Menos poluição, pulmões mais fortes: zona de baixas emissões em Londres melhorou o desenvolvimento pulmonar das crianças

Menos poluição, pulmões mais fortes: zona de baixas emissões em Londres melhorou o desenvolvimento pulmonar das crianças August 27, 2026Leave a comment

Um estudo publicado na The Lancet Public Health acompanhou mais de 3.200 crianças durante cinco anos e encontrou uma associação entre a redução da poluição automóvel em Londres e uma melhoria do crescimento da função pulmonar.

A poluição do ar é frequentemente discutida em termos de doenças respiratórias, ataques de asma ou risco cardiovascular. Mas existe outro efeito que pode ser ainda mais importante: a exposição à poluição durante a infância pode interferir com o desenvolvimento dos pulmões.

Um novo estudo publicado em agosto de 2026 na The Lancet Public Health analisou o que aconteceu depois da introdução da Ultra Low Emission Zone (ULEZ) em Londres.

Os investigadores acompanharam crianças durante cinco anos e compararam a evolução da função pulmonar entre crianças que viviam em Londres e crianças de Luton, uma cidade utilizada como zona de comparação.

O resultado foi particularmente interessante: as crianças de Londres apresentaram uma melhoria maior no crescimento da função pulmonar e, ao fim de quatro anos, a diferença inicialmente existente praticamente desapareceu. (DOI)

Porque é que a poluição é especialmente preocupante durante a infância?

Os pulmões não nascem completamente desenvolvidos.

Durante a infância e adolescência, o sistema respiratório continua a crescer e a adquirir capacidade funcional. É precisamente durante este período que fatores ambientais podem ter consequências importantes.

A poluição relacionada com o trânsito contém diferentes substâncias, incluindo dióxido de azoto (NO₂) e partículas finas.

Estas partículas podem penetrar profundamente no aparelho respiratório e provocar inflamação e alterações das vias aéreas.

A exposição prolongada à poluição atmosférica está associada a problemas respiratórios e a um desenvolvimento pulmonar inferior ao ideal. Os autores do novo estudo salientam ainda que não atingir o máximo potencial de função pulmonar na idade adulta está associado a maior risco de asma, doença pulmonar obstrutiva crónica, doença cardiometabólica e mortalidade prematura. (DOI)

Ou seja, o que acontece aos pulmões durante a infância pode ter consequências décadas mais tarde.

O que é uma zona de baixas emissões?

A ULEZ foi criada em Londres para reduzir a circulação de veículos mais poluentes.

O princípio é relativamente simples: veículos que não cumprem determinados padrões de emissões ficam sujeitos a uma taxa para circular dentro da zona.

O objetivo não é apenas reduzir o número de carros.

É reduzir especificamente as emissões provenientes dos veículos mais poluentes, contribuindo para diminuir a exposição da população a poluentes relacionados com o tráfego.

Mas existia uma questão científica importante:

Será que reduzir a poluição no ambiente urbano produz uma melhoria mensurável no desenvolvimento dos pulmões das crianças?

Foi precisamente isso que os investigadores procuraram descobrir.

Mais de 3.400 crianças acompanhadas durante cinco anos

O estudo fez parte do projeto Children’s Health in London and Luton (CHILL).

Foram inicialmente recrutadas 3.414 crianças, provenientes de 84 escolas primárias.

As crianças tinham entre 6 e 9 anos no início do estudo e foram acompanhadas durante aproximadamente cinco anos.

Foram incluídas 1.664 crianças de Londres e 1.750 de Luton.

Para a análise principal da função pulmonar, os investigadores conseguiram utilizar dados de 3.209 crianças, correspondentes a 7.993 medições individuais de função pulmonar ao longo do período de acompanhamento. (DOI)

Este número torna o estudo particularmente interessante, porque não se trata de uma experiência com algumas dezenas de participantes.

Estamos perante uma grande coorte infantil acompanhada ao longo de vários anos.

Como mediram os pulmões?

Os investigadores utilizaram espirometria, um exame que permite avaliar a quantidade de ar que uma pessoa consegue expirar e a velocidade com que o consegue fazer.

Um dos principais indicadores utilizados foi o FEV₁, ou volume expiratório forçado no primeiro segundo.

De forma simples, o FEV₁ mede a quantidade de ar que uma pessoa consegue expirar durante o primeiro segundo de uma expiração forçada.

É um dos parâmetros mais utilizados para avaliar a função pulmonar.

Também foi analisada a capacidade vital forçada (FVC), que representa a quantidade total de ar que uma pessoa consegue expirar numa expiração forçada depois de inspirar profundamente.

Ao acompanhar estes valores durante vários anos, os investigadores conseguiram estudar não apenas o tamanho dos pulmões em determinado momento, mas a velocidade a que a função pulmonar estava a crescer.

As crianças de Londres começaram em desvantagem

Um dos resultados mais importantes surgiu logo no início.

Antes da implementação da ULEZ, as crianças de Londres apresentavam um FEV₁ ajustado inferior ao das crianças de Luton.

A diferença era de aproximadamente 38 mL.

Ao mesmo tempo, a exposição estimada ao dióxido de azoto era muito superior em Londres.

