Hidratos de carbono refinados podem alterar o sistema imunitário após uma dieta low-carb?

Hidratos de carbono refinados podem alterar o sistema imunitário após uma dieta low-carb? September 14, 2026Leave a comment

Um novo ensaio clínico publicado em setembro de 2026 encontrou alterações em marcadores metabólicos e imunológicos após a introdução de hidratos de carbono refinados depois de uma perda de peso obtida com uma dieta muito baixa em hidratos de carbono.

A relação entre alimentação, metabolismo e sistema imunitário é cada vez mais estudada. Durante muito tempo, a alimentação foi analisada sobretudo através do peso corporal, colesterol, glicemia ou pressão arterial. Atualmente, sabemos que aquilo que comemos também pode influenciar células imunitárias e diferentes vias de sinalização relacionadas com inflamação e metabolismo.

Um novo estudo publicado no Cell Press Blue em 10 de setembro de 2026 analisou precisamente esta questão. Os investigadores estudaram pessoas que tinham perdido peso após seguir uma dieta muito baixa em hidratos de carbono e avaliaram o que acontecia quando eram introduzidos hidratos de carbono refinados na alimentação. (Cell)

Os resultados são interessantes, mas precisam de ser interpretados com cuidado: o estudo encontrou alterações em marcadores imunológicos, não demonstrou que comer hidratos de carbono refinados provoque diretamente uma doença.

O que foi estudado?

O trabalho, de Dantas, Shi, Kim e colaboradores, teve como objetivo estudar os efeitos dos hidratos de carbono refinados sobre o sistema imunitário depois de uma perda de peso obtida através de uma dieta muito baixa em hidratos de carbono.

O título do estudo é:

“Effects of refined carbohydrates on immune markers after weight loss on a very-low-carbohydrate diet: A randomized controlled feeding trial.” (Cell)

O desenho é particularmente relevante porque se trata de um ensaio controlado de alimentação, e não simplesmente de um estudo observacional.

Os investigadores compararam diferentes padrões de ingestão de hidratos de carbono e avaliaram alterações em marcadores presentes no sangue.

O objetivo não era simplesmente saber se os participantes engordavam ou emagreciam.

A pergunta era mais específica:

Depois de uma perda de peso conseguida com uma dieta muito baixa em hidratos de carbono, a introdução de hidratos de carbono refinados altera a atividade do sistema imunitário?

O que são hidratos de carbono refinados?

Antes de interpretar os resultados, é importante perceber o que significa “hidratos de carbono refinados”.

Os hidratos de carbono incluem muitos alimentos diferentes. Não podemos colocar todos na mesma categoria.

Uma maçã, uma aveia integral, uma batata, uma lentilha e um produto feito com farinha branca são todos fontes de hidratos de carbono, mas têm características nutricionais muito diferentes.

Os hidratos de carbono refinados são geralmente alimentos em que parte da estrutura original do cereal foi removida durante o processamento.

Exemplos podem incluir:

  • farinha branca;
  • pão branco;
  • massas refinadas;
  • alguns cereais de pequeno-almoço;
  • bolachas;
  • produtos de pastelaria;
  • alguns alimentos ultraprocessados ricos em amido e açúcar.

O problema não está necessariamente no facto de conterem hidratos de carbono.

A questão é a matriz alimentar, o grau de processamento, a quantidade, a velocidade de absorção e aquilo que acompanha esses hidratos de carbono.

O que aconteceu depois da dieta muito baixa em hidratos?

Um dos aspetos mais interessantes do estudo é que os participantes não estavam simplesmente a começar uma dieta rica em hidratos de carbono.

Tinham passado anteriormente por uma fase de perda de peso associada a uma dieta muito baixa em hidratos de carbono.

Depois dessa fase, foram avaliados os efeitos da introdução de diferentes tipos de hidratos de carbono.

Os investigadores observaram alterações em vários marcadores relacionados com o sistema imunitário.

Entre os resultados destacados estão alterações nos níveis de adipsina e em vias relacionadas com o sistema do complemento. Também foram identificadas alterações em vias metabólicas e imunológicas nas células brancas do sangue. (News-Medical)

Isto sugere que a mudança brusca na disponibilidade de hidratos de carbono pode ter efeitos que vão além da simples alteração da glicemia.

O que é a adipsina?

A adipsina é uma proteína relacionada com o tecido adiposo e com o sistema do complemento, uma parte importante do sistema imunitário.

A sua função não é exclusivamente imunitária.

Está também relacionada com processos metabólicos.

