Exercício físico e cérebro: como o treino pode melhorar a função cognitiva depois dos 60 anos

Exercício físico e cérebro: como o treino pode melhorar a função cognitiva depois dos 60 anos October 1, 2026Leave a comment

Quando pensamos nos benefícios do exercício físico, é habitual falar de força muscular, capacidade cardiovascular, equilíbrio, mobilidade ou composição corporal. Mas existe outro órgão que pode beneficiar significativamente de uma vida fisicamente ativa: o cérebro.

Uma nova revisão sistemática e meta-análise publicada em setembro de 2026 no British Journal of Sports Medicine analisou o impacto do exercício físico na função cognitiva de adultos com mais de 60 anos sem demência.

Os resultados são particularmente interessantes porque avaliaram diferentes dimensões da cognição, incluindo funções executivas, memória e velocidade de processamento. O exercício realizado isoladamente apresentou melhorias estatisticamente significativas nos três domínios quando comparado com grupos de controlo.

A investigação acrescenta evidência importante à ideia de que o exercício não deve ser visto apenas como uma ferramenta para manter músculos e coração saudáveis. Manter o corpo ativo também pode ser uma estratégia para preservar a função cerebral ao longo do envelhecimento.

O que são funções cognitivas?

A cognição não é uma capacidade única. É constituída por diferentes processos que permitem ao ser humano perceber informação, aprender, recordar, tomar decisões e adaptar o comportamento.

As funções executivas, por exemplo, estão relacionadas com processos como planeamento, controlo da atenção, inibição de respostas inadequadas, flexibilidade mental e resolução de problemas.

A memória permite adquirir, armazenar e recuperar informação. Já a velocidade de processamento está relacionada com a rapidez com que conseguimos receber, interpretar e responder a informação.

Estas capacidades podem sofrer alterações com o envelhecimento. Isto não significa que todas as pessoas desenvolvam défice cognitivo ou demência, mas torna importante perceber que fatores modificáveis podem contribuir para preservar a função cerebral.

O que analisou esta nova revisão?

Os investigadores procuraram determinar os efeitos do exercício físico isolado e de intervenções multidimensionais que combinavam exercício com outras estratégias de estilo de vida na função cognitiva de adultos com mais de 60 anos sem demência.

Foram pesquisadas quatro grandes bases de dados: Medline, Embase, PsycINFO e CINAHL, desde o início de cada base até março de 2026.

A revisão incluiu ensaios clínicos randomizados, um desenho particularmente relevante para avaliar os efeitos de uma intervenção como o exercício físico.

Nas meta-análises tradicionais foram incluídos 227 estudos. Destes, 178 avaliaram exercício isoladamente e 67 avaliaram exercício combinado com outras intervenções.

Para a meta-análise em rede, foram incluídos 105 estudos: 76 sobre exercício isolado e 36 sobre intervenções multidimensionais.

Exercício físico e funções executivas

Um dos resultados mais importantes foi observado nas funções executivas.

O exercício realizado como intervenção isolada apresentou uma melhoria estatisticamente significativa relativamente aos grupos de controlo.

Este resultado é relevante porque as funções executivas têm uma enorme importância prática no quotidiano.

Planear uma tarefa, organizar um dia de trabalho, mudar de estratégia quando uma solução não funciona, controlar distrações ou tomar decisões dependem de diferentes componentes do funcionamento executivo.

Por isso, uma alteração relativamente pequena numa avaliação cognitiva pode representar uma dimensão importante quando pensamos na manutenção da autonomia ao longo do envelhecimento.

Naturalmente, um resultado estatisticamente significativo num teste cognitivo não significa automaticamente que uma pessoa irá sentir uma transformação evidente no dia a dia. A relação entre testes neuropsicológicos e funcionalidade quotidiana é mais complexa.

O efeito sobre a memória

A memória foi outra das áreas estudadas.

O exercício isolado apresentou novamente uma melhoria estatisticamente significativa relativamente ao grupo de controlo.

Este resultado é particularmente interessante porque a memória é uma das funções cognitivas que mais preocupa muitas pessoas à medida que envelhecem.

Esquecer ocasionalmente um nome, uma palavra ou onde colocámos determinado objeto pode acontecer em qualquer idade e não significa necessariamente doença. O envelhecimento normal e as doenças neurodegenerativas são fenómenos diferentes.

O objetivo da investigação sobre exercício e cognição não é prometer que o treino evita todas as alterações de memória. É perceber se a atividade física pode contribuir para preservar ou melhorar determinados aspetos da função cognitiva.

