A transição menopáusica representa uma fase de profundas alterações hormonais e fisiológicas que podem influenciar a composição corporal, o metabolismo, os vasos sanguíneos, o coração, os músculos, a capacidade física e, consequentemente, a saúde a longo prazo.
Mas uma questão continua por responder com precisão: o que acontece realmente ao corpo da mulher durante a transição para a menopausa e nos anos seguintes?
Um novo estudo publicado em 20 de agosto de 2026, no BMJ Open, pretende ajudar a responder a esta pergunta através de uma abordagem particularmente ambiciosa. O estudo Women in Healthy Transition Deep Phenotyping (KiSO-DP) acompanhará mulheres desde a fase reprodutiva tardia até 20 anos depois da menopausa, repetindo avaliações fisiológicas e metabólicas ao longo de aproximadamente 25 anos. (BMJ Open)
É importante esclarecer desde já: este artigo é um protocolo de investigação. Ou seja, descreve aquilo que os investigadores vão avaliar, mas ainda não apresenta os resultados finais dessa grande investigação.
A menopausa altera muito mais do que as hormonas
A queda da produção de estrogénio é uma das principais características da menopausa.
O estrogénio desempenha funções em vários tecidos do organismo, incluindo vasos sanguíneos, ossos, cérebro, músculos e tecido adiposo.
Por isso, quando os níveis hormonais mudam durante a transição menopáusica, podem ocorrer alterações em vários sistemas simultaneamente.
Entre as alterações frequentemente observadas nesta fase encontram-se:
- alterações da distribuição da gordura corporal;
- maior tendência para acumulação de gordura abdominal;
- alterações da massa muscular;
- alterações da densidade mineral óssea;
- mudanças no perfil metabólico;
- alterações da função vascular;
- alterações da capacidade cardiorrespiratória;
- sintomas como afrontamentos e perturbações do sono;
- alterações do bem-estar e da qualidade de vida.
Nem todas as mulheres apresentam as mesmas alterações, nem com a mesma intensidade.
É precisamente essa variabilidade que torna tão importante acompanhar as mulheres ao longo do tempo.
O que pretende descobrir o estudo KiSO-DP?
A investigação publicada em agosto de 2026 tem um objetivo muito específico: perceber como o envelhecimento cardiovascular e fisiológico ocorre durante e depois da menopausa.
A coorte será constituída por 200 mulheres saudáveis, com idades entre 43 e 55 anos, recrutadas na Dinamarca.
As participantes serão avaliadas inicialmente na fase reprodutiva tardia e posteriormente em diferentes momentos após a menopausa:
1, 3, 5, 10 e 20 anos após a menopausa.
Desta forma, os investigadores poderão comparar a mesma mulher em diferentes fases da vida.
Esta é uma característica extremamente importante do estudo.
Em vez de comparar simplesmente um grupo de mulheres de 45 anos com outro grupo de mulheres de 65 anos, será possível acompanhar as mesmas participantes ao longo do processo. (BMJ Open)
Porque é tão importante acompanhar a mesma mulher?
Imagine duas mulheres com 55 anos.
Uma pode ter entrado na menopausa recentemente, enquanto outra pode estar há vários anos na pós-menopausa.
Se compararmos apenas a idade, podemos atribuir à menopausa alterações que, na realidade, resultam simplesmente do envelhecimento.
Ao acompanhar as mesmas mulheres antes e depois da menopausa, os investigadores esperam conseguir separar melhor dois processos:
envelhecimento natural + alterações relacionadas com a menopausa.
Esta distinção é fundamental para compreender o que realmente muda durante a transição menopáusica.
Os autores consideram que esta abordagem longitudinal e multidisciplinar pode preencher uma lacuna existente na investigação sobre o envelhecimento cardiovascular feminino. (BMJ Open)
O coração e os vasos sanguíneos estão no centro da investigação
Um dos principais objetivos do KiSO-DP é estudar a função dos vasos sanguíneos.
O risco cardiovascular tende a aumentar nas mulheres à medida que avançam para a pós-menopausa, e a redução da função vascular é considerada um dos possíveis mecanismos envolvidos.
Por isso, a função endotelial será o principal resultado estudado.
O endotélio é a camada de células que reveste o interior dos vasos sanguíneos e participa na regulação da dilatação e contração vascular.
Uma função endotelial adequada é importante para a saúde cardiovascular.
Os investigadores utilizarão métodos sofisticados para avaliar a resposta dos vasos sanguíneos, incluindo técnicas invasivas com administração intra-arterial de substâncias como acetilcolina e epoprostenol, além de métodos não invasivos, como a dilatação mediada pelo fluxo. (BMJ Open)
E o exercício?
O exercício é outra das áreas fundamentais desta investigação.
