Os minerais que come podem influenciar o risco de doença renal?

Os minerais que come podem influenciar o risco de doença renal? September 4, 2026Leave a comment

Um estudo publicado em 2026 analisou a relação entre nove minerais da alimentação e o risco de doença renal crónica. Magnésio e cálcio destacaram-se entre os minerais associados a menor risco, enquanto o sódio apresentou uma associação desfavorável em alguns dos modelos utilizados.

Quando pensamos na alimentação e na saúde dos rins, é habitual falar de sal, proteínas, açúcar ou alimentos ultraprocessados.

Mas existe outro grupo de nutrientes que merece atenção: os minerais.

Cálcio, magnésio, potássio, fósforo, ferro, zinco, cobre, selénio e sódio desempenham funções essenciais no organismo. Participam na formação dos ossos, funcionamento muscular, produção de energia, equilíbrio dos líquidos, atividade nervosa e numerosas reações metabólicas.

Os rins têm um papel fundamental na manutenção do equilíbrio destes minerais.

Por isso, alterações na alimentação e no metabolismo mineral podem estar relacionadas com a saúde renal.

Um estudo publicado em 2026 procurou perceber se a quantidade de diferentes minerais consumidos através da alimentação estava associada ao risco de doença renal crónica (DRC).

Os resultados são interessantes, mas precisam de ser interpretados com cuidado.

O estudo mais recente

O trabalho, intitulado Impact of nine dietary minerals on the risk of chronic kidney disease: a multi-model analysis in US adults using NHANES data, foi publicado online em 2 de abril de 2026 no Journal of Clinical Biochemistry and Nutrition. A edição da revista corresponde a 1 de julho de 2026.

Os investigadores utilizaram dados do NHANES (National Health and Nutrition Examination Survey), um grande programa norte-americano que recolhe informação sobre alimentação, saúde, análises laboratoriais e características demográficas da população.

A análise final incluiu 3.875 adultos com 20 ou mais anos.

Foram estudados nove minerais:

  • cálcio;
  • fósforo;
  • magnésio;
  • ferro;
  • zinco;
  • cobre;
  • sódio;
  • potássio;
  • selénio.

A ingestão alimentar foi estimada através de questionários alimentares de 24 horas, incluindo informação relativa à utilização de suplementos.

Porque é que os minerais são importantes para os rins?

Os minerais são necessários em pequenas quantidades, mas desempenham funções essenciais.

O magnésio, por exemplo, participa em centenas de reações bioquímicas e está envolvido no funcionamento muscular e nervoso.

O cálcio é fundamental para os ossos, contração muscular e transmissão nervosa.

O potássio é indispensável para o funcionamento das células, músculos e coração.

O fósforo participa na formação óssea e no metabolismo energético.

O ferro é essencial para a produção de hemoglobina.

O zinco, o cobre e o selénio participam em diferentes processos enzimáticos e sistemas de defesa antioxidante.

Já o sódio, apesar de também ser essencial, pode tornar-se problemático quando consumido em excesso, sobretudo no contexto de hipertensão e doença cardiovascular.

Os rins ajudam a regular o equilíbrio destes minerais. Quando a função renal diminui, esta regulação pode tornar-se mais difícil.

O que encontraram os investigadores?

A análise estatística encontrou associações diferentes entre os vários minerais e a doença renal crónica.

Na análise multivariável, maiores ingestões de cálcio, fósforo, magnésio, cobre, potássio e zinco estiveram associadas a menor probabilidade de DRC.

Os resultados foram particularmente consistentes para alguns destes minerais.

No entanto, não significa que simplesmente aumentar o consumo desses minerais vá prevenir a doença renal.

Esta é uma distinção muito importante.

O estudo analisou associações entre a ingestão de minerais e a presença de DRC. Não foi um ensaio clínico em que os investigadores deram determinados minerais aos participantes para verificar se estes evitavam a doença renal.

Portanto, não podemos afirmar que cálcio ou magnésio “protegem os rins” apenas com base neste trabalho.

O magnésio foi um dos minerais que mais se destacou

Entre os nove minerais estudados, o magnésio apresentou resultados particularmente interessantes.

Nos vários modelos estatísticos utilizados pelos investigadores, o magnésio surgiu repetidamente associado a menor risco de doença renal crónica.

Num dos modelos de mistura de nutrientes, o magnésio apresentou a maior contribuição para a associação global observada.

Outro modelo, denominado BKMR, atribuiu ao magnésio uma elevada probabilidade de inclusão no modelo, com um valor de PIP de 0,92.

Isto sugere que, entre os minerais analisados, o magnésio poderá ter uma relação particularmente relevante com a saúde renal.

Mas, novamente, associação não significa causalidade.

São necessários estudos longitudinais e ensaios clínicos para perceber se aumentar adequadamente a ingestão de magnésio pode realmente reduzir o risco de desenvolver doença renal.

E o cálcio?

O cálcio também apresentou resultados interessantes.

