A atividade física pode ser difícil para algumas pessoas que continuam a apresentar sintomas depois de uma infeção por COVID-19. Fadiga, falta de ar, redução da capacidade funcional e agravamento dos sintomas após esforço podem tornar o regresso ao exercício particularmente complexo.
Mas será que quem ficou com sintomas persistentes de COVID deve fazer exercício?
A resposta não é simplesmente “sim” ou “não”.
Um estudo publicado em 1 de setembro de 2026 na revista PLOS ONE analisou objetivamente os níveis de atividade física de pessoas com condição pós-COVID, também conhecida como COVID longa ou Long COVID. Os resultados ajudam a compreender melhor a relação entre sintomas persistentes, capacidade funcional e movimento, mas é fundamental interpretar as conclusões com cautela.
Este estudo é transversal e observacional. Portanto, mostra associações entre características dos participantes, mas não permite afirmar que a falta de exercício provoca os sintomas ou que aumentar a atividade física irá necessariamente melhorar a condição pós-COVID. (PLOS)
O que descobriu o novo estudo?
A investigação foi realizada por investigadores da Universidade de Zurique e analisou dados de pessoas com condição pós-COVID.
Dos 153 participantes inicialmente considerados, 141 apresentaram dados válidos de atividade física e foram incluídos na análise. A idade variava entre 18 e 80 anos e cerca de 76,6% eram mulheres.
Em vez de depender apenas daquilo que os participantes diziam fazer, os investigadores utilizaram um acelerómetro ActiGraph, utilizado durante oito dias consecutivos, para medir objetivamente os movimentos realizados.
Esta metodologia é importante porque os questionários sobre atividade física podem estar sujeitos a erros de memória ou perceção.
Os resultados mostraram níveis relativamente baixos de atividade física global. A mediana do tempo diário passado em atividade física moderada foi de aproximadamente 46 minutos, enquanto a atividade vigorosa representou apenas cerca de 0,16 minutos por dia. (PLOS)
A fadiga apareceu associada a menor atividade física
Um dos principais resultados foi a associação entre determinadas características e os níveis de movimento.
A presença de outra doença crónica sintomática, para além da condição pós-COVID, esteve associada a menor atividade física.
A fadiga também apareceu relacionada com os níveis de atividade física medidos objetivamente.
Por outro lado, pessoas com maior capacidade funcional apresentaram níveis superiores de atividade física.
Esta relação é particularmente interessante.
Uma pessoa que tem maior capacidade para realizar tarefas físicas do quotidiano parece conseguir manter mais movimento. Mas isso não significa necessariamente que a maior atividade física tenha provocado a melhoria da capacidade funcional.
Pode acontecer precisamente o contrário.
Ou seja, uma melhor capacidade funcional pode facilitar a realização de mais atividade física.
Também pode existir uma relação bidirecional ou a influência de outros fatores que não foram totalmente captados pelo estudo.
É precisamente por isso que os autores salientam que não podem ser estabelecidas relações de causalidade. (PLOS)
O que significa ter COVID persistente?
A condição pós-COVID refere-se à persistência ou aparecimento de sintomas depois da infeção inicial pelo SARS-CoV-2.
Os sintomas podem variar muito entre pessoas.
Alguns indivíduos apresentam fadiga, outros dificuldades cognitivas, alterações do sono, dores, falta de ar, tonturas, intolerância ao esforço ou redução da capacidade física.
Esta diversidade torna particularmente difícil criar uma recomendação de exercício que seja adequada