A alimentação saudável não produz necessariamente exatamente os mesmos efeitos em todas as pessoas. Duas pessoas podem seguir uma dieta semelhante e apresentar respostas diferentes no peso corporal, na composição corporal, na glicemia ou na sensibilidade à insulina. Uma das áreas que procura explicar parte destas diferenças é a nutrigenómica, disciplina que estuda a relação entre os nutrientes, a alimentação e os nossos genes.
Uma nova revisão sistemática publicada em setembro de 2026 analisou especificamente a utilização de estratégias baseadas na nutrigenómica para a prevenção e gestão da obesidade e da diabetes tipo 2. Os resultados são interessantes, mas também mostram que ainda estamos numa fase relativamente inicial desta área.
O que é a nutrigenómica?
A nutrigenómica procura compreender de que forma os nutrientes e os padrões alimentares podem interagir com o nosso material genético e influenciar diferentes processos metabólicos.
Na prática, isto significa que uma determinada alimentação pode produzir respostas diferentes dependendo, entre outros fatores, das características genéticas de cada indivíduo.
Existe também uma relação no sentido inverso: determinadas variantes genéticas podem influenciar a forma como uma pessoa responde a diferentes nutrientes, quantidades de energia ou padrões alimentares.
Este conceito está na base da chamada nutrição de precisão: em vez de procurar uma dieta universalmente ideal, procura-se compreender se determinadas características individuais podem ajudar a escolher estratégias alimentares mais adequadas para cada pessoa.
O que analisou este novo estudo?
Os investigadores realizaram uma revisão sistemática da literatura científica, procurando ensaios clínicos realizados em seres humanos que avaliassem intervenções nutricionais relacionadas com nutrigenómica em pessoas com obesidade, pré-diabetes ou diabetes tipo 2.
A pesquisa identificou 1278 artigos. No entanto, depois da aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, apenas seis ensaios clínicos randomizados foram considerados suficientemente relevantes para integrar a análise final.
Esta diferença entre o número inicial de artigos e o número final de estudos é importante. Demonstra que existe bastante investigação relacionada com genética, alimentação e metabolismo, mas que a quantidade de ensaios clínicos robustos que permitem testar diretamente estratégias de nutrigenómica ainda é reduzida.
Que genes podem estar envolvidos?
A revisão identificou várias variantes genéticas que poderão estar relacionadas com diferentes respostas às intervenções alimentares.
Entre os exemplos analisados encontram-se variantes nos genes APOA2, MTNR1B, CLOCK e PPM1K.
Estes genes estão envolvidos em processos relacionados com metabolismo, regulação energética, resposta à alimentação ou ritmos biológicos.
Os estudos incluídos também analisaram marcadores moleculares como RIPK3 e RNF216, procurando perceber se determinadas respostas biológicas às intervenções alimentares poderiam estar associadas a alterações metabólicas.
Em alguns dos ensaios, determinadas características genéticas ou moleculares estiveram associadas a alterações no peso corporal, índice de massa corporal, perímetro da cintura ou sensibilidade à insulina.
Significa isto que podemos descobrir a dieta ideal através de um teste genético?
Não. Esta é provavelmente a principal mensagem a retirar do estudo.
A nutrigenómica é uma área promissora, mas os resultados atualmente disponíveis ainda não permitem afirmar que um teste genético consiga determinar, de forma fiável, qual é a dieta ideal para uma determinada pessoa.
A própria revisão encontrou uma limitação importante: apenas um dos seis estudos apresentou baixo risco de viés segundo a avaliação realizada pelos investigadores.
Além disso, existia uma grande heterogeneidade entre os estudos, incluindo diferenças nos participantes, variantes genéticas analisadas, intervenções alimentares e resultados avaliados.
Por isso, os autores consideram necessários ensaios clínicos maiores, mais rigorosos e mais padronizados antes de podermos utilizar a nutrigenómica de forma generalizada na prática clínica.
Porque é que esta área pode ser importante?
A obesidade e a diabetes tipo 2 são condições complexas. Não resultam de um único fator. Alimentação, atividade física, sono, composição corporal, idade, ambiente, comportamento, metabolismo e genética podem interagir entre si.
