O jejum tem despertado interesse na investigação sobre envelhecimento, composição corporal e saúde metabólica. No entanto, nem todas as estratégias de jejum são iguais. Uma abordagem específica, conhecida como dieta que imita o jejum, procura reproduzir algumas respostas metabólicas associadas ao jejum através de um programa alimentar temporário, com restrição energética e composição nutricional própria.
Um estudo-piloto publicado em 2026 na revista Diabetes, Obesity and Metabolism avaliou a viabilidade desta estratégia em adultos asiático-americanos com pré-diabetes. Após cinco dias de intervenção, os investigadores observaram melhorias em vários indicadores metabólicos, incluindo a glicemia em jejum e algumas medidas de composição corporal.
Os resultados são interessantes, mas importa perceber o que foi realmente estudado, quais foram as limitações e porque não devemos concluir que cinco dias de dieta são suficientes para prevenir ou reverter a diabetes a longo prazo.
O que é uma dieta que imita o jejum?
A dieta que imita o jejum, conhecida internacionalmente como fasting-mimicking diet (FMD), é uma intervenção alimentar de duração limitada, concebida para fornecer uma quantidade reduzida de energia e uma composição específica de nutrientes.
Ao contrário de um jejum completo, durante o qual não se ingerem alimentos, esta abordagem permite consumir alimentos ou produtos nutricionais definidos pelo protocolo. O objetivo é desencadear algumas respostas metabólicas associadas à restrição energética, sem exigir uma ausência total de ingestão alimentar.
Não deve ser confundida com a alimentação com restrição horária, em que se concentra a ingestão alimentar numa determinada janela diária, nem com os jejuns de 24 ou 48 horas. São intervenções diferentes, com protocolos e evidência científica próprios.
Neste estudo, os participantes seguiram durante cinco dias um programa alimentar específico, recorrendo a um kit preparado para esse efeito. Durante a intervenção, podiam beber água livremente e deveriam consumir apenas os alimentos incluídos no protocolo.
Como foi realizado o estudo?
A investigação foi conduzida por uma equipa da Universidade da Califórnia em Irvine e de outras instituições académicas. O objetivo principal era perceber se uma intervenção de cinco dias seria viável e aceitável para adultos asiático-americanos com pré-diabetes, bem como avaliar possíveis alterações metabólicas iniciais.
Dos 117 indivíduos que preencheram o questionário inicial de elegibilidade, 34 completaram o consentimento e iniciaram a participação. Destes, 29 completaram os cinco dias e regressaram à avaliação final.
A idade média dos participantes que completaram a intervenção foi de aproximadamente 52 anos. A maioria apresentava excesso de peso ou obesidade segundo os critérios de índice de massa corporal utilizados para populações asiáticas.
Os investigadores avaliaram a glicemia em jejum, os corpos cetónicos, o peso, o perímetro da cintura, a composição corporal e a pressão arterial, comparando os valores antes e depois da intervenção.
É essencial destacar uma limitação metodológica: tratou-se de um estudo-piloto sem grupo de controlo. Assim, as alterações observadas são relevantes para orientar investigação futura, mas não demonstram que a dieta seja superior a outras estratégias nutricionais.
Glicemia em jejum: o resultado mais interessante
O resultado mais expressivo foi a redução da glicemia em jejum. A média passou de aproximadamente 107 mg/dL antes da intervenção para 89 mg/dL depois dos cinco dias.
Dos 29 participantes que completaram o protocolo, 28 apresentaram uma redução da glicemia em jejum. No final, 23 tinham valores inferiores a 100 mg/dL, em comparação com seis participantes antes da intervenção.
Esta alteração é interessante porque a pré-diabetes corresponde a uma situação em que os níveis de glicose estão acima do intervalo considerado normal, mas ainda não atingem os critérios laboratoriais para o diagnóstico de diabetes.
Contudo, uma medição realizada imediatamente após cinco dias de restrição energética não permite concluir que a pré-diabetes tenha sido revertida de forma duradoura. A glicemia pode mudar em resposta à ingestão alimentar recente, ao balanço energético e a outros fatores de curto prazo.
Para avaliar uma melhoria sustentada, são necessários estudos mais longos, com acompanhamento após a intervenção e medição de indicadores como a hemoglobina glicada, que reflete a exposição média à glicose durante um período mais prolongado.
Peso, gordura corporal e perímetro da cintura
Os investigadores observaram também uma redução do peso corporal, que passou de uma média de 71,4 kg para 68,8 kg. O índice de massa corporal e o perímetro da cintura diminuíram igualmente.
A massa gorda total apresentou uma redução média de aproximadamente 1,3 kg. Também foram observadas alterações na área de gordura visceral, um compartimento adiposo localizado em redor dos órgãos abdominais e associado a alterações metabólicas.
Estas mudanças podem ajudar a explicar parte da melhoria dos indicadores metabólicos. No entanto, não é possível atribuir todos os efeitos exclusivamente à perda de gordura. A redução temporária da ingestão energética e as alterações nas reservas de glicogénio e água também podem influenciar o peso medido após um período de restrição alimentar.
Outro resultado merece atenção: a massa muscular esquelética medida diminuiu cerca de 0,7 kg. Embora as medições de composição corporal possam ser influenciadas pelo estado de hidratação, este resultado reforça a necessidade de avaliar a preservação muscular quando se utilizam intervenções restritivas.
