Será que a intensidade do exercício modifica a forma como o organismo responde ao treino? Um novo estudo publicado em setembro de 2026 na revista Cell Reports Medicine sugere que sim. Os investigadores descobriram que diferentes intensidades de exercício produzem respostas distintas no proteoma e no metaboloma do sangue e podem alterar a comunicação entre diferentes órgãos.
O trabalho é particularmente interessante porque não analisou apenas parâmetros tradicionais, como frequência cardíaca, consumo de oxigénio ou gasto energético. Os investigadores procuraram perceber o que acontece no organismo a nível molecular depois de diferentes tipos de exercício.
Os resultados mostram que o exercício intervalado de sprint, caracterizado por períodos muito curtos de esforço máximo, desencadeia alterações mais rápidas e abrangentes em numerosas proteínas circulantes do que o exercício contínuo de intensidade moderada. Estas proteínas estiveram também associadas, em bases de dados populacionais, a diferentes indicadores de saúde cardiometabólica.
O que significa comunicação entre órgãos?
Durante o exercício, os músculos não trabalham isoladamente.
O esforço físico provoca alterações em vários tecidos e órgãos, que comunicam entre si através da libertação de proteínas, metabolitos, lípidos e outras moléculas para a circulação sanguínea.
O músculo esquelético pode libertar moléculas que influenciam o tecido adiposo. O tecido adiposo pode responder e libertar outros sinais. O fígado, coração, cérebro e sistema vascular também participam nesta complexa rede de comunicação.
Estas moléculas são frequentemente estudadas no contexto das chamadas exerkines, substâncias produzidas ou moduladas pelo exercício que podem participar nas adaptações ao treino.
O novo estudo procurou perceber se a intensidade do exercício altera esta comunicação entre órgãos.
Como foi realizado o estudo?
Os investigadores utilizaram várias coortes humanas e compararam dois modelos de exercício.
O primeiro foi o sprint-interval exercise (SIE), caracterizado por períodos muito curtos de exercício extremamente intenso. O segundo foi o moderate-intensity exercise (MIE), realizado de forma contínua e a intensidade moderada.
Os participantes incluíam pessoas treinadas e não treinadas, permitindo avaliar se o estado de treino modificava a resposta molecular ao exercício.
Foram analisadas grandes quantidades de proteínas e metabolitos presentes no plasma sanguíneo. Os investigadores combinaram ainda estes dados com informação sobre expressão genética e proteica em diferentes tecidos.
O objetivo foi tentar identificar de onde provinham determinados sinais produzidos pelo exercício e quais os tecidos que poderiam responder a esses sinais.
O exercício intenso provocou uma resposta molecular muito maior
Uma das descobertas mais marcantes foi a diferença entre as respostas provocadas pelas duas intensidades.
O exercício intervalado de sprint provocou alterações imediatas e abrangentes no proteoma plasmático. Em contraste, o exercício moderado produziu uma resposta mais pequena inicialmente, com algumas alterações a surgirem posteriormente.
Em análises de alta resolução foram identificadas alterações em centenas de proteínas após o protocolo de sprint. Num dos conjuntos experimentais, cerca de 714 proteínas apresentaram alterações imediatamente após o exercício intervalado, enquanto o exercício moderado produziu uma resposta imediata muito menor.
Esta diferença não significa que o exercício moderado seja biologicamente pouco importante. Pelo contrário: significa que o organismo responde de forma diferente consoante o estímulo físico recebido.
Uma sessão longa de exercício moderado e alguns minutos de esforço muito intenso não são simplesmente duas formas equivalentes de produzir o mesmo estímulo fisiológico.
O músculo e o tecido adiposo foram particularmente sensíveis
Os investigadores observaram que as fibras musculares e os adipócitos, as células que armazenam gordura, eram particularmente sensíveis à intensidade do exercício.
O tecido adiposo apresentou alterações importantes na expressão de genes quando foi exposto, em experiências laboratoriais, a plasma recolhido após diferentes tipos de exercício.
Isto sugere que as moléculas libertadas para o sangue durante o exercício podem transmitir informação entre tecidos.
O resultado ajuda a compreender por que razão o exercício produz efeitos sistémicos. A atividade física não atua apenas sobre o músculo que está a trabalhar. O estímulo mecânico e metabólico produzido durante o exercício pode desencadear uma resposta coordenada em vários órgãos.
Mais intensidade significa mais benefícios?
Esta é provavelmente a questão mais importante para interpretar o estudo.
Não. O estudo não demonstra que o exercício de intensidade máxima seja globalmente superior ao exercício moderado.
O que demonstra é que diferentes intensidades produzem diferentes respostas moleculares.
Uma resposta molecular maior ou mais rápida não significa automaticamente uma maior redução do risco de doença a longo prazo. Entre uma alteração numa proteína depois de uma sessão de exercício e uma redução efetiva de eventos cardiovasculares ou diabetes existe uma cadeia complexa de processos biológicos.
Os investigadores procuraram ultrapassar parcialmente este problema relacionando as proteínas alteradas pelo exercício com dados de saúde cardiometabólica provenientes de grandes bases de dados.
Encontraram proteínas estimuladas pelo exercício intervalado que estavam preferencialmente associadas a indicadores de saúde cardiometabólica. Contudo, estas associações não equivalem a demonstração de causalidade.
O que são os biomarcadores cardiometabólicos?
Doenças como obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e doença cardiovascular estão relacionadas com alterações complexas no metabolismo, inflamação, função vascular e comunicação entre tecidos.
Por isso, os investigadores procuraram perceber se as moléculas alteradas pelo exercício apresentavam alguma relação com estas condições.
Algumas das proteínas que responderam ao exercício intervalado estavam associadas a perfis considerados mais favoráveis em termos cardiometabólicos.
