A leptina é uma hormona produzida principalmente pelo tecido adiposo e desempenha um papel importante na regulação do apetite, do balanço energético e do metabolismo. Apesar de ser frequentemente associada à quantidade de gordura corporal, a relação entre leptina, perda de gordura, alimentação e exercício é bastante mais complexa.
Um estudo recente publicado no British Journal of Nutrition analisou precisamente esta questão em mulheres jovens com excesso de peso submetidas a treino de força, restrição calórica e diferentes estratégias de ingestão proteica e de horário alimentar.
O que é a leptina?
A leptina é uma hormona produzida sobretudo pelos adipócitos, as células que armazenam gordura. Uma das suas funções mais conhecidas é transmitir ao cérebro informação sobre a quantidade de energia armazenada no organismo.
De forma simplificada, quando a quantidade de tecido adiposo aumenta, tende também a aumentar a produção de leptina. Esta hormona participa na regulação da saciedade, do gasto energético e de vários processos metabólicos.
No entanto, ter níveis elevados de leptina não significa necessariamente que o organismo esteja a responder adequadamente ao seu sinal. Em pessoas com excesso de gordura corporal pode existir resistência à leptina, situação em que a concentração da hormona pode permanecer elevada apesar de a sinalização da saciedade não funcionar de forma ideal.
O que estudou a nova investigação?
O estudo envolveu 32 mulheres com excesso de peso, entre os 18 e os 30 anos. Todas realizaram treino de força e seguiram uma dieta com um défice energético de aproximadamente 25% durante oito semanas.
As participantes foram distribuídas por quatro estratégias diferentes, combinando restrição temporal da alimentação e quantidade de proteína:
- restrição temporal da alimentação com ingestão elevada de proteína;
- restrição temporal da alimentação com ingestão habitual de proteína;
- ingestão elevada de proteína sem restrição temporal;
- ingestão habitual de proteína sem restrição temporal.
Nos grupos com maior ingestão proteica foram fornecidos aproximadamente 1,6 g de proteína por quilograma de peso corporal por dia. Nos grupos de ingestão habitual foram utilizados cerca de 0,8 g/kg/dia.
O objetivo não era simplesmente verificar se uma determinada dieta fazia perder mais peso. Os investigadores procuraram perceber como as alterações da leptina se relacionavam com alterações na composição corporal e nos marcadores lipídicos.
Leptina e quantidade de gordura corporal
Um dos resultados mais interessantes foi a relação entre as alterações da leptina e a massa gorda total.
Nos dois grupos que utilizaram alimentação com restrição temporal, as alterações da leptina apresentaram uma associação significativa com as alterações da massa gorda.
Esta relação foi particularmente evidente no grupo que combinou restrição temporal da alimentação com uma ingestão elevada de proteína.
Contudo, não foi encontrada uma associação significativa entre as alterações da leptina e a quantidade de gordura visceral ou subcutânea considerada separadamente.
Este resultado é importante porque mostra que a leptina não deve ser interpretada simplesmente como um marcador isolado de gordura abdominal ou de gordura subcutânea. A relação parece ser mais evidente quando observamos a massa gorda corporal total.
O papel da proteína
A ingestão proteica foi uma das variáveis centrais deste estudo.
Uma ingestão de aproximadamente 1,6 g/kg/dia foi utilizada nos grupos de maior consumo proteico, enquanto os restantes grupos consumiram cerca de 0,8 g/kg/dia.
Uma maior ingestão de proteína é frequentemente utilizada durante períodos de défice energético, especialmente quando existe treino de força. O objetivo é ajudar a preservar a massa muscular enquanto ocorre redução da gordura corporal.
No entanto, este estudo não demonstra que 1,6 g/kg/dia seja universalmente necessário para todas as pessoas. A população estudada era constituída por mulheres jovens com excesso de peso, durante apenas oito semanas, pelo que os resultados não devem ser automaticamente aplicados a homens, pessoas mais velhas ou indivíduos com outras características.
