Não interessa apenas o que comemos: a hora das refeições pode influenciar a saúde cardiovascular?

Não interessa apenas o que comemos: a hora das refeições pode influenciar a saúde cardiovascular? October 8, 2026Leave a comment

Quando falamos de alimentação saudável, pensamos normalmente na qualidade dos alimentos: legumes, fruta, leguminosas, cereais integrais, peixe, frutos secos, azeite, quantidade de proteína, açúcar, gordura saturada e alimentos ultraprocessados.

Mas existe outra pergunta que começa a ganhar cada vez mais importância na investigação científica:

será que também importa quando comemos?

Esta é a área da crononutrição, que procura compreender a relação entre o horário das refeições, os ritmos circadianos e a saúde metabólica e cardiovascular.

Um estudo recente realizado na Suécia analisou precisamente esta questão e encontrou associações interessantes entre o horário das refeições, o pequeno-almoço, a duração da janela alimentar, o colesterol e o risco cardiovascular.

O que é a crononutrição?

O organismo humano não funciona da mesma maneira durante as 24 horas do dia.

O sono, a temperatura corporal, a pressão arterial, a secreção hormonal, a sensibilidade à insulina e vários processos metabólicos seguem ritmos circadianos.

A alimentação também está integrada neste sistema.

Por isso, investigadores têm procurado perceber se uma refeição realizada de manhã produz exactamente a mesma resposta fisiológica que uma refeição semelhante realizada muito tarde à noite.

Esta área de investigação não significa que exista uma “hora perfeita” para comer. Significa antes que o horário das refeições pode ser mais uma variável a considerar quando pensamos em saúde.

O que analisou o novo estudo?

O estudo incluiu 3812 adultos entre os 18 e os 75 anos participantes no Malmö Offspring Study, na Suécia.

Os participantes realizaram registos alimentares durante quatro dias e forneceram amostras de sangue em jejum.

Os investigadores analisaram diferentes características do padrão alimentar:

  • número de refeições e ocasiões alimentares;
  • hora da primeira refeição;
  • hora da última refeição;
  • duração da janela alimentar;
  • hora a que era consumida a maior parte da energia diária;
  • consumo ou não de pequeno-almoço.

Depois relacionaram estes padrões com vários factores de risco cardiovascular e metabólico.

Além disso, uma parte dos participantes foi acompanhada prospectivamente para estudar a ocorrência de doença cardiovascular.

Comer mais vezes não significa necessariamente comer mais

Um dos resultados interessantes foi a relação entre a frequência das refeições e alguns marcadores metabólicos.

A relação entre o número de ocasiões alimentares e o colesterol HDL não foi linear. Os níveis mais elevados de HDL foram observados em torno de 4,7 ocasiões alimentares por dia.

Além disso, cada ocasião alimentar adicional esteve associada a cerca de 15% menos probabilidades de síndrome metabólica.

Este resultado pode parecer contraditório para quem associa automaticamente comer mais vezes a uma alimentação menos saudável.

Mas existe uma questão importante: frequência das refeições não é sinónimo de quantidade total de alimentos consumidos.

Uma pessoa pode fazer quatro ou cinco refeições pequenas e nutricionalmente adequadas, enquanto outra pode concentrar uma enorme quantidade de energia em apenas uma ou duas refeições.

Por isso, não devemos retirar deste estudo a ideia de que é obrigatório comer cinco vezes por dia.

E o pequeno-almoço?

Aqui encontramos um dos resultados que mais facilmente pode chamar a atenção.

O estudo encontrou uma associação entre saltar o pequeno-almoço e níveis mais elevados de colesterol total.

Nos homens, saltar o pequeno-almoço esteve também associado a níveis mais elevados de colesterol LDL.

Mas é fundamental interpretar este resultado correctamente.

O estudo não demonstra que não tomar pequeno-almoço provoca colesterol elevado.

Pessoas que não tomam pequeno-almoço podem apresentar outros comportamentos ou características diferentes das pessoas que tomam. Podem dormir menos, ter horários diferentes, comer mais tarde, praticar determinados padrões de jejum ou apresentar outras características relacionadas com o estilo de vida.

