Quando se fala em proteína e exercício, a discussão costuma concentrar-se na massa muscular. No entanto, a alimentação rica em proteína e o treino podem também influenciar outros parâmetros do organismo, incluindo colesterol, triglicéridos e marcadores utilizados para avaliar a função renal e hepática.
Um novo ensaio clínico randomizado publicado em setembro de 2026 analisou precisamente esta questão em mulheres de meia-idade e mais velhas. O estudo procurou perceber como diferentes ingestões de proteína, combinadas com treino de força isolado ou treino de força associado a ciclismo, influenciavam vários marcadores sanguíneos.
Os resultados são interessantes porque mostram alterações favoráveis no perfil lipídico em todas as condições de intervenção, mas também alterações em marcadores renais que exigem uma interpretação muito cuidadosa.
O que foi estudado?
O estudo incluiu 108 mulheres entre os 40 e os 77 anos, distribuídas num desenho experimental de 2 × 3.
As participantes foram divididas entre dois tipos de treino:
- treino de força;
- treino combinado de força e ciclismo.
Dentro de cada modalidade de exercício foram estudados três níveis de ingestão proteica:
- 0,8 g/kg/dia;
- 1,6 g/kg/dia;
- 2,2 g/kg/dia.
A intervenção teve uma duração de 12 semanas.
Para a análise secundária agora publicada foram avaliadas 83 participantes que completaram os dados necessários. Os investigadores analisaram alterações no perfil lipídico, marcadores relacionados com os rins e enzimas hepáticas.
Porque é interessante estudar diferentes quantidades de proteína?
A recomendação de proteína de 0,8 g/kg/dia é frequentemente utilizada como referência mínima para adultos saudáveis. Contudo, pessoas fisicamente ativas, particularmente adultos mais velhos, podem apresentar necessidades diferentes dependendo dos objetivos, volume de exercício e contexto nutricional.
Quantidades de 1,6 g/kg/dia ou superiores são frequentemente utilizadas em estudos relacionados com treino de força e massa muscular.
O problema é que aumentar a ingestão proteica não deve ser analisado apenas pela capacidade de estimular músculo.
É igualmente importante compreender como diferentes quantidades de proteína interagem com o exercício e com marcadores clínicos.
O colesterol diminuiu
Um dos resultados mais interessantes foi observado no perfil lipídico.
Ao longo das 12 semanas, triglicéridos, colesterol total, LDL-C e apolipoproteína B diminuíram, enquanto o HDL-C aumentou nas condições estudadas.
Este resultado é relevante porque a apolipoproteína B é um marcador relacionado com o número de partículas aterogénicas circulantes.
Uma redução de LDL-C e ApoB é, em princípio, uma alteração favorável do ponto de vista do perfil lipídico.
No entanto, o estudo não permite concluir que uma determinada quantidade de proteína seja responsável isoladamente por estas alterações.
Os próprios autores salientam que a composição da alimentação e a ingestão energética não foram totalmente controladas entre as condições experimentais.
O treino combinado apresentou algumas diferenças
Algumas alterações lipídicas foram mais favoráveis no grupo que realizou treino de força combinado com ciclismo.
Contudo, existe uma limitação importante: o grupo de treino combinado não realizou simplesmente uma modalidade diferente de exercício.
Estas participantes fizeram treino de força e acrescentaram ciclismo, o que significa que tiveram uma maior exposição total ao exercício.
Por isso, não é possível afirmar que o ciclismo tenha um efeito específico independente do maior volume de atividade física.
Esta distinção é importante quando interpretamos estudos de exercício. Uma intervenção com mais exercício total pode produzir resultados diferentes sem que seja possível atribuir o efeito exclusivamente a uma determinada modalidade.
Proteína mais elevada significa necessariamente melhores resultados?
O estudo comparou 0,8, 1,6 e 2,2 g/kg/dia de proteína.
Um dos resultados mais interessantes foi que algumas alterações diferiram sobretudo entre a ingestão de 0,8 g/kg/dia e as duas ingestões superiores.
Por outro lado, houve pouca evidência de diferenças importantes entre 1,6 e 2,2 g/kg/dia.
Esta observação é relevante porque sugere que aumentar a proteína de 0,8 para uma quantidade mais elevada pode produzir diferenças em determinados parâmetros, enquanto aumentar ainda mais de 1,6 para 2,2 g/kg/dia pode não provocar alterações equivalentes.
Isso não significa que 1,6 g/kg/dia seja uma quantidade ideal para todas as pessoas. Significa apenas que, neste estudo específico, as diferenças entre as duas doses mais elevadas foram relativamente limitadas em vários resultados.
O que aconteceu aos marcadores renais?
Esta é provavelmente a parte que exige maior cuidado na interpretação.
Ao longo da intervenção, aumentaram alguns marcadores como ureia, azoto ureico no sangue, creatinina e relação azoto ureico/creatinina.
Também foram observadas reduções em três estimativas da taxa de filtração glomerular, ou eGFR.
À primeira vista, estes resultados podem parecer preocupantes. Contudo, é fundamental compreender que os marcadores laboratoriais não devem ser interpretados isoladamente.
A creatinina, por exemplo, é influenciada pela massa muscular, produção de creatinina, ingestão alimentar e exercício.
Uma pessoa que aumenta o treino de força pode apresentar alterações da creatinina que não significam necessariamente uma lesão renal.
Uma alteração da eGFR significa lesão renal?
Não necessariamente.
A eGFR é uma estimativa calculada a partir de determinados parâmetros laboratoriais e não uma medição direta da capacidade de filtração dos rins.
Se a creatinina aumentar, uma fórmula baseada na creatinina pode estimar uma eGFR mais baixa mesmo que isso não represente uma deterioração estrutural do rim.