Restrição temporal da alimentação e leptina
A restrição temporal da alimentação, muitas vezes designada por time-restricted eating, consiste em concentrar a ingestão alimentar dentro de uma determinada janela diária.
É frequentemente confundida com o jejum prolongado, mas não são conceitos necessariamente equivalentes. Uma pessoa pode utilizar uma janela alimentar relativamente curta todos os dias sem realizar jejuns prolongados.
Neste estudo, a restrição temporal foi combinada com uma redução calórica e treino de força. Por isso, não é possível concluir que as alterações observadas na leptina tenham sido provocadas exclusivamente pelo horário das refeições.
O défice energético, a perda de gordura, o exercício e a quantidade de proteína ingerida podem todos contribuir para as alterações hormonais observadas.
Leptina e colesterol
Outro resultado interessante surgiu na análise do perfil lipídico.
As associações entre leptina e marcadores como triglicéridos, colesterol LDL e colesterol HDL não foram iguais em todos os grupos.
No grupo que combinou restrição temporal e elevada ingestão proteica, as alterações da leptina apresentaram uma associação significativa com os triglicéridos.
No grupo com elevada ingestão proteica sem restrição temporal, foram observadas associações com o colesterol LDL e HDL.
Esta diferença entre grupos sugere que a relação entre leptina e metabolismo lipídico pode depender do contexto nutricional e da estratégia alimentar utilizada.
O que isto significa para quem faz treino de força?
O estudo reforça uma ideia importante: a composição corporal não depende de uma única variável.
Treino de força, ingestão adequada de proteína, ingestão energética, quantidade de gordura corporal e organização da alimentação interagem entre si.
Para uma pessoa que pretende perder gordura e preservar massa muscular, o treino de força pode ser uma ferramenta importante. A proteína adequada também assume particular relevância, sobretudo durante períodos de restrição energética.
A alimentação com restrição temporal pode ser utilizada por algumas pessoas como uma forma prática de organizar a ingestão alimentar. Contudo, não deve ser encarada como uma estratégia obrigatória nem como uma solução hormonal isolada.
A leptina pode ser usada para avaliar a perda de gordura?
A leptina pode fornecer informação interessante sobre o estado energético e a quantidade de tecido adiposo, mas não deve ser utilizada isoladamente para avaliar a evolução de uma pessoa.
Durante um programa de treino e perda de gordura, é mais útil acompanhar várias medidas em conjunto, como peso corporal, perímetro abdominal, composição corporal, desempenho físico, força e evolução das medidas corporais.
Uma alteração da leptina não significa necessariamente que exista uma melhoria ou deterioração global da saúde metabólica.
Limitações do estudo
É importante interpretar estes resultados com alguma prudência.
A investigação incluiu apenas 32 participantes, todas mulheres jovens com excesso de peso. O período de intervenção foi de oito semanas e todas as participantes realizaram treino de força e seguiram um défice energético.
Além disso, várias das análises apresentadas avaliaram associações entre alterações hormonais e alterações da composição corporal. Uma associação estatística não demonstra, por si só, que uma variável tenha causado a outra.
Os próprios autores classificam estas análises como exploratórias e destacam a dimensão relativamente pequena da amostra.
Leptina, gordura e exercício: uma visão mais completa
A principal mensagem deste estudo não é que devemos procurar aumentar ou diminuir a leptina através de uma estratégia alimentar específica.
O mais interessante é perceber que esta hormona está profundamente relacionada com o estado energético do organismo e que a sua relação com a composição corporal e os lípidos pode variar consoante o contexto nutricional.
Para quem pratica exercício, especialmente treino de força, a prioridade continua a ser estabelecer um programa sustentável que combine exercício regular, alimentação adequada, ingestão suficiente de proteína, sono e controlo energético quando existe o objetivo de reduzir gordura corporal.
A restrição temporal da alimentação pode ser uma ferramenta de organização alimentar para algumas pessoas, mas os seus efeitos devem ser analisados no contexto de todo o estilo de vida e não através de uma única hormona.
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