Mais força significa menos dor no joelho?

Mais força significa menos dor no joelho? October 4, 2026Leave a comment

“Mais força significa menos dor no joelho?”

É uma pergunta interessante porque parece ter uma resposta muito simples: se o joelho dói e os músculos estão fracos, então basta ficar mais forte para a dor desaparecer.

Na prática, não é assim tão simples.

O treino de força pode ser uma ferramenta muito importante para pessoas com dor no joelho. Pode melhorar a capacidade muscular, a função, a tolerância à carga e, em muitas situações, também está associado a uma redução da dor.

Mas mais força não significa automaticamente menos dor.

É uma distinção importante, sobretudo quando falamos de treino para pessoas com dor patelofemoral, osteoartrose do joelho ou outras situações em que a relação entre força, carga e dor pode ser bastante complexa.

A força é importante, mas não explica tudo

Quando uma pessoa tem dor no joelho, é natural procurar uma explicação simples.

“Tenho pouca força no quadríceps.”

“Tenho os glúteos fracos.”

“Preciso de fortalecer o vasto medial.”

Estas observações podem ter interesse, mas não devemos transformar uma característica numa explicação universal para a dor.

A dor é uma experiência influenciada por vários fatores. A capacidade muscular é apenas um deles.

Também temos de considerar a quantidade de carga a que a pessoa está exposta, a frequência dessa carga, o sono, a recuperação, a atividade física, o histórico de dor, a confiança no movimento e a própria capacidade de realizar determinadas tarefas.

Por isso, quando alguém me diz que tem dor no joelho, não começo necessariamente por perguntar quanto peso consegue levantar.

Começo por tentar perceber o que consegue fazer, o que deixou de conseguir fazer e como responde às diferentes cargas.

O que diz a investigação mais recente?

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2026 analisou 82 ensaios clínicos, envolvendo 4023 pessoas com dor patelofemoral.

Os investigadores procuraram perceber se as alterações na força muscular que aconteciam durante os programas de exercício estavam relacionadas com alterações simultâneas na dor e na função.

Encontraram associações entre melhorias de força e redução da dor em vários grupos musculares, incluindo extensores e flexores do joelho e diferentes grupos musculares da anca. Também encontraram associações entre melhorias de força e melhoria da função.

Este resultado é interessante.

Mas é importante interpretar corretamente a palavra associação.

O estudo não demonstra que aumentar a força seja a única razão pela qual a dor diminui.

Uma pessoa pode melhorar a força, a confiança, a tolerância à carga e a capacidade funcional ao mesmo tempo. O próprio exercício pode produzir várias adaptações simultâneas.

Mais força pode significar maior capacidade

Na minha forma de pensar o treino, esta é talvez uma das ideias mais importantes.

Eu não vejo necessariamente o fortalecimento como uma forma direta de “tratar a dor”. Vejo-o também como uma forma de aumentar a capacidade da pessoa.

Imaginemos alguém que sente dor ao subir escadas.

Se essa pessoa tem pouca capacidade para produzir força com uma perna, subir escadas pode representar uma exigência elevada relativamente à sua capacidade atual.

Com treino, podemos aumentar essa capacidade.

Talvez a pessoa passe de conseguir realizar 8 repetições de determinado exercício para 15. Talvez passe de 10 kg para 20 kg. Talvez consiga fazer o movimento com maior amplitude.

O objetivo não é simplesmente atingir um número maior.

É aumentar a margem entre aquilo que a pessoa consegue fazer e aquilo que as atividades do dia a dia lhe exigem.

O conceito de capacidade e carga

Gosto de pensar na relação entre capacidade e carga.

Se uma determinada tarefa exige uma quantidade de força próxima do máximo que a pessoa consegue produzir, essa tarefa pode ser muito exigente.

Se aumentarmos a capacidade muscular, a mesma tarefa pode representar uma percentagem menor dessa capacidade.

Por exemplo, uma pessoa pode ter dificuldade em levantar-se de uma cadeira porque possui pouca força nos membros inferiores.

Se melhorar significativamente a força, levantar-se da cadeira pode tornar-se mais fácil.

Não significa que a força seja a única variável envolvida.

Mas significa que aumentar a capacidade física pode alterar a relação entre a pessoa e a tarefa.

Mas uma pessoa forte também pode ter dor

Este é um excelente exemplo de porque devemos evitar conclusões demasiado simples.

Existem pessoas muito fortes com dor no joelho.

Um atleta pode ter níveis elevados de força no quadríceps e continuar a apresentar dor patelofemoral.

Uma pessoa que treina musculação há muitos anos pode desenvolver osteoartrose e continuar a treinar com cargas relativamente elevadas.

Portanto, não podemos concluir que “se tiver força suficiente, o joelho deixa de doer”.

A força pode ser uma parte importante da solução, mas não é uma garantia de ausência de dor.

E uma pessoa fraca pode não ter dor

Também podemos observar o contrário.

Existem pessoas com pouca força muscular que não apresentam qualquer dor no joelho.

Isto mostra-nos novamente que uma associação entre fraqueza e dor não significa necessariamente que a fraqueza seja a causa da dor.

Uma revisão sistemática sobre força da anca e dor patelofemoral encontrou precisamente esta dificuldade: estudos transversais mostravam frequentemente menor força da anca em pessoas com dor, mas estudos prospetivos não demonstravam claramente que essa menor força fosse um fator de risco para desenvolver dor.