É precisamente por isso que os autores são cautelosos na interpretação destes resultados.
As alterações observadas nas estimativas de eGFR não demonstram lesão renal nem permitem estabelecer conclusões sobre segurança renal a longo prazo.
O estudo teve apenas 12 semanas de duração e não foi desenhado para diagnosticar doença renal.
Proteína elevada e rins: o que podemos realmente concluir?
Este estudo não permite concluir que uma ingestão elevada de proteína provoque doença renal.
Também não permite concluir que quantidades elevadas de proteína sejam sempre seguras para qualquer pessoa.
A resposta depende do contexto clínico.
Em adultos saudáveis, as respostas laboratoriais observadas durante exercício e aumento da ingestão proteica podem ser diferentes das observadas em pessoas com doença renal previamente existente.
Por isso, pessoas com alterações da função renal ou doença renal conhecida devem discutir a quantidade de proteína adequada com o médico ou nutricionista que acompanha a situação clínica.
E o fígado?
Os investigadores também analisaram as enzimas hepáticas ALT, AST e GGT.
Foram observadas diferenças entre as condições de ingestão proteica para estas enzimas, enquanto AST e GGT também apresentaram respostas relacionadas com o treino.
Mais uma vez, uma alteração laboratorial não deve ser automaticamente interpretada como lesão de órgão.
As enzimas hepáticas podem variar em resposta a exercício, alterações metabólicas e outros fatores.
O treino de força, em particular, pode provocar alterações transitórias de determinadas enzimas, porque algumas delas também estão presentes no tecido muscular.
Assim, a interpretação deve considerar o conjunto dos resultados e não apenas um valor isolado.
O exercício combinado pode ter vantagens?
O estudo fornece algum suporte para a ideia de que combinar treino de força e exercício cardiovascular pode produzir alterações metabólicas favoráveis.
O grupo de treino combinado apresentou algumas alterações lipídicas mais favoráveis do que o grupo que realizou apenas treino de força.
Mas é importante recordar que este grupo também realizou uma maior quantidade total de exercício.
Por isso, o estudo não permite afirmar que o ciclismo seja necessariamente superior a outras formas de exercício cardiovascular.
A mensagem mais segura é que combinar estímulos de força e capacidade cardiorrespiratória pode ser uma estratégia interessante para adultos de meia-idade e mais velhos.
Força e exercício cardiovascular: dois estímulos diferentes
O treino de força e o exercício cardiovascular produzem adaptações parcialmente diferentes.
O treino de força procura estimular a capacidade de produzir força, preservar ou aumentar massa muscular e melhorar a função neuromuscular.
O exercício cardiovascular procura melhorar a capacidade de transporte e utilização de oxigénio, aumentar a tolerância ao esforço e estimular adaptações cardiovasculares e metabólicas.
Não é necessário escolher obrigatoriamente entre os dois.
Para muitos adultos, especialmente com o avanço da idade, uma combinação dos dois pode permitir trabalhar diferentes componentes da condição física.
O estudo não responde a todas as perguntas
Existem várias limitações importantes.
Primeiro, esta foi uma análise secundária de um ensaio de 12 semanas.
Segundo, apenas 83 participantes foram incluídas nesta análise final.
Terceiro, a ingestão energética e a composição global da alimentação não foram completamente igualadas entre os grupos.
Quarto, o treino combinado acrescentou ciclismo ao treino de força, tornando difícil separar o efeito da modalidade do efeito de uma maior quantidade total de exercício.
Finalmente, alterações em marcadores laboratoriais durante 12 semanas não permitem estabelecer conclusões sobre efeitos clínicos a longo prazo.
O que significa para quem treina depois dos 40?
O estudo é especialmente interessante para quem procura combinar treino de força, exercício cardiovascular e uma ingestão adequada de proteína durante o envelhecimento.
Os resultados mostram que intervenções relativamente simples podem produzir alterações simultâneas em diferentes sistemas.
Mas também mostram a importância de interpretar análises sanguíneas no contexto do treino.
Uma creatinina ligeiramente diferente depois de iniciar treino de força não deve ser automaticamente interpretada da mesma forma que uma alteração renal confirmada através de uma avaliação clínica completa.
Da mesma forma, alterações das enzimas hepáticas depois de exercício não devem ser analisadas sem considerar a atividade física realizada nos dias anteriores.
Conclusão
Este ensaio clínico randomizado de 12 semanas mostra que diferentes combinações de ingestão proteica, treino de força e exercício combinado podem modificar o perfil lipídico e vários marcadores bioquímicos em mulheres entre os 40 e os 77 anos.
Triglicéridos, colesterol total, LDL-C e ApoB diminuíram, enquanto o HDL-C aumentou. Algumas alterações foram mais favoráveis com o treino combinado de força e ciclismo, embora este grupo também tenha realizado mais exercício.
Foram igualmente observadas alterações na ureia, creatinina, cistatina C e estimativas de eGFR. No entanto, os autores sublinham que estes resultados não demonstram lesão renal nem estabelecem segurança ou risco a longo prazo.
Também foram observadas alterações em enzimas hepáticas, mas estas não devem ser interpretadas isoladamente como evidência de lesão do fígado.
A principal mensagem é que proteína e exercício devem ser analisados em conjunto e dentro do contexto individual. Mais proteína ou mais exercício não significam automaticamente melhores resultados, e a interpretação de marcadores laboratoriais deve considerar o treino, a alimentação e o estado clínico da pessoa.
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Referências
- Bagheri R, Ghobadi H, Kargarfard M, Suzuki K. Effects of 12 weeks of resistance and concurrent training with graded protein intakes on lipid profile, kidney and liver biomarkers in middle-aged to older women. European Journal of Nutrition. 2026;65(7). DOI: 10.1007/s00394-026-04096-3. PubMed