O estudo encontrou aumento dos níveis de adipsina associado ao consumo de cereais refinados depois da perda de peso conseguida através da dieta muito baixa em hidratos de carbono. (News-Medical)

Este resultado é interessante porque demonstra como metabolismo e imunidade estão profundamente ligados.

O tecido adiposo, por exemplo, não funciona apenas como uma reserva energética.

É um tecido biologicamente ativo que produz moléculas capazes de influenciar metabolismo, inflamação e função imunitária.

Foram observadas alterações nas células imunitárias

Os investigadores não analisaram apenas uma molécula.

Também encontraram alterações em diferentes populações de células do sistema imunitário.

Entre as células analisadas estavam:

  • linfócitos T auxiliares;
  • células NK;
  • neutrófilos;
  • monócitos;
  • células dendríticas.

Foram observados aumentos em determinados marcadores de ativação destas células depois da introdução de hidratos de carbono refinados. (News-Medical)

É aqui que a investigação se torna especialmente interessante.

Não estamos simplesmente perante uma alteração da glicemia depois de uma refeição.

Estamos perante alterações mensuráveis em vias metabólicas e imunológicas.

Isto significa que os hidratos de carbono refinados provocam inflamação?

Não podemos afirmar isso com base neste estudo.

Esta distinção é fundamental.

O trabalho encontrou alterações em marcadores imunológicos e vias relacionadas com a resposta imunitária.

Isso não significa automaticamente que os participantes tenham desenvolvido uma doença inflamatória ou que qualquer pessoa que coma pão branco, arroz branco ou massa refinada esteja a provocar uma inflamação prejudicial no organismo.

O sistema imunitário é extremamente complexo.

Uma alteração de um marcador laboratorial pode representar uma resposta fisiológica transitória e não necessariamente uma consequência negativa a longo prazo.

Por isso, seria incorreto transformar estes resultados numa mensagem simplista como:

“Os hidratos de carbono fazem mal ao sistema imunitário.”

O estudo não demonstra isso.

A importância do contexto metabólico

Talvez uma das conclusões mais interessantes seja que a resposta pode depender do contexto metabólico em que os hidratos de carbono são introduzidos.

Os participantes tinham passado por uma dieta muito baixa em hidratos de carbono e por perda de peso.

Depois foram expostos a uma alimentação diferente.

Isto significa que não podemos necessariamente extrapolar os resultados para uma pessoa que mantém uma alimentação equilibrada e consome diariamente quantidades moderadas de hidratos de carbono.

Também não podemos concluir que uma dieta low-carb seja obrigatoriamente superior.

O estudo não responde a essa pergunta.

Responde a uma questão muito mais específica sobre a resposta imunometabólica à introdução de hidratos de carbono refinados depois de uma intervenção de perda de peso.

E os picos de glicemia?

Uma possível explicação discutida na investigação está relacionada com as respostas metabólicas provocadas pelos hidratos de carbono refinados.

Alimentos ricos em amido refinado podem ser rapidamente digeridos e provocar uma subida relativamente rápida da glicose no sangue, dependendo do alimento, quantidade, preparação e contexto da refeição.

O organismo responde através da libertação de insulina e de outras alterações metabólicas.

Quando estas respostas são repetidas frequentemente, podem existir consequências metabólicas diferentes das observadas quando os hidratos de carbono são consumidos dentro de alimentos ricos em fibra e estruturalmente menos processados.

Os investigadores levantam a possibilidade de que episódios repetidos de aumento da glicose após as refeições possam estar relacionados com respostas envolvendo adipsina e vias do complemento. (News-Medical)

Mas esta hipótese precisa de ser estudada em maior profundidade.

Então devemos eliminar os hidratos de carbono?

Não.

Esta seria uma conclusão exagerada.

Os hidratos de carbono encontram-se numa enorme variedade de alimentos importantes para a saúde.

Fruta, legumes, leguminosas e cereais integrais fornecem hidratos de carbono juntamente com fibra, vitaminas, minerais e outros compostos biologicamente ativos.

O problema é diferente quando uma parte significativa da alimentação é constituída por produtos feitos com farinha refinada, açúcar adicionado e outros ingredientes ultraprocessados.

Por isso, uma estratégia mais razoável é melhorar a qualidade dos hidratos de carbono, em vez de simplesmente eliminá-los.

Carboidratos refinados versus alimentos ricos em fibra

Uma diferença importante está na matriz alimentar.

Compare, por exemplo:

Farinha branca + açúcar + gordura, utilizada num produto de pastelaria.

Com:

Aveia integral + fruta + frutos secos.