Os investigadores irão avaliar a aptidão cardiorrespiratória, incluindo o VO₂max, uma das principais medidas da capacidade aeróbia.
Também serão recolhidas informações sobre a atividade física habitual.
Esta questão é particularmente interessante porque ainda não está completamente esclarecido até que ponto a atividade física habitual pode modificar as alterações cardiovasculares que acompanham a menopausa.
Ou seja, não interessa apenas descobrir o que muda durante a menopausa.
Também interessa perceber:
Porque é que algumas mulheres apresentam alterações mais acentuadas do que outras?
A atividade física poderá ser um dos fatores envolvidos. (BMJ Open)
O músculo também será estudado
A investigação não se limita ao coração e aos vasos sanguíneos.
Os investigadores irão estudar profundamente o músculo esquelético, incluindo a função mitocondrial, o tipo de fibras musculares e a densidade capilar.
As mitocôndrias são estruturas responsáveis por grande parte da produção de energia das células.
Estudar a função mitocondrial pode ajudar a perceber se existem alterações na capacidade muscular de produzir energia durante a transição menopáusica.
Além disso, serão realizadas biopsias musculares para analisar características celulares e moleculares.
Este nível de detalhe é pouco habitual em estudos populacionais de grande duração. (BMJ Open)
O que pode acontecer à composição corporal?
A composição corporal é outra área importante.
O estudo utilizará DEXA, uma técnica que permite avaliar a massa óssea, massa magra e massa gorda.
Isto é particularmente relevante porque o peso corporal isoladamente pode esconder alterações importantes.
Uma mulher pode manter aproximadamente o mesmo peso e, ainda assim, perder alguma massa muscular e aumentar a quantidade de gordura.
A localização da gordura também interessa.
Durante a transição menopáusica, a distribuição da gordura pode tornar-se mais central, com maior acumulação na região abdominal.
A gordura visceral, localizada em redor dos órgãos, está metabolicamente ativa e está associada a maior risco cardiometabólico.
O estudo pretende acompanhar estas alterações em conjunto com outros marcadores metabólicos e hormonais. (BMJ Open)
Metabolismo e hormonas
A investigação irá também analisar diferentes biomarcadores reprodutivos e cardiometabólicos.
Entre outros parâmetros, serão acompanhadas alterações hormonais relacionadas com a transição menopáusica.
Isto permitirá relacionar as alterações hormonais com modificações da função vascular, composição corporal, músculo e metabolismo.
O objetivo não é simplesmente identificar se os níveis hormonais diminuem.
Isso já é conhecido.
A questão mais interessante é perceber como essa alteração hormonal se relaciona temporalmente com outras mudanças fisiológicas.
A investigação vai ainda mais longe
O KiSO-DP inclui aquilo que os investigadores designam como uma abordagem de “deep phenotyping”, ou caracterização fisiológica profunda.
Além do coração, vasos sanguíneos, músculo, composição corporal e metabolismo, serão avaliados:
- pressão arterial;
- elasticidade arterial;
- parâmetros cardíacos através de ecocardiografia;
- capacidade cardiorrespiratória;
- propriedades do sangue;
- atividade física;
- sintomas da menopausa;
- fatores socioeconómicos;
- utilização de suplementos;
- experiências pessoais durante a transição menopáusica.
Também serão recolhidas amostras de sangue e urina para análises moleculares, permitindo estudar diferentes alterações biológicas. (BMJ Open)
O sono, os sintomas e a experiência da mulher também interessam
Uma das características interessantes desta investigação é não olhar para a menopausa apenas através de números laboratoriais.
Os investigadores também pretendem compreender a experiência das mulheres durante a transição menopáusica.
Estão previstas avaliações de sintomas, fatores sociais e entrevistas individuais e em grupo.
Isto é importante porque duas mulheres podem apresentar alterações fisiológicas semelhantes e, mesmo assim, experimentar a menopausa de formas completamente diferentes.
Sintomas, sono, atividade física, contexto social e qualidade de vida podem influenciar a forma como esta fase é vivida.
Já sabemos alguma coisa através de outras investigações?
Sim.
Uma outra coorte dinamarquesa, denominada KISO Survey, envolveu 153.800 mulheres entre os 45 e os 59 anos e foi criada precisamente para estudar sintomas e qualidade de vida durante diferentes fases da menopausa.
Os dados publicados em 2025 mostraram diferenças importantes na carga de sintomas entre pré-menopausa, perimenopausa e pós-menopausa. (Springer Nature Link)
Naquela investigação, 24% das mulheres em perimenopausa estavam classificadas com sintomas graves, enquanto entre as mulheres em pós-menopausa precoce a carga de sintomas também era particularmente elevada.