Na análise de regressão logística, uma maior ingestão de cálcio esteve associada a menor risco de DRC.

Os modelos de dose-resposta também identificaram uma tendência predominantemente linear entre maior ingestão de cálcio e menor probabilidade de doença renal.

Mas existe aqui uma questão importante.

Mais cálcio não significa necessariamente melhor.

O organismo necessita de cálcio dentro de determinados limites e o metabolismo do cálcio torna-se particularmente importante quando existe doença renal.

Pessoas com DRC podem apresentar alterações do metabolismo mineral e ósseo, pelo que não devem começar a tomar suplementos de cálcio simplesmente por causa dos resultados deste estudo.

É muito diferente obter cálcio através de uma alimentação equilibrada e tomar doses elevadas de suplementos.

E o potássio?

O potássio apresentou uma associação inversa com a DRC na análise de regressão.

Isto significa que uma maior ingestão alimentar de potássio esteve associada a menor probabilidade de doença renal crónica naquele conjunto de dados.

Este resultado pode parecer contraditório para quem conhece as recomendações destinadas a algumas pessoas com doença renal.

Quando a função dos rins está significativamente reduzida, o potássio pode acumular-se no sangue e provocar hipercaliemia, uma alteração potencialmente perigosa.

Por isso, não devemos interpretar este estudo como uma recomendação para aumentar indiscriminadamente o consumo de banana, frutos secos, leguminosas ou outros alimentos ricos em potássio.

Uma coisa é estudar a relação entre ingestão de potássio e risco de desenvolver DRC numa população geral.

Outra completamente diferente é orientar a alimentação de uma pessoa que já tem doença renal crónica e apresenta potássio elevado.

O sódio merece uma atenção especial

O sódio apresentou resultados diferentes consoante o modelo estatístico utilizado.

Na regressão logística ajustada, a associação entre sódio e DRC não foi estatisticamente significativa.

Contudo, no modelo BKMR, que analisa simultaneamente vários minerais e possíveis relações entre eles, o sódio apresentou uma associação positiva com o risco de DRC e um PIP elevado de 0,88.

Este resultado é compatível com o conhecimento existente sobre o impacto do excesso de sódio na pressão arterial.

Uma alimentação muito rica em sal pode contribuir para hipertensão arterial, que é um dos principais fatores de risco para doença renal crónica e também uma das suas consequências.

Por isso, reduzir o excesso de sal continua a ser uma estratégia importante para a saúde cardiovascular e renal.

E o ferro?

O ferro apresentou resultados mais complexos.

Enquanto alguns minerais apresentaram associações predominantemente favoráveis, o ferro mostrou uma relação dependente do modelo estatístico utilizado.

Na análise QGcomp, o ferro apresentou o maior peso positivo, sugerindo uma associação com maior risco de DRC dentro desse modelo.

Mas isso não significa que o ferro da alimentação seja prejudicial aos rins.

O ferro é um mineral essencial e a deficiência de ferro pode causar problemas importantes.

Além disso, a necessidade de ferro varia de pessoa para pessoa.

Uma pessoa com anemia por deficiência de ferro pode necessitar de suplementação, enquanto outra pode não precisar.

Por isso, não devemos reduzir ou aumentar a ingestão de ferro apenas com base neste estudo.

Porque utilizaram tantos modelos estatísticos?

Esta é uma das características mais interessantes da investigação.

Os investigadores utilizaram diferentes métodos estatísticos, incluindo:

  • regressão logística multivariável;
  • curvas de spline cúbico restrito;
  • regressão WQS;
  • QGcomp;
  • modelo BKMR.

A utilização de vários modelos permite analisar os dados de diferentes formas e estudar não apenas cada mineral individualmente, mas também a combinação dos vários minerais.

Isto é relevante porque, na vida real, ninguém consome magnésio, cálcio ou potássio isoladamente.

Quando comemos um alimento, ingerimos simultaneamente vários nutrientes.

Por exemplo, uma alimentação rica em vegetais pode aumentar simultaneamente a ingestão de magnésio, potássio, cálcio e outros compostos.

Por isso, separar completamente os efeitos individuais dos minerais é extremamente difícil.

Uma alimentação equilibrada pode ser mais importante do que um mineral isolado

Esta talvez seja uma das principais mensagens práticas do estudo.

Não devemos procurar um único “mineral protetor dos rins”.

Uma alimentação saudável é constituída por uma combinação de alimentos e nutrientes.

Uma alimentação baseada em alimentos pouco processados pode fornecer magnésio, cálcio, potássio, zinco e outros micronutrientes, ao mesmo tempo que fornece fibra e compostos vegetais.

Por outro lado, uma alimentação baseada em produtos ultraprocessados pode apresentar elevada quantidade de sódio e elevada densidade energética, dependendo dos alimentos escolhidos.

Por isso, em vez de perguntar apenas “quanto magnésio devo comer?”, talvez seja mais importante perguntar:

“Como posso melhorar globalmente a qualidade da minha alimentação?”

