Biomarcadores sanguíneos de Alzheimer podem estar associados a diferentes alterações cognitivas

Biomarcadores sanguíneos de Alzheimer podem estar associados a diferentes alterações cognitivas September 20, 2026Leave a comment

O diagnóstico e a avaliação do risco de doença de Alzheimer estão a entrar numa nova fase com o desenvolvimento de biomarcadores sanguíneos. Uma simples análise ao sangue pode permitir avaliar proteínas relacionadas com processos neurodegenerativos, tornando potencialmente mais acessível a investigação da saúde cerebral.

Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista Alzheimer’s & Dementia: Diagnosis, Assessment & Disease Monitoring analisou a relação entre quatro biomarcadores sanguíneos e diferentes áreas da função cognitiva. Os investigadores procuraram perceber se determinados biomarcadores estavam associados de forma mais específica à memória, às funções executivas, à linguagem, às capacidades visuoespaciais ou à cognição global.

Os resultados são particularmente interessantes porque sugerem que os biomarcadores não têm necessariamente a mesma relação com todas as funções cognitivas e que uma associação observada num determinado momento não significa obrigatoriamente que o mesmo marcador consiga prever o desempenho cognitivo vários anos depois.

O que são biomarcadores sanguíneos de Alzheimer?

Os biomarcadores sanguíneos são moléculas que podem ser medidas numa amostra de sangue e que fornecem informação sobre processos biológicos relacionados com o cérebro. Entre os mais estudados atualmente encontram-se a proteína tau fosforilada, a proteína beta-amiloide, a GFAP e a cadeia leve de neurofilamentos.

Neste estudo foram avaliados quatro marcadores: p-tau181, GFAP, NfL e a razão Aβ42/40.

A p-tau181 está relacionada com alterações da proteína tau características da doença de Alzheimer. A razão Aβ42/40 está relacionada com a presença de alterações associadas à beta-amiloide. A GFAP, ou proteína glial fibrilar ácida, está relacionada com a atividade das células gliais, particularmente os astrócitos. Já a NfL, ou cadeia leve de neurofilamentos, é considerada um marcador de lesão ou deterioração neuroaxonal.

Uma das vantagens destes marcadores é precisamente permitirem observar diferentes componentes da biologia cerebral através de uma amostra relativamente simples de obter.

Como foi realizado o estudo?

Os investigadores utilizaram dados do Health and Retirement Study Harmonized Cognitive Assessment Protocol, uma componente de uma grande investigação populacional norte-americana sobre envelhecimento.

A análise incluiu 1170 adultos, com uma idade média de aproximadamente 73 anos. Entre os participantes, 931 apresentavam funcionamento cognitivo considerado normal, 206 tinham défice cognitivo ligeiro e 33 apresentavam demência no momento da avaliação inicial.

Os biomarcadores foram avaliados com amostras recolhidas em 2016. A função cognitiva foi analisada nesse momento e novamente em 2022, permitindo comparar associações contemporâneas com associações observadas aproximadamente seis anos mais tarde.

Os investigadores avaliaram cinco dimensões principais: memória, funções executivas, linguagem, capacidade visuoespacial e cognição global.

Foram ainda utilizados diferentes modelos estatísticos, incluindo análises individuais dos biomarcadores, uma combinação baseada em análise de componentes principais e modelos que incluíam simultaneamente os quatro biomarcadores.

O que aconteceu com a memória?

A memória foi uma das áreas onde os resultados apresentaram maior interesse.

Na análise prospetiva, que relacionou os biomarcadores medidos em 2016 com o desempenho cognitivo em 2022, níveis mais elevados de p-tau181 estiveram associados a pior desempenho da memória. A associação manteve-se depois de serem considerados fatores como idade, sexo, educação, raça/etnia, presença do alelo APOE ε4 e desempenho cognitivo inicial.

A GFAP também apresentou uma associação independente com o desempenho da memória seis anos mais tarde.

O p-tau181 apresentou ainda uma característica particularmente relevante: a associação com a memória foi relativamente mais forte do que a observada para as funções executivas. Isto não significa que a p-tau181 seja um teste exclusivamente relacionado com memória, mas sugere que a relação entre este biomarcador e a cognição pode apresentar alguma especificidade entre diferentes domínios.

E as funções executivas?

As funções executivas incluem processos como planeamento, flexibilidade cognitiva, controlo da atenção, resolução de problemas e capacidade de organizar comportamentos orientados para objetivos.

Nesta área, a GFAP apresentou uma associação independente com o desempenho cognitivo futuro.

Curiosamente, os resultados foram diferentes quando os investigadores observaram apenas a avaliação transversal, ou seja, a relação entre biomarcadores e cognição medida no mesmo período. Nesse contexto, GFAP e NfL apresentaram algumas das associações mais amplas com o desempenho cognitivo.

Esta diferença entre a análise transversal e a análise prospetiva é uma das mensagens mais importantes do trabalho.

Uma análise ao sangue não conta toda a história

É tentador interpretar um biomarcador elevado como uma previsão direta de declínio cognitivo. Contudo, este estudo mostra por que razão essa interpretação pode ser demasiado simplista.

