Dançar parece, à primeira vista, apenas uma forma divertida de fazer exercício. Mas quando dançamos estamos a fazer muito mais do que movimentar o corpo.
É necessário memorizar sequências, acompanhar ritmos, coordenar braços e pernas, manter o equilíbrio, adaptar os movimentos e tomar decisões rapidamente.
Por isso, a dança combina exercício físico e estímulo cognitivo de uma forma particularmente interessante.
E a investigação sugere que dançar regularmente pode beneficiar diferentes aspetos da função cerebral, sobretudo à medida que envelhecemos.
Dançar é exercício para o corpo e para o cérebro
Quando dançamos, o cérebro precisa de processar simultaneamente informação visual, auditiva e sensorial.
É necessário perceber o ritmo, antecipar o próximo movimento, controlar a posição do corpo e adaptar-se ao espaço e às outras pessoas.
Esta combinação faz da dança uma atividade diferente de simplesmente caminhar numa passadeira ou fazer movimentos repetitivos.
A dança pode envolver:
- memória;
- atenção;
- coordenação;
- equilíbrio;
- velocidade de reação;
- orientação espacial;
- controlo motor;
- aprendizagem de novos movimentos.
Quanto mais complexa for a dança, maior pode ser a exigência cognitiva.
A dança pode melhorar a memória?
Um dos aspetos mais interessantes é a relação entre dança e memória.
Aprender uma coreografia obriga o cérebro a memorizar uma sequência de movimentos e recuperá-la no momento certo.
Quando repetimos essa sequência, estamos simultaneamente a treinar capacidades motoras e cognitivas.
Estudos em adultos mais velhos sugerem que programas de dança podem estar associados a melhorias em determinadas medidas de função cognitiva, incluindo memória e função executiva.
Isto não significa que dançar seja uma cura para a demência.
Significa que a dança pode constituir uma forma interessante de estimular o cérebro enquanto mantemos o corpo fisicamente ativo.
Dançar também desafia o equilíbrio
O equilíbrio não depende apenas dos músculos.
O cérebro precisa de receber informação dos olhos, do ouvido interno e dos recetores existentes nos músculos e articulações.
Depois, tem de integrar toda essa informação e produzir rapidamente uma resposta muscular adequada.
A dança exige precisamente este tipo de capacidade.
Mudar de direção, apoiar-se numa perna, rodar, parar, acelerar ou adaptar o movimento ao ritmo obriga o sistema nervoso a trabalhar continuamente.
Este treino pode ser particularmente relevante para pessoas mais velhas, para quem preservar o equilíbrio é fundamental para reduzir o risco de quedas.
E a velocidade de reação?
Imagine que está a dançar com outra pessoa.
Ela muda de direção.
O cérebro precisa de perceber o movimento, interpretar o que está a acontecer e produzir uma resposta quase imediatamente.
Este tipo de situação treina a capacidade de perceção e resposta motora.
É diferente de executar sempre o mesmo exercício numa máquina de ginásio.
Quanto mais imprevisível for a atividade, maior tende a ser a necessidade de adaptação.
Dançar pode aumentar a reserva cognitiva?
A chamada reserva cognitiva refere-se à capacidade do cérebro para lidar com alterações relacionadas com o envelhecimento ou com determinadas lesões sem apresentar imediatamente grandes perdas de função.
Atividades que combinam exercício físico, aprendizagem, interação social e estímulo mental podem contribuir para uma vida cognitivamente mais ativa.
A dança reúne várias destas características ao mesmo tempo.
Quando aprendemos novos passos, memorizamos sequências, acompanhamos música e interagimos com outras pessoas, estamos a criar uma atividade bastante rica do ponto de vista cerebral.
O benefício pode ser maior quando aprendemos algo novo
Há uma diferença importante entre repetir sempre os mesmos movimentos e continuar a desafiar o cérebro.
Aprender um novo estilo de dança, uma coreografia diferente ou movimentos que exigem maior coordenação pode aumentar a exigência cognitiva.
Por isso, não é necessário ser um excelente bailarino.
Na realidade, ser principiante pode ser particularmente interessante para o cérebro, porque existe uma grande quantidade de informação nova para aprender.
À medida que os movimentos se tornam automáticos, podemos aumentar novamente a dificuldade.
