HIT vs HVT é uma comparação clássica no treino de força e hipertrofia. De um lado, o High Intensity Training, normalmente associado a um número reduzido de séries, elevada intensidade de esforço e grande atenção à recuperação. Do outro, o High Volume Training, caracterizado pela utilização de um maior número de séries e, consequentemente, por uma maior quantidade de trabalho realizado.
Durante décadas, estas duas abordagens foram frequentemente apresentadas como modelos opostos. No entanto, quando analisamos o treino de forma prática, a questão é mais complexa. O resultado não depende apenas de escolher entre pouco ou muito volume. Depende da relação entre volume, intensidade, frequência, proximidade da falha, seleção dos exercícios, recuperação e capacidade individual de adaptação.
Esta comparação é particularmente interessante para quem pretende ganhar massa muscular, melhorar a força ou simplesmente manter uma boa condição física ao longo dos anos. É também relevante para pessoas com mais de 40 anos, para quem a recuperação, o historial de treino, as limitações articulares e a disponibilidade semanal podem alterar significativamente a forma como o treino deve ser organizado.
O que é High Intensity Training?
O High Intensity Training (HIT) tornou-se conhecido sobretudo através do trabalho de treinadores como Arthur Jones e, posteriormente, de nomes como Mike Mentzer. A ideia central é relativamente simples: procurar que poucas séries de trabalho sejam realizadas com elevado esforço, reduzindo simultaneamente o volume total do treino.
O HIT tradicional pode utilizar séries próximas da falha muscular ou até à falha, exercícios realizados com elevada concentração e períodos de recuperação relativamente longos. A lógica é que uma série suficientemente exigente pode proporcionar um estímulo importante sem necessidade de acumular grandes quantidades de trabalho.
É importante, contudo, distinguir intensidade de carga de intensidade de esforço. Levantar uma percentagem elevada da repetição máxima é uma forma de intensidade. Realizar uma série próxima da falha também representa uma elevada intensidade de esforço. São conceitos relacionados, mas não são sinónimos.
O que é High Volume Training?
O High Volume Training (HVT) utiliza uma quantidade maior de trabalho. Essa quantidade pode resultar de mais séries por exercício, mais exercícios, mais sessões semanais ou uma combinação destes elementos.
O volume pode ser contabilizado de diferentes formas. Número de séries, repetições, carga total movimentada e séries efetivas são algumas das métricas utilizadas. Na hipertrofia, o número de séries realizadas com esforço suficiente para estimular o músculo é particularmente relevante.
Mais volume não significa automaticamente melhor treino. Existe uma relação entre estímulo e recuperação. À medida que o volume aumenta, também aumenta a necessidade de recuperar desse trabalho. Quando a quantidade de treino ultrapassa a capacidade individual de recuperação, o acréscimo de trabalho pode deixar de produzir benefícios proporcionais.
HIT vs HVT: volume
A diferença mais evidente está no volume.
O HIT procura obter um estímulo elevado através de poucas séries. O HVT procura acumular uma quantidade maior de trabalho ao longo da sessão ou da semana.
Na prática, a relação entre volume e resultados não é linear. Aumentar o volume pode melhorar a resposta ao treino até determinado ponto, mas isso não significa que duplicar o número de séries duplique a hipertrofia ou a força.
Por esse motivo, um programa eficaz deve procurar encontrar o volume necessário, e não simplesmente o maior volume possível.
Intensidade e proximidade da falha
Uma das características frequentemente associadas ao HIT é a utilização da falha muscular. A ideia é levar a série até ao ponto em que já não é possível completar outra repetição com a técnica prevista.
No entanto, treinar sempre até à falha não é obrigatório para obter hipertrofia. Séries realizadas próximas da falha também podem proporcionar um estímulo significativo. A utilização sistemática da falha pode aumentar a fadiga e dificultar a recuperação, sobretudo quando é aplicada em muitos exercícios e sessões.
No HVT, a gestão da proximidade da falha torna-se ainda mais importante. Fazer muitas séries e levar todas até ao limite pode criar uma quantidade de fadiga difícil de sustentar.
Frequência de treino
HIT e HVT também podem ser organizados com diferentes frequências.
