O uso de esteroides anabolizantes para aumentar a massa muscular e melhorar o desempenho físico pode ter consequências importantes para a saúde cardiovascular. Um novo estudo publicado em outubro de 2026 no European Heart Journal – Cardiovascular Imaging reforça esta preocupação: os homens que continuaram a utilizar estas substâncias apresentaram alterações persistentes na estrutura e na função do coração, enquanto aqueles que deixaram de as utilizar mostraram sinais de recuperação.
Estes resultados são particularmente relevantes para praticantes de musculação e culturismo que procuram aumentar a massa muscular rapidamente. Ter músculos desenvolvidos, levantar cargas elevadas ou apresentar uma boa condição física não significa necessariamente ter um coração saudável.
O que são os esteroides anabolizantes?
Os esteroides anabolizantes androgénicos são substâncias relacionadas com a testosterona, utilizadas clinicamente em situações específicas, mas também consumidas sem indicação médica para aumentar a massa muscular, acelerar a recuperação e melhorar o desempenho desportivo.
Embora possam produzir aumentos significativos da massa muscular, a utilização em doses superiores às fisiológicas pode afetar vários sistemas do organismo. Entre os problemas associados encontram-se alterações do colesterol, aumento da pressão arterial, perturbações hormonais e possíveis lesões no fígado.
O coração merece uma atenção especial. A exposição prolongada a estas substâncias pode contribuir para o espessamento do músculo cardíaco e para a deterioração da capacidade de bombear e receber sangue.
O que investigou o novo estudo?
O estudo, intitulado Cardiovascular effects of continued vs. discontinued anabolic–androgenic steroid use: a longitudinal follow-up study, procurou perceber o que acontece ao coração quando os utilizadores continuam a consumir esteroides ou interrompem a sua utilização.
Os investigadores acompanharam participantes de uma investigação anterior realizada entre 2017 e 2019. Na avaliação inicial, a amostra incluía homens que utilizavam ou tinham utilizado esteroides anabolizantes e um grupo de praticantes de musculação sem historial de utilização destas substâncias.
Na avaliação de seguimento, foram novamente estudados 70 utilizadores de esteroides e 35 praticantes de musculação que nunca os tinham utilizado. Os participantes realizaram entrevistas, análises hormonais e ecocardiogramas, permitindo avaliar a estrutura e o funcionamento do coração.
Os utilizadores foram classificados de acordo com a continuidade ou interrupção do consumo. Esta abordagem permitiu comparar a evolução das alterações cardíacas ao longo do tempo, em vez de avaliar apenas diferenças entre pessoas num único momento.
O que acontece ao coração quando se continuam a utilizar esteroides?
Um dos resultados mais importantes foi a persistência da hipertrofia ventricular esquerda nos homens que continuaram a utilizar esteroides anabolizantes.
O ventrículo esquerdo é a principal câmara responsável por bombear sangue para o organismo. Quando a sua parede se torna mais espessa, pode existir uma adaptação relacionada com determinadas condições clínicas ou, em alguns contextos, com a exposição prolongada a estímulos prejudiciais.
É importante distinguir esta situação das adaptações fisiológicas que podem ocorrer com o treino desportivo. O coração de um atleta pode apresentar alterações estruturais associadas ao exercício, mas isso não significa que todas as formas de aumento da massa cardíaca sejam saudáveis.
Neste estudo, a utilização continuada de esteroides esteve associada não só ao espessamento do músculo cardíaco, mas também a uma função sistólica reduzida e ao agravamento da função diastólica.
A função sistólica corresponde à capacidade de o coração contrair e expulsar sangue. A função diastólica está relacionada com o relaxamento e o enchimento das câmaras cardíacas entre batimentos. Quando ambas são afetadas, o coração pode ter mais dificuldade em responder adequadamente às necessidades do organismo.
Uma alteração particularmente preocupante: a redução da capacidade de bombear sangue
Os investigadores observaram que os utilizadores que mantiveram o consumo apresentavam uma fração de ejeção ventricular esquerda média de aproximadamente 48%. Este indicador representa a percentagem de sangue expulsa pelo ventrículo esquerdo em cada contração.
Uma fração de ejeção reduzida pode indicar comprometimento da função cardíaca. No grupo que continuou a utilizar esteroides, 17% dos participantes apresentavam valores iguais ou inferiores a 40%, enquanto 46% tinham valores entre 41% e 49%.
Estes resultados não significam que todos os utilizadores desenvolverão insuficiência cardíaca. Demonstram, contudo, que podem existir alterações clinicamente relevantes mesmo em pessoas que continuam a treinar musculação.
Além disso, os participantes tinham reduzido consideravelmente as doses semanais de esteroides desde a avaliação inicial. Apesar dessa redução, não se observaram melhorias cardíacas consistentes que permitissem concluir que consumir menos era suficiente para eliminar o problema.
Parar os esteroides pode permitir a recuperação do coração?
Esta é provavelmente a conclusão mais encorajadora do estudo. Os homens que interromperam a utilização de esteroides apresentaram melhorias na estrutura e na função cardíaca.
Entre os 15 participantes que deixaram de utilizar estas substâncias, a massa ventricular esquerda diminuiu e a fração de ejeção melhorou. A evolução observada aproximou os resultados dos valores encontrados no grupo de praticantes de musculação que nunca tinha utilizado esteroides.
Esta recuperação sugere que algumas alterações cardíacas associadas aos esteroides podem ser, pelo menos parcialmente, reversíveis. Contudo, não devemos interpretar estes resultados como uma garantia de recuperação completa em todas as pessoas.
