Bebidas muito quentes podem aumentar o risco de cancro do esófago? O que revela um estudo com quase um milhão de adultos

Bebidas muito quentes podem aumentar o risco de cancro do esófago? O que revela um estudo com quase um milhão de adultos October 17, 2026Leave a comment

O café e o chá fazem parte da rotina de milhões de pessoas. Para algumas, a primeira chávena do dia é quase um ritual. Mas será que a temperatura a que bebemos estas bebidas pode influenciar o risco de desenvolver cancro do esófago?

Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista International Journal of Cancer analisou dados de 977.282 adultos britânicos e encontrou uma associação importante entre o consumo de bebidas muito quentes e o risco de carcinoma de células escamosas do esófago. Os investigadores também observaram uma associação com o consumo diário de seis ou mais bebidas quentes.

Os resultados reforçam uma ideia simples: não é apenas aquilo que bebemos que merece atenção. A temperatura e a frequência de consumo também podem ser relevantes para a saúde.

O que analisou este estudo científico?

A investigação, liderada por Keren Papier e colaboradores, utilizou dados de dois grandes estudos britânicos: o Million Women Study e o UK Biobank.

No total, foram incluídos 977.282 participantes. Os investigadores acompanharam os participantes durante vários anos, com um seguimento médio de 14,2 anos no primeiro estudo e 11,1 anos no segundo.

Durante esse período, foram identificados 2.348 casos de cancro do esófago, incluindo 1.045 casos de carcinoma de células escamosas e 1.303 casos de adenocarcinoma.

Os participantes indicaram a temperatura a que preferiam consumir as bebidas quentes, classificando-a como morna, quente ou muito quente. Também foi avaliado o número de chávenas de chá e café consumidas diariamente, distinguindo-se o consumo de menos de seis bebidas do consumo de seis ou mais.

O objetivo foi perceber se a temperatura e a frequência de consumo estavam associadas ao aparecimento de diferentes tipos de cancro do esófago.

Beber café ou chá muito quente aumenta o risco?

O resultado mais relevante foi a associação entre o consumo de bebidas muito quentes e o carcinoma de células escamosas do esófago.

Em comparação com as pessoas que preferiam beber as suas bebidas mornas, os participantes que as consumiam muito quentes apresentaram um risco relativo aproximadamente três vezes superior deste tipo de cancro, depois de os investigadores terem considerado a frequência de consumo e outros fatores relevantes.

Para quem preferia bebidas quentes, mas não muito quentes, também foi observada uma associação com maior risco, embora de menor dimensão.

É importante interpretar estes resultados corretamente. Um risco relativo três vezes superior não significa que três em cada quatro pessoas que bebem bebidas muito quentes vão desenvolver cancro. Significa que, na população estudada, a ocorrência deste tipo de cancro foi superior entre as pessoas que referiram consumir bebidas a temperaturas muito elevadas.

O estudo é observacional. Por isso, identifica associações entre comportamentos e doença, mas não demonstra, por si só, que a temperatura tenha sido a causa direta de cada caso.

Porque pode a temperatura das bebidas ser importante?

O esófago é o tubo muscular que transporta os alimentos e os líquidos da boca até ao estômago. A sua superfície interna está revestida por células que podem ser afetadas por agressões repetidas.

Quando uma pessoa consome regularmente líquidos a temperaturas muito elevadas, o calor pode provocar lesões térmicas repetidas na mucosa esofágica. A exposição continuada poderá favorecer processos de inflamação e reparação celular que, ao longo do tempo, contribuem para um ambiente biológico menos favorável.

Esta é uma das explicações propostas para a associação observada entre bebidas muito quentes e carcinoma de células escamosas. Contudo, os mecanismos exatos ainda não estão completamente esclarecidos.

A Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro classificou anteriormente o consumo de bebidas a temperaturas muito elevadas, geralmente acima dos 65 °C, como provavelmente carcinogénico para os seres humanos. Esta classificação diz respeito à temperatura das bebidas e não significa que o café ou o chá, enquanto alimentos, sejam por si só carcinogénicos.

Beber seis ou mais cafés ou chás por dia também pode ser relevante?

Outro resultado importante foi a associação entre a frequência de consumo e o carcinoma de células escamosas do esófago.

Depois de considerar a temperatura habitual das bebidas, o consumo de seis ou mais bebidas quentes por dia esteve associado a um risco relativo aproximadamente 71% superior, em comparação com o consumo de menos de seis bebidas diárias.

Esta observação sugere que a frequência de consumo pode ter relevância para além da temperatura. No entanto, não permite estabelecer um limite universal a partir do qual o consumo se torna perigoso, nem significa que beber cinco chávenas seja necessariamente seguro e beber seis seja prejudicial.

Os hábitos alimentares, o tabagismo, o consumo de álcool e outras características individuais podem influenciar o risco de cancro. Apesar dos ajustamentos estatísticos realizados, não é possível excluir completamente a influência de fatores que não foram medidos ou considerados de forma perfeita.

