Televisão, tablet, smartphone, computador e videojogos fazem parte da vida de muitas crianças. A tecnologia pode ser útil para aprender, comunicar e divertir-se. O problema não está necessariamente no ecrã em si, mas na quantidade de tempo, no tipo de conteúdo, na idade da criança e naquilo que o ecrã substitui.
Quando o tempo de ecrã ocupa muitas horas do dia, pode retirar espaço a experiências fundamentais para o desenvolvimento cerebral: dormir, brincar, movimentar-se, conversar, explorar o ambiente e interagir cara a cara.
Por isso, a pergunta mais importante não é apenas:
“Quantas horas a criança passa no ecrã?”
É também:
“O que está a deixar de fazer por causa desse tempo de ecrã?”
O cérebro da criança está em desenvolvimento
Durante a infância, o cérebro apresenta uma enorme capacidade de adaptação. As experiências repetidas ajudam a construir e fortalecer circuitos envolvidos na linguagem, atenção, memória, controlo emocional, movimento e interação social.
A criança aprende através da experiência.
Aprende quando brinca.
Aprende quando conversa.
Aprende quando corre.
Aprende quando constrói.
Aprende quando cai e tenta novamente.
Aprende quando resolve conflitos com outras crianças.
Aprende quando observa o mundo real.
Um ecrã pode proporcionar algumas experiências úteis, mas não consegue reproduzir completamente a riqueza destas interações.
É por isso que o problema não deve ser analisado apenas como uma questão de “radiação” ou de luz do ecrã.
A questão principal é o efeito do tempo de ecrã sobre o desenvolvimento e o comportamento da criança.
Atenção: o cérebro habitua-se a estímulos rápidos?
Vídeos curtos, videojogos e determinadas aplicações foram concebidos para captar e manter a atenção.
Mudanças rápidas de imagem, sons, recompensas e notificações fornecem estímulos frequentes.
Isto não significa que os ecrãs “destruam” a capacidade de atenção.
Mas uma exposição excessiva pode estar associada a dificuldades de atenção e comportamento, especialmente quando o tempo de ecrã substitui atividades mais importantes.
Uma revisão sistemática publicada na JAMA Pediatrics encontrou associações entre utilização de dispositivos digitais e vários resultados relacionados com desenvolvimento e comportamento infantil, embora os investigadores salientem a complexidade da relação e a necessidade de considerar o contexto.
Isto é importante porque uma criança que passa muitas horas no tablet pode simultaneamente dormir menos, fazer menos atividade física e ter menos interação social.
Não é fácil atribuir todos os efeitos exclusivamente ao ecrã.
O problema pode estar na substituição
Imagine uma criança que passa três horas por dia no tablet.
Essas três horas não existem isoladamente.
São três horas que poderiam ter sido utilizadas para:
- brincar ao ar livre;
- correr;
- trepar;
- andar de bicicleta;
- conversar com os pais;
- brincar com outras crianças;
- desenhar;
- construir;
- ler;
- dormir.
Este conceito é chamado efeito de deslocamento.
O problema não é necessariamente a existência do ecrã.
É aquilo que o ecrã pode substituir.
Uma hora de um jogo educativo pode ser muito diferente de uma hora de vídeos curtos passados automaticamente.
E uma hora de televisão depois de uma tarde inteira de brincadeira ao ar livre é diferente de uma hora de televisão que substitui atividade física, interação social e sono.
O sono é uma das principais preocupações
Talvez uma das relações mais importantes entre ecrãs e desenvolvimento infantil seja o sono.
Crianças precisam de dormir bastante.
Durante o sono acontecem processos fundamentais para o cérebro, incluindo consolidação da memória, regulação emocional e recuperação.
A utilização de ecrãs, particularmente perto da hora de dormir, pode dificultar a rotina de sono e atrasar o momento de adormecer.
A luz emitida pelos dispositivos pode também interferir com os mecanismos circadianos que ajudam o organismo a distinguir o dia da noite.
Mas existe outro problema: o conteúdo.
Um videojogo estimulante ou um vídeo emocionante pode deixar a criança mentalmente ativa quando deveria estar a preparar-se para dormir.
Por isso, não basta perguntar se a criança dorme com o telemóvel.
É importante perceber o que faz com o dispositivo na hora anterior ao sono.
E a atividade física?
Quanto mais tempo a criança permanece sentada perante um ecrã, menos tempo pode ter disponível para movimento.
E o movimento é essencial para o desenvolvimento infantil.
