A qualidade do sono é fundamental para a recuperação física, o equilíbrio metabólico, a concentração e o desempenho. Mas será que aquilo que comemos e a quantidade de gordura corporal que temos podem influenciar a forma como dormimos?
Um estudo publicado em 31 de agosto de 2026 analisou precisamente esta questão em atletas profissionais, avaliando a relação entre qualidade da alimentação, composição corporal e qualidade do sono. (dergipark.org.tr)
O que mostrou o estudo mais recente?
A investigação, publicada no Istanbul Gelisim University Journal of Health Sciences, avaliou 89 atletas profissionais de futebol, voleibol e basquetebol.
Os investigadores analisaram a composição corporal através do método de Jackson-Pollock, enquanto a qualidade da alimentação foi avaliada através do Healthy Eating Index-2015 (HEI-2015) e a qualidade do sono através do Pittsburgh Sleep Quality Index (PSQI). (dergipark.org.tr)
Os resultados são interessantes porque não confirmaram uma relação direta entre a qualidade global da alimentação e a qualidade do sono.
Na realidade, não foi encontrada uma associação estatisticamente significativa entre a qualidade geral da dieta e a qualidade do sono (p=0,723).
Por outro lado, apareceu uma associação significativa entre a percentagem de gordura corporal e a qualidade do sono.
Os atletas que apresentavam pior qualidade do sono tinham uma percentagem de gordura corporal significativamente superior (p=0,003). Além disso, verificou-se uma correlação positiva, embora fraca, entre a pontuação de problemas de sono e a percentagem de gordura corporal (r=0,293; p<0,05). (dergipark.org.tr)
Mais gordura corporal, pior sono?
Este resultado não significa que ter mais gordura corporal provoque obrigatoriamente problemas de sono.
É importante perceber que o estudo é transversal. Isto significa que os investigadores observaram as relações entre diferentes características num determinado momento, mas não conseguem demonstrar uma relação de causa e efeito.
Ainda assim, a associação encontrada é relevante.
O excesso de gordura corporal pode estar relacionado com alterações metabólicas, inflamatórias e respiratórias que podem interferir com o sono. Um exemplo particularmente importante é a apneia obstrutiva do sono, uma condição em que a respiração é repetidamente interrompida ou reduzida durante a noite.
Por isso, quando uma pessoa apresenta excesso de gordura corporal, sobretudo na região abdominal, e simultaneamente dorme mal, pode ser importante avaliar a qualidade do sono de forma mais aprofundada.
E a alimentação?
Aqui é necessário ter algum cuidado com a interpretação.
É frequente ouvirmos que uma alimentação saudável melhora automaticamente o sono. Existem estudos anteriores que sugerem uma relação entre determinados padrões alimentares e a qualidade do sono.
No entanto, o estudo publicado em agosto de 2026 não encontrou uma associação significativa entre a qualidade global da dieta e a qualidade do sono nos atletas avaliados. (dergipark.org.tr)
Isto não significa que a alimentação não tenha qualquer influência sobre o sono.
Significa apenas que, nesta investigação específica, a qualidade global da dieta, medida pelo HEI-2015, não apresentou uma relação estatisticamente significativa com a qualidade do sono.
A alimentação é muito complexa. Não é apenas uma questão de classificar uma dieta como “boa” ou “má”. A quantidade de proteína, hidratos de carbono, gordura, fibra, cafeína, álcool, horário das refeições e quantidade total de energia ingerida podem ter efeitos diferentes.
O horário das refeições pode ser importante
Para algumas pessoas, fazer refeições muito abundantes perto da hora de dormir pode provocar desconforto digestivo, refluxo ou sensação de peso, dificultando o adormecimento.
Também é importante ter atenção à cafeína, presente no café, chá, bebidas energéticas e alguns suplementos.
A sensibilidade à cafeína varia muito entre pessoas. Mesmo quando alguém consegue adormecer depois de consumir cafeína, isso não significa necessariamente que o sono tenha a mesma qualidade.
Por isso, uma alimentação adequada para dormir bem deve ser analisada não apenas pela qualidade dos alimentos, mas também pela quantidade, horário e características individuais.
Sono, gordura corporal e exercício estão relacionados
O exercício físico também merece destaque.
A prática regular de atividade física está associada a diversos benefícios para a saúde e pode contribuir para uma melhor qualidade do sono.
Ao mesmo tempo, uma boa noite de sono é importante para a recuperação muscular, regulação do apetite, desempenho físico e capacidade de treinar.
Podemos, portanto, pensar nestes fatores como partes de um mesmo sistema:
exercício → composição corporal → alimentação → sono → recuperação.
Uma alteração num destes componentes pode influenciar os restantes.
No estudo de 2026, a qualidade do sono também apresentou relações com algumas características do treino e do estilo de vida. (dergipark.org.tr)
O que podemos retirar deste estudo?
A principal mensagem não é que “determinados alimentos fazem dormir melhor”.
A conclusão mais rigorosa é outra:
nos 89 atletas profissionais estudados, uma maior percentagem de gordura corporal esteve associada a pior qualidade do sono, enquanto a qualidade global da dieta não apresentou uma associação significativa com a qualidade do sono. (dergipark.org.tr)
É uma diferença importante.
Também devemos evitar transformar uma associação observada num estudo transversal numa relação de causa e efeito.
Mais investigação será necessária para perceber se a redução da gordura corporal melhora diretamente o sono ou se existe uma relação bidirecional, na qual o excesso de gordura prejudica o sono e, simultaneamente, dormir mal contribui para alterações metabólicas e de composição corporal.
Como pode melhorar o seu sono?
Algumas estratégias simples podem ajudar:
- manter horários de sono relativamente regulares;
- praticar exercício físico regularmente;
- evitar excesso de cafeína, sobretudo ao final do dia;
- evitar refeições muito pesadas imediatamente antes de dormir;
- manter um peso e composição corporal adequados;
- reduzir a exposição a estímulos intensos antes de deitar;
- criar um ambiente escuro, silencioso e confortável;
- procurar avaliação profissional quando existe ronco intenso, pausas respiratórias ou sonolência excessiva durante o dia.
O objetivo não deve ser procurar um único alimento ou suplemento “milagroso” para dormir melhor.
É mais útil olhar para o conjunto: atividade física, alimentação, composição corporal, rotina diária e qualidade do sono.
Conclusão
O estudo publicado em 31 de agosto de 2026 acrescenta informação interessante sobre a relação entre composição corporal e sono.
Em atletas profissionais, uma maior percentagem de gordura corporal esteve associada a pior qualidade do sono. Contudo, a qualidade global da alimentação não apresentou uma associação estatisticamente significativa com a qualidade do sono. (dergipark.org.tr)
Os resultados devem ser interpretados com cautela, porque se trata de um estudo transversal e realizado exclusivamente em atletas profissionais.
Ainda assim, reforçam uma ideia importante: dormir bem não depende apenas das horas passadas na cama. A composição corporal, o exercício, os hábitos alimentares e o estilo de vida devem ser considerados em conjunto.
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Referência científica
Şen Polat G, Yılmaz M. Associations of Diet Quality and Body Composition with Sleep Quality in Professional Athletes: A Cross-Sectional Study. Istanbul Gelisim University Journal of Health Sciences. 2026;30:695–710.
Publicado em 31 de agosto de 2026.