Uma nova revisão sistemática e meta-análise publicada em 18 de setembro de 2026 analisou a relação entre atividade física e vários biomarcadores de stress oxidativo e defesa antioxidante em seres humanos.
O trabalho reuniu 98 estudos publicados entre 2000 e 2025 e realizou uma meta-análise quantitativa de 31 estudos, envolvendo um total de 4.742 participantes. Os resultados sugerem que a atividade física pode reduzir alguns marcadores de dano oxidativo e melhorar determinadas formas de capacidade antioxidante.
No entanto, a conclusão não é que o exercício simplesmente “elimina” o stress oxidativo. A relação é bastante mais complexa. O exercício pode aumentar temporariamente a produção de espécies reativas, mas esse estímulo também pode desencadear adaptações que melhoram a capacidade do organismo para lidar com o stress oxidativo.
O que é o stress oxidativo?
O stress oxidativo ocorre quando a produção de espécies reativas de oxigénio e azoto ultrapassa, de forma relevante, a capacidade dos sistemas antioxidantes para as neutralizar.
As espécies reativas não são necessariamente prejudiciais. Em pequenas quantidades, participam em processos fisiológicos importantes, incluindo sinalização celular, adaptação ao exercício e defesa imunológica.
O problema surge quando existe um desequilíbrio persistente entre produção e defesa antioxidante, podendo ocorrer dano em lípidos, proteínas e material genético.
Por esse motivo, o organismo possui vários sistemas antioxidantes, incluindo mecanismos enzimáticos e não enzimáticos.
O exercício aumenta ou reduz o stress oxidativo?
A resposta correta é: pode fazer as duas coisas.
Durante uma sessão de exercício, sobretudo quando a intensidade é elevada, aumenta o metabolismo energético e pode aumentar temporariamente a produção de espécies reativas.
Este aumento agudo não significa necessariamente que o exercício esteja a provocar dano. Pelo contrário, pode funcionar como um estímulo adaptativo.
É semelhante a outros processos de adaptação fisiológica: um estímulo suficientemente forte para provocar uma perturbação temporária pode levar o organismo a desenvolver mecanismos mais eficientes para responder ao mesmo estímulo no futuro.
Esta é uma das razões pelas quais a relação entre exercício e stress oxidativo é frequentemente descrita como uma resposta hormética.
O que esta nova meta-análise encontrou?
Os investigadores analisaram seis grandes grupos de biomarcadores relacionados com stress oxidativo e defesa antioxidante: malondialdeído (MDA), superóxido dismutase (SOD), catalase (CAT), glutationa (GSH), capacidade antioxidante total (TAC) e estado antioxidante total (TAS).
Entre os resultados mais importantes, a atividade física esteve associada a uma redução significativa do MDA e a um aumento significativo do TAS.
O MDA é frequentemente utilizado como marcador de peroxidação lipídica e pode fornecer informação sobre dano oxidativo relacionado com lípidos.
Já o TAS representa uma medida global do estado antioxidante, procurando refletir a capacidade antioxidante total de determinados componentes presentes no organismo.
Os resultados sugerem, portanto, que o exercício pode modificar o equilíbrio redox humano de uma forma favorável, mas não necessariamente através do aumento uniforme de todas as enzimas antioxidantes.
Menos MDA depois da atividade física
Na meta-análise, a atividade física esteve associada a uma redução significativa do MDA.
O efeito combinado apresentou um SMD de -1,02, com intervalo de confiança de 95% entre -1,95 e -0,09.
O valor de p foi 0,032, indicando significância estatística segundo o limiar utilizado pelos investigadores.
Este resultado é interessante porque sugere uma redução global de um marcador relacionado com peroxidação lipídica.
No entanto, existe uma limitação importante: a heterogeneidade entre os estudos foi muito elevada, com um I² de 94,6%.
Isso significa que os resultados individuais dos estudos foram bastante diferentes entre si. Portanto, embora exista uma associação global, a magnitude do efeito não deve ser considerada igual para todas as pessoas ou todos os tipos de exercício.
O estado antioxidante total aumentou
Outro resultado relevante foi observado no TAS.
A atividade física esteve associada a um aumento significativo do estado antioxidante total, com um SMD de 0,76 e intervalo de confiança de 95% entre 0,38 e 1,15.
O valor de p foi inferior a 0,001.
Ao contrário do MDA, a heterogeneidade para este resultado foi muito baixa, com I² de 0% na análise apresentada pelos autores.
Este resultado reforça a possibilidade de o exercício melhorar a capacidade antioxidante global sem necessariamente aumentar todos os sistemas antioxidantes individuais.
E a SOD, catalase e TAC?
A resposta foi menos clara para alguns dos restantes biomarcadores.
A análise agrupada não encontrou efeitos estatisticamente significativos para SOD, catalase e TAC.
Este resultado é importante porque impede uma conclusão demasiado simples de que “o exercício aumenta todos os antioxidantes”.
O organismo possui uma rede complexa de mecanismos antioxidantes e diferentes biomarcadores podem responder de maneiras diferentes ao exercício.
Além disso, a resposta pode depender da intensidade do exercício, duração do programa, idade, composição corporal, estado de treino e características metabólicas dos participantes.
O que aconteceu com a glutationa?
A glutationa reduzida, ou GSH, apresentou uma tendência para redução, mas o resultado não atingiu significância estatística.
O efeito agrupado foi de aproximadamente -0,58, com p = 0,075.
Os autores também identificaram sinais de possível viés de publicação para este biomarcador, através do teste de Egger.
Por isso, a interpretação dos resultados relativos à GSH deve ser particularmente prudente.
O exercício intenso é prejudicial?
Não é possível responder simplesmente “sim” ou “não”.
Uma sessão de exercício intenso pode aumentar temporariamente alguns marcadores de stress oxidativo. Isso faz parte da resposta fisiológica ao esforço.
O problema é interpretar esse aumento agudo como se fosse equivalente a dano oxidativo crónico.
O organismo adapta-se ao treino. Com a exposição repetida ao exercício, podem ocorrer alterações na capacidade antioxidante, eficiência mitocondrial e mecanismos celulares de defesa.
Assim, uma subida transitória de determinados marcadores imediatamente depois de uma sessão não significa necessariamente que a atividade física esteja a prejudicar a saúde.
Exercício como estímulo adaptativo
Uma das ideias mais interessantes relacionadas com este tema é que o exercício funciona como um stress fisiológico controlado.
Quando o organismo é exposto regularmente a uma dose adequada de exercício, é obrigado a adaptar-se.
Essa adaptação pode envolver o músculo esquelético, sistema cardiovascular, mitocôndrias, metabolismo energético e sistemas antioxidantes.
É precisamente esta capacidade de adaptação que ajuda a explicar porque uma pessoa fisicamente ativa pode apresentar uma resposta diferente ao stress oxidativo comparativamente a alguém sedentário.
O exercício não precisa de eliminar completamente as espécies reativas para ser benéfico. O objetivo fisiológico é manter um equilíbrio adequado.
Nem todo o exercício produz a mesma resposta
A meta-análise incluiu diferentes tipos de exercício, incluindo treino aeróbio, treino de força, HIIT e programas combinados.
Também foram incluídos estudos com diferentes durações, desde sessões agudas até programas de treino com várias semanas.
Esta diversidade é simultaneamente uma vantagem e uma limitação.
É uma vantagem porque permite analisar uma grande quantidade de evidência humana. Mas também aumenta a heterogeneidade, tornando mais difícil determinar qual é o tipo, intensidade ou duração de exercício ideal para modificar cada biomarcador.
A idade pode modificar a resposta
Os investigadores realizaram análises por subgrupos e encontraram sinais de que a idade poderia modificar algumas respostas.
A idade foi identificada como potencial modificador do efeito para a GSH e TAC.
Contudo, as análises de meta-regressão não demonstraram relações lineares claras entre idade ou duração do exercício e os efeitos observados.
Estes resultados devem ser encarados como pistas para investigação futura e não como uma fórmula que permita determinar a resposta antioxidante de uma pessoa apenas com base na idade.
E o índice de massa corporal?
O IMC também foi analisado como possível modificador dos efeitos.
Os autores encontraram diferenças entre alguns subgrupos definidos pelo IMC, sugerindo que o estado metabólico e a composição corporal podem influenciar a resposta redox ao exercício.
Esta possibilidade é biologicamente plausível, uma vez que excesso de adiposidade, resistência à insulina e inflamação metabólica podem estar associados a alterações do equilíbrio redox.
Mais uma vez, porém, os resultados das análises de subgrupos devem ser interpretados com cautela.
Exercício e envelhecimento saudável
O stress oxidativo é frequentemente associado ao envelhecimento, mas não devemos concluir que os antioxidantes funcionam como uma solução isolada para retardar o envelhecimento.
O organismo necessita de espécies reativas para diversas funções fisiológicas e a produção de espécies reativas aumenta e diminui de acordo com o contexto.
A atividade física regular pode contribuir para melhorar a capacidade de adaptação do organismo, juntamente com outros fatores como sono adequado, alimentação equilibrada, manutenção de massa muscular e controlo dos fatores de risco cardiovascular.
Por isso, o interesse desta meta-análise está menos na procura de um “antioxidante perfeito” e mais na compreensão de como o exercício modifica a fisiologia humana.
Devemos tomar antioxidantes para compensar o exercício?
Os resultados desta investigação não justificam essa conclusão.
O estudo analisou a resposta dos biomarcadores ao exercício e não demonstra que tomar suplementos antioxidantes seja necessário para obter os benefícios da atividade física.
Além disso, interferir excessivamente com os processos oxidativos pode, teoricamente, alterar algumas das adaptações induzidas pelo exercício.
Por isso, não devemos assumir que quanto maior for a capacidade antioxidante medida num teste laboratorial, melhor será necessariamente o resultado fisiológico.
O objetivo é preservar o equilíbrio redox, e não eliminar completamente as espécies reativas.
O que podemos fazer na prática?
Para a maioria das pessoas, os resultados reforçam uma mensagem relativamente simples: atividade física regular continua a ser uma das estratégias mais importantes para melhorar a saúde global.
Não é necessário procurar uma modalidade específica apenas para aumentar determinado marcador antioxidante.
Um programa equilibrado pode combinar exercício aeróbio, treino de força e atividade física diária, de acordo com a condição física e os objetivos individuais.
A progressão deve ser adequada à capacidade da pessoa. Um indivíduo sedentário não precisa de começar com sessões extremamente intensas para obter adaptações positivas.
Da mesma forma, alguém fisicamente ativo pode beneficiar de uma distribuição equilibrada entre estímulo e recuperação.
Uma nova visão sobre o stress oxidativo
A investigação ajuda a afastar uma ideia demasiado simples: a de que todo o stress oxidativo é prejudicial e que todos os antioxidantes são sempre benéficos.
O organismo funciona através de sistemas dinâmicos. O exercício provoca um desafio fisiológico e o corpo responde através de adaptações.
Segundo esta nova síntese da evidência, a atividade física parece reduzir alguns indicadores de dano oxidativo e melhorar determinados indicadores de capacidade antioxidante.
Mas os efeitos não foram uniformes para todos os biomarcadores.
Esta distinção é fundamental para interpretar corretamente a ciência do exercício.
Limitações da investigação
Apesar da dimensão da revisão, os autores salientam várias limitações.
A heterogeneidade foi elevada em grande parte das análises, chegando a valores de aproximadamente 87% a 97% para vários resultados.
Além disso, a maioria dos estudos apresentou qualidade metodológica moderada e muitas amostras eram relativamente pequenas.
Os participantes também apresentavam características muito diferentes, desde atletas de elite até pessoas sedentárias, adultos com excesso de peso e indivíduos com doenças crónicas.
Consequentemente, não é possível transformar os resultados numa recomendação única de intensidade, duração ou frequência de exercício para toda a população.
Conclusão
A nova revisão sistemática e meta-análise publicada em 18 de setembro de 2026 reuniu 98 estudos em humanos e avaliou a relação entre atividade física e vários biomarcadores de stress oxidativo.
Os resultados mostraram uma redução significativa do MDA e um aumento significativo do estado antioxidante total. Por outro lado, não foram observados efeitos globais significativos para SOD, catalase ou capacidade antioxidante total, enquanto a glutationa apresentou uma tendência não significativa para redução.
Os resultados reforçam a ideia de que o exercício pode melhorar a capacidade do organismo para lidar com o stress oxidativo, mas não através de uma simples ativação uniforme de todos os mecanismos antioxidantes.
A elevada heterogeneidade entre os estudos e a qualidade metodológica moderada obrigam a interpretar os resultados com prudência.
Na prática, a investigação apoia uma visão mais equilibrada: o exercício é um estímulo fisiológico que pode provocar stress oxidativo agudo, mas também desencadear adaptações antioxidantes e metabólicas favoráveis.
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Referências
- Estudo principal: Wahib HR, Afroundeh R, Farzizadeh R, Malekzadeh R. Physical activity and oxidative stress biomarkers in humans: a systematic review and quantitative meta-analysis.
- Revista: BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation.
- Data de publicação: 18 de setembro de 2026.
- Volume: 18, artigo 429, 2026.
- Registo PROSPERO: CRD420251144711.
- Artigo científico completo: Springer Nature – BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation.
- DOI do estudo: 10.1186/s13102-026-02059-z.