Correr, saltar, trepar, lançar, agarrar, equilibrar-se e mudar rapidamente de direção são experiências que ajudam a desenvolver:
- coordenação;
- equilíbrio;
- força;
- controlo motor;
- orientação espacial;
- confiança corporal.
A Organização Mundial da Saúde recomenda que crianças e adolescentes realizem, em média, pelo menos 60 minutos por dia de atividade física moderada a vigorosa.
Também recomenda limitar o tempo sedentário, particularmente o tempo recreativo passado perante ecrãs.
O cérebro e o corpo desenvolvem-se em conjunto.
Uma criança não precisa apenas de estimular o cérebro.
Precisa de usar o corpo.
Desenvolvimento da linguagem
Existe também uma diferença importante entre uma criança que vê conteúdos sozinha e uma criança que utiliza tecnologia acompanhada por um adulto.
A linguagem desenvolve-se através da interação.
Uma criança aprende novas palavras quando ouve alguém falar, responde, faz perguntas, observa expressões faciais e participa numa conversa.
Um vídeo pode ensinar palavras.
Mas uma conversa envolve muito mais.
Envolve esperar pela vez.
Interpretar emoções.
Fazer perguntas.
Responder.
Corrigir erros.
Adaptar a linguagem ao contexto.
Por isso, quando uma criança pequena utiliza um dispositivo, o envolvimento dos pais pode fazer diferença.
Ver em conjunto e conversar sobre o conteúdo é diferente de deixar a criança sozinha perante o ecrã.
O que acontece com o cérebro durante o videojogo?
Os videojogos não são todos iguais.
Alguns podem desenvolver determinadas capacidades visuoespaciais, coordenação olho-mão ou resolução de problemas.
Mas outros são altamente estimulantes e podem envolver longos períodos de atenção, recompensas frequentes e competição.
O problema surge quando o jogo passa a ocupar uma parte excessiva da vida da criança.
Uma criança que joga durante 30 minutos e depois vai brincar, jantar, conversar e dormir adequadamente encontra-se numa situação completamente diferente de uma criança que passa várias horas diariamente a jogar e deixa de realizar outras atividades.
O contexto importa mais do que demonizar toda a tecnologia.
E o cérebro fica “viciado”?
É frequente ouvir que os ecrãs “viciam o cérebro”.
A realidade é mais complexa.
Alguns comportamentos relacionados com videojogos podem tornar-se problemáticos e, em determinados casos, existe a perturbação do jogo pela Internet reconhecida na classificação internacional de doenças.
Mas não devemos chamar “vício” a qualquer criança que goste muito de videojogos.
O que merece atenção é a perda de controlo e o impacto na vida diária.
Por exemplo:
A criança deixa de dormir para jogar?
Deixa de estudar?
Recusa atividades que anteriormente gostava?
Fica extremamente irritada quando não pode utilizar o dispositivo?
Continua a jogar apesar de consequências negativas?
Se o comportamento interfere significativamente com a vida familiar, escolar, social ou física, merece avaliação.
O problema não é apenas a quantidade
Duas crianças podem passar uma hora por dia perante um ecrã e ter experiências completamente diferentes.
Uma pode utilizar o tablet durante uma hora para falar com os avós ou realizar uma atividade educativa com os pais.
Outra pode passar uma hora a consumir vídeos rápidos e altamente estimulantes.
Por isso, ao avaliar o tempo de ecrã, devemos considerar pelo menos cinco fatores:
1. Quanto tempo?
2. Que tipo de conteúdo?
3. Em que horário?
4. A criança está sozinha ou acompanhada?
5. O que está a ser substituído?
Esta última pergunta é provavelmente uma das mais importantes.
Como reduzir o impacto dos ecrãs?
Não é necessário eliminar completamente a tecnologia.
Uma estratégia mais realista é estabelecer regras consistentes.
1. Não utilizar ecrãs durante as refeições
As refeições são oportunidades importantes para conversar e desenvolver competências sociais.
2. Criar uma zona sem ecrãs antes de dormir
Idealmente, os dispositivos devem ficar fora do quarto durante a noite.
3. Garantir tempo diário para brincar
Brincar livremente é uma das principais formas de aprendizagem infantil.
4. Incentivar atividade física
Correr, saltar, andar de bicicleta, nadar, praticar desporto ou simplesmente brincar ao ar livre.
5. Escolher conteúdos adequados à idade
Nem todo o conteúdo digital tem o mesmo impacto.