A duração da utilização, as doses consumidas, a existência de hipertensão, outras substâncias utilizadas e o estado de saúde anterior podem influenciar a evolução individual. Também não é possível concluir que todos os efeitos cardiovasculares desaparecem depois da interrupção.
Na minha perspetiva, a mensagem essencial é simples: reduzir a dose não deve ser confundido com eliminar o risco. A interrupção do consumo e a avaliação médica são fundamentais para quem pretende proteger a saúde a longo prazo.
Os medicamentos para a pressão arterial podem ajudar?
O estudo encontrou também uma associação entre o tratamento da hipertensão e uma melhoria da função sistólica nos utilizadores que continuaram a consumir esteroides.
Este resultado é relevante porque a pressão arterial elevada aumenta a carga de trabalho do coração. Quando a pressão permanece elevada durante períodos prolongados, o músculo cardíaco tem de trabalhar contra uma resistência superior, podendo sofrer alterações estruturais e funcionais.
No entanto, este resultado não significa que tomar medicamentos para baixar a pressão arterial torne segura a utilização de esteroides anabolizantes. O tratamento da hipertensão não elimina necessariamente os restantes mecanismos através dos quais estas substâncias podem prejudicar o coração.
Qualquer tratamento deve ser decidido por um médico, com base na avaliação clínica. A medicação não deve ser utilizada como forma de compensar os riscos de uma substância consumida para melhorar o desempenho físico.
Como pode um praticante de musculação proteger o coração?
O treino de força continua a ser uma ferramenta importante para melhorar a saúde, preservar massa muscular e manter a capacidade funcional. Não é necessário recorrer a esteroides anabolizantes para beneficiar da musculação.
Uma estratégia mais sustentável passa por organizar o treino, garantir uma progressão adequada das cargas, respeitar a recuperação e manter uma alimentação equilibrada. O sono, a atividade física cardiovascular e o controlo dos fatores de risco também merecem atenção.
Para quem utiliza ou utilizou esteroides, é particularmente importante não presumir que a ausência de sintomas significa ausência de lesão. A hipertensão e algumas alterações da função cardíaca podem existir sem sinais evidentes nas fases iniciais.
Uma avaliação médica poderá incluir a medição da pressão arterial, análises ao sangue e, quando indicado, um eletrocardiograma ou um ecocardiograma. A escolha dos exames depende do historial clínico, das substâncias utilizadas e dos sintomas existentes.
Dor no peito, falta de ar inexplicada, desmaio ou palpitações acompanhadas de mal-estar justificam avaliação médica urgente. Perante dor torácica intensa, dificuldade respiratória importante ou perda de consciência, deve ser contactado o 112.
Quais são as limitações deste estudo?
Apesar da relevância dos resultados, existem limitações que importa considerar. O número de participantes reavaliados foi relativamente reduzido, sobretudo no grupo que interrompeu a utilização de esteroides.
Além disso, a investigação acompanhou uma população específica de homens envolvidos em treino de força. Os resultados não podem ser automaticamente generalizados a mulheres, a todas as faixas etárias ou a pessoas que utilizam testosterona em doses terapêuticas devidamente prescritas.
O estudo também é observacional. Embora a evolução encontrada seja consistente com um efeito prejudicial da utilização continuada e com melhorias após a interrupção, não permite determinar com absoluta certeza todos os mecanismos envolvidos nem prever a recuperação de cada indivíduo.
São necessários estudos adicionais para perceber melhor quais as alterações reversíveis, quanto tempo pode demorar a recuperação e que fatores influenciam o risco de lesão cardíaca persistente.
Conclusão: ganhar músculo não deve significar colocar o coração em risco
Esta investigação reforça a preocupação com os efeitos cardiovasculares dos esteroides anabolizantes utilizados para aumentar a massa muscular. A utilização continuada esteve associada a espessamento do ventrículo esquerdo, redução da capacidade de bombear sangue e agravamento do relaxamento cardíaco.
Por outro lado, os participantes que interromperam o consumo apresentaram melhorias significativas, sugerindo que algumas alterações podem recuperar. A redução da dose, por si só, não demonstrou oferecer a mesma proteção.
O treino de força deve ser encarado como um investimento na saúde e não apenas como uma forma de alterar a aparência física. Desenvolver força, massa muscular e capacidade funcional é perfeitamente compatível com uma abordagem que privilegia a saúde cardiovascular, a progressão gradual e a sustentabilidade ao longo dos anos.
O objetivo não deve ser apenas levantar mais peso ou ganhar músculo mais depressa. Deve ser conseguir treinar, manter a autonomia e preservar a saúde durante muitos anos.
Posso ajudar?
Ajudo pessoas acima dos 40 anos a desenvolver força, melhorar a condição física e adaptar o treino aos seus objetivos, limitações e estado de saúde, com uma abordagem individualizada e progressiva.
Referências
- Abdullah R, Bjørnebekk A, Hullstein IR, et al. Cardiovascular effects of continued vs. discontinued anabolic–androgenic steroid use: a longitudinal follow-up study. European Heart Journal – Cardiovascular Imaging. Publicado online em 12 de outubro de 2026. DOI: 10.1093/ehjci/jeag238. Consultar o estudo original.
- European Society of Cardiology. Anabolic steroids linked to serious heart damage in weightlifters; stopping them may aid recovery. 13 de outubro de 2026. Consultar o comunicado científico.