.
O aquecimento passivo funciona de forma diferente.
Em vez de produzir calor através da contração muscular, o corpo é exposto externamente a uma fonte de calor, como uma sauna ou água quente.
À medida que a temperatura da pele e do organismo aumenta, os vasos sanguíneos da pele dilatam-se e aumenta o fluxo sanguíneo cutâneo. Para compensar estas alterações, o coração aumenta o débito cardíaco.
Segundo os investigadores, estas respostas cardiovasculares podem apresentar algumas semelhanças com as observadas durante exercício aeróbio de intensidade moderada. (Journals of Physiology)
Isto ajuda a explicar por que razão o calor tem despertado interesse na investigação sobre saúde cardiovascular.
Banho quente, sauna tradicional ou infravermelhos?
Para descobrir se os diferentes métodos produziam respostas semelhantes, os investigadores recrutaram 20 adultos saudáveis, 10 homens e 10 mulheres, com uma idade média de aproximadamente 24 anos.
Cada participante realizou três sessões diferentes de aquecimento passivo, com pelo menos uma semana de intervalo entre elas.
Foram utilizadas:
- Imersão em água quente: 45 minutos a aproximadamente 40,5 °C;
- Sauna tradicional: três períodos de 10 minutos a 80 °C;
- Sauna de infravermelhos: 45 minutos, com temperaturas entre 45 e 65 °C.
Durante e depois das sessões foram avaliadas a temperatura corporal, respostas cardiovasculares, transpiração e diferentes marcadores relacionados com inflamação e sistema imunitário. (Journals of Physiology)
O desenho é particularmente interessante porque não comparou simplesmente três temperaturas iguais.
Os investigadores procuraram reproduzir a forma como estas modalidades são normalmente utilizadas na vida real.
O banho quente aumentou mais a temperatura corporal
A diferença mais evidente surgiu na temperatura corporal central.
Depois da imersão em água quente, a temperatura corporal aumentou aproximadamente 1,1 °C relativamente ao valor inicial.
Na sauna tradicional, o aumento foi de aproximadamente 0,4 °C.
Na sauna de infravermelhos, a alteração foi praticamente nula, com um aumento médio próximo de 0,0 °C. (Journals of Physiology)
Isto significa que, nas condições utilizadas neste estudo, a água quente foi muito mais eficaz a aumentar a temperatura corporal central.
E existe uma explicação física para este resultado.
A água transfere calor para o corpo de forma muito eficiente. Durante a imersão, uma grande superfície corporal fica diretamente em contacto com água quente, reduzindo também a capacidade do organismo de perder calor através da pele.
Já numa sauna, o ar quente envolve o corpo, mas a transferência de calor é diferente.
O coração também trabalhou mais
Outra descoberta importante esteve relacionada com o sistema cardiovascular.
O débito cardíaco, ou seja, a quantidade de sangue bombeada pelo coração por minuto, aumentou aproximadamente:
+3,7 litros por minuto durante o banho quente
comparativamente a:
+2,3 litros por minuto na sauna tradicional.
Na sauna de infravermelhos, o aumento foi significativamente menor, cerca de +1,6 litros por minuto em comparação com o banho quente. (Journals of Physiology)
Assim, a imersão em água quente provocou a maior resposta cardiovascular das três modalidades.
Isto não significa que o banho quente seja equivalente ao exercício.
Durante o exercício existe contração muscular, aumento da utilização de oxigénio, estímulo neuromuscular e uma série de adaptações que não acontecem simplesmente por estar sentado numa banheira.
Mas demonstra que o calor pode provocar uma resposta cardiovascular fisiologicamente significativa, mesmo sem atividade muscular.
E quanto ao sistema imunitário?
Esta foi talvez uma das partes mais interessantes do estudo.
Os investigadores analisaram diferentes marcadores inflamatórios e populações de células do sistema imunitário antes e depois das sessões.
A imersão em água quente foi a única modalidade que produziu alterações imunitárias e inflamatórias significativas nos parâmetros destacados pelos investigadores.
Depois do banho quente, verificou-se um aumento da interleucina-6 (IL-6).
Também foram observadas alterações em células natural killer, ou células NK, 24 horas depois, e em células T CD8+ às 24 e 48 horas. (Journals of Physiology)
A IL-6 é uma molécula que participa na comunicação do sistema imunitário e na resposta inflamatória.
É importante, no entanto, não interpretar automaticamente um aumento agudo da IL-6 como algo negativo.
Durante o exercício, por exemplo, também podem ocorrer aumentos transitórios de determinadas moléculas inflamatórias. O contexto, a duração e a resposta posterior são fundamentais para compreender o significado biológico.
Inflamação não significa necessariamente doença
Esta distinção é particularmente importante quando se fala de “inflamação”.
O organismo necessita de respostas inflamatórias controladas para reparar tecidos, responder a estímulos e adaptar-se a diferentes desafios.
O problema está sobretudo na inflamação crónica e desregulada, associada a várias doenças.
Os investigadores levantam a possibilidade de que exposições repetidas ao calor possam produzir adaptações benéficas e influenciar mecanismos relacionados com saúde cardiovascular e inflamação. No entanto, o estudo atual analisou sobretudo a resposta aguda a uma única sessão. (Journals of Physiology)
Portanto, não podemos concluir a partir deste trabalho que uma sessão de banho quente previne doenças ou melhora a saúde a longo prazo.