Os investigadores verificaram que as associações observadas no momento inicial não correspondiam necessariamente às associações encontradas seis anos depois. A própria relação entre os biomarcadores e a cognição parece depender do momento da avaliação, do domínio cognitivo analisado e da forma como os marcadores são combinados no modelo estatístico.

Por exemplo, a NfL e a GFAP apresentaram associações relativamente amplas com a cognição na análise transversal. No entanto, depois do ajustamento simultâneo dos biomarcadores e da consideração do desempenho cognitivo inicial, a NfL deixou de apresentar uma associação independente significativa com a cognição global ou com a memória futura.

O resultado reforça uma ideia importante: um biomarcador pode refletir um processo biológico relevante sem ser, isoladamente, um marcador perfeito de evolução cognitiva.

O interesse de combinar biomarcadores

Outra componente interessante do estudo foi a avaliação de combinações de biomarcadores.

Nas análises prospetivas, a combinação de p-tau181 e GFAP apresentou o maior suporte relativo para os modelos relacionados com memória e cognição global. Para as funções executivas, a combinação de GFAP e NfL apresentou maior suporte relativo.

É importante, contudo, não transformar estes resultados numa recomendação clínica. Tratou-se de uma análise exploratória de modelos estatísticos e os próprios autores salientam a necessidade de replicar estas associações em outras populações.

O que este estudo nos ensina sobre envelhecimento cerebral?

O principal interesse deste trabalho está talvez menos na descoberta de um único biomarcador e mais na demonstração de que o envelhecimento cognitivo é biologicamente complexo.

A memória, as funções executivas, a linguagem e outras capacidades cognitivas não representam exatamente o mesmo processo cerebral. Da mesma forma, p-tau181, GFAP, NfL e beta-amiloide não medem exatamente a mesma dimensão da doença ou da lesão neurológica.

Uma abordagem que combine diferentes biomarcadores com avaliação cognitiva repetida poderá, no futuro, proporcionar uma caracterização mais precisa das alterações cerebrais relacionadas com o envelhecimento.

O estudo também reforça a importância de acompanhar as pessoas ao longo do tempo. Uma fotografia isolada pode fornecer informação, mas a evolução de uma determinada variável pode ser muito mais informativa quando o objetivo é compreender risco e progressão.

O exercício pode ser considerado neste contexto?

A investigação não avaliou o efeito do exercício físico sobre os biomarcadores e, por isso, não permite concluir que determinado tipo de treino reduza p-tau181, GFAP ou NfL neste contexto específico.

No entanto, a saúde cerebral não deve ser analisada exclusivamente através de biomarcadores. Atividade física regular, controlo dos fatores de risco cardiovascular, qualidade do sono, alimentação adequada, participação social e manutenção da atividade cognitiva fazem parte de uma abordagem mais ampla ao envelhecimento saudável.

Os biomarcadores poderão tornar-se ferramentas importantes para investigação e avaliação clínica, mas não substituem a avaliação médica, neurológica ou neuropsicológica quando existe uma preocupação concreta com alterações cognitivas.

Limitações do estudo

Os resultados devem ser interpretados tendo em conta algumas limitações. O estudo utilizou uma coorte populacional dos Estados Unidos e apenas uma parte dos participantes inicialmente avaliados tinha dados disponíveis para a análise prospetiva.

Além disso, os biomarcadores foram medidos numa única fase inicial, não tendo sido possível acompanhar alterações individuais dos marcadores ao longo dos seis anos. Os próprios autores defendem estudos com várias medições dos biomarcadores, avaliação repetida da cognição e resultados clínicos como défice cognitivo incidente ou demência.

Também é importante recordar que uma associação estatística não demonstra, por si só, causalidade.

Conclusão

Este estudo de 2026 acrescenta informação importante sobre a relação entre biomarcadores sanguíneos de Alzheimer e desempenho cognitivo. A p-tau181 esteve associada sobretudo à memória e à cognição global futura, enquanto a GFAP apresentou associações com memória, funções executivas e cognição global.

Ao mesmo tempo, os resultados mostram que os biomarcadores não devem ser interpretados isoladamente. A relação entre sangue, alterações cerebrais e desempenho cognitivo depende do marcador analisado, do domínio cognitivo, do momento da avaliação e do modelo utilizado.

À medida que os biomarcadores sanguíneos se tornam mais acessíveis, compreender estas diferenças será essencial para evitar interpretações excessivamente simplistas e para utilizar estas ferramentas de forma adequada no estudo do envelhecimento cerebral.

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Referências

  • O’Shea DM, Galvin JE. Comparative analyses of Alzheimer’s disease blood biomarkers and cognitive domains. Alzheimer’s & Dementia: Diagnosis, Assessment & Disease Monitoring. 2026;18(3):e70471. Publicado em 8 de setembro de 2026. https://doi.org/10.1002/dad2.70471
  • PubMed. Comparative analyses of Alzheimer’s disease blood biomarkers and cognitive domains. PMID: 42719047. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42719047/