Se observar uma criança pequena a brincar no chão, provavelmente verá algo que surpreende muitos adultos.
Sem qualquer treino, sem alongamentos e sem aulas de mobilidade, consegue permanecer em agachamento profundo durante vários minutos com aparente facilidade.
Os calcanhares mantêm-se apoiados no chão, a coluna permanece relativamente direita e o movimento parece completamente natural.
No entanto, muitos adultos têm dificuldade em atingir a mesma posição.
Alguns levantam os calcanhares, outros perdem o equilíbrio e muitos sentem tensão nos tornozelos, joelhos, ancas ou costas.
O que mudou?
Será que as crianças nascem mais flexíveis?
Ou será que os adultos perdem gradualmente uma capacidade que já possuíram?
A resposta está na forma como o corpo humano se desenvolve e adapta ao longo da vida.
O Agachamento Faz Parte do Movimento Natural Humano
O agachamento profundo não é um exercício inventado pelos ginásios.
É um dos movimentos mais antigos da espécie humana.
Durante centenas de milhares de anos, os nossos antepassados utilizaram esta posição para:
- Descansar.
- Comer.
- Trabalhar.
- Observar o ambiente.
- Preparar alimentos.
- Acender fogueiras.
Antes da invenção das cadeiras, o agachamento era uma posição habitual do dia a dia.
Por esse motivo, muitos investigadores consideram que o ser humano nasce preparado para utilizar esta posição.
As crianças parecem demonstrar exatamente isso.
As Crianças Ainda Não Foram Moldadas Pelas Cadeiras
Uma das maiores diferenças entre uma criança pequena e um adulto é o tempo passado sentado.
Nos primeiros anos de vida, a maioria das crianças:
- Gatinha.
- Corre.
- Salta.
- Trepa.
- Brinca no chão.
- Muda constantemente de posição.
O movimento é variado e espontâneo.
Já os adultos passam frequentemente várias horas por dia:
- Sentados a trabalhar.
- A conduzir.
- A utilizar computadores.
- A ver televisão.
O corpo adapta-se às posições que utiliza com mais frequência.
Quando deixamos de usar determinadas amplitudes articulares durante anos, tendemos a perder parte dessa capacidade.
A Mobilidade dos Tornozelos é Geralmente Superior
Para realizar um agachamento profundo é necessária uma boa mobilidade do tornozelo.
Este movimento chama-se dorsiflexão.
As crianças apresentam normalmente uma excelente capacidade de deslocar os joelhos para a frente mantendo os calcanhares apoiados no chão.
Com o passar dos anos podem surgir limitações devido a:
- Sedentarismo.
- Lesões.
- Falta de utilização.
- Rigidez muscular.
Pequenas perdas de mobilidade podem dificultar significativamente o agachamento profundo.
As Ancas Ainda Mantêm Grande Amplitude de Movimento
As articulações adaptam-se ao movimento.
As crianças utilizam diariamente posições que exigem grande mobilidade da anca.
Sentam-se no chão, cruzam as pernas, ajoelham-se e mudam constantemente de postura.
Estas experiências ajudam a preservar amplitudes articulares importantes.
Nos adultos, a redução destas posições pode contribuir para uma perda gradual da mobilidade disponível.
O Sistema Nervoso Aprende Através do Movimento
O cérebro desempenha um papel fundamental na forma como nos movemos.
Durante a infância, o sistema nervoso encontra-se numa fase de enorme desenvolvimento.
Cada movimento representa uma oportunidade de aprendizagem.
Quando uma criança:
- Gatinha.
- Se levanta.
- Se agacha.
- Corre.
- Salta.
está a desenvolver mapas motores que ajudam o cérebro a controlar o corpo de forma eficiente.
Quanto mais variado for o movimento, maior tende a ser a capacidade de adaptação do sistema nervoso.