Estes resultados mostram que a menopausa não deve ser encarada como um acontecimento único, mas como um processo que pode prolongar-se durante vários anos. (PubMed Central (PMC))
Menopausa não significa inevitavelmente perder músculo
Uma preocupação frequente entre as mulheres nesta fase é a perda de massa muscular.
A investigação sugere que o envelhecimento e as alterações hormonais podem contribuir para mudanças na composição corporal, mas isso não significa que a perda de força e músculo seja inevitável.
O treino de força continua a ser uma das estratégias mais importantes para preservar a função muscular ao longo do envelhecimento.
Exercício aeróbio, treino de força, alimentação adequada, ingestão suficiente de proteína e sono adequado podem trabalhar em conjunto.
O grande desafio científico é perceber melhor quando estas alterações começam, qual a velocidade com que ocorrem e quais os fatores que podem atenuá-las.
É precisamente aqui que estudos longitudinais como o KiSO-DP podem fornecer informação importante.
E a saúde cardiovascular?
A menopausa merece atenção especial neste contexto.
O aumento do risco cardiovascular depois da transição menopáusica não significa que a menopausa seja, por si só, uma doença.
Significa que existe uma fase da vida em que alguns fatores de risco podem mudar e em que a prevenção cardiovascular se torna particularmente importante.
Pressão arterial, colesterol, composição corporal, atividade física, capacidade cardiorrespiratória, alimentação, tabagismo, sono e outros fatores devem ser avaliados individualmente.
A investigação KiSO-DP poderá ajudar a perceber melhor como estas variáveis interagem ao longo de décadas. (BMJ Open)
O que podemos fazer enquanto esperamos pelos resultados?
Não precisamos de esperar 20 anos pelos resultados da investigação para adotar comportamentos associados a um envelhecimento saudável.
Algumas estratégias são particularmente importantes:
Treino de força: ajuda a preservar massa muscular, força e capacidade funcional.
Exercício cardiovascular: contribui para manter a aptidão cardiorrespiratória e a saúde cardiovascular.
Alimentação equilibrada: uma alimentação rica em vegetais, fruta, leguminosas, cereais integrais, frutos secos e fontes adequadas de proteína pode contribuir para uma boa saúde metabólica.
Sono: dormir adequadamente é importante para recuperação, metabolismo e bem-estar.
Controlo dos fatores de risco: pressão arterial, colesterol, glicemia e composição corporal merecem acompanhamento adequado.
Manter atividade física regular: não é necessário transformar toda a rotina num programa de alta intensidade. Caminhar, subir escadas, treinar força e praticar exercício aeróbio são formas de aumentar o movimento diário.
O que realmente acontece ao corpo da mulher durante a menopausa?
A resposta mais honesta é: muito mais do que simplesmente deixar de menstruar.
A menopausa está associada a uma complexa transição hormonal e fisiológica que pode coincidir com alterações cardiovasculares, metabólicas, musculares e de composição corporal.
Mas ainda existem muitas perguntas sem resposta.
O estudo KiSO-DP, publicado em 20 de agosto de 2026, foi desenhado precisamente para preencher algumas dessas lacunas. Serão acompanhadas 200 mulheres desde a fase reprodutiva tardia até 20 anos após a menopausa, com avaliações repetidas do coração, vasos sanguíneos, músculo, metabolismo, composição corporal, hormonas, atividade física e outros fatores. (BMJ Open)
É importante, contudo, não confundir protocolo com resultados.
O estudo ainda não demonstrou quais são as alterações que efetivamente irão ocorrer. O que temos neste momento é um desenho de investigação extraordinariamente detalhado que poderá fornecer respostas importantes nos próximos anos.
Até lá, a mensagem mais importante é que a menopausa deve ser encarada como uma nova fase de prevenção e promoção da saúde, e não como uma sentença de perda inevitável de força, músculo ou qualidade de vida.
Quanto mais cedo forem adotados hábitos de atividade física, treino de força, alimentação equilibrada, sono adequado e controlo dos fatores de risco cardiovascular, maior será a oportunidade de envelhecer com autonomia e boa capacidade física.
Posso ajudar
Posso ajudá-la a estruturar treino de força, exercício cardiovascular e hábitos de movimento adaptados à menopausa, com foco em músculo, capacidade física, composição corporal e envelhecimento saudável.
Links das fontes
Estudo mais recente — BMJ Open, publicado em 20 de agosto de 2026
Women in healthy transition deep phenotyping cohort study protocol (KiSO-DP)
PubMed — protocolo KiSO-DP
Women in healthy transition deep phenotyping cohort study protocol
Cohorte KISO — 153.800 mulheres dinamarquesas
Women in Healthy Transition (KISO) Survey: a cohort of 153,800 women aged 45–59 years living in Denmark
Resultados iniciais da coorte KISO sobre sintomas da menopausa
Women in Healthy Transition (KISO) Survey Cohort: Exploring menopausal symptoms in Denmark