O sono é uma das componentes mais importantes da recuperação física, mas continua a ser frequentemente desvalorizado por quem pratica exercício. Cristiano Ronaldo tornou-se um exemplo frequentemente associado à importância do descanso, da disciplina e da preparação física. Uma das abordagens que ganhou popularidade neste contexto é o método R90, desenvolvido por Nick Littlehales, especialista em sono que trabalhou com equipas de futebol de elite, incluindo o Real Madrid.
Mas será que Cristiano Ronaldo dorme realmente em seis períodos de 90 minutos por dia? E será que precisamos de copiar esta estratégia para recuperar melhor dos treinos, aumentar a força ou preservar a massa muscular depois dos 40 anos?
A resposta exige distinguir aquilo que se sabe sobre o método, as afirmações divulgadas pelos meios de comunicação e o que a investigação científica demonstra sobre o sono e a recuperação.
O que é o método R90?
O método R90, associado a Nick Littlehales, propõe uma abordagem organizada ao descanso, considerando a recuperação ao longo de toda a semana e não apenas o número de horas dormidas numa determinada noite.
A metodologia utiliza ciclos de aproximadamente 90 minutos como referência prática. O objetivo frequentemente apresentado é atingir 35 ciclos semanais, o equivalente a 52,5 horas de sono quando cada ciclo corresponde a 90 minutos. Esta quantidade representa uma média de sete horas e meia por dia.
É importante compreender que os ciclos de sono não têm todos a mesma duração. Os 90 minutos constituem uma aproximação e não uma medida biológica rigorosa que permita prever exatamente quando devemos adormecer ou acordar.
O interesse desta abordagem está sobretudo em chamar a atenção para a importância do sono, da regularidade dos horários e das oportunidades de recuperação durante o dia.
Cristiano Ronaldo dorme seis vezes por dia?
Uma das histórias mais divulgadas sobre Cristiano Ronaldo é a de que dormiria cinco ou seis vezes por dia, em períodos de 90 minutos, em vez de concentrar o descanso durante a noite.
Esta descrição foi amplamente reproduzida, mas Nick Littlehales esclareceu numa entrevista publicada em 2024 que existia um mal-entendido sobre a sua abordagem. Explicou que não recomendava acordar uma pessoa de 90 em 90 minutos e que o seu trabalho no Real Madrid envolveu a equipa, não apenas Cristiano Ronaldo.
Por isso, é prudente não apresentar a ideia das seis sestas diárias como uma rotina pessoal confirmada do futebolista. O mais relevante é a mensagem que está por detrás desta discussão: o descanso deve ser considerado uma parte fundamental da preparação desportiva.
Porque é que o sono é tão importante para quem treina?
Durante o exercício, o organismo é sujeito a estímulos que provocam alterações fisiológicas e criam condições para a adaptação. A recuperação permite responder a essas exigências e preparar o corpo para esforços posteriores.
O sono participa em diversos processos importantes, incluindo a regulação hormonal, o funcionamento do sistema imunitário, a consolidação da memória e a recuperação neuromuscular. Também influencia a atenção, a capacidade de decisão, o controlo emocional e a perceção do esforço.
Quando dormimos pouco de forma repetida, podemos sentir mais cansaço, apresentar menor capacidade de concentração e ter mais dificuldade em manter a qualidade do treino. A falta de sono também pode comprometer a capacidade de gerir cargas de exercício elevadas.
Para quem pretende ganhar massa muscular, melhorar a força ou manter a condição física ao longo dos anos, o sono deve ser considerado em conjunto com o treino, a alimentação e a gestão do stress.
Quantas horas devemos dormir?
Para a maioria dos adultos, a recomendação de referência é dormir pelo menos sete horas por noite de forma regular. Muitas pessoas beneficiam de sete a nove horas, embora as necessidades individuais possam variar.
Não existe uma duração universal que garanta a mesma recuperação a todas as pessoas. A idade, o volume de exercício, os horários profissionais, o stress e as características individuais podem influenciar as necessidades de descanso.
Também não devemos confundir o tempo passado na cama com o tempo efetivamente dormido. Uma pessoa pode permanecer oito horas na cama e ter um sono fragmentado, enquanto outra pode dormir durante um período semelhante com menos interrupções.
O objetivo deve ser encontrar uma rotina que permita dormir o suficiente, acordar com uma sensação razoável de recuperação e manter um bom funcionamento durante o dia.
As sestas ajudam na recuperação?
Uma sesta pode ser útil quando existe sonolência durante o dia, uma noite mal dormida ou uma carga de treino particularmente exigente. Para muitas pessoas, uma sesta curta, de aproximadamente 10 a 30 minutos, permite recuperar alguma atenção e reduzir a sensação de cansaço.
No entanto, as sestas não são obrigatórias. Algumas pessoas não sentem necessidade de dormir durante o dia, enquanto outras têm dificuldade em adormecer à noite se descansarem demasiado tarde ou durante períodos prolongados.