Um programa HIT tradicional pode utilizar menos sessões semanais porque cada sessão contém um elevado grau de esforço e o volume é reduzido. Já um programa de maior volume pode distribuir o trabalho por várias sessões para evitar concentrar demasiada fadiga num único treino.
Contudo, não existe uma frequência obrigatória associada a cada método. É possível utilizar pouco volume várias vezes por semana ou distribuir um grande volume por várias sessões.
A frequência deve permitir que o praticante realize trabalho de qualidade e recupere suficientemente entre sessões.
HIT vs HVT para hipertrofia
Na hipertrofia, a discussão entre HIT e HVT é particularmente interessante. A investigação contemporânea sugere que o volume semanal é uma variável importante para o crescimento muscular, embora exista grande variabilidade individual e retornos decrescentes à medida que o volume aumenta.
Uma abordagem de baixo volume pode ser suficiente para produzir ganhos, especialmente em pessoas pouco treinadas. À medida que o praticante ganha experiência, pode ser necessário aumentar o estímulo para continuar a progredir.
Isso não significa que um praticante avançado precise obrigatoriamente de volumes extremos. Significa que a quantidade de trabalho necessária pode mudar com a experiência, a capacidade de recuperação, o músculo treinado, a seleção dos exercícios e o objetivo.
Força: HIT vs HVT
Quando o objetivo principal é força, a comparação torna-se diferente. A força depende não apenas do desenvolvimento muscular, mas também da técnica, coordenação, prática específica do movimento e adaptação neuromuscular.
Uma pessoa que pretende melhorar significativamente um determinado levantamento pode beneficiar da prática frequente desse movimento ou de variantes próximas. Nesse contexto, reduzir excessivamente o número de exposições pode limitar a oportunidade de aperfeiçoar a técnica.
Por outro lado, o treino de força também exige uma gestão cuidadosa da fadiga. Nem todas as séries precisam de ser realizadas até à falha, especialmente quando o objetivo envolve cargas elevadas e elevada exigência técnica.
Recuperação: uma variável central
A recuperação é provavelmente uma das áreas em que a comparação entre HIT e HVT se torna mais útil.
O corpo não responde apenas ao estímulo do treino. Responde à combinação entre estímulo, recuperação, sono, alimentação, stress, idade, historial de treino e atividade física diária.
Uma pessoa pode tolerar um determinado volume durante alguns meses e deixar de o tolerar quando aumenta o stress profissional, dorme menos ou começa a realizar outras atividades físicas.
Por isso, o melhor programa não é necessariamente aquele que apresenta mais séries ou aquele que apresenta menos séries. É aquele que produz um estímulo adequado sem criar uma quantidade de fadiga que comprometa a continuidade do treino.
Iniciados: HIT ou HVT?
Nos praticantes iniciados, pequenas quantidades de treino podem produzir melhorias significativas. Existe muito espaço para adaptação e a técnica dos exercícios ainda está a ser desenvolvida.
Por essa razão, não é necessário começar com volumes elevados. Um programa relativamente simples pode permitir aprender os movimentos, melhorar a coordenação e desenvolver força e massa muscular.
Também é importante não transformar o HIT numa procura constante pela falha muscular. Para um iniciante, aprender a executar corretamente um exercício pode ser mais importante do que descobrir qual é a última repetição possível.
À medida que a experiência aumenta, o treino pode ser progressivamente ajustado.
Praticantes avançados
Nos praticantes avançados, a situação é diferente. Quanto maior a experiência, maior pode ser a necessidade de controlar cuidadosamente o estímulo necessário para continuar a progredir.
Alguns atletas podem beneficiar de mais volume. Outros podem responder melhor a períodos de menor volume e maior intensidade. Também pode ser útil alternar fases de maior e menor carga de treino.
O conceito de volume mínimo efetivo, volume máximo recuperável e diferentes níveis intermédios pode ser mais útil do que pensar em HIT e HVT como duas caixas completamente separadas.
E depois dos 40 anos?
Depois dos 40 anos, a experiência acumulada pode ser uma vantagem. Muitas pessoas já conhecem os exercícios que toleram melhor, sabem reconhecer determinados sinais de fadiga e compreendem melhor a relação entre treino e recuperação.