Frutos secos, leguminosas e vegetais são fontes importantes

Alguns alimentos são naturalmente ricos em minerais.

Entre eles encontram-se:

Magnésio: frutos secos, sementes, leguminosas, cereais integrais e alguns vegetais.

Potássio: fruta, vegetais, leguminosas e batata, entre outros.

Cálcio: lacticínios, algumas bebidas vegetais fortificadas, determinados vegetais e outros alimentos.

Zinco: carne, peixe, ovos, lacticínios, leguminosas e frutos secos.

Ferro: carne, peixe, leguminosas, vegetais e cereais fortificados.

Mas uma pessoa com doença renal crónica pode necessitar de adaptar a quantidade de determinados alimentos.

Por exemplo, o potássio e o fósforo podem precisar de ser controlados em algumas fases da doença.

É por isso que uma dieta saudável para uma pessoa com rins saudáveis não é necessariamente igual à dieta adequada para alguém com DRC avançada.

O estudo não prova que os minerais previnam a doença renal

Esta é provavelmente a maior limitação que devemos destacar.

Os dados utilizados são provenientes do NHANES e a análise é essencialmente observacional e transversal.

Isso significa que os investigadores conseguem identificar associações, mas não conseguem demonstrar definitivamente qual é a causa e qual é a consequência.

É possível que pessoas com melhor alimentação tenham simultaneamente outros comportamentos associados a melhor saúde.

Por exemplo:

  • maior atividade física;
  • menor consumo de alimentos ultraprocessados;
  • menor consumo de sal;
  • menor prevalência de obesidade;
  • melhor controlo da pressão arterial;
  • melhor controlo da diabetes.

Mesmo com ajustes estatísticos, é impossível eliminar completamente todos estes fatores.

Os próprios autores salientam a necessidade de estudos longitudinais e de melhores métodos de avaliação alimentar para confirmar os resultados.

O que podemos fazer para proteger os rins?

Independentemente deste estudo, existem estratégias de estilo de vida importantes para preservar a saúde renal.

Controlar a pressão arterial é fundamental.

Controlar a diabetes, quando existe, também é essencial.

Evitar o excesso de sal pode ajudar a controlar a pressão arterial e reduzir a carga cardiovascular.

Manter um peso saudável pode diminuir vários fatores de risco metabólico.

Praticar exercício regularmente contribui para a saúde cardiovascular e metabólica.

Não fumar é igualmente importante.

E, sobretudo, uma alimentação baseada predominantemente em alimentos pouco processados pode ajudar a melhorar a qualidade global da dieta.

No caso de quem já apresenta doença renal crónica, estas estratégias devem ser adaptadas ao estádio da doença e às análises individuais.

E os suplementos de minerais?

Os resultados deste estudo não justificam começar a tomar suplementos de magnésio, cálcio, potássio ou outros minerais para prevenir doença renal.

Na verdade, em determinadas situações, a suplementação pode ser inadequada ou até perigosa.

A necessidade de um mineral deve ser avaliada individualmente.

Isto é particularmente importante em pessoas com doença renal, porque a capacidade de eliminar determinados minerais pode estar reduzida.

A alimentação deve ser a principal fonte de micronutrientes sempre que possível, enquanto a suplementação deve ser utilizada quando existe uma indicação concreta.

Conclusão

Um estudo publicado online em 2 de abril de 2026, utilizando dados de 3.875 adultos do NHANES, analisou a relação entre nove minerais da alimentação e a doença renal crónica.

Os resultados identificaram associações potencialmente favoráveis para magnésio, cálcio, fósforo, zinco, cobre e potássio, enquanto o sódio apresentou uma associação desfavorável particularmente no modelo que avaliou conjuntamente os vários minerais. O magnésio destacou-se como um dos minerais mais consistentemente associados a menor risco de DRC.

Mas estes resultados não significam que tomar suplementos destes minerais vá prevenir a doença renal.

A principal mensagem é outra: a saúde renal parece estar relacionada com o padrão alimentar global e com o equilíbrio de vários nutrientes, e não com um único mineral isolado.

Para proteger os rins, é mais importante apostar numa alimentação equilibrada, controlar a pressão arterial e a glicemia, praticar exercício regularmente, evitar o excesso de sal e manter um estilo de vida saudável.

E para quem já tem doença renal crónica, as recomendações devem ser individualizadas de acordo com a função renal, potássio, fósforo, medicação e restantes análises.

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Links das fontes

Estudo original — Journal of Clinical Biochemistry and Nutrition, 2026:
Impact of nine dietary minerals on the risk of chronic kidney disease

Resumo científico no PubMed:
PubMed — Impact of nine dietary minerals on the risk of chronic kidney disease

Texto completo do estudo — PubMed Central:
PMC — Impact of nine dietary minerals on the risk of chronic kidney disease

NHANES — National Health and Nutrition Examination Survey:
CDC — NHANES