Se uma sesta prejudicar o sono noturno, poderá ser preferível encurtá-la ou antecipá-la. A prioridade continua a ser garantir uma quantidade adequada de sono durante as 24 horas, sem criar uma rotina artificialmente complexa.
Como melhorar o sono e a recuperação física
Não é necessário ser um atleta profissional para beneficiar de hábitos de sono mais consistentes. Algumas estratégias simples podem fazer uma diferença significativa.
- Manter horários regulares: procurar deitar-se e levantar-se a horas semelhantes ajuda a estabilizar o ritmo sono-vigília.
- Procurar luz natural pela manhã: a exposição à luz durante o início do dia ajuda a regular o relógio biológico.
- Reduzir os estímulos antes de dormir: criar um período de desaceleração, com menos trabalho e menos utilização de ecrãs, pode facilitar a transição para o sono.
- Controlar a cafeína: evitar o consumo nas horas que antecedem o sono, sobretudo quando existe dificuldade em adormecer.
- Preparar o quarto: privilegiar um ambiente escuro, silencioso, confortável e com uma temperatura adequada.
- Ajustar o treino à recuperação: se existir fadiga persistente, poderá ser necessário rever o volume, a intensidade ou a distribuição das sessões.
Estas estratégias não garantem noites perfeitas, mas ajudam a criar condições favoráveis para um sono regular e reparador.
O método de Cristiano Ronaldo é adequado para toda a gente?
Não existe evidência científica suficiente para afirmar que organizar o sono em blocos rígidos de 90 minutos seja superior às rotinas convencionais para toda a população.
Os ciclos de sono variam entre pessoas e ao longo da mesma noite. Por isso, tentar acordar exatamente no final de cada ciclo pode ser contraproducente se obrigar a reduzir o tempo total de descanso.
Para a maioria das pessoas, é mais sensato começar por garantir horas suficientes de sono, manter horários relativamente consistentes e avaliar a forma como o corpo responde ao treino e às exigências diárias.
Quando existem dificuldades persistentes em adormecer, despertares frequentes, sonolência excessiva durante o dia ou ressonar acompanhado de pausas respiratórias, é aconselhável procurar avaliação clínica.
O que podemos aprender com a preparação de Cristiano Ronaldo?
Na minha experiência, o mais interessante não é tentar reproduzir a rotina de um atleta profissional, mas perceber os princípios que podem ser aplicados à vida quotidiana.
O treino não deve ser analisado isoladamente. A capacidade de recuperar depende também do sono, da alimentação, do stress, da atividade diária e da forma como distribuímos o esforço ao longo da semana.
Uma pessoa que treina intensamente, dorme pouco e acumula fadiga pode beneficiar mais de melhorar a recuperação do que de acrescentar mais exercícios ao programa. Noutra situação, poderá ser suficiente ajustar os horários ou reduzir temporariamente a exigência das sessões.
Esta individualização torna-se particularmente importante depois dos 40 anos, quando os objetivos podem incluir não apenas o desempenho desportivo, mas também a manutenção da força, da massa muscular, da mobilidade e da autonomia.
Não precisamos de seis períodos de sono por dia nem de calcular todos os ciclos para cuidar melhor da recuperação. Precisamos de perceber as nossas necessidades, respeitar o descanso e criar hábitos que consigamos manter durante anos.
Conclusão
O método R90, associado a Nick Littlehales e divulgado no contexto do futebol de elite, ajudou a chamar a atenção para o papel do sono na recuperação desportiva. Contudo, a ideia de que Cristiano Ronaldo dorme obrigatoriamente seis vezes por dia não deve ser tratada como um facto confirmado.
A evidência científica apoia sobretudo a importância de dormir o suficiente, manter horários regulares e criar condições para um sono de qualidade. Para quem pratica exercício, estes hábitos devem fazer parte da mesma estratégia que inclui treino adequado, alimentação equilibrada e gestão da fadiga.
Mais do que copiar o horário de um futebolista, vale a pena aplicar o princípio fundamental: recuperar bem é uma condição importante para continuar a treinar, melhorar a condição física e preservar a saúde a longo prazo.
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Referências
- Watson NF, et al. Recommended Amount of Sleep for a Healthy Adult: A Joint Consensus Recommendation of the American Academy of Sleep Medicine and Sleep Research Society. Sleep. 2015;38(6):843–844. https://doi.org/10.5665/sleep.4716
- Worldcrunch. Less Is More: Cristiano Ronaldo’s “Sleep Coach” Shares His Guide For Regeneration. Entrevista com Nick Littlehales, publicada em 2024. Consultar entrevista
- Sky Sports. Meet the man who has helped Cristiano Ronaldo, Thierry Henry and Sergio Aguero sleep. Consultar artigo
- American Academy of Sleep Medicine. Recomendações e informação científica sobre a duração adequada do sono em adultos. AASM