Durante muito tempo, o lactato foi visto como um simples produto do metabolismo muscular. Quando fazíamos exercício intenso, acreditava-se que o lactato se acumulava nos músculos, provocava fadiga e depois era eliminado.
Hoje sabemos que esta visão está ultrapassada.
O lactato é uma molécula energética, mas também pode funcionar como mensageiro entre o músculo e o cérebro.
E esta segunda função é particularmente interessante porque pode estar relacionada com a plasticidade cerebral — a capacidade que o cérebro tem de modificar as suas ligações e adaptar-se a novos estímulos.
O que é a plasticidade cerebral?
O cérebro não é uma estrutura imutável.
Ao longo da vida, as ligações entre os neurónios podem ser fortalecidas, enfraquecidas ou reorganizadas.
Esta capacidade é chamada plasticidade neuronal ou plasticidade cerebral.
É fundamental para:
- aprendizagem;
- memória;
- aquisição de novas capacidades;
- adaptação a novos ambientes;
- recuperação após determinadas lesões;
- manutenção da função cerebral ao longo do envelhecimento.
Quando aprendemos uma nova habilidade, por exemplo, o cérebro modifica a eficiência das redes neuronais envolvidas nessa tarefa.
E o exercício parece ser um dos estímulos capazes de favorecer estes mecanismos.
Onde entra o lactato?
Quando fazemos exercício, particularmente quando a intensidade aumenta, os músculos produzem mais lactato.
O lactato entra na circulação sanguínea e pode chegar ao cérebro.
Mas o mais interessante é que o cérebro consegue utilizar lactato como combustível.
O lactato pode ser convertido em piruvato e posteriormente utilizado pelas mitocôndrias para produzir ATP.
Isto significa que uma molécula produzida pelo músculo pode ser utilizada diretamente pelo cérebro para obter energia.
Mas esta parece ser apenas uma parte da história.
O lactato também pode funcionar como sinal
O lactato parece ter uma segunda função: sinalizar às células que o organismo está a realizar atividade física.
Esta sinalização pode modificar determinadas vias moleculares no cérebro.
Uma das moléculas que desperta maior interesse neste contexto é o BDNF — brain-derived neurotrophic factor.
O BDNF participa na sobrevivência dos neurónios e, sobretudo, na capacidade das ligações entre neurónios se modificarem.
É por isso que o BDNF é tão importante para processos relacionados com aprendizagem e memória.
Alguns estudos experimentais sugerem que o aumento de lactato provocado pelo exercício pode contribuir para a ativação de vias relacionadas com BDNF e plasticidade neuronal.
Lactato → BDNF → plasticidade?
É tentador simplificar a história desta forma:
Exercício → lactato → BDNF → cérebro mais plástico.
Mas a realidade é mais complexa.
O exercício provoca simultaneamente alterações no fluxo sanguíneo cerebral, metabolismo energético, neurotransmissores, hormonas, fatores de crescimento, inflamação e várias moléculas libertadas pelo músculo.
O lactato parece ser uma peça deste sistema, e não a única explicação.
Mesmo assim, a possibilidade de o lactato funcionar como uma espécie de mensageiro metabólico entre o músculo e o cérebro é extremamente interessante.
O lactato pode ajudar o cérebro a adaptar-se
Imagine que começa a aprender uma nova língua, aprende a tocar guitarra ou inicia um novo exercício que exige coordenação.
O cérebro precisa de modificar redes neuronais.
Para isso, necessita de energia e de mecanismos que permitam alterar as sinapses.
A atividade física parece criar um ambiente biológico favorável a estes processos.
O aumento transitório do lactato durante o exercício pode participar nesta resposta.
É como se o exercício enviasse ao cérebro uma mensagem:
“O organismo está ativo. Adapta-te.”
Não é uma mensagem consciente, obviamente, mas uma sequência de sinais metabólicos e moleculares.
O cérebro pode usar lactato como combustível
Esta parte é importante porque a plasticidade cerebral consome energia.
Modificar conexões neuronais não é metabolicamente gratuito.
O cérebro necessita de ATP para manter a atividade neuronal e para realizar os processos necessários à comunicação entre células.
Durante exercício intenso, a utilização cerebral de lactato aumenta.
Estudos realizados em humanos demonstraram que o cérebro consegue utilizar lactato proveniente da circulação como substrato energético durante o exercício.
