Nunca é tarde para cuidar da saúde mental: porque a terapia pode ajudar à medida que envelhecemos

Nunca é tarde para cuidar da saúde mental: porque a terapia pode ajudar à medida que envelhecemos May 16, 2026Leave a comment

Existe uma ideia persistente de que, depois de determinada idade, já não vale a pena mudar.

“Sou assim há muitos anos.”

“Já passei por demasiadas coisas.”

“Agora tenho de aprender a viver com isto.”

Mas o envelhecimento não significa que tenhamos de aceitar sofrimento psicológico como inevitável.

Nunca é tarde para cuidar da saúde mental.

A psicoterapia pode ser útil em diferentes fases da vida, incluindo durante a idade adulta mais avançada. A investigação atual mostra que pessoas mais velhas podem beneficiar de intervenções psicológicas para problemas como depressão, ansiedade, stress, luto, solidão e dificuldades relacionadas com mudanças importantes na vida. Uma revisão publicada em 2026 concluiu que existe evidência consistente de benefício da psicoterapia em muitos adultos mais velhos com depressão. (Nature)

Envelhecer não é uma doença

Envelhecer faz parte da vida.

Mas algumas das mudanças que podem acontecer nesta fase podem aumentar a vulnerabilidade psicológica.

Reforma.

Perda de pessoas próximas.

Alterações na capacidade física.

Doenças crónicas.

Mudanças na situação financeira.

Menor contacto social.

Alteração do papel dentro da família.

Perda de autonomia.

Tudo isto pode obrigar a pessoa a reconstruir a sua identidade e a adaptar-se a uma nova realidade.

A Organização Mundial da Saúde salienta que fatores como isolamento social, solidão, luto, redução do sentido de propósito, problemas de saúde e ageísmo podem afetar a saúde mental na idade avançada. (Organização Mundial da Saúde)

O problema é que, por vezes, sintomas de depressão ou ansiedade são considerados simplesmente “normais para a idade”.

Não são.

Sentir alguma tristeza perante uma perda é humano.

Viver persistentemente sem prazer, esperança ou vontade de participar na vida merece atenção.

A terapia pode funcionar mesmo em idades avançadas?

Sim.

Uma das ideias mais importantes da investigação atual é que a idade, por si só, não impede a psicoterapia de funcionar.

Uma revisão publicada em 2026 analisou décadas de investigação sobre psicoterapia para depressão em adultos mais velhos e concluiu que existem evidências fortes de benefício, particularmente para diferentes formas de terapia cognitivo-comportamental, ativação comportamental e terapia de resolução de problemas. Também existem evidências para abordagens interpessoais e terapias centradas na revisão da vida. (Nature)

Ou seja:

o cérebro continua capaz de aprender, adaptar-se e modificar padrões de pensamento e comportamento ao longo da vida.

O cérebro mantém capacidade de mudança

Durante muito tempo acreditou-se que a capacidade de mudança do cérebro diminuía drasticamente com a idade.

Hoje sabemos que o cérebro mantém capacidade de adaptação durante toda a vida.

Esta capacidade é conhecida como neuroplasticidade.

Experiências, aprendizagem, relações sociais e novas formas de comportamento podem continuar a influenciar o funcionamento cerebral em idades avançadas.

Isto não significa que o envelhecimento não produza alterações.

Significa que envelhecer não implica perder completamente a capacidade de aprender ou modificar comportamentos.

E é precisamente aqui que a psicoterapia pode ser interessante.

A terapia não procura apagar o passado.

Procura ajudar a pessoa a lidar de forma diferente com aquilo que está a acontecer no presente.

A terapia cognitivo-comportamental

Uma das abordagens mais estudadas em adultos mais velhos é a terapia cognitivo-comportamental (TCC).

A TCC trabalha a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos.

Por exemplo, uma pessoa pode pensar:

“Já não consigo fazer nada como antes.”

Esse pensamento pode produzir tristeza e levar a pessoa a evitar atividades.

A falta de atividade aumenta o isolamento.

O isolamento aumenta a tristeza.

E cria-se um ciclo.

A terapia pode ajudar a identificar estes padrões e encontrar formas mais úteis de responder a eles.

Não significa pensar positivamente o tempo todo.

Significa aprender a reconhecer pensamentos automáticos e avaliar se são realmente úteis, realistas e ajustados à situação.

