Se observar uma criança de dois ou três anos a brincar no chão, irá notar algo curioso: consegue sentar-se em agachamento profundo durante vários minutos sem qualquer dificuldade.
Os calcanhares permanecem apoiados no chão, a coluna mantém-se relativamente direita e o movimento parece natural.
No entanto, à medida que envelhecemos, muitas pessoas perdem gradualmente essa capacidade.
Será que nascemos todos preparados para agachar profundamente?
Será que os nossos antepassados tinham uma mobilidade superior à nossa?
E porque razão algumas pessoas continuam a conseguir realizar um agachamento profundo enquanto outras sentem limitações significativas?
A resposta encontra-se na interação entre evolução humana, genética, desenvolvimento motor, ambiente e estilo de vida.
Durante Milhares de Anos o Agachamento Foi Uma Posição Natural
Muito antes da invenção das cadeiras, sofás e escritórios, os seres humanos passavam grande parte do tempo junto ao solo.
Os nossos antepassados utilizavam frequentemente o agachamento para:
- Descansar.
- Preparar alimentos.
- Trabalhar.
- Acender fogueiras.
- Construir ferramentas.
- Observar o ambiente.
Em muitas culturas tradicionais, o agachamento profundo continua a ser utilizado como posição de repouso.
Para essas populações, permanecer vários minutos de cócoras é tão natural como sentar-se numa cadeira é para a maioria dos ocidentais.
Isto sugere que o agachamento profundo faz parte do repertório natural de movimento da espécie humana.
A Evolução da Bacia Humana
A bacia humana é uma das estruturas mais fascinantes do corpo.
Ao longo de milhões de anos, sofreu profundas transformações.
Quando os nossos antepassados começaram a caminhar de forma permanente sobre duas pernas, a bacia teve de adaptar-se.
Estas alterações permitiram:
- Melhor equilíbrio durante a marcha.
- Maior eficiência energética.
- Melhor capacidade para correr longas distâncias.
- Libertação das mãos para transportar alimentos e ferramentas.
Mas surgiu um problema.
À medida que o cérebro humano aumentava de tamanho, os bebés nasciam com cabeças cada vez maiores.
A bacia teve então de encontrar um equilíbrio entre duas necessidades aparentemente contraditórias:
- Permitir uma locomoção eficiente.
- Permitir o nascimento de bebés com cérebros maiores.
Os cientistas designam frequentemente este fenómeno como “dilema obstétrico”.
A anatomia atual da bacia humana representa o resultado deste compromisso evolutivo.
Será Que os Agricultores Desenvolveram Ancas Mais Aptas Para Agachar?
É uma teoria interessante.
Durante séculos, agricultores, trabalhadores rurais e artesãos passaram milhares de horas em posições próximas do solo.
Por outro lado, membros das classes mais privilegiadas realizavam menos trabalho físico pesado.
Seria lógico pensar que as famílias que trabalhavam mais no campo desenvolveram uma anatomia mais favorável ao agachamento profundo.
Contudo, a ciência sugere que a situação é mais complexa.
A seleção natural não ocorre porque uma característica é utilizada frequentemente.
Para que uma característica se torne mais comum numa população, é necessário que aumente significativamente a sobrevivência ou a capacidade reprodutiva.
Embora o hábito de trabalhar no campo possa ter influenciado a mobilidade e os padrões de movimento, não existem evidências sólidas de que tenha provocado alterações anatómicas relevantes na bacia ao longo de apenas algumas dezenas de gerações.
O mais provável é que os agricultores desenvolvessem melhores capacidades motoras e maior mobilidade devido ao uso constante dessas posições.
A Grande Diferença Pode Estar na Infância
Existe um princípio fundamental da biologia:
O corpo adapta-se ao que faz repetidamente.
Uma criança que passa os primeiros anos de vida:
- A correr.
- A saltar.
- A trepar.
- A brincar no chão.
- A sentar-se frequentemente de cócoras.
estimula constantemente as articulações, músculos e sistema nervoso.
Esses estímulos ajudam a preservar amplitudes de movimento que muitas vezes se perdem na idade adulta.
Por outro lado, uma criança que passa muitas horas sentada em cadeiras e com pouca atividade física pode desenvolver padrões motores diferentes.
A genética é importante.
Mas o ambiente durante o crescimento pode ser igualmente decisivo.
O Que Aconteceu Quando Inventámos as Cadeiras?