Estudo sobre utilização cerebral de lactato durante exercício
Mais recentemente, um estudo publicado em 2026 encontrou aumento do lactato no líquido cefalorraquidiano após exercício prolongado, reforçando a ideia de que o lactato produzido durante o exercício pode modificar diretamente o ambiente metabólico do cérebro.
Estudo de 2026 sobre lactato no líquido cefalorraquidiano após exercício prolongado
O lactato não vem apenas dos músculos
Existe ainda outro mecanismo fascinante.
O próprio cérebro consegue produzir lactato.
Os astrócitos, células de suporte do sistema nervoso, armazenam glicogénio e podem produzir lactato.
Este lactato pode posteriormente ser disponibilizado aos neurónios.
Este mecanismo é conhecido como astrocyte-neuron lactate shuttle.
Assim, o cérebro possui uma espécie de sistema interno de produção e distribuição de lactato.
O exercício pode alterar significativamente esta dinâmica energética.
Investigação sobre lactato produzido pelos astrócitos e metabolismo cerebral
E o envelhecimento?
É aqui que o assunto se torna particularmente relevante.
Com o envelhecimento, verificam-se alterações no metabolismo cerebral, na função mitocondrial, na plasticidade sináptica e em vários mecanismos associados à aprendizagem e memória.
O exercício regular parece ajudar a preservar vários destes sistemas.
Ainda não podemos afirmar que o lactato seja responsável por uma eventual proteção contra o declínio cognitivo.
Seria uma conclusão exagerada.
Mas é plausível que a capacidade de produzir, transportar e utilizar lactato faça parte da complexa resposta adaptativa provocada pelo exercício.
Ou seja, uma parte dos benefícios cerebrais do exercício pode resultar precisamente da capacidade de o organismo transformar atividade muscular em sinais metabólicos para o cérebro.
Treino de força também conta
Quando se fala de cérebro e exercício, existe uma tendência para pensar exclusivamente em corrida, ciclismo ou outras atividades cardiovasculares.
Mas o treino de força também produz alterações metabólicas importantes.
Séries de musculação suficientemente intensas podem aumentar significativamente a produção de lactato.
Além disso, o treino de força proporciona outros estímulos fundamentais para o cérebro: coordenação, controlo motor, aprendizagem técnica, proprioceção e adaptação neuromuscular.
Por isso, para envelhecer com um cérebro funcional, não devemos pensar apenas em “cardio”.
Força + exercício aeróbio + aprendizagem motora + movimento regular oferecem estímulos diferentes e complementares.
Devemos procurar produzir muito lactato?
Não.
Esta é uma conclusão importante.
O objetivo do exercício não deve ser aumentar o lactato ao máximo.
Uma concentração elevada de lactato não significa automaticamente maior benefício cerebral.
O lactato é apenas uma das muitas respostas fisiológicas ao exercício.
O mais importante parece ser manter atividade física regular, progressiva e adequada à capacidade individual.
Não precisamos de treinos extremos para estimular os mecanismos de adaptação cerebral.
Uma nova maneira de olhar para o exercício
Talvez a ideia mais interessante seja esta:
Durante o exercício, o músculo não está simplesmente a consumir energia.
Está também a produzir informação biológica.
O lactato é uma dessas mensagens.
Pode viajar do músculo para o cérebro, ser utilizado como combustível e participar em vias de sinalização relacionadas com adaptação neuronal.
Por isso, quando treinamos, não estamos apenas a fortalecer o coração e os músculos.
Estamos também a criar condições para que o cérebro se adapte.
O músculo e o cérebro estão constantemente a conversar.
E o lactato parece ser uma das moléculas que ajuda a manter essa conversa.
Conclusão
A investigação sobre lactato e cérebro está a alterar profundamente a forma como entendemos o metabolismo durante o exercício.
O lactato não é simplesmente um produto de desperdício.
É combustível, mensageiro e possível modulador da plasticidade cerebral.
A ligação entre lactato, BDNF, metabolismo energético e plasticidade neuronal ainda está a ser estudada, sobretudo para perceber até que ponto estes mecanismos se traduzem em melhorias duradouras na memória, aprendizagem e proteção cerebral.
Mas uma coisa já parece clara:
quando treinamos os músculos, não estamos a trabalhar apenas o corpo. Estamos também a enviar sinais ao cérebro.
Referências
Lactate fuels the human brain during exercise — PubMed
Lactate accumulation in cerebrospinal fluid after prolonged exercise — PubMed
Astrocytic glycogen-derived lactate fuels the brain during exhaustive exercise — PubMed