Velocidade de processamento

A terceira dimensão analisada foi a velocidade de processamento.

Também aqui o exercício isolado apresentou melhorias significativas relativamente ao grupo de controlo.

A velocidade de processamento é importante porque muitas atividades quotidianas dependem da capacidade de interpretar informação rapidamente e responder adequadamente.

Conduzir, atravessar uma rua, acompanhar uma conversa, reagir a alterações do ambiente ou executar determinadas tarefas profissionais são exemplos em que a rapidez de processamento da informação pode ter importância.

Tal como acontece com as outras funções cognitivas, a velocidade de processamento não deve ser analisada isoladamente. A capacidade funcional resulta da interação entre diferentes sistemas cognitivos, sensoriais e motores.

O exercício isolado parece ser suficiente?

Esta é uma das partes mais interessantes do estudo.

Os investigadores compararam o exercício isolado com intervenções que combinavam exercício com outros componentes relacionados com o estilo de vida.

O exercício isolado produziu melhorias significativas nos três domínios cognitivos analisados quando comparado com o controlo.

Já o exercício combinado com outras intervenções apresentou uma melhoria significativa relativamente ao controlo principalmente na memória.

Na comparação direta entre as duas estratégias, o exercício combinado com outros componentes foi superior ao exercício isolado nas funções executivas e na velocidade de processamento, mas não apresentou diferença significativa relativamente à memória.

Estes resultados sugerem que acrescentar componentes cognitivas ou outras estratégias de estilo de vida ao exercício pode ter interesse, mas não anulam a importância do próprio exercício físico.

O que significa exercício multidimensional?

Uma intervenção multidimensional pode combinar exercício físico com outras estratégias, como treino cognitivo ou atividades cognitivamente estimulantes.

Na revisão, o treino cognitivo e as atividades cognitivamente envolventes foram os componentes adicionais mais frequentes.

Esta abordagem parte de uma ideia interessante: se diferentes sistemas podem ser estimulados através de diferentes atividades, talvez seja possível combinar estímulos físicos e cognitivos.

Por exemplo, caminhar enquanto se realizam tarefas que exigem atenção, trabalhar equilíbrio associado a estímulos cognitivos ou combinar treino físico com atividades intelectualmente desafiantes são estratégias que podem envolver simultaneamente diferentes capacidades.

No entanto, a revisão não permite afirmar que todas as combinações multidimensionais sejam superiores ao exercício isolado em todas as dimensões cognitivas.

Porque pode o exercício influenciar o cérebro?

Existem vários mecanismos possíveis que podem ajudar a explicar a relação entre atividade física e função cognitiva.

O exercício melhora a capacidade cardiovascular e pode favorecer a circulação sanguínea, incluindo o fornecimento de oxigénio e nutrientes aos tecidos.

Também pode influenciar a saúde metabólica, a sensibilidade à insulina, a regulação vascular e determinados processos relacionados com inflamação.

Além disso, o exercício provoca adaptações no sistema nervoso e pode estimular processos relacionados com plasticidade cerebral.

A neuroplasticidade corresponde à capacidade do sistema nervoso para se adaptar e modificar em resposta às experiências e estímulos.

Não existe, contudo, um único mecanismo responsável por todos os efeitos observados. O cérebro é influenciado simultaneamente por fatores cardiovasculares, metabólicos, psicológicos, sociais e comportamentais.

Treino de força também pode ser importante

Quando se fala em exercício para o cérebro, muitas pessoas pensam imediatamente em caminhada, corrida ou bicicleta.

Mas o treino de força também merece atenção.

Preservar força muscular é essencial para a autonomia e para a realização das atividades diárias. Além disso, sessões de força exigem aprendizagem motora, controlo corporal, atenção e coordenação.

Um programa de exercício para adultos mais velhos pode, portanto, combinar treino de força com exercício aeróbio, equilíbrio e mobilidade.

Esta abordagem tem uma vantagem adicional: em vez de tentar escolher entre saúde física e saúde cerebral, permite trabalhar simultaneamente várias componentes da capacidade funcional.

O exercício deve ser adaptado à idade?

Sim, mas idade cronológica não deve ser o único critério.

Duas pessoas com 70 anos podem apresentar capacidades físicas completamente diferentes. Uma pode correr, levantar cargas e praticar desporto regularmente. Outra pode ter limitações importantes de força, equilíbrio ou mobilidade.

Por isso, a prescrição de exercício deve considerar o estado funcional individual.