Quando encontramos uma associação num estudo observacional, não podemos simplesmente transformar essa associação numa relação de causa e efeito.

Então é obrigatório tomar pequeno-almoço?

Não.

Esta distinção é importante, sobretudo porque o jejum intermitente e a alimentação com restrição temporal são cada vez mais utilizados.

Existem pessoas que não sentem fome de manhã e preferem começar a comer mais tarde. Outras sentem-se melhor quando tomam pequeno-almoço pouco depois de acordar.

O estudo não permite afirmar que todas as pessoas devem obrigatoriamente tomar pequeno-almoço.

O que acrescenta é uma observação interessante: um padrão alimentar que começa mais tarde pode estar associado a alguns marcadores metabólicos menos favoráveis.

É uma hipótese que merece investigação adicional, não uma regra universal.

A hora da primeira refeição pode ser importante

Os investigadores observaram que uma primeira refeição mais tardia esteve associada a maiores probabilidades de síndrome metabólica.

A estimativa encontrada foi de aproximadamente 9% de aumento das probabilidades de síndrome metabólica por cada hora de atraso na primeira refeição.

Mais uma vez, isto não significa que comer uma hora mais tarde vá causar síndrome metabólica.

Existem muitos factores que podem acompanhar um horário alimentar mais tardio.

Por exemplo, uma pessoa que começa a comer às 12 ou 13 horas pode também jantar muito mais tarde, dormir a horas diferentes, ter menor exposição à luz natural durante a manhã ou concentrar uma maior quantidade de calorias no final do dia.

É precisamente por isso que a crononutrição é uma área tão interessante: o horário das refeições está ligado a todo o comportamento diário.

Uma janela alimentar mais longa foi associada a melhores marcadores

Outro resultado interessante foi a duração da janela alimentar.

Cada hora adicional de duração da janela alimentar esteve associada a uma pequena redução do colesterol total e do LDL e a cerca de 7% menos probabilidades de síndrome metabólica.

À primeira vista, este resultado pode parecer contrário a algumas ideias populares sobre jejum intermitente.

Mas é precisamente aqui que devemos ter cuidado com conclusões demasiado rápidas.

Uma maior janela alimentar neste estudo não significa necessariamente comer desde manhã cedo até à noite sem qualquer organização.

Além disso, trata-se de uma análise observacional. Não podemos concluir que aumentar deliberadamente a janela alimentar irá reduzir o colesterol ou prevenir síndrome metabólica.

E o horário em que consumimos mais calorias?

Talvez o resultado mais relevante do ponto de vista cardiovascular tenha sido observado na análise prospectiva.

Uma maior deslocação do ponto médio de ingestão energética para mais tarde esteve associada a aproximadamente 31% maiores probabilidades de doença cardiovascular incidente.

Este resultado sugere que não pode ser indiferente concentrar uma maior proporção das calorias no final do dia.

Mas, novamente, associação não significa causalidade.

Uma alimentação mais tardia pode ser apenas uma parte de um padrão de vida que inclui outros factores de risco.

O que acontece com o nosso relógio biológico?

Durante o dia, o organismo encontra-se geralmente mais preparado para actividade, alimentação e utilização de energia.

À noite, o organismo começa progressivamente a preparar-se para o sono.

Existem alterações na secreção hormonal, metabolismo da glicose, sensibilidade à insulina, temperatura corporal e actividade de vários sistemas fisiológicos.

É por isso que a crononutrição levanta uma hipótese interessante: talvez o mesmo alimento não produza exactamente a mesma resposta metabólica quando consumido em diferentes momentos do dia.

Esta área ainda está em desenvolvimento e precisamos de mais ensaios clínicos para determinar quanto destas associações resulta realmente do horário das refeições.

E o jejum intermitente?

Este estudo é particularmente interessante para quem pratica jejum intermitente.