A exposição anual ao NO₂ era aproximadamente 19 μg/m³ mais elevada em Londres do que em Luton no início do estudo. (DOI)

Isto criou uma situação particularmente interessante para os investigadores.

As crianças de Londres começaram o acompanhamento com uma função pulmonar inferior e maior exposição à poluição relacionada com o trânsito.

Depois veio a intervenção ambiental.

O que aconteceu depois da ULEZ?

Ao longo dos anos seguintes, o crescimento do FEV₁ foi maior entre as crianças de Londres.

A taxa média de crescimento estimada foi de aproximadamente:

233 mL por ano em Londres

contra

223 mL por ano em Luton.

Ou seja, uma diferença de aproximadamente 10 mL de crescimento pulmonar por ano. (DOI)

À primeira vista, 10 mL pode parecer uma diferença muito pequena.

Mas é importante não olhar para este número isoladamente.

Estamos a falar de uma diferença observada ano após ano durante o desenvolvimento pulmonar, numa fase da vida em que os pulmões estão a crescer.

E o resultado acumulado foi particularmente interessante.

Ao fim de quatro anos, a diferença desapareceu

Depois de aproximadamente quatro anos de acompanhamento, os valores médios de FEV₁ das crianças de Londres e Luton tinham praticamente chegado ao mesmo nível.

Os valores estimados foram:

2.283 mL em Londres

e

2.282 mL em Luton. (DOI)

Isto significa que as crianças de Londres, que começaram com uma função pulmonar inferior, recuperaram essa diferença durante o período de acompanhamento.

Os investigadores interpretam este resultado como evidência de que a redução das emissões associada à ULEZ poderá ter permitido recuperar parte do défice anterior no desenvolvimento pulmonar.

A poluição também diminuiu mais rapidamente em Londres

A melhoria da função pulmonar coincidiu com uma redução mais rápida da exposição ao dióxido de azoto.

Em Londres, a exposição residencial estimada ao NO₂ diminuiu aproximadamente 3,77 μg/m³ por ano.

Em Luton, a redução foi de aproximadamente 1,77 μg/m³ por ano.

A diferença entre as tendências foi estatisticamente significativa. (DOI)

Este resultado é importante porque fornece uma possível explicação ambiental para as diferenças observadas.

Mas é importante utilizar a palavra “associada”.

O estudo é um chamado experimento natural, e não um ensaio clínico randomizado.

Por isso, não permite provar com a mesma certeza de uma experiência controlada que a ULEZ foi a única responsável pela melhoria.

E as crianças com função pulmonar clinicamente reduzida?

Também aqui surgiu um resultado interessante.

Em Londres, a proporção de crianças classificadas como apresentando função pulmonar clinicamente reduzida passou de aproximadamente 14% para 9% entre as avaliações consideradas.

Em Luton, passou de aproximadamente 9% para 7%. (DOI)

Isto significa que houve uma redução em ambos os locais.

Contudo, a melhoria relativa foi mais marcada em Londres, onde a população infantil partia de níveis inferiores.

Este resultado reforça a ideia de que alterações ambientais podem ter impacto sobre indicadores concretos de saúde infantil.

A ULEZ cura a asma?

Não.

É muito importante não retirar uma conclusão que o estudo não permite.

A investigação não demonstrou que a ULEZ cura asma ou impede todas as doenças respiratórias.

Também não demonstrou que cada criança exposta a menos poluição terá necessariamente uma melhoria da função pulmonar.

O estudo analisou principalmente trajetórias de crescimento da função pulmonar.

Além disso, embora crianças com asma pudessem participar, o estudo não foi desenhado especificamente para testar um tratamento da asma.

A principal questão era perceber se uma alteração ambiental em grande escala estava associada a alterações no desenvolvimento pulmonar.

Porque é que isto é importante para a vida adulta?

Esta talvez seja a parte mais relevante do estudo.

A função pulmonar máxima atingida durante a juventude pode influenciar a reserva respiratória disponível ao longo da vida.

Uma pessoa que atinge um desenvolvimento pulmonar inferior ao seu potencial pode começar a idade adulta com uma “margem” respiratória menor.

À medida que envelhecemos, a função pulmonar tende naturalmente a diminuir.

Se alguém começar com uma função pulmonar máxima mais baixa, poderá atingir níveis associados a doença respiratória mais cedo.

É por isso que os investigadores consideram tão importante proteger o desenvolvimento dos pulmões durante a infância. (DOI)

Não é apenas uma questão de crianças com problemas respiratórios

Outro aspeto importante é que a poluição atmosférica não afeta exclusivamente crianças diagnosticadas com asma.

A exposição ambiental pode afetar populações inteiras.

Uma criança saudável, sem sintomas respiratórios evidentes, pode estar a sofrer efeitos subtis da exposição prolongada à poluição.

Esses efeitos podem não ser suficientemente fortes para provocar sintomas imediatos, mas podem influenciar a trajetória de desenvolvimento dos pulmões.

É precisamente por isso que estudos deste tipo são importantes.

Em vez de esperar que apareça uma doença, procuram perceber se melhorar o ambiente pode prevenir ou reduzir alterações antes de elas se transformarem em problemas clínicos.