É uma diferença fundamental entre dizer “estas duas coisas aparecem juntas” e dizer “uma causa a outra”.

O quadríceps continua a ser importante

Explicar que a força não resolve tudo não significa diminuir a importância do quadríceps.

O quadríceps é fundamental para várias tarefas: levantar-se, subir escadas, caminhar, correr, saltar e controlar o movimento do joelho.

Em pessoas com dor patelofemoral, existem evidências a favor do fortalecimento do quadríceps como parte da intervenção.

Uma revisão sistemática encontrou evidência favorável à utilização de exercícios de fortalecimento do quadríceps para reduzir a dor e melhorar a função em pessoas com dor patelofemoral.

O que eu evitaria é transformar essa informação em “o quadríceps é a causa da dor e basta fortalecê-lo”.

É uma interpretação demasiado simples.

E a força da anca?

A mesma lógica se aplica à anca.

Durante muitos anos, a investigação sobre dor patelofemoral deu bastante atenção à força dos músculos da anca e ao controlo do membro inferior.

Existem pessoas com dor patelofemoral que apresentam défices de força da anca. No entanto, a relação causal não é tão direta como algumas explicações populares fazem parecer.

Uma revisão sistemática de estudos prospetivos e transversais encontrou evidência de que adultos com dor patelofemoral podem apresentar menor força da anca, mas salientou que a menor força pode ser uma consequência da própria condição e não necessariamente a sua causa.

Na prática, isto não significa que devemos deixar de fortalecer a anca.

Significa apenas que devemos perceber porque estamos a fazê-lo.

Fortalecer a anca e o joelho pode ser útil

Uma revisão sistemática com meta-análise comparou programas de fortalecimento da anca e do joelho com fortalecimento do joelho isoladamente em pessoas com dor patelofemoral.

Os resultados mostraram benefícios na dor e na atividade quando se combinava o fortalecimento da anca e do joelho, embora as melhorias de força medidas nos estudos não explicassem necessariamente essas melhorias clínicas.

Esta informação é particularmente interessante.

Podemos melhorar a dor e a função sem que a explicação seja simplesmente “a pessoa ficou muito mais forte”.

O exercício pode estar a produzir alterações na tolerância à carga, confiança no movimento, coordenação, exposição gradual à atividade e vários outros mecanismos.

Então devo procurar ficar cada vez mais forte?

Em muitos casos, sim, mas com contexto.

Se a pessoa tem capacidade para progredir, aumentar a força pode ser um objetivo muito útil.

Mas não faria sentido perseguir números de força indefinidamente apenas porque acreditamos que mais força significa menos dor.

O objetivo deve ser melhorar a capacidade necessária para a vida da pessoa e para os seus objetivos.

Se alguém quer simplesmente caminhar sem dor, talvez não precise de atingir níveis de força de um atleta.

Se alguém quer correr, jogar futebol, fazer jiu-jitsu ou praticar outro desporto, as exigências serão diferentes.

A dor também deve orientar a progressão

Quando existe dor, não considero que devamos ignorá-la.

Mas também não considero que qualquer sensação durante o exercício signifique que devemos parar.

O mais importante é perceber a resposta ao longo do tempo.

Se a pessoa realiza um exercício, sente algum desconforto aceitável e depois recupera normalmente, podemos ter uma boa oportunidade para continuar a desenvolver capacidade.

Se a carga provoca uma resposta exagerada ou prolongada, podemos ajustar a dose.

Podemos diminuir o peso, reduzir a amplitude, alterar o exercício, diminuir o volume ou simplesmente dar mais tempo de recuperação.

Mais força ou melhor movimento?

Esta é outra pergunta que gosto de fazer.

Imagine-se uma pessoa que aumentou a força do quadríceps em 20%, mas continua com dificuldade em descer escadas.

Será que o objetivo está cumprido?

Talvez não.

Se, por outro lado, uma pessoa não aumentou dramaticamente a força num teste específico, mas passou a caminhar, subir escadas e treinar com muito menos limitação, isso pode representar uma mudança clinicamente muito mais importante.

É por isso que considero importante não transformar os testes de força no objetivo final.

A força é um meio. A função é frequentemente o objetivo.

Na minha forma de pensar o treino

Quando treino alguém com dor no joelho, não quero simplesmente tornar essa pessoa mais forte.

Quero que a força tenha utilidade.

Quero que ajude a pessoa a levantar-se, caminhar, correr, subir escadas, praticar desporto ou realizar aquilo que pretende fazer.

Se a força aumenta e a pessoa também melhora a sua função e tolerância à carga, estamos provavelmente a caminhar numa direção interessante.

Mas se a pessoa fica mais forte num exercício específico e continua limitada naquilo que realmente importa para ela, tenho de voltar a pensar no programa.

Por isso, à pergunta “mais força significa menos dor no joelho?”, a minha resposta seria:

Pode ajudar, e a investigação mostra uma associação importante entre melhorias de força e melhores resultados clínicos, mas não existe uma relação automática entre ficar mais forte e deixar de ter dor.

O objetivo não deve ser apenas aumentar o número de quilos levantados.

Deve ser aumentar a capacidade da pessoa para lidar com a vida e com o treino, de forma progressiva e individualizada.

Posso ajudar

Posso ajudar a transformar ganhos de força em maior capacidade funcional, escolhendo exercícios e progressões adequados à dor, objetivos, experiência e resposta individual de cada pessoa.

Referências