Durante praticamente toda a evolução humana, as cadeiras não existiam.
São uma invenção relativamente recente.
Nos últimos séculos, passámos gradualmente a substituir posições no chão por cadeiras.
Hoje em dia:
- Trabalhamos sentados.
- Comemos sentados.
- Conduzimos sentados.
- Vemos televisão sentados.
Muitas pessoas permanecem mais de oito horas por dia nesta posição.
O problema não é sentar.
O problema é deixar de utilizar outras posições.
O corpo interpreta a falta de utilização como falta de necessidade.
Ao longo dos anos pode ocorrer:
- Redução da mobilidade da anca.
- Diminuição da dorsiflexão do tornozelo.
- Perda de controlo motor.
- Alterações posturais.
Tudo isto influencia a profundidade do agachamento.
O Sistema Nervoso Aprende Aquilo Que Repetimos
O movimento não depende apenas dos músculos.
O cérebro desempenha um papel fundamental.
Sempre que repetimos uma determinada ação, o sistema nervoso torna-se mais eficiente nessa tarefa.
Se passa décadas sem utilizar o agachamento profundo, o cérebro deixa de considerar essa posição como familiar.
Em alguns casos, pode mesmo limitar o movimento como mecanismo de proteção.
Por isso, recuperar determinadas capacidades motoras não depende apenas de alongar.
Depende também de voltar a ensinar o cérebro a utilizar essas amplitudes de forma segura.
O Papel dos Olhos no Movimento
Uma área frequentemente negligenciada é a influência do sistema visual.
Os olhos fornecem ao cérebro informações essenciais sobre:
- Equilíbrio.
- Orientação espacial.
- Controlo postural.
- Coordenação motora.
Quando existem alterações no processamento visual, podem surgir compensações que afetam o movimento de todo o corpo.
Atualmente, a investigação sobre treino motor ocular tem demonstrado a importância da relação entre visão, postura e movimento.
Em alguns casos, melhorar a forma como o cérebro processa a informação visual pode contribuir para melhorar padrões motores e estabilidade corporal.
Porque Algumas Pessoas Parecem Ter Talento Natural Para Agachar?
Na realidade, normalmente não existe apenas um fator.
O que observamos é frequentemente uma combinação de:
- Anatomia favorável da anca.
- Boa mobilidade do tornozelo.
- Desenvolvimento motor adequado durante a infância.
- Exposição frequente a posições no chão.
- Melhor controlo neuromuscular.
- Hábitos de movimento mantidos ao longo da vida.
Quando todos estes fatores se combinam, o agachamento profundo parece fácil e natural.
Podemos Recuperar Parte Dessa Capacidade?
Na maioria dos casos, sim.
Embora não possamos alterar a estrutura óssea, podemos frequentemente melhorar:
- A mobilidade articular.
- O controlo motor.
- A estabilidade.
- A coordenação.
- A função do sistema nervoso.
Pequenas melhorias em várias destas áreas podem produzir alterações surpreendentes na qualidade do movimento.
Conclusão
O agachamento profundo não é apenas um exercício de ginásio.
É um movimento que acompanha a história da espécie humana há milhares de anos.
A nossa capacidade para o realizar resulta da interação entre evolução, genética, desenvolvimento infantil, hábitos de movimento e funcionamento do sistema nervoso.
Ao longo dos últimos séculos, a utilização crescente de cadeiras reduziu drasticamente a exposição a posições próximas do solo.
Consequentemente, muitas pessoas perderam capacidades que eram comuns nos nossos antepassados.
Felizmente, o corpo humano mantém uma enorme capacidade de adaptação.
Com a abordagem adequada, é possível recuperar mobilidade, melhorar padrões motores e voltar a realizar movimentos que pareciam perdidos.
Sobre Mim
Sou Marcelo Barros, Personal Trainer desde 1995 e antigo Personal Trainer oficial da Men’s Health entre 2003 e 2015.
Especializei-me na avaliação e reabilitação do movimento, com especial interesse nas alterações do joelho, coluna vertebral e controlo motor.
A minha formação inclui:
- Osteopatia.
- P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex).
- Treino Motor Ocular.
- Treino de força.
- Reabilitação funcional.
Acredito que compreender a interação entre cérebro, olhos, sistema nervoso e aparelho locomotor permite identificar limitações que muitas vezes passam despercebidas e encontrar soluções mais eficazes para melhorar o movimento e reduzir a dor.
Referências Científicas
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