Quando pensamos nos olhos, normalmente associamo-los apenas à visão. No entanto, a investigação científica demonstra que o sistema oculomotor desempenha um papel muito mais abrangente. Os movimentos dos olhos estão intimamente ligados ao equilíbrio, à postura, à coordenação motora, à marcha e até à forma como o cérebro aprende novos movimentos.
Esta ligação explica porque algumas pessoas com dores persistentes, instabilidade, tonturas ou dificuldades de coordenação podem beneficiar de uma avaliação que inclua o sistema visual e o controlo dos movimentos oculares.
O que é o sistema oculomotor?
O sistema oculomotor é o conjunto de estruturas responsáveis por controlar os movimentos dos olhos. Envolve o cérebro, o cerebelo, o tronco cerebral, o sistema vestibular (ouvido interno), os músculos oculares e vários nervos cranianos.
O objetivo não é apenas mover os olhos, mas garantir que a imagem permanece estável enquanto caminhamos, corremos, rodamos a cabeça ou mudamos rapidamente o foco da atenção.
Este sistema trabalha continuamente em conjunto com os restantes sistemas responsáveis pela postura.
Os quatro principais movimentos oculares
Sacádicos
Os movimentos sacádicos são movimentos rápidos que permitem deslocar o olhar de um ponto para outro.
São utilizados constantemente durante a leitura, na condução ou quando procuramos um objeto no ambiente.
Estudos mostram que estes movimentos partilham circuitos neurológicos com os sistemas responsáveis pela marcha e pelo equilíbrio, explicando porque alterações dos sacádicos podem influenciar o controlo postural.
Smooth Pursuit
Os smooth pursuits permitem seguir lentamente um objeto em movimento, mantendo-o focado na retina.
São fundamentais em atividades como seguir uma bola durante um jogo ou acompanhar um veículo em movimento.
Este sistema exige uma elevada integração entre visão, cerebelo e sistema vestibular.
Vergências
As vergências aproximam ou afastam os olhos para focar objetos a diferentes distâncias.
Além da sua importância visual, apresentam uma estreita relação com a respiração e com o sistema nervoso autónomo, podendo influenciar o estado de alerta e o relaxamento.
Reflexo Vestíbulo-Ocular (VOR)
Sempre que movemos a cabeça, os olhos deslocam-se automaticamente na direção oposta para manter a imagem estável.
Sem este reflexo, tudo pareceria desfocado sempre que caminhássemos.
O VOR depende da integração entre o ouvido interno, os núcleos vestibulares e o cerebelo.
O cerebelo: o grande coordenador
O cerebelo é uma das estruturas mais importantes para o controlo motor.
É responsável por:
- coordenar os movimentos;
- manter o equilíbrio;
- regular o tónus muscular;
- melhorar a precisão dos gestos;
- participar na aprendizagem motora;
- integrar informação proveniente da visão, proprioceção e sistema vestibular.
Por isso, pequenas alterações na função cerebelosa podem refletir-se em menor estabilidade, pior coordenação e maior gasto energético durante o movimento.
Porque é que os olhos influenciam a postura?
O cérebro necessita de informação constante para saber onde o corpo se encontra no espaço.
Essa informação provém principalmente de quatro sistemas:
- visão;
- sistema vestibular;
- proprioceção (músculos, articulações e fáscias);
- planta dos pés.
O cérebro integra todos estes sinais para construir um “mapa corporal” atualizado e produzir respostas posturais automáticas.
Quando um destes sistemas fornece informação menos precisa, os restantes têm de compensar.
É por isso que uma alteração visual pode originar adaptações na postura, na marcha ou mesmo no padrão respiratório.
A surpreendente ligação entre olhos e pés
Uma das descobertas mais interessantes da neurociência é a existência de redes neurais comuns entre os movimentos dos olhos e o controlo dos membros inferiores.
Diversos estudos demonstram que existe uma coordenação muito estreita entre olhos, cabeça e pés.
Os movimentos sacádicos estão associados a uma maior estabilidade postural, enquanto os movimentos de smooth pursuit tendem a aumentar ligeiramente a oscilação corporal.
Isto sugere que o cérebro utiliza estratégias diferentes conforme a tarefa visual que está a executar.
O treino oculomotor pode melhorar o movimento?
Cada vez mais estudos demonstram que o treino oculomotor pode melhorar:
- equilíbrio;
- coordenação;
- velocidade de reação;
- aprendizagem motora;
- estabilidade postural;
- desempenho desportivo.
O treino dos movimentos oculares promove alterações nas redes cerebrais responsáveis pela integração entre visão, atenção e movimento, aumentando a eficiência do sistema nervoso.
No entanto, nem todas as pessoas necessitam deste tipo de intervenção.
O treino deve sempre ser adaptado após uma avaliação individual.
Quando faz sentido avaliar o sistema oculomotor?
Uma avaliação pode ser útil em pessoas com:
- dores persistentes sem causa evidente;
- alterações do equilíbrio;
- tonturas;
- sensação de instabilidade;
- dificuldades de coordenação;
- limitações após concussão;
- recuperação de lesões desportivas;
- dificuldades de controlo postural.
O sistema visual é apenas uma das peças do puzzle e deve ser integrado com a avaliação da postura, respiração, marcha, pés, sistema vestibular e restantes captores sensoriais.
Conclusão
Hoje sabemos que os olhos fazem muito mais do que permitir ver.
O sistema oculomotor participa ativamente na organização do movimento, da postura e do equilíbrio através de uma complexa rede que envolve o cerebelo, tronco cerebral, sistema vestibular, proprioceção e córtex cerebral.
Embora ainda existam áreas em investigação, a evidência atual demonstra claramente que existe uma forte interação entre visão e controlo motor. Uma avaliação global permite perceber se este sistema está a contribuir para as queixas do paciente e orientar um plano de intervenção mais personalizado.
Referências científicas
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK538259/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23670177/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21292191/
https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMra1905136
Posso ajudá-lo?
Sou Marcelo Barros, Personal Trainer desde 1995, antigo Personal Trainer da Men’s Health (2003–2015), especialista em exercício para coluna e joelho, com formação em Osteopatia e P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex).
Se sofre de dores persistentes, alterações da postura, dificuldades de equilíbrio ou pretende melhorar a qualidade do movimento, uma avaliação individual pode ajudar a identificar os fatores que estão a limitar o seu desempenho e definir uma estratégia personalizada.
Atendo presencialmente no Lemon Fit, no Parque das Nações (Lisboa), e também realizo acompanhamento online.
Entre em contacto para saber como posso ajudar.
Aviso: Este artigo tem fins exclusivamente informativos e educativos. Não substitui uma avaliação individualizada por um profissional de saúde qualificado nem constitui aconselhamento médico. Cada pessoa apresenta características e necessidades próprias, pelo que qualquer programa de exercício ou reabilitação deve ser adaptado ao seu caso específico.