Ambos podem fornecer hidratos de carbono.

Mas a resposta metabólica, o teor de fibra, a saciedade e a quantidade de micronutrientes podem ser muito diferentes.

O mesmo acontece quando comparamos:

  • pão branco com pão integral;
  • cereais açucarados com aveia;
  • bolachas com fruta;
  • sobremesas com leguminosas ou cereais integrais.

Por isso, quando falamos de hidratos de carbono, é mais útil perguntar “que tipo de hidratos de carbono?” do que simplesmente perguntar “hidratos de carbono sim ou não?”.

O que este estudo acrescenta?

A principal contribuição deste ensaio é mostrar que alterações na alimentação podem estar associadas a mudanças mensuráveis no sistema imunitário.

O estudo reforça uma área cada vez mais importante da ciência:

a ligação entre metabolismo e imunidade.

Esta área é frequentemente chamada de imunometabolismo.

O metabolismo e o sistema imunitário não funcionam como sistemas independentes.

Glicose, insulina, tecido adiposo, aminoácidos, lípidos e outros nutrientes podem influenciar células imunitárias.

Da mesma forma, moléculas produzidas pelo sistema imunitário podem influenciar metabolismo.

É uma relação bidirecional.

O exercício também pode ser importante

A alimentação não deve ser analisada isoladamente.

O exercício físico influencia profundamente o metabolismo da glicose, a sensibilidade à insulina, a composição corporal e diferentes mecanismos relacionados com a função imunitária.

Uma pessoa fisicamente ativa pode apresentar uma resposta metabólica diferente à mesma refeição comparativamente a uma pessoa sedentária.

Além disso, o músculo esquelético funciona como um importante consumidor de glicose.

O treino regular pode aumentar a capacidade do músculo para utilizar glicose e melhorar a sensibilidade à insulina.

Por isso, alimentação, exercício, sono, composição corporal e stress devem ser considerados como partes de um mesmo sistema.

O que podemos retirar para a alimentação diária?

Não é necessário entrar numa guerra contra o pão, arroz, massa ou outros alimentos com hidratos de carbono.

Uma abordagem mais equilibrada passa por:

1. Preferir alimentos pouco processados

Fruta, legumes, leguminosas, tubérculos e cereais integrais devem ter um papel importante.

2. Aumentar a fibra

A fibra ajuda a tornar a absorção dos hidratos de carbono mais gradual e contribui para a saúde intestinal.

3. Reduzir o excesso de produtos refinados

Bolachas, doces, cereais açucarados e produtos de pastelaria devem ser consumidos com moderação.

4. Combinar hidratos de carbono com proteína e gordura saudável

Uma refeição equilibrada pode incluir vegetais, uma fonte de proteína, azeite e uma fonte de hidratos de carbono ricos em fibra.

5. Manter atividade física regular

O exercício é uma das ferramentas mais importantes para melhorar a saúde metabólica.

Conclusão

Um novo ensaio controlado publicado em 10 de setembro de 2026 no Cell Press Blue encontrou alterações em marcadores imunológicos e metabólicos quando hidratos de carbono refinados foram introduzidos depois de uma perda de peso conseguida através de uma dieta muito baixa em hidratos de carbono. (Cell)

Foram observadas alterações na adipsina, em vias relacionadas com o sistema do complemento e em marcadores de ativação de várias células imunitárias, incluindo células T auxiliares, células NK, neutrófilos, monócitos e células dendríticas. (News-Medical)

Mas o estudo não demonstra que os hidratos de carbono refinados causem doença ou que todos os hidratos de carbono sejam prejudiciais.

A mensagem mais útil é provavelmente outra: a qualidade dos hidratos de carbono importa, e a resposta do organismo depende também do contexto metabólico.

Para uma alimentação orientada para saúde e longevidade, faz sentido privilegiar fruta, legumes, leguminosas, cereais integrais e outros alimentos pouco processados, reduzindo o consumo habitual de produtos ricos em farinha refinada, açúcar adicionado e ultraprocessados.

Mais do que eliminar um nutriente, a estratégia deve ser melhorar a qualidade global da alimentação e combiná-la com exercício físico regular.

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Referências

Dantas E, Shi Y, Kim J, et al. (2026). Effects of refined carbohydrates on immune markers after weight loss on a very-low-carbohydrate diet: A randomized controlled feeding trial.

Artigo científico completo — Cell Press Blue

DOI: 10.1016/j.cpblue.2026.100122

Referência do artigo — ScienceDirect

Notícia científica sobre os principais resultados do estudo

Resumo dos resultados — News-Medical