É possível que, no futuro, a combinação destas diferentes informações permita desenvolver intervenções mais individualizadas.
Por exemplo, em vez de perguntar apenas qual é a dieta que funciona melhor em média numa população, poderemos tentar perceber quais são as características que fazem com que determinada pessoa responda melhor ou pior a diferentes estratégias alimentares.
Esta abordagem poderia ser particularmente interessante na prevenção da diabetes tipo 2, no controlo do peso e na melhoria da saúde metabólica.
Genética não substitui os hábitos de vida
Apesar do entusiasmo em torno da nutrição personalizada, é importante não transformar a genética numa explicação absoluta para o nosso estado de saúde.
Os genes influenciam características metabólicas, mas não determinam isoladamente o peso corporal ou o risco de diabetes tipo 2.
Alimentação, atividade física, sono, ingestão energética, composição corporal e outros fatores ambientais continuam a desempenhar um papel fundamental.
Da mesma forma, a existência de uma determinada variante genética não significa automaticamente que uma pessoa irá desenvolver obesidade ou diabetes. Na maioria dos casos, estamos perante interações complexas entre múltiplos fatores.
O que podemos aplicar atualmente?
Enquanto a nutrigenómica continua a desenvolver-se, algumas das estratégias mais importantes para a saúde metabólica permanecem relativamente simples.
Uma alimentação baseada predominantemente em alimentos pouco processados, legumes, fruta, leguminosas, frutos secos, fontes adequadas de proteína e gorduras de qualidade pode contribuir para uma alimentação metabolicamente favorável.
A atividade física também desempenha um papel central. O treino de força ajuda a preservar ou aumentar a massa muscular, enquanto o exercício aeróbio contribui para a capacidade cardiorrespiratória e para a regulação metabólica.
O sono adequado, a gestão do stress e a redução do sedentarismo complementam estas estratégias.
Ou seja, a nutrigenómica poderá futuramente ajudar-nos a personalizar estas intervenções, mas não elimina a importância dos princípios básicos de um estilo de vida saudável.
Uma área promissora, mas ainda em desenvolvimento
Esta revisão sistemática mostra que existe uma base científica crescente para investigar a interação entre genes e alimentação. Alguns resultados sugerem que determinadas variantes genéticas podem influenciar a resposta a intervenções nutricionais relacionadas com peso corporal e metabolismo da glicose.
No entanto, o número reduzido de ensaios clínicos e as limitações metodológicas identificadas pelos autores aconselham prudência.
A nutrigenómica poderá representar uma das próximas etapas da evolução da nutrição de precisão, mas ainda não estamos num ponto em que seja possível recomendar dietas específicas apenas com base num perfil genético.
O mais interessante talvez seja a mudança de paradigma: no futuro, a pergunta poderá deixar de ser simplesmente “qual é a melhor dieta?” e passar a ser “qual é a estratégia alimentar mais adequada para esta pessoa, considerando o seu metabolismo, comportamento, contexto e características biológicas?”.
Posso ajudar
Posso ajudar a transformar evidência científica em estratégias de treino individualizadas, integrando exercício, composição corporal, força, mobilidade e objetivos pessoais de forma progressiva e realista.
Conclusão
A nutrigenómica é uma área científica promissora que procura compreender como os genes podem influenciar a resposta individual à alimentação. A nova revisão sistemática encontrou sinais de benefício potencial em estratégias personalizadas para obesidade e diabetes tipo 2, mas também identificou limitações importantes na qualidade e quantidade da evidência disponível.
Por enquanto, a genética deve ser encarada como uma peça adicional do puzzle e não como uma resposta definitiva. A combinação entre alimentação adequada, exercício regular, sono, composição corporal e acompanhamento individualizado continua a constituir uma base sólida para a saúde metabólica.
Referências
- Mathur A, Nandi D, Banerjee A, Mehta V. Nutrigenomics in the prevention and management of type 2 diabetes and obesity: A systematic review of clinical trials. Nutrition and Health. 2026.
PubMed - Mathur A, Nandi D, Banerjee A, Mehta V. Nutrigenomics in the prevention and management of type 2 diabetes and obesity: A systematic review of clinical trials. DOI: 10.1177/02601060261487857.
DOI