A dança também é exercício cardiovascular
Não devemos esquecer outro mecanismo fundamental.
Dançar pode aumentar a frequência cardíaca e melhorar a capacidade cardiovascular.
E aquilo que é bom para o coração também é importante para o cérebro.
O cérebro necessita de um fornecimento constante de oxigénio e nutrientes através da circulação sanguínea. A atividade física regular está associada a benefícios cardiovasculares e a menor risco de várias doenças que também podem afetar a saúde cerebral.
Assim, parte do benefício cognitivo da dança pode resultar simplesmente do facto de estarmos a praticar atividade física regularmente.
Dançar sozinho ou acompanhado?
As duas opções podem ser interessantes.
Dançar sozinho permite trabalhar coordenação, ritmo e aprendizagem de movimentos.
Dançar com outras pessoas acrescenta uma componente social.
E a interação social também é relevante para um envelhecimento saudável.
Quando dançamos em grupo, temos de acompanhar o ritmo, observar os outros, adaptar os movimentos e responder a diferentes estímulos.
Ou seja, acrescentamos ainda mais informação para o cérebro processar.
Quanto é necessário dançar?
Ainda não existe uma duração universal de dança que possa ser considerada a “dose ideal” para melhorar o cérebro.
O mais importante é a regularidade.
Sessões de 20 a 60 minutos, algumas vezes por semana, podem ser uma forma prática de incluir a dança numa rotina de atividade física.
Para obter benefícios mais completos, a dança pode ser combinada com:
- treino de força;
- caminhada ou exercício cardiovascular;
- exercícios de equilíbrio;
- mobilidade;
- atividades intelectualmente estimulantes.
Dança ou caminhada: qual é melhor para o cérebro?
Não é necessário escolher apenas uma.
Caminhar regularmente é excelente para a saúde cardiovascular e metabólica.
A dança acrescenta uma característica particularmente interessante: a necessidade de aprender e coordenar movimentos.
Por isso, uma pessoa que já caminha diariamente pode beneficiar de acrescentar uma atividade que obrigue o cérebro a aprender algo novo.
Pode ser dança, mas também pode ser ténis, artes marciais, natação com diferentes exercícios, escalada, jogos com bola ou qualquer outra atividade que combine movimento e aprendizagem.
A dança pode prevenir a demência?
É importante não exagerar aquilo que a ciência demonstra.
Existem estudos observacionais e ensaios que sugerem benefícios cognitivos associados à dança, mas isso não permite afirmar que dançar impede ou cura a demência.
O que podemos dizer com maior segurança é que a dança reúne vários fatores associados a um envelhecimento cerebral saudável: atividade física, aprendizagem, coordenação, equilíbrio e, frequentemente, interação social.
Por isso, pode ser uma excelente ferramenta dentro de uma estratégia global de proteção da saúde cerebral.
Conclusão
Dançar é muito mais do que mexer o corpo ao ritmo da música.
É uma atividade que pode obrigar o cérebro a memorizar, antecipar, coordenar, adaptar e tomar decisões enquanto o corpo se movimenta.
É precisamente esta combinação que torna a dança tão interessante para o envelhecimento saudável.
Não precisa de saber dançar bem.
Escolha uma música, aprenda alguns movimentos, aumente progressivamente a dificuldade e, sobretudo, mantenha a atividade regular.
Porque quando treinamos o corpo enquanto desafiamos o cérebro, podemos estar a trabalhar duas das capacidades mais importantes para envelhecer com autonomia: movimento e cognição.
Referências
- National Center for Biotechnology Information — Dance and cognitive function in older adults
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/?term=dance+cognitive+function+older+adults - National Institute on Aging — Cognitive Health and Older Adults
https://www.nia.nih.gov/health/brain-health/cognitive-health-and-older-adults - World Health Organization — Physical activity
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/physical-activity - American Academy of Neurology — estudos sobre atividade física e saúde cognitiva
https://www.aan.com/PressRoom/Home/PressRelease/5124
Nota: A dança deve ser encarada como uma das várias estratégias que podem contribuir para um envelhecimento saudável. Os benefícios cognitivos variam de pessoa para pessoa e não significam que a dança, isoladamente, previna doenças neurodegenerativas.