Quando pensamos em depressão, é habitual associá-la principalmente à tristeza, perda de interesse ou falta de motivação.
Mas a depressão não afeta apenas o cérebro.
A investigação científica mostra que a depressão está associada a alterações em vários sistemas do organismo, incluindo o sistema cardiovascular, metabolismo, sistema imunitário, intestino, sono e sistema hormonal.
Uma grande revisão publicada em 2025 analisou 72 artigos, 114 meta-análises e 109 resultados de saúde, encontrando associações entre depressão e diversos problemas cardiovasculares, neurológicos, metabólicos, digestivos e outros problemas físicos. (PubMed)
O cérebro e o sistema nervoso
A depressão está naturalmente relacionada com alterações na atividade e funcionamento de determinadas regiões cerebrais envolvidas na motivação, emoções, memória e processamento de recompensas.
Mas o cérebro não funciona isoladamente.
Existe uma comunicação permanente entre o cérebro, o sistema nervoso autónomo, as hormonas e os órgãos periféricos.
O coração
A relação entre depressão e saúde cardiovascular é uma das mais estudadas.
Uma revisão de estudos longitudinais concluiu que a depressão está associada a um aumento substancial do risco de doença cardiovascular e mortalidade cardiovascular.
Entre os possíveis mecanismos estão alterações do sistema nervoso autónomo, do eixo do stress, do metabolismo e da inflamação, além de fatores comportamentais como menor atividade física, alimentação menos saudável e tabagismo. (PubMed)
Isto não significa que a depressão cause diretamente uma doença cardíaca em todas as pessoas. A relação é provavelmente resultado da combinação de vários mecanismos biológicos e comportamentais.
O sistema imunitário e a inflamação
Um dos mecanismos mais interessantes é a possível ligação entre depressão e inflamação de baixo grau.
Uma proporção das pessoas com depressão apresenta alterações em marcadores inflamatórios, embora isso não aconteça em todos os doentes.
Uma revisão de estudos encontrou evidência de uma associação entre sintomas físicos ou neurovegetativos da depressão e inflamação. (PubMed)
Outra revisão refere que aproximadamente 30–50% das pessoas com depressão podem apresentar algum tipo de alteração inflamatória, dependendo da população e dos critérios utilizados. (Online Library)
O intestino
O intestino também parece participar nesta relação.
Existe uma comunicação constante entre o intestino e o cérebro através do chamado eixo intestino-cérebro, envolvendo o sistema nervoso, hormonas, sistema imunitário e microbiota intestinal.
Alterações da microbiota, da barreira intestinal e das respostas inflamatórias têm sido estudadas como possíveis mecanismos envolvidos na depressão e em algumas doenças físicas. (PubMed Central (PMC))
Isto pode ajudar a explicar por que razão algumas pessoas com depressão apresentam simultaneamente alterações gastrointestinais.
Metabolismo e hormonas
A depressão também está associada, em algumas pessoas, a alterações metabólicas e hormonais.
Entre os mecanismos estudados encontram-se alterações do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal, que participa na resposta ao stress, além de alterações metabólicas relacionadas com obesidade e dislipidemia. (PubMed)
Por isso, alterações do peso, apetite, energia e metabolismo podem fazer parte do quadro depressivo.
Músculos e energia
A depressão pode provocar fadiga, redução da atividade física e sensação de falta de energia.
Existe também investigação sobre a comunicação entre músculos, metabolismo, sistema imunitário e cérebro.
Uma revisão recente descreve uma rede de comunicação entre o cérebro e órgãos periféricos, incluindo músculos, tecido adiposo, fígado, coração, intestino e sistema imunitário. (PubMed)
Assim, a sensação de “corpo pesado” ou falta de energia não deve ser encarada simplesmente como falta de força de vontade.
Então a depressão é uma doença do corpo inteiro?
É mais correto dizer que a depressão é uma doença que pode envolver tanto o cérebro como vários sistemas do organismo.
No entanto, é importante não exagerar as conclusões.
A maioria dos estudos demonstra associações, e não prova que a depressão seja diretamente responsável por todas as doenças encontradas.
Além disso, a relação pode ser bidirecional: uma doença física pode aumentar o risco de depressão e a depressão pode, por sua vez, estar associada a piores resultados de saúde. (PubMed Central (PMC))
A mensagem principal
A depressão não está apenas “na cabeça”.
Pode estar associada a alterações no cérebro, sistema cardiovascular, metabolismo, sistema imunitário, intestino, sistema hormonal e funcionamento físico.
Esta visão mais abrangente é importante porque tratar a depressão não significa apenas melhorar o humor.
Significa também olhar para o sono, atividade física, alimentação, saúde cardiovascular, metabolismo e saúde física em geral.
Quando existem sintomas persistentes de depressão, a avaliação deve ser feita por um profissional de saúde. A depressão é tratável e não deve ser encarada como uma fraqueza pessoal.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou psicológica individual.
Referências
- PubMed — Depression and health outcomes: An umbrella review of systematic reviews and meta-analyses of observational studies
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40835677/ - PubMed — Depression and cardiovascular disease: Epidemiological evidence on their linking mechanisms
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27461915/ - PubMed — Inflammation and the dimensions of depression: A review
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31654681/ - World Psychiatry — Comorbidity between major depressive disorder and physical diseases: a comprehensive review of epidemiology, mechanisms and management
https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/wps.21110 - PubMed — Understanding the somatic consequences of depression
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23672628/ - PubMed — Targeting the Organ-Brain Axis: The Modulatory Role of Peripheral Organs in Depression
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42415406/