A progressão deve ser adequada à capacidade inicial, permitindo aumentar gradualmente a dificuldade à medida que a pessoa desenvolve maior competência.

Esta individualização é particularmente importante para evitar que a ideia de “exercício para o cérebro” se transforme numa recomendação genérica que ignora as necessidades do corpo.

Exercício e prevenção da demência: o que podemos dizer?

É necessário cuidado com esta questão.

O estudo analisou adultos mais velhos sem demência e avaliou resultados cognitivos. Isso é diferente de demonstrar que o exercício previne a demência ou impede uma doença neurodegenerativa.

Os resultados mostram melhorias em determinadas funções cognitivas, mas não permitem afirmar que uma determinada quantidade de exercício elimina o risco de desenvolver demência.

A demência é um conjunto complexo de doenças com múltiplos fatores de risco e mecanismos biológicos. O exercício pode fazer parte de uma estratégia global de saúde cerebral, mas não deve ser apresentado como garantia de prevenção.

Porque é importante começar antes dos 60 anos?

Embora esta revisão tenha analisado pessoas com mais de 60 anos, não existe razão para esperar até essa idade para começar a cuidar da capacidade física.

A força muscular, a capacidade cardiovascular, o equilíbrio e outros componentes da condição física são construídos ao longo dos anos.

Manter níveis adequados de atividade física durante a idade adulta pode contribuir para chegar às décadas mais avançadas com maior reserva funcional.

Além disso, o exercício é um comportamento que beneficia simultaneamente vários sistemas. Trabalhar força e capacidade cardiovascular pode ajudar a manter independência física, enquanto a aprendizagem de movimentos e tarefas motoras acrescenta um componente cognitivo ao próprio treino.

O treino pode ser também um desafio cognitivo

Uma sessão de exercício não precisa de ser apenas uma sequência automática de movimentos.

Aprender novos exercícios, controlar a técnica, adaptar movimentos, memorizar sequências ou responder a estímulos externos pode acrescentar complexidade cognitiva ao treino.

Esta dimensão pode ser especialmente interessante em adultos mais velhos.

Um programa que combine movimento, aprendizagem e tomada de decisão pode ser simultaneamente fisicamente estimulante e cognitivamente exigente.

Isso não significa que todos os exercícios tenham de ser complexos. Pelo contrário: exercícios simples, realizados com progressão adequada, continuam a ser extremamente úteis.

As limitações da investigação

Apesar da grande dimensão da revisão, existem algumas limitações importantes.

Os estudos incluídos utilizaram programas de exercício bastante diferentes, com diferentes modalidades, volumes, intensidades e durações. Isso torna mais difícil identificar exatamente qual a dose de exercício necessária para obter cada benefício cognitivo.

Além disso, as intervenções multidimensionais também variaram consideravelmente.

Por isso, os resultados apoiam a utilização do exercício como estratégia para promover a função cognitiva, mas ainda existe espaço para determinar quais os programas mais eficazes para diferentes pessoas e diferentes objetivos.

Conclusão

Uma grande revisão sistemática e meta-análise publicada no British Journal of Sports Medicine analisou 227 estudos nas meta-análises por pares e 105 estudos numa meta-análise em rede para avaliar os efeitos do exercício na função cognitiva de adultos com mais de 60 anos sem demência.

O exercício físico realizado isoladamente apresentou melhorias estatisticamente significativas em funções executivas, memória e velocidade de processamento quando comparado com grupos de controlo.

As intervenções que combinaram exercício com outras estratégias de estilo de vida apresentaram resultados diferentes: foram superiores ao controlo para memória e, quando comparadas diretamente com exercício isolado, apresentaram benefícios adicionais nas funções executivas e na velocidade de processamento, mas não na memória.

A mensagem mais importante é simples: o exercício não serve apenas para manter músculos e coração saudáveis; também pode ser uma ferramenta importante para preservar e melhorar determinadas funções cognitivas durante o envelhecimento.

Não é necessário procurar uma solução extraordinária. Caminhar, treinar força, melhorar o equilíbrio, desenvolver a capacidade cardiovascular e aprender novos movimentos podem fazer parte de uma estratégia abrangente para envelhecer com maior capacidade física e cognitiva.

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Referências

  1. Hernández-Gamboa R, Zou J, Oh J, et al. Exercise-only interventions and exercise-based multidomain lifestyle interventions to promote cognitive function in older adults without dementia: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine. 2026.
    PubMed
  2. DOI:
    10.1136/bjsports-2026-111684