Para isso seriam necessários estudos de intervenção prolongados.
Então a sauna não funciona?
Não é essa a conclusão.
A sauna tradicional também provocou respostas fisiológicas claras.
A temperatura corporal aumentou, o débito cardíaco aumentou e ocorreram alterações relacionadas com a termorregulação.
O que o estudo demonstrou foi que, nas condições específicas utilizadas, o banho quente provocou uma resposta mais intensa.
A sauna de infravermelhos apresentou a menor alteração da temperatura corporal central e, consequentemente, as respostas cardiovasculares e imunitárias mais reduzidas entre as modalidades estudadas. (Journals of Physiology)
Isto é importante porque diferentes modalidades de calor são muitas vezes colocadas no mesmo grupo, como se fossem fisiologicamente equivalentes.
Este estudo mostra que não são necessariamente equivalentes.
Por que razão a água quente pode ser tão potente?
A explicação pode estar na forma como o calor é transferido.
Na água quente, a superfície corporal fica rodeada por um meio que transfere calor de forma muito eficiente.
Além disso, a água quente dificulta a dissipação de calor através da pele.
Como consequência, a temperatura corporal aumenta mais rapidamente e o organismo precisa de ativar mecanismos mais intensos de termorregulação.
O coração aumenta o débito cardíaco para responder à dilatação dos vasos sanguíneos da pele e ao aumento das necessidades circulatórias.
Este conjunto de respostas pode explicar por que razão a imersão em água quente produziu o maior estímulo fisiológico no estudo.
Mas existe um detalhe importante: os participantes eram jovens
É necessário ter cuidado ao extrapolar estes resultados para toda a população.
Os participantes tinham, em média, apenas 24 anos e eram saudáveis.
Isto significa que não sabemos se pessoas mais velhas, pessoas com hipertensão, doença cardiovascular, diabetes ou outras condições de saúde responderiam da mesma forma.
Também não sabemos se uma pessoa sedentária e uma pessoa fisicamente treinada teriam exatamente a mesma resposta.
E existe outra questão fundamental: o estudo avaliou apenas 20 pessoas.
É um estudo experimental interessante, mas relativamente pequeno.
Uma sessão não é o mesmo que um hábito
Esta é provavelmente a maior limitação quando se tenta transformar os resultados em recomendações práticas.
O estudo mostra o que acontece depois de uma exposição aguda ao calor.
Não demonstra que tomar um banho quente todos os dias durante meses irá reduzir o risco cardiovascular.
Também não demonstra que a sauna aumenta a longevidade.
Para responder a essas perguntas seriam necessários estudos de maior duração, com mais participantes e acompanhamento de resultados clínicos relevantes.
Já existem outras investigações observacionais sobre utilização de sauna e saúde cardiovascular, mas estudos observacionais não conseguem provar, por si só, que a sauna é a causa direta de melhores resultados.
O calor pode ser uma espécie de “stress” controlado
Uma das ideias mais interessantes por detrás da investigação sobre calor é o conceito de hormese.
Um estímulo fisiológico moderado pode provocar uma resposta de adaptação.
O exercício é o exemplo mais conhecido.
O treino representa um stress para o organismo. O corpo responde e, com recuperação adequada, adapta-se.
O calor também pode representar um estímulo fisiológico.
Aumenta a temperatura corporal, altera a circulação, ativa mecanismos de termorregulação e pode modificar determinadas respostas imunitárias.
A questão científica é descobrir qual a dose adequada, para quem funciona e quais são os benefícios que realmente permanecem depois de meses ou anos de utilização.
Banho quente pode substituir exercício?
Não.
Mesmo que o banho quente provoque algumas respostas cardiovasculares semelhantes às observadas durante exercício, isso não significa que substitua o treino.
O exercício oferece benefícios que o calor não reproduz integralmente: aumento da força muscular, manutenção da massa muscular, melhoria da capacidade cardiorrespiratória, estímulo ósseo, coordenação, equilíbrio e adaptações metabólicas.
Por isso, a melhor interpretação deste estudo não é “deixe de treinar e tome banho quente”.
É perceber que o aquecimento passivo pode representar um estímulo fisiológico adicional, potencialmente interessante quando integrado num estilo de vida saudável.
O que este estudo realmente nos ensina?
A principal conclusão é bastante simples:
nem todas as formas de aquecimento passivo produzem a mesma resposta no organismo.
Entre as três modalidades estudadas, a imersão em água quente provocou a maior subida da temperatura corporal, a maior resposta cardiovascular e as alterações imunitárias mais evidentes.
A sauna tradicional ficou numa posição intermédia, enquanto a sauna de infravermelhos produziu as alterações mais pequenas na temperatura corporal central. (Journals of Physiology)
Mas ainda não sabemos se uma resposta fisiológica mais intensa significa necessariamente maiores benefícios para a saúde a longo prazo.
Essa é uma questão completamente diferente e que deverá ser investigada em estudos futuros.
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Referências e links
- American Journal of Physiology — estudo completo sobre banho quente e sauna — Consultar o artigo científico
- American Physiological Society — resumo e dados da investigação — Consultar a publicação na American Physiological Society
- PubMed — referência científica do estudo — Consultar o artigo no PubMed
- PubMed Central — texto completo disponível gratuitamente — Ler o estudo completo em acesso aberto