Uma pessoa pode, por exemplo, fazer uma janela alimentar das 13 às 21 horas e permanecer sem comer durante a manhã.

Esse padrão não pode ser automaticamente classificado como saudável ou prejudicial apenas com base neste estudo.

O que a investigação sugere é que o horário escolhido para a janela alimentar pode merecer tanta atenção como a duração do jejum.

Talvez não seja indiferente fazer uma janela alimentar das 8 às 16 horas ou das 14 às 22 horas, mesmo que ambas tenham exactamente oito horas.

Mas esta é precisamente uma das perguntas que ainda precisa de respostas mais robustas.

O que considero mais importante na prática?

Na minha opinião, não devemos transformar a crononutrição numa nova lista de regras rígidas.

Não precisamos de começar a contar obsessivamente a hora exacta de cada refeição.

Existem princípios muito mais simples que fazem sentido:

  • evitar comer continuamente desde manhã até à noite;
  • evitar grandes refeições regularmente durante a madrugada;
  • tentar não concentrar a maior parte da alimentação imediatamente antes de dormir;
  • manter horários relativamente consistentes;
  • privilegiar alimentos pouco processados;
  • garantir proteína, fibra, fruta, vegetais e gorduras de boa qualidade;
  • adaptar o horário alimentar ao sono, actividade física e rotina pessoal.

Ou seja, o horário pode ser mais uma peça do puzzle, mas não deve substituir a qualidade da alimentação.

Não devemos escolher entre “o que comer” e “quando comer”

É fácil cair na ideia de que descobrimos uma nova variável que torna todas as outras menos importantes.

Não é isso que a ciência mostra.

Uma alimentação baseada em alimentos minimamente processados, rica em vegetais, fruta, leguminosas, cereais integrais, frutos secos e fontes adequadas de proteína continua a ser fundamental.

O exercício também continua a desempenhar um papel central na saúde cardiovascular e metabólica.

O sono, o peso corporal, o tabagismo, o stress e a actividade física diária também fazem parte da equação.

A crononutrição acrescenta uma pergunta interessante:

será que podemos melhorar ainda mais a saúde quando alinhamos melhor o horário da alimentação com o nosso relógio biológico?

A investigação está a aproximar-nos de uma resposta, mas ainda não temos uma regra universal.

O que retiro deste estudo?

Para mim, a principal mensagem não é que toda a gente deve tomar pequeno-almoço cedo ou que o jejum intermitente é prejudicial.

A mensagem mais interessante é que o horário das refeições pode ser uma variável relevante para a saúde cardiometabólica e cardiovascular.

O estudo encontrou associações entre padrões alimentares mais tardios e alguns marcadores menos favoráveis, incluindo colesterol e síndrome metabólica, e encontrou também uma associação entre um ponto médio de ingestão energética mais tardio e maior risco de doença cardiovascular.

Mas estas conclusões devem ser vistas como associações epidemiológicas e não como prova de que determinada hora de comer causa doença.

Por isso, prefiro uma abordagem simples: cuidar primeiro da qualidade da alimentação, manter actividade física regular, dormir bem e, quando possível, evitar concentrar grandes quantidades de comida demasiado tarde.

Talvez a melhor estratégia não seja procurar a hora perfeita para comer.

Talvez seja simplesmente evitar que toda a nossa alimentação fique desorganizada em torno do final do dia.

Posso ajudar

Posso ajudá-lo a organizar exercício e hábitos alimentares de forma prática, respeitando objetivos, rotina, idade, condição física e necessidades individuais, sem regras extremas.

Referências

  1. Schultz J, Moraeus L, Hellstrand S, Lindroos AK, Warensjö Lemming E. Associations between temporal meal patterns, cardiovascular risk factors and cardiovascular disease in Swedish adults: cross-sectional and nested case-control analyses. European Journal of Nutrition. 2026;65(7).

    PubMed — PMID 42782390

  2. Associations between temporal meal patterns, cardiovascular risk factors and cardiovascular disease in Swedish adults.

    DOI — 10.1007/s00394-026-04118-0

Leia também