Todos os tipos de cancro do esófago apresentaram os mesmos resultados?

Não. Esta distinção é uma das partes mais importantes do estudo.

Os investigadores analisaram separadamente o carcinoma de células escamosas e o adenocarcinoma do esófago. Embora ambos afetem o mesmo órgão, apresentam características biológicas e fatores de risco diferentes.

A associação entre a temperatura muito elevada das bebidas e o carcinoma de células escamosas foi clara. Em contrapartida, não foi encontrada uma associação relevante entre a temperatura preferida das bebidas e o risco de adenocarcinoma.

O consumo de seis ou mais bebidas quentes por dia apresentou apenas uma associação de menor dimensão com o adenocarcinoma. Estes resultados mostram que não devemos tratar todos os cancros do esófago como se tivessem as mesmas causas.

O leite no café ou no chá protege contra o calor?

O estudo também avaliou se adicionar leite ao chá ou ao café alterava a associação entre a temperatura das bebidas e o risco de cancro.

Os investigadores não encontraram evidência convincente de que a adição de leite modificasse de forma relevante essa associação.

Na prática, não devemos assumir que adicionar leite torna automaticamente segura uma bebida consumida a uma temperatura excessivamente elevada. O mais importante é a temperatura efetiva do líquido no momento em que é ingerido.

Como podemos aplicar estes resultados no dia a dia?

Na minha perspetiva, uma das vantagens desta investigação é chamar a atenção para um comportamento simples que muitas vezes passa despercebido: beber bebidas demasiado quentes por hábito.

Não é necessário deixar de beber café ou chá para reduzir esta exposição. Uma estratégia razoável consiste em deixar a bebida arrefecer durante alguns minutos antes de a consumir, evitando temperaturas que provoquem ardor ou desconforto na boca.

Também pode ser útil evitar beber repetidamente pequenas quantidades de uma bebida acabada de preparar quando ainda está extremamente quente. Se a bebida provoca sensação de queimadura, é preferível esperar.

Quanto à frequência, o estudo não estabelece uma quantidade ideal de café ou chá para todas as pessoas. A decisão deve considerar também a sensibilidade à cafeína, o sono, a pressão arterial, a ansiedade e os restantes hábitos de vida.

Para a prevenção do cancro, importa ainda considerar fatores mais amplos, como evitar o tabaco, limitar ou evitar o álcool, manter uma alimentação equilibrada e praticar atividade física regularmente. Nenhuma destas medidas garante que uma pessoa não desenvolverá cancro, mas pode contribuir para reduzir determinados riscos de saúde.

Quais são as limitações do estudo?

Apesar da dimensão muito elevada da amostra e do longo período de acompanhamento, existem limitações importantes.

Em primeiro lugar, a temperatura das bebidas foi avaliada através das preferências declaradas pelos participantes, e não por medições diretas da temperatura de cada chávena. As categorias utilizadas não permitem saber exatamente a que temperatura cada pessoa bebia o café ou o chá.

Em segundo lugar, os dados foram recolhidos em duas populações britânicas. Os resultados podem não ser diretamente generalizáveis a todas as populações, onde os hábitos de consumo, as bebidas mais frequentes e os fatores de risco para o cancro do esófago podem ser diferentes.

Por último, sendo um estudo observacional, não permite demonstrar causalidade. Mesmo com ajustamentos estatísticos, podem existir fatores de confusão que influenciem os resultados.

Conclusão: devemos deixar de beber café e chá?

Não. O estudo publicado na International Journal of Cancer não demonstra que seja necessário eliminar o café ou o chá da alimentação. A principal mensagem é que consumir bebidas a temperaturas muito elevadas pode estar associado a um maior risco de carcinoma de células escamosas do esófago.

A investigação também encontrou uma associação entre o consumo de seis ou mais bebidas quentes por dia e este tipo de cancro, embora a frequência de consumo não deva ser interpretada isoladamente.

Uma medida simples e prudente é deixar arrefecer o café ou o chá antes de beber, em vez de os consumir quando ainda estão excessivamente quentes. É uma alteração fácil de aplicar, sem necessidade de abandonar bebidas de que gostamos.

Como acontece frequentemente na investigação em saúde, importa distinguir uma associação estatística de uma relação de causa e efeito. Este estudo oferece evidência relevante para a prevenção, mas não permite prever o risco individual nem garantir que uma alteração isolada evitará a doença.

Posso ajudar

Posso ajudar a integrar hábitos alimentares sustentáveis e atividade física numa estratégia individualizada de saúde, bem-estar e prevenção, respeitando os objetivos e as limitações de cada pessoa.

Referências

  1. Papier K, Gaitskell K, Floud S, Reeves GK. Hot Drinks and Oesophageal Cancer: Prospective Analyses in Around 1 Million UK Adults. International Journal of Cancer. 2026. DOI: 10.1002/ijc.70654.
  2. International Agency for Research on Cancer. Drinking Coffee, Mate, and Very Hot Beverages. IARC Monographs, Volume 116. Publicações da IARC.

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