Ao mesmo tempo, podem existir alterações na recuperação, no sono, na disponibilidade de tempo, nas articulações e no historial de lesões. Isto não significa que uma pessoa com mais de 40 anos deva treinar obrigatoriamente com pouco volume. Significa que o volume e a intensidade devem ser individualizados.
Uma pessoa de 50 anos que treina há décadas pode necessitar de uma estratégia completamente diferente da de outra pessoa da mesma idade que começou a treinar há três meses.
Também não é obrigatório escolher entre HIT e HVT. Pode utilizar-se um volume moderado, algumas séries mais exigentes, outras mais afastadas da falha e diferentes frequências semanais.
HIT vs HVT: existe um vencedor?
Comparar HIT e HVT como se fossem sistemas completamente incompatíveis pode ser pouco útil.
O HIT chama a atenção para a importância da intensidade do esforço, da eficiência do treino e da recuperação. O HVT chama a atenção para a importância da quantidade de trabalho acumulado e da possibilidade de distribuir o estímulo ao longo da semana.
Ambas as abordagens podem fornecer princípios úteis. O desafio está em perceber quanto treino uma determinada pessoa consegue realizar, recuperar e repetir com qualidade.
Na prática, muitos programas de treino eficazes acabam por utilizar elementos das duas filosofias. Podem existir períodos de maior volume, seguidos por períodos de redução do volume. Algumas séries podem ser levadas muito perto da falha, enquanto outras ficam com algumas repetições em reserva. A frequência pode ser ajustada de acordo com o exercício e a recuperação.
O treino deve adaptar-se à pessoa
Mais importante do que escolher uma etiqueta é observar a resposta individual.
Se o praticante progride, recupera adequadamente, mantém boa técnica e consegue repetir o treino com consistência, existe uma indicação de que o estímulo está a ser bem tolerado.
Se a performance diminui continuamente, aparecem dores persistentes, a motivação cai ou a recuperação entre sessões se torna insuficiente, pode ser necessário reduzir o volume, alterar a intensidade, mudar exercícios ou aumentar o intervalo entre sessões.
Da mesma forma, quando o treino deixa de produzir progressão durante um período prolongado, pode ser necessário aumentar o estímulo de alguma forma.
É neste ponto que um método de treino deixa de ser apenas uma coleção de exercícios e passa a ser um processo de acompanhamento. O treino pode precisar de mudar ao longo de meses e anos, porque a pessoa também muda.
Conclusão
HIT vs HVT não deve ser entendido como uma escolha absoluta entre treinar pouco e treinar muito. O verdadeiro desafio é encontrar a combinação adequada de volume, intensidade, frequência e recuperação para cada pessoa.
O High Intensity Training mostra que poucas séries bem executadas podem proporcionar um estímulo importante. O High Volume Training demonstra que uma maior quantidade de trabalho pode ser utilizada para aumentar o estímulo, desde que exista capacidade para recuperar.
Para quem começa, para quem já treina há muitos anos e para quem tem mais de 40 anos, a estratégia pode ser diferente. O treino deve ser suficientemente exigente para produzir adaptação, mas suficientemente sustentável para poder ser repetido durante muito tempo.
No final, a questão mais importante não é simplesmente HIT ou HVT? É perceber quanto, como e quando treinar aquela pessoa concreta.
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Referências
- Schoenfeld BJ, Grgic J, Krieger J. How many times per week should a muscle be trained to maximize muscle hypertrophy? A systematic review and meta-analysis of studies examining the effects of resistance training frequency. Journal of Sports Sciences.
- Schoenfeld BJ, Ogborn D, Krieger JW. Dose-response relationship between weekly resistance training volume and increases in muscle mass: a systematic review and meta-analysis. Journal of Sports Sciences.
- Schoenfeld BJ, Grgic J. Effects of resistance training performed to repetition failure or non-failure on muscular strength and hypertrophy: a systematic review and meta-analysis.
- Grgic J, Schoenfeld BJ, Orazem J, Sabol F. Effects of resistance training performed to repetition failure or non-failure on muscular strength and hypertrophy: a systematic review and meta-analysis.
- Baz-Valle E, Fontes-Villalba M, Santos-Concejero J. Total Number of Sets as a Training Volume Quantification Method for Muscle Hypertrophy: A Systematic Review.