Ativação comportamental: voltar a fazer

Outra abordagem com evidência é a ativação comportamental.

A ideia é simples:

Quando estamos deprimidos, tendemos a fazer menos coisas.

Deixamos de sair.

Deixamos de encontrar amigos.

Deixamos de praticar exercício.

Deixamos de realizar atividades que anteriormente davam prazer.

O problema é que fazer menos pode aumentar ainda mais a depressão.

A ativação comportamental procura quebrar este ciclo através da introdução gradual de atividades significativas.

Pode começar com algo tão simples como:

uma caminhada.

Uma chamada para um amigo.

Ir ao jardim.

Voltar a cozinhar.

Retomar um passatempo.

Participar numa atividade de grupo.

O objetivo não é esperar que a motivação apareça primeiro.

É muitas vezes agir primeiro para que a motivação possa começar a regressar.

A terapia pode ajudar depois da reforma

A reforma pode ser uma mudança particularmente importante.

Durante décadas, o trabalho estrutura os dias.

Existe um horário.

Existem objetivos.

Existem colegas.

Existe uma função social.

Quando o trabalho termina, algumas pessoas sentem uma liberdade enorme.

Outras sentem um vazio.

“Quem sou eu agora?”

“Para que preciso de me levantar cedo?”

“O que faço com o meu tempo?”

Estas perguntas não significam necessariamente que exista uma doença.

Mas podem revelar uma necessidade de reconstruir propósito.

A psicoterapia pode ajudar a pessoa a explorar novos papéis, interesses e objetivos.

E aqui existe uma ideia importante:

o propósito não precisa de desaparecer com a reforma; pode mudar de forma.

Lidar com o luto

O envelhecimento também aumenta a probabilidade de experienciarmos perdas.

Pais.

Parceiros.

Irmãos.

Amigos.

O luto é uma resposta natural à perda e não deve ser automaticamente tratado como doença.

Mas algumas pessoas ficam presas num sofrimento intenso ou desenvolvem depressão ou ansiedade.

Nessas situações, apoio psicológico pode ser importante.

A terapia pode proporcionar um espaço para falar sobre a perda, reconstruir rotinas e aprender a viver com uma realidade que mudou.

Não significa esquecer a pessoa.

Significa encontrar uma forma de continuar a viver sem negar aquilo que aconteceu.

Solidão: um problema de saúde

A solidão não significa necessariamente estar sozinho.

Uma pessoa pode viver sozinha e sentir-se perfeitamente ligada aos outros.

Outra pode estar rodeada de pessoas e sentir-se profundamente isolada.

A OMS considera a solidão e o isolamento social fatores importantes de risco para problemas de saúde mental na idade avançada. Cerca de um quarto das pessoas mais velhas é afetado pelo isolamento social ou pela solidão, segundo a organização. (Organização Mundial da Saúde)

Por isso, melhorar a saúde mental não significa apenas fazer terapia.

Também pode significar:

mais relações sociais.

mais atividade física.

mais participação comunitária.

mais contacto com a natureza.

mais aprendizagem.

mais propósito.

A própria OMS destaca a importância das atividades sociais significativas, grupos comunitários, voluntariado, educação e outras formas de ligação social para a saúde mental na idade avançada. (Organização Mundial da Saúde)

O exercício também é importante

A saúde mental não está separada do corpo.

A atividade física pode contribuir para melhorar humor, sono, função física e qualidade de vida.

Além disso, manter força e autonomia pode ter um efeito psicológico importante.

Imagine duas pessoas com 75 anos.

Uma sente que já não consegue levantar-se facilmente de uma cadeira, carregar compras ou subir escadas.

Outra mantém força suficiente para realizar essas tarefas sem ajuda.

A diferença não é apenas muscular.

A capacidade física influencia a confiança, independência e perceção de autonomia.

Por isso, envelhecimento saudável deve incluir tanto saúde psicológica como capacidade física.

E se a pessoa disser “não preciso de terapia”?

Existe ainda um obstáculo cultural.

Algumas gerações cresceram com a ideia de que procurar ajuda psicológica significa fraqueza.

Mas pedir ajuda não é necessariamente sinal de incapacidade.

Pode ser precisamente o contrário.

É reconhecer que existe um problema e procurar ferramentas para lidar com ele.

A idade também não deve ser utilizada como argumento para desistir.

“Já tenho 70 anos.”

“Tenho 80.”

“Agora é tarde.”

