Manter a atividade física com o avançar da idade não depende apenas de saber que o exercício faz bem. Para muitas pessoas, o verdadeiro desafio é transformar a atividade física num hábito que seja suficientemente agradável, acessível e motivador para ser mantido durante meses ou anos.
Um novo estudo publicado em setembro de 2026 analisou precisamente esta questão. Os investigadores estudaram um programa de exergaming, uma forma de exercício que combina movimento físico com elementos de videojogo, interação e diversão, procurando perceber se os benefícios relacionados com a motivação e a criação de hábitos permaneciam depois de terminar a fase de treino supervisionado.
Os resultados sugerem que esta combinação pode ser interessante para promover a continuidade da atividade física entre adultos mais velhos, embora o desenho observacional do estudo não permita afirmar que o programa tenha sido responsável diretamente pelas alterações observadas.
Data do estudo mais recente: 9 de setembro de 2026.
O que é o exergaming?
O termo exergaming resulta da combinação das palavras exercise e gaming. Refere-se a atividades que utilizam tecnologias interativas para transformar o movimento corporal numa experiência semelhante a um jogo.
Em vez de simplesmente pedir a uma pessoa para caminhar, fazer determinados movimentos ou realizar uma sequência de exercícios, o sistema pode transformar esses movimentos numa atividade com objetivos, desafios, pontuação ou interação com outras pessoas.
Esta abordagem procura resolver um problema importante: o exercício físico nem sempre é suficientemente motivador para ser mantido a longo prazo.
Para algumas pessoas, a sensação de diversão, desafio e interação social pode tornar a atividade física mais apelativa do que uma sessão convencional de exercício.
O novo estudo realizado em adultos mais velhos
O estudo foi realizado em Singapura e acompanhou 280 adultos mais velhos, recrutados em 14 centros de atividade sénior ou de envelhecimento ativo.
A idade média dos participantes era de 72,5 anos e aproximadamente 77% eram mulheres.
Os investigadores acompanharam os participantes em várias fases. Primeiro existiu uma avaliação inicial. Seguiu-se um período de 8 semanas de treino supervisionado. Depois, os participantes passaram por 4 semanas de utilização não supervisionada, durante as quais puderam continuar a utilizar o sistema em regime de free play.
Em alguns centros foi ainda realizada uma avaliação posterior.
Esta estrutura permitiu aos investigadores observar uma questão especialmente relevante: o que acontece quando termina a supervisão?
O verdadeiro desafio é manter o exercício
Começar a fazer exercício é relativamente simples. O problema surge frequentemente algumas semanas ou meses depois.
A motivação inicial pode diminuir, o trabalho pode ocupar mais tempo, podem surgir dores, alterações na rotina ou simplesmente falta de vontade.
Por isso, quando falamos de exercício e longevidade, uma pergunta talvez seja mais importante do que saber se determinado exercício funciona:
Será que a pessoa consegue continuar a fazê-lo?
É precisamente neste ponto que o conceito de formação de hábitos ganha importância.
Um exercício ligeiramente menos eficiente do ponto de vista fisiológico, mas realizado regularmente durante anos, pode ter uma importância prática muito maior do que um programa teoricamente excelente que é abandonado poucas semanas depois.
A motivação aumentou após o programa
No início do estudo, os investigadores avaliaram diferentes características relacionadas com o comportamento dos participantes.
Depois das 8 semanas de treino supervisionado, verificaram aumentos na motivação intrínseca e na força do hábito relacionado com a atividade.
A motivação intrínseca refere-se à vontade de realizar uma atividade porque ela própria é considerada interessante, agradável ou satisfatória, e não apenas porque existe uma recompensa externa.
Este conceito pode ser particularmente importante para o exercício.
Uma pessoa que caminha apenas porque o médico lhe disse que deve caminhar pode abandonar o comportamento quando deixa de sentir pressão externa. Uma pessoa que gosta genuinamente da atividade pode ter maior probabilidade de continuar.
O hábito manteve-se depois da supervisão
Um dos resultados mais interessantes surgiu depois das 8 semanas de treino.
Durante as quatro semanas seguintes, em que os participantes passaram para uma fase de utilização não supervisionada, a força do hábito permaneceu superior à observada no início do estudo.
A motivação intrínseca também permaneceu mais elevada do que no início.
Este resultado é relevante porque sugere que a experiência de exercício pode ter ultrapassado a fase inicial de aprendizagem e começado a integrar-se na rotina de alguns participantes.
Contudo, é importante não exagerar esta conclusão. O estudo não teve um grupo de controlo e existiu perda de participantes ao longo do acompanhamento. Por isso, os investigadores classificam os resultados como trajetórias observadas e não como prova de eficácia causal.
Também houve melhoria da saúde mental positiva
Outro resultado interessante foi a evolução da saúde mental positiva.
Após as 8 semanas de treino supervisionado, esta medida aumentou relativamente ao início do estudo. O valor permaneceu superior ao inicial durante a fase seguinte de utilização não supervisionada.
É possível que uma atividade que combine movimento, diversão, desafio e contacto social tenha características particularmente interessantes para o bem-estar psicológico.
Mas, novamente, é necessário cuidado na interpretação.
Como não existiu um grupo de controlo, não podemos concluir que o exergaming tenha causado diretamente a melhoria da saúde mental. Outros fatores associados à participação num programa comunitário podem ter contribuído para os resultados.
O papel da interação social
Um dos aspetos mais interessantes deste tipo de intervenção é que o exercício deixa de ser necessariamente uma atividade solitária.