O Corpo Adapta-se ao Que Faz Todos os Dias
Existe um princípio fundamental da biologia:
O corpo adapta-se aos estímulos que recebe.
Se utiliza frequentemente determinada amplitude de movimento, o organismo procura preservá-la.
Se deixa de a utilizar, essa capacidade tende a diminuir.
É exatamente isso que acontece com muitas pessoas.
Ao longo dos anos, deixam de:
- Sentar-se no chão.
- Agachar profundamente.
- Utilizar amplitudes completas.
Como consequência, o corpo considera que essas capacidades já não são prioritárias.
A Influência da Evolução Humana
A evolução também ajuda a explicar este fenómeno.
Durante praticamente toda a história da espécie humana não existiam cadeiras.
Os nossos antepassados passavam grande parte do tempo próximos do solo.
O agachamento profundo era frequentemente utilizado como posição de repouso.
Ainda hoje existem populações tradicionais que mantêm este hábito durante toda a vida.
Nestes grupos é comum observar adultos e idosos capazes de permanecer longos períodos em agachamento profundo sem desconforto.
Isto sugere que o problema não é o envelhecimento em si.
O problema parece estar relacionado com a forma como utilizamos o nosso corpo ao longo da vida.
O Papel dos Olhos e do Sistema Nervoso
Uma área frequentemente ignorada é a influência do sistema visual no movimento.
Os olhos fornecem informações fundamentais ao cérebro sobre:
- Equilíbrio.
- Orientação espacial.
- Coordenação.
- Controlo postural.
Quando o cérebro recebe informação visual eficiente, consegue organizar melhor a postura e o movimento.
Alterações na função visual podem influenciar padrões motores e estratégias de equilíbrio.
Por esse motivo, o treino motor ocular tem vindo a ganhar destaque em áreas relacionadas com o desempenho físico, reabilitação e controlo motor.
Compreender a relação entre visão e movimento permite muitas vezes identificar fatores que passam despercebidos numa avaliação tradicional.
Será Possível Recuperar a Capacidade de Agachar?
Na maioria dos casos, sim.
Embora algumas limitações anatómicas sejam permanentes, muitas dificuldades observadas nos adultos estão relacionadas com fatores modificáveis.
Entre eles:
- Mobilidade articular reduzida.
- Rigidez muscular.
- Falta de controlo motor.
- Alterações do equilíbrio.
- Menor exposição a determinadas posições.
Com uma avaliação adequada e um plano de trabalho individualizado é frequentemente possível melhorar significativamente a qualidade do movimento.
Conclusão
As crianças conseguem agachar profundamente porque ainda mantêm muitas das capacidades naturais com que o ser humano nasce.
Movem-se mais, exploram diferentes posições, passam menos tempo sentadas e apresentam uma enorme capacidade de adaptação neurológica.
Ao longo dos anos, o estilo de vida moderno reduz a exposição a muitos destes movimentos.
Como consequência, parte dessa capacidade pode ser perdida.
A boa notícia é que o corpo humano continua a ser extraordinariamente adaptável.
Em muitos casos, é possível recuperar mobilidade, estabilidade e controlo motor através de estratégias adequadas de treino e reabilitação.
Sobre Mim
Sou Marcelo Barros, Personal Trainer desde 1995 e antigo Personal Trainer oficial da Men’s Health entre 2003 e 2015.
Especializei-me na avaliação e reabilitação do movimento, com especial interesse nas alterações do joelho, coluna vertebral e controlo motor.
A minha formação inclui:
- Osteopatia.
- P-DTR (Proprioceptive Deep Tendon Reflex).
- Treino Motor Ocular.
- Treino de força.
- Reabilitação funcional.
Acredito que compreender a interação entre cérebro, olhos, sistema nervoso e aparelho locomotor permite identificar limitações que muitas vezes passam despercebidas e encontrar soluções mais eficazes para melhorar o movimento e reduzir a dor.
Referências Científicas
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19417226/
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https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25226317/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23821469/