Não é tarde para melhorar a qualidade de vida.

Terapia não significa necessariamente falar do passado durante anos

Outra ideia comum é imaginar que a psicoterapia consiste exclusivamente em falar sobre acontecimentos da infância.

Existem diferentes tipos de psicoterapia e diferentes objetivos.

Algumas intervenções são bastante estruturadas e orientadas para problemas específicos.

Podem trabalhar:

  • pensamentos negativos;
  • ansiedade;
  • resolução de problemas;
  • comportamento;
  • sono;
  • relações interpessoais;
  • adaptação à reforma;
  • luto;
  • solidão;
  • perda de autonomia.

A terapia pode ser presencial ou, em determinadas situações, realizada através de teleterapia.

A revisão de 2026 sobre psicoterapia em adultos mais velhos encontrou benefícios em diferentes formatos, incluindo intervenções individuais, de grupo e modalidades tecnológicas. (Nature)

Não devemos aceitar sofrimento como “normal da idade”

Talvez esta seja a mensagem mais importante.

Algumas alterações físicas fazem parte do envelhecimento.

Mas depressão, ansiedade persistente, isolamento e sofrimento psicológico significativo não devem ser simplesmente aceites como inevitáveis.

A OMS refere que problemas de saúde mental em pessoas mais velhas são frequentemente subdiagnosticados e subtratados, em parte devido ao estigma e à tendência para atribuir determinados sintomas ao próprio envelhecimento. (Organização Mundial da Saúde)

Reconhecer o problema é o primeiro passo.

Procurar ajuda é o segundo.

Nunca é tarde para aprender novas formas de viver

Envelhecer não significa fechar a porta à mudança.

Podemos aprender uma nova atividade aos 60.

Começar a treinar aos 70.

Fazer novos amigos aos 75.

Retomar um objetivo aos 80.

E procurar ajuda psicológica em qualquer destas idades.

A psicoterapia não consegue eliminar todas as dificuldades da vida.

Mas pode ajudar uma pessoa a desenvolver ferramentas para lidar melhor com elas.

A investigação atual é clara num ponto fundamental:

adultos mais velhos podem beneficiar de intervenções psicológicas eficazes, e a idade não é uma razão para excluir alguém da possibilidade de melhorar. (Nature)

A mensagem final

Não existe uma idade máxima para cuidar da saúde mental.

Se uma pessoa está deprimida, ansiosa, isolada, a sofrer com uma perda ou simplesmente sente que perdeu o sentido de propósito, procurar ajuda pode ser útil mesmo em idades avançadas.

E cuidar da saúde mental não significa abandonar o corpo.

Pelo contrário.

Movimento, treino de força, sono, relações sociais, alimentação adequada, propósito e apoio psicológico podem trabalhar em conjunto para promover um envelhecimento mais saudável.

Envelhecer não deve significar simplesmente viver mais anos.

Deve significar ter capacidade para continuar a viver esses anos com autonomia, relações, propósito e qualidade de vida.

Posso ajudar

Se quer envelhecer com mais força, autonomia, confiança e qualidade de vida, posso ajudá-lo a construir uma rotina de exercício adaptada à sua idade, condição física e objetivos.

O treino não substitui a psicoterapia quando esta é necessária.

Mas manter o corpo ativo pode ser uma das peças importantes de uma estratégia global de envelhecimento saudável.

Marcelo Barros — Personal Trainer

Treino de força, movimento, longevidade, autonomia e qualidade de vida.

Nota: este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação de um psicólogo, psiquiatra ou médico. Sintomas persistentes de depressão, ansiedade, isolamento ou sofrimento psicológico significativo devem ser avaliados por um profissional de saúde.

 

Referências

  1. World Health Organization — Mental health of older adults
    https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-of-older-adults 
  2. Gum AM, Crawford NO. Psychotherapy for older adults with depression: a narrative review. Neuropsychopharmacology, 2026.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41535633/ 
  3. Cuijpers P, et al. Psychological treatment of depression in older adults: A network meta-analysis. International Psychogeriatrics, 2026.
    https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41991348/ 
  4. World Health Organization — Evidence profile: depressive symptoms in older people
    https://www.who.int/publications/i/item/WHO-MCA-17.06.03 
  5. World Health Organization — Ageing and health
    https://www.who.int/health-topics/ageing 
  6. World Health Organization — Ageism
    https://www.who.int/health-topics/ageism