Quando existe participação de outras pessoas, competição amigável, cooperação ou simplesmente uma rotina partilhada, podem surgir estímulos sociais que ajudam a manter o envolvimento.
Para adultos mais velhos, isto pode ser particularmente relevante.
O envelhecimento saudável não envolve apenas força muscular e capacidade cardiovascular. Manter participação social, autonomia, confiança e atividades significativas também faz parte de uma abordagem abrangente à longevidade.
Ter oportunidade para fazer exercício também importa
Os investigadores utilizaram ainda o modelo COM-B, que considera três componentes relacionados com a mudança de comportamento: capacidade, oportunidade e motivação.
Entre estes fatores, a oportunidade esteve associada a uma maior melhoria imediata da atividade física após o período de treino.
Este resultado ajuda a compreender uma questão muitas vezes esquecida: mesmo uma pessoa motivada pode ter dificuldade em manter o exercício se não tiver oportunidade para o realizar.
Ter acesso a equipamentos, espaços adequados, horários compatíveis, apoio de profissionais, lembretes e uma rotina estruturada pode fazer uma diferença importante.
Por isso, promover atividade física entre adultos mais velhos não significa apenas dizer-lhes para fazerem exercício. Também pode ser necessário criar condições que tornem o exercício mais fácil de realizar regularmente.
Exercício e tecnologia podem complementar-se
A tecnologia não precisa de substituir o exercício tradicional.
Um sistema de exergaming pode simplesmente funcionar como uma ferramenta adicional para pessoas que têm dificuldade em encontrar motivação para caminhar, fazer exercícios de força ou participar numa atividade física convencional.
Para algumas pessoas, uma aplicação, videojogo ou dispositivo interativo pode transformar uma tarefa pouco apelativa numa experiência mais divertida.
Para outras, a tecnologia poderá ter pouca utilidade.
O mais importante é encontrar uma forma de atividade física que seja adequada às capacidades da pessoa e suficientemente interessante para ser repetida.
Não é necessário esperar pela velhice
Embora o estudo tenha sido realizado em adultos mais velhos, a ideia da formação de hábitos é relevante em qualquer idade.
Começar com uma rotina sustentável pode ser mais importante do que procurar imediatamente a sessão de exercício perfeita.
Uma pessoa pode começar com caminhadas, treino de força, bicicleta, natação, corrida, dança ou outra atividade de que goste. A partir daí, pode aumentar progressivamente a duração, frequência ou intensidade.
O objetivo não deve ser apenas acumular minutos de exercício numa determinada semana. É criar uma relação com o movimento que possa acompanhar a pessoa durante muitos anos.
O que este estudo nos ensina sobre longevidade?
Uma das principais mensagens deste trabalho é que a adesão ao exercício merece tanta atenção como o exercício propriamente dito.
Conhecemos os benefícios da atividade física para a saúde cardiovascular, capacidade funcional, força muscular e envelhecimento saudável. No entanto, esses benefícios dependem em grande parte da continuidade.
Estratégias que aumentem a motivação, criem rotinas e facilitem o acesso à atividade física podem ser importantes para transformar recomendações de saúde em comportamentos reais.
O exergaming é apenas uma possibilidade. Caminhar com amigos, treinar em grupo, praticar um desporto, fazer aulas, estabelecer objetivos ou trabalhar com um profissional também podem ajudar a criar uma rotina sustentável.
Uma conclusão importante: o melhor exercício é aquele que conseguimos manter
O estudo publicado em setembro de 2026 não demonstra que os videojogos sejam superiores ao treino convencional. Também não demonstra que o exergaming provoque diretamente melhorias na saúde mental ou na atividade física.
O que demonstra é mais específico: num grupo de adultos mais velhos participantes num programa comunitário de exergaming, a motivação intrínseca, a força do hábito e a saúde mental positiva apresentaram melhorias após o período supervisionado, e algumas dessas diferenças permaneceram durante o período seguinte de utilização não supervisionada.
Para quem trabalha com exercício e envelhecimento, esta pode ser uma mensagem muito relevante.
Não basta encontrar exercícios eficazes. É necessário encontrar formas de tornar o movimento suficientemente acessível, agradável e sustentável para que as pessoas continuem a fazê-lo.
Posso ajudar
Posso ajudar a criar uma rotina de exercício adaptada à idade, condição física e objetivos, combinando força, mobilidade, equilíbrio e resistência para tornar o movimento sustentável.
Conclusão
Um novo estudo realizado em Singapura sugere que uma abordagem baseada em exergaming pode estar associada a melhorias na motivação, formação de hábitos e saúde mental positiva em adultos mais velhos.
Os participantes realizaram 8 semanas de treino supervisionado e, posteriormente, passaram por um período de utilização não supervisionada. A força do hábito e a motivação intrínseca permaneceram superiores aos valores iniciais durante essa fase.
Apesar dos resultados promissores, o estudo foi observacional, não teve grupo de controlo e apresentou perda de participantes ao longo do acompanhamento. Por isso, não permite estabelecer uma relação causal entre o programa e as alterações observadas.
A principal mensagem pode, contudo, ser aplicada muito para além dos videojogos: para promover um envelhecimento saudável, não basta prescrever exercício; é fundamental criar condições para que a pessoa queira e consiga continuar a praticá-lo.
Referências
- Liu Y, Chia BX, Koh HY, et al. Community Exergaming and Maintenance-Related Outcomes in Older Adults: Multi-Wave Observational Evaluation. JMIR Aging. Publicado em 9 de setembro de 2026.
- Artigo completo em PubMed Central: Community Exergaming and Maintenance-Related Outcomes in Older Adults.
- DOI: 10.2196/100007 — JMIR Aging.