6. Utilizar tecnologia em conjunto
Sobretudo nas crianças mais pequenas, conversar sobre aquilo que estão a ver pode transformar uma experiência passiva numa experiência mais interativa.
7. Os pais também devem dar o exemplo
É difícil pedir a uma criança para largar o telemóvel enquanto os adultos passam o jantar inteiro a olhar para o seu.
As crianças aprendem muito mais através do comportamento dos adultos do que através das regras que lhes são impostas.
E quanto tempo é demasiado?
Não existe uma quantidade única que seja adequada para todas as crianças.
A idade é fundamental.
A Organização Mundial da Saúde recomenda evitar tempo sedentário perante ecrãs em bebés e crianças muito pequenas, e estabelece recomendações específicas para diferentes grupos etários.
A Academia Americana de Pediatria também recomenda que as famílias desenvolvam um plano de utilização dos meios digitais adaptado à idade, às necessidades da criança e à dinâmica familiar.
Mais importante do que procurar um número mágico é garantir que a criança continua a ter:
sono suficiente + atividade física + brincadeira + interação social + aprendizagem + tempo em família.
Se estas necessidades estão a ser prejudicadas pelo ecrã, provavelmente é necessário reduzir o tempo ou alterar a forma como os dispositivos são utilizados.
O ecrã pode ser uma ferramenta — não o centro da infância
A tecnologia veio para ficar.
Não faz sentido educar as crianças como se os smartphones, computadores, tablets e videojogos não existissem.
A questão é ensinar a utilizá-los de forma equilibrada.
O cérebro infantil precisa de tecnologia, mas precisa muito mais de experiências reais.
Precisa de conversar.
Precisa de correr.
Precisa de tocar.
Precisa de explorar.
Precisa de brincar.
Precisa de dormir.
Precisa de olhar para os olhos de outras pessoas.
Precisa de resolver problemas no mundo real.
E precisa de aprender a estar aborrecido.
Porque até o aborrecimento pode ser importante.
Quando não existe um ecrã para preencher cada momento vazio, a criança é obrigada a procurar outra coisa para fazer. E é frequentemente nesse espaço que aparecem a criatividade, a imaginação e a iniciativa.
A mensagem mais importante
O problema não é simplesmente o ecrã. É quando o ecrã começa a substituir aquilo de que o cérebro infantil mais precisa para se desenvolver.
Uma criança que utiliza tecnologia de forma moderada, dorme bem, brinca, pratica atividade física, convive com outras pessoas e tem tempo para explorar o mundo real está numa situação muito diferente de uma criança cujo dia é dominado por dispositivos digitais.
O objetivo não deve ser criar crianças sem tecnologia.
Deve ser criar crianças que sabem utilizar a tecnologia sem permitir que a tecnologia controle a sua infância.
Posso ajudar
Se quer melhorar a atividade física, coordenação motora, força e autonomia da criança, posso ajudar a criar uma rotina de movimento adequada à idade, divertida e adaptada às necessidades individuais.
Porque desenvolver uma criança saudável não significa apenas limitar o tempo de ecrã.
Significa sobretudo dar-lhe mais oportunidades para se mexer, brincar, explorar e descobrir o mundo real.
Marcelo Barros — Personal Trainer
Treino de força, movimento, desenvolvimento motor, longevidade, autonomia e qualidade de vida.
Nota: este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou acompanhamento especializado. Em caso de alterações significativas do comportamento, sono, aprendizagem ou desenvolvimento, procure orientação de um profissional de saúde.
Referências científicas
- World Health Organization — Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age.
https://www.who.int/publications/i/item/9789241550536 - World Health Organization — Guidelines on physical activity and sedentary behaviour.
https://www.who.int/publications/b/55518 - American Academy of Pediatrics — Media and Young Minds.
https://publications.aap.org/pediatrics/article/138/5/e20162591/60503/Media-and-Young-Minds - Mallawaarachchi S, et al. (2024). Early Childhood Screen Use Contexts and Cognitive and Psychosocial Outcomes: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Pediatrics.
https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/2821940 - Teague S, et al. (2026). Digital Media Use and Child Health and Development: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Pediatrics.
https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/issue/180/5 - Adelantado-Renau M, et al. (2019). Association Between Screen Media Use and Academic Performance Among Children and Adolescents: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Pediatrics.
https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/2751330 - JAMA Pediatrics — Global Prevalence of Meeting Screen Time Guidelines Among Children 5 Years and Younger.
https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/2789091 - JAMA Pediatrics — Parental Technology Use in a Child’s Presence and Health and Development in the Early Years.
https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/2833506