O estudo prova que a ULEZ foi responsável?

A conclusão deve ser um pouco mais cuidadosa.

Os autores concluem que a introdução da ULEZ esteve associada a melhores trajetórias de crescimento da função pulmonar nas crianças de Londres comparativamente às de Luton.

No entanto, especialistas independentes chamaram a atenção para algumas limitações.

Por exemplo, os dois locais não são ambientes completamente equivalentes e existiram outros acontecimentos durante o período de acompanhamento, incluindo a pandemia de COVID-19.

É possível que mudanças no comportamento, circulação automóvel, atividade escolar ou outros fatores tenham influenciado a exposição das crianças.

Um comentário de especialistas publicado pelo Science Media Centre considerou os resultados importantes e encorajadores, mas salientou que é necessário cuidado ao atribuir toda a melhoria exclusivamente à ULEZ e ao extrapolar os resultados para outras cidades. (sciencemediacentre.org)

E a pandemia?

A pandemia também merece atenção.

O período de acompanhamento incluiu os anos em que houve alterações muito significativas na circulação rodoviária e nas atividades sociais.

Durante os confinamentos, a exposição à poluição relacionada com o trânsito diminuiu em muitas áreas.

Por isso, separar completamente o efeito da ULEZ de todas as outras alterações ambientais é uma tarefa complexa.

Os investigadores consideraram estas questões nas suas análises, mas reconhecem que alguns fatores podem continuar a influenciar os resultados.

Este é um dos motivos pelos quais a investigação continua.

A coorte CHILL está a ser acompanhada durante a adolescência, o que permitirá observar se as diferenças e melhorias encontradas se mantêm à medida que os participantes continuam a desenvolver-se. (DOI)

O que este estudo nos ensina sobre exercício ao ar livre?

Existe uma implicação interessante para quem pensa na saúde através do exercício.

A atividade física é fundamental para crianças e adultos.

Mas o ambiente onde essa atividade acontece também pode ser relevante.

Fazer exercício ao ar livre tem inúmeros benefícios, mas correr ou pedalar junto a uma estrada com elevado tráfego expõe o organismo a poluentes precisamente quando a ventilação pulmonar aumenta.

Isto não significa que as crianças devam deixar de brincar ou fazer exercício ao ar livre.

Significa que, quando possível, parques, zonas verdes, ruas com pouco tráfego e percursos afastados das principais vias rodoviárias podem ser opções interessantes.

A qualidade do ar deve ser encarada como parte do ambiente de saúde.

Uma cidade pode funcionar como uma intervenção de saúde?

É talvez a principal mensagem deste estudo.

Normalmente pensamos em saúde como algo individual.

Comer melhor.

Fazer exercício.

Dormir.

Não fumar.

Fazer consultas médicas.

Mas este estudo mostra outra dimensão:

as políticas urbanas também podem funcionar como intervenções de saúde pública.

Se reduzir a poluição melhora o ambiente onde as crianças vivem, estudam e brincam, os benefícios podem atingir milhares ou milhões de pessoas simultaneamente.

Não é necessário que cada indivíduo mude o seu comportamento para que exista um benefício coletivo.

O futuro pode passar por cidades mais limpas

Os investigadores defendem que os resultados apoiam uma utilização mais ampla de zonas de ar limpo como intervenção de saúde pública.

A lógica é particularmente forte quando pensamos nas crianças.

Elas não escolhem a qualidade do ar da cidade onde vivem.

Não escolhem o número de automóveis nas estradas.

Não conseguem decidir se uma rua terá trânsito intenso ou se uma escola ficará junto a uma via movimentada.

Por isso, reduzir a exposição ambiental pode ser uma forma de prevenção que atua sobre toda a população infantil.

Conclusão

O novo estudo publicado na The Lancet Public Health fornece uma das evidências mais interessantes até agora sobre a relação entre poluição atmosférica, zonas de baixas emissões e desenvolvimento pulmonar infantil.

Mais de 3.200 crianças foram acompanhadas durante cinco anos.

No início, as crianças de Londres apresentavam menor função pulmonar e maior exposição ao NO₂ do que as crianças de Luton.

Depois da introdução da ULEZ, a exposição ao NO₂ diminuiu mais rapidamente em Londres e o crescimento do FEV₁ foi aproximadamente 10 mL por ano superior ao observado em Luton.

Ao fim de quatro anos, a diferença inicial no FEV₁ tinha praticamente desaparecido. (DOI)

O estudo não prova que a ULEZ seja a única responsável por esta evolução.

Mas fornece uma mensagem importante:

melhorar a qualidade do ar pode não significar apenas respirar melhor hoje. Pode ajudar as crianças a desenvolver pulmões mais saudáveis para o resto da vida.

E essa possibilidade torna a qualidade do ar uma questão não apenas ambiental, mas também de saúde pública, desenvolvimento infantil e prevenção de doenças futuras.

Posso ajudar

Posso ajudar a melhorar a saúde respiratória e condição física através de exercício adaptado, treino de força e estratégias para praticar atividade física de forma segura e consistente.

Referências e links