Reduzir o colesterol LDL através da alimentação é uma estratégia importante na prevenção cardiovascular. No entanto, nem todas as pessoas apresentam a mesma resposta às alterações alimentares. A genética pode ajudar a explicar parte destas diferenças, embora não elimine a importância dos hábitos que conseguimos modificar.
Um estudo publicado em 2026 na revista Nutrition, Metabolism and Cardiovascular Diseases analisou a relação entre a Dieta Portfolio, determinadas variantes genéticas e os níveis de colesterol LDL em adultos jovens. Os resultados reforçam o interesse de um padrão alimentar rico em alimentos vegetais, fibras, frutos secos e fontes de fitoesteróis.
A investigação também sugere que algumas variantes genéticas podem modificar a associação entre determinados componentes da alimentação e o colesterol. Mas será que precisamos de conhecer o nosso perfil genético para melhorar o colesterol? A resposta, por enquanto, é não.
O que é a Dieta Portfolio?
A Dieta Portfolio é um padrão alimentar desenvolvido para ajudar a reduzir o colesterol LDL através da combinação de vários alimentos e componentes nutricionais com efeitos favoráveis no metabolismo lipídico.
Em vez de se concentrar num único alimento, esta abordagem combina diferentes estratégias nutricionais que podem atuar por mecanismos complementares.
Entre os seus principais componentes encontram-se:
- Proteína vegetal: presente em alimentos como soja, feijão, lentilhas, grão-de-bico e outras leguminosas.
- Frutos secos: como nozes, amêndoas e outras variedades sem excesso de sal ou açúcar adicionado.
- Fibras solúveis: encontradas, por exemplo, na aveia, cevada e leguminosas.
- Fitoesteróis: compostos vegetais que podem reduzir a absorção intestinal de colesterol.
- Redução de gorduras saturadas e fontes alimentares de colesterol: privilegiando substituições por alimentos com um perfil nutricional mais favorável.
O interesse desta estratégia está na combinação dos diferentes componentes. Uma alimentação pode fornecer fibras, proteínas vegetais e gorduras insaturadas ao mesmo tempo, criando condições favoráveis para melhorar o perfil lipídico.
Como foi realizado o estudo de 2026?
Os investigadores analisaram dados de 1490 adultos jovens, com uma idade média de aproximadamente 23 anos, participantes do Toronto Nutrigenomics and Health Study.
Tratou-se de uma análise transversal, ou seja, os investigadores avaliaram a relação entre os hábitos alimentares, determinadas variantes genéticas e os níveis de colesterol LDL num determinado período.
A adesão à Dieta Portfolio foi avaliada através de uma pontuação alimentar, considerando tanto o padrão global como componentes individuais, incluindo proteína vegetal, frutos secos, fitoesteróis e a ingestão de gorduras saturadas.
Os investigadores estudaram ainda variantes de cinco genes envolvidos no metabolismo dos lípidos: ABCA1, ABCG8, APOA5, ANGPTL3 e APOC1.
O objetivo era perceber se as diferenças genéticas poderiam modificar a associação entre a alimentação e os níveis de colesterol LDL.
Uma maior adesão à Dieta Portfolio esteve associada a LDL mais baixo
Um dos principais resultados foi a associação entre uma maior adesão à Dieta Portfolio e níveis mais baixos de colesterol LDL.
Também foram observadas associações favoráveis com uma maior ingestão de proteína vegetal, frutos secos e fitoesteróis, assim como com uma menor ingestão de gorduras saturadas e fontes alimentares de colesterol.
Estes resultados são coerentes com o interesse de uma alimentação que privilegia alimentos vegetais minimamente processados e substitui parte das fontes de gordura saturada por alternativas nutricionalmente mais favoráveis.
Contudo, é importante interpretar corretamente os resultados. Por ser um estudo transversal, não demonstra que estas escolhas alimentares tenham causado diretamente a redução do colesterol. Permite identificar associações, mas não estabelecer com segurança uma relação de causa e efeito.
A genética pode modificar a resposta ao que comemos?
O estudo identificou resultados interessantes relacionados com duas variantes genéticas: uma no gene ABCA1 e outra no gene ABCG8.
O gene ABCA1 participa no transporte do colesterol entre as células e as partículas transportadoras de lípidos. Este processo é relevante para o equilíbrio do colesterol no organismo e para o funcionamento das lipoproteínas.
Os investigadores observaram que a associação entre a pontuação da Dieta Portfolio e o colesterol LDL variava consoante o genótipo da variante ABCA1 rs1883025.
Este resultado sugere que diferenças genéticas podem influenciar a relação observada entre o padrão alimentar e o perfil lipídico. Não significa, porém, que determinadas pessoas não beneficiem de uma alimentação saudável ou que exista um único padrão alimentar ideal para cada genótipo.
Também foram observadas associações relacionadas com a variante ABCG8 rs6544713. Entre os participantes com o genótipo TT, uma maior ingestão de fontes de proteína vegetal e fitoesteróis esteve associada a níveis mais baixos de LDL.
O gene ABCG8 está envolvido no transporte de esteróis, incluindo colesterol, e participa na regulação do seu equilíbrio no organismo. É, por isso, biologicamente plausível que diferenças neste gene influenciem algumas respostas relacionadas com a alimentação.
Precisamos de fazer testes genéticos para baixar o colesterol?
Este é um dos pontos mais importantes para interpretar a investigação.
Embora os resultados indiquem que algumas variantes genéticas podem modificar associações entre a alimentação e o colesterol LDL, o estudo não demonstra que realizar testes genéticos melhore os resultados clínicos ou permita escolher uma dieta superior às recomendações alimentares gerais.
Além disso, a investigação foi realizada em adultos jovens. Não devemos assumir que os mesmos resultados se aplicam de forma idêntica a pessoas mais velhas, a indivíduos com hipercolesterolemia familiar ou a pessoas com doença cardiovascular estabelecida.
Na prática, faz sentido começar por avaliar os fatores modificáveis: qualidade da alimentação, ingestão de gorduras saturadas, consumo de fibras, atividade física, peso corporal, tabagismo e outros fatores de risco cardiovascular.
A genética pode ajudar a compreender parte da variabilidade individual, mas não deve ser utilizada como motivo para adiar medidas preventivas que já têm evidência científica.
Como aplicar a Dieta Portfolio no dia a dia?
Não é necessário transformar a alimentação de um dia para o outro. Uma abordagem prática consiste em introduzir gradualmente os componentes mais relevantes da Dieta Portfolio, respeitando as necessidades e preferências individuais.
1. Aumentar o consumo de leguminosas
Feijão, grão-de-bico, lentilhas e ervilhas fornecem proteína vegetal e fibra. Podem substituir parcialmente algumas refeições à base de carne ou integrar sopas, saladas e pratos principais.
2. Incluir frutos secos em quantidades adequadas
Nozes, amêndoas e outros frutos secos fornecem gorduras predominantemente insaturadas, fibra e diferentes micronutrientes. Uma pequena porção diária pode ser uma forma simples de melhorar a qualidade nutricional da alimentação.
3. Privilegiar alimentos ricos em fibra solúvel
A aveia, a cevada e as leguminosas são opções particularmente interessantes. Algumas fibras solúveis podem contribuir para a redução do colesterol LDL através de mecanismos que envolvem a circulação dos ácidos biliares e o metabolismo do colesterol.
4. Substituir parte das gorduras saturadas
Reduzir a frequência de alimentos ricos em gorduras saturadas e substituí-los por fontes de gorduras insaturadas pode contribuir para melhorar o perfil lipídico. O importante é a substituição alimentar, não apenas a eliminação de um ingrediente.
5. Considerar os fitoesteróis
Os fitoesteróis encontram-se naturalmente em pequenas quantidades em diversos alimentos vegetais. Alguns alimentos enriquecidos fornecem quantidades superiores e podem contribuir para reduzir a absorção intestinal de colesterol. A sua utilização deve ser considerada no contexto da alimentação global e das necessidades individuais.
Qual é o papel do exercício físico?
O exercício físico complementa a intervenção alimentar na prevenção cardiovascular. A atividade aeróbia regular contribui para melhorar a capacidade cardiorrespiratória e a saúde metabólica, enquanto o treino de força ajuda a preservar a massa muscular e a funcionalidade ao longo do envelhecimento.
Na minha experiência, prefiro olhar para a saúde cardiovascular como o resultado de vários hábitos que se reforçam mutuamente. A alimentação, o exercício, o sono, o controlo da pressão arterial e a ausência de tabagismo são componentes importantes de uma estratégia preventiva.
O exercício não garante, por si só, uma redução acentuada do colesterol LDL. Quando este é o principal objetivo, a composição da alimentação e, em pessoas com risco elevado, o tratamento médico adequado também são fundamentais.
Limitações e interpretação dos resultados
Apesar da dimensão da amostra, o estudo apresenta limitações importantes.
- O desenho transversal não permite demonstrar que as alterações alimentares causaram diretamente as diferenças observadas no colesterol.
- A população era constituída por adultos jovens, com uma idade média de aproximadamente 23 anos, pelo que a generalização a outras idades exige prudência.
- Foram analisadas variantes genéticas específicas, não toda a complexidade genética envolvida no metabolismo dos lípidos.
- As interações entre genes e alimentação necessitam de confirmação em estudos independentes e em populações diferentes.
Por isso, os resultados devem ser vistos como um contributo para a investigação em nutrigenómica, e não como uma recomendação para realizar testes genéticos de rotina ou seguir dietas exclusivamente determinadas pelo ADN.
Conclusão: alimentação e genética trabalham em conjunto
O estudo publicado em 2026 reforça a associação entre uma maior adesão à Dieta Portfolio e níveis mais baixos de colesterol LDL em adultos jovens. A ingestão de proteína vegetal, frutos secos e fitoesteróis, assim como uma menor ingestão de gorduras saturadas, também esteve associada a um perfil lipídico mais favorável.
Os resultados sugerem que variantes genéticas nos genes ABCA1 e ABCG8 podem modificar algumas destas associações. Contudo, ainda não demonstram que a personalização da alimentação com base em testes genéticos produza melhores resultados clínicos.
A mensagem prática mantém-se: uma alimentação rica em leguminosas, fibras, frutos secos e outros alimentos vegetais, acompanhada pela redução de fontes de gordura saturada, constitui uma estratégia útil para melhorar a qualidade alimentar e apoiar a prevenção cardiovascular.
Quando o colesterol LDL está elevado, a decisão sobre os objetivos de tratamento deve considerar o risco cardiovascular global. As alterações alimentares são importantes, mas não substituem a medicação quando esta é necessária.
Posso ajudar
Posso ajudar a integrar exercício de força e atividade aeróbia numa rotina sustentável, adaptada à sua condição física, aos seus objetivos e à prevenção dos fatores de risco cardiovascular.
Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui aconselhamento médico ou nutricional individualizado.
Referências
- Chen V, Chiavaroli L, Glenn AJ, et al. Genetic modifiers of the Portfolio Diet Score and LDL cholesterol in young adults. Nutrition, Metabolism and Cardiovascular Diseases. 2026;36(10):104797. DOI: 10.1016/j.numecd.2026.104797.
- Resumo científico e dados bibliográficos do artigo original: PubMed — PMID 42323221.