Este resultado é interessante porque sugere que a intensidade pode funcionar como uma espécie de “linguagem biológica”: estímulos físicos diferentes podem provocar diferentes conjuntos de sinais moleculares.
No entanto, é necessário separar associação de causa. O facto de uma proteína estar associada a melhor saúde cardiometabólica não significa que aumentar essa proteína através de exercício seja suficiente para prevenir uma doença.
Porque é que os sprints produzem uma resposta tão diferente?
O exercício de intensidade muito elevada provoca uma perturbação fisiológica muito rápida.
A necessidade de produzir energia aumenta abruptamente, o metabolismo muscular é fortemente estimulado e ocorrem alterações rápidas na disponibilidade de substratos energéticos, circulação, temperatura, pH e concentração de determinados metabolitos.
Este ambiente fisiológico pode funcionar como um sinal para vários tecidos.
O organismo precisa de responder rapidamente ao aumento da procura energética. O músculo aumenta a utilização de combustível, o sistema cardiovascular aumenta o transporte de oxigénio e nutrientes e outros tecidos ajustam o seu metabolismo.
O estudo sugere que esta resposta sistémica pode ser observada diretamente através das alterações no plasma.
O exercício moderado continua a ser importante
É fundamental não interpretar estes resultados como uma crítica ao exercício moderado.
Caminhar rapidamente, correr a intensidade moderada, andar de bicicleta ou realizar outros exercícios contínuos são estratégias importantes para aumentar a capacidade cardiorrespiratória e acumular atividade física.
O exercício moderado pode ser realizado durante períodos mais longos e, para muitas pessoas, é mais fácil de integrar numa rotina regular.
Além disso, pessoas sedentárias, com determinadas doenças ou com baixa capacidade física podem não estar preparadas para esforços máximos.
O benefício de um programa de treino não depende apenas da resposta molecular produzida por uma sessão. Depende também da segurança, consistência, recuperação, progressão e capacidade de manter o programa durante meses e anos.
O papel do treino intervalado
O treino intervalado de alta intensidade pode ser uma ferramenta útil para pessoas com uma base física adequada.
Uma das suas características mais interessantes é permitir acumular estímulos cardiovasculares muito intensos em períodos relativamente curtos.
O novo estudo acrescenta uma dimensão molecular a esta discussão. Os investigadores observaram que pequenas quantidades de exercício extremamente intenso foram capazes de provocar alterações muito amplas no plasma.
Contudo, isso não significa que seja necessário realizar sprints máximos em todas as sessões.
Uma programação equilibrada pode combinar diferentes intensidades. Sessões moderadas podem contribuir para aumentar o volume de treino, enquanto sessões mais intensas podem proporcionar um estímulo cardiovascular diferente.
Intensidade e envelhecimento saudável
Para adultos de meia-idade e mais velhos, a questão torna-se ainda mais relevante.
Manter a capacidade cardiorrespiratória é importante para a autonomia e para a tolerância ao esforço. Ao mesmo tempo, preservar força muscular, equilíbrio e mobilidade é essencial para continuar fisicamente ativo.
Não existe uma intensidade ideal universal. O estímulo deve ser adequado à condição física individual.
Uma pessoa treinada pode tolerar estímulos que seriam excessivos para alguém sedentário. Da mesma forma, a presença de fatores de risco cardiovascular ou outras limitações pode justificar uma progressão mais gradual e uma avaliação individualizada.
O objetivo não deve ser perseguir a maior resposta molecular possível, mas utilizar diferentes estímulos de exercício de forma segura e sustentável.
O estudo muda a forma como pensamos sobre exercício?
O principal contributo desta investigação é mostrar que o exercício funciona como uma intervenção sistémica altamente dinâmica.
Não existe apenas uma resposta ao exercício. Existem múltiplas respostas que dependem da intensidade, duração, estado de treino e características individuais.
O organismo parece utilizar uma rede complexa de sinais para coordenar a resposta entre músculos, tecido adiposo e outros órgãos.
Esta visão pode ajudar futuramente a desenvolver programas de exercício mais personalizados, em que a intensidade seja utilizada de forma estratégica para estimular determinados processos fisiológicos.
Conclusão
O estudo publicado na Cell Reports Medicine mostra que a intensidade do exercício modifica profundamente a comunicação molecular entre diferentes tecidos do organismo.
O exercício intervalado de sprint produziu respostas mais rápidas e abrangentes no proteoma e metaboloma plasmáticos do que o exercício contínuo de intensidade moderada. Músculo e tecido adiposo demonstraram uma particular sensibilidade à intensidade do exercício.
Algumas das proteínas estimuladas pelo exercício intervalado apresentaram associações com indicadores de saúde cardiometabólica, mas estes resultados não permitem afirmar que o treino de alta intensidade seja superior na prevenção de doenças.
A mensagem mais importante é provavelmente outra: o organismo não responde da mesma forma a todas as intensidades de exercício. A intensidade é uma variável fisiológica relevante e pode ser utilizada, quando apropriado, juntamente com duração, frequência e modalidade, para construir programas de treino mais individualizados.
Posso ajudar
Posso ajudar a integrar diferentes intensidades de treino, combinando força, capacidade cardiovascular e recuperação, de acordo com a condição física, experiência, objetivos e limitações individuais.
Referências
- Olsen L, Botella J, Barrows D, et al. Exercise intensity modulates interorgan communication and is associated with cardiometabolic health outcomes in humans. Cell Reports Medicine. 2026;7(9):102988. DOI: 10.1016/j.xcrm.2026.102988. Consultar estudo original.
- PubMed — estudo publicado em 2026.
- Versão anterior do trabalho em acesso aberto.