Para quem pretende melhorar a saúde metabólica, perder peso não deve ser o único objetivo. Preservar a força, a massa muscular e a capacidade funcional é especialmente importante com o envelhecimento.
O que aconteceu aos corpos cetónicos?
Os níveis de corpos cetónicos aumentaram significativamente durante a intervenção. Este resultado é compatível com uma alteração na utilização de energia, à medida que o organismo se adapta à restrição energética e passa a utilizar uma maior proporção de gordura como combustível.
Os corpos cetónicos são substâncias produzidas pelo fígado a partir de ácidos gordos. A sua concentração pode aumentar durante o jejum, a restrição energética ou dietas muito pobres em hidratos de carbono.
No entanto, um aumento dos corpos cetónicos não constitui, por si só, uma prova de melhoria global da saúde. É necessário analisar outros indicadores, a segurança da intervenção e a manutenção dos resultados ao longo do tempo.
A intervenção foi fácil de cumprir?
A maioria dos participantes que completaram o protocolo considerou a intervenção relativamente fácil de seguir. Ainda assim, os sintomas desagradáveis foram frequentes: cerca de 86% relataram pelo menos um sintoma negativo.
Entre os mais comuns encontravam-se dores de cabeça, fadiga e fome intensa. Não foram registados acontecimentos adversos graves entre os participantes que completaram a intervenção, mas o tamanho reduzido da amostra limita a capacidade de detetar problemas menos frequentes.
Além disso, a adesão num estudo acompanhado por investigadores não garante que a mesma estratégia seja fácil de manter fora de um contexto de investigação. A palatabilidade dos alimentos, a rotina profissional, a atividade física e as necessidades individuais podem influenciar a experiência.
O que ainda não sabemos?
O estudo fornece informação preliminar, mas deixa várias questões em aberto.
- Duração dos benefícios: não sabemos se as melhorias na glicemia persistem semanas ou meses depois da intervenção.
- Prevenção da diabetes: o estudo não demonstra que a estratégia reduza a incidência de diabetes tipo 2 a longo prazo.
- Preservação muscular: a diminuição da massa muscular medida exige investigação adicional, sobretudo em pessoas mais velhas.
- Comparação com outras estratégias: sem grupo de controlo, não é possível determinar se a intervenção é superior a uma alimentação equilibrada com restrição energética moderada.
- Aplicabilidade: os resultados obtidos numa pequena amostra de adultos asiático-americanos não devem ser automaticamente generalizados a todas as populações.
Existe ainda um potencial conflito de interesses que merece transparência: um dos autores declarou ter participação acionista na empresa que produz os kits utilizados no estudo. Este facto não invalida automaticamente os resultados, mas é relevante para uma avaliação crítica da investigação.
Vale a pena experimentar uma dieta que imita o jejum?
Na minha experiência, prefiro avaliar primeiro os hábitos que podem ser mantidos durante meses e anos, em vez de começar por estratégias restritivas. A alimentação, o exercício físico, o sono e a preservação da massa muscular devem ser considerados em conjunto.
Para quem apresenta pré-diabetes, as medidas com maior utilidade prática incluem melhorar a qualidade global da alimentação, aumentar a atividade física, realizar treino de força adequado e, quando necessário, reduzir o excesso de gordura corporal.
A dieta que imita o jejum é uma área de investigação promissora, mas ainda não deve ser considerada uma solução comprovada para reverter a pré-diabetes. Uma intervenção de cinco dias não substitui o acompanhamento clínico nem permite dispensar a monitorização da glicemia.
As pessoas que utilizam medicamentos para reduzir a glicemia, têm doença renal, apresentam fragilidade ou têm outras condições clínicas devem procurar orientação médica antes de experimentar restrições alimentares intensas. O mesmo se aplica a quem tem antecedentes de perturbações do comportamento alimentar ou necessidades nutricionais especiais.
Posso ajudar
Ajudo pessoas a melhorar a condição física, preservar a força muscular e adaptar o exercício às suas capacidades. O treino pode complementar hábitos alimentares sustentáveis na promoção da saúde metabólica.
Conclusão
Este estudo-piloto sugere que cinco dias de dieta que imita o jejum podem produzir alterações favoráveis na glicemia em jejum, no peso e em alguns indicadores de composição corporal em adultos asiático-americanos com pré-diabetes.
Contudo, a amostra reduzida, a ausência de um grupo de controlo e a falta de acompanhamento prolongado impedem concluir que a estratégia previna ou reverta a diabetes de forma duradoura. A redução observada da massa muscular medida também merece atenção.
A mensagem mais importante é que os resultados iniciais devem ser vistos como um ponto de partida para novos estudos, e não como uma recomendação universal. Para melhorar a saúde metabólica, continua a fazer sentido privilegiar uma alimentação adequada, atividade física regular, treino de força e acompanhamento clínico quando necessário.
Referências
- Wang K, Kuang X, Kang M, et al. Feasibility and Preliminary Effects of a 5-Day Fasting-Mimicking Diet in Asian Americans With Prediabetes: A Pilot Study. Diabetes, Obesity and Metabolism. 2026;28(10):9720–9724. Consultar o artigo no PubMed.
- American Diabetes Association. Standards of Care in Diabetes. Consultar as recomendações clínicas.
- Centers for Disease Control and Prevention. Prediabetes — Your Chance to Prevent Type 2 Diabetes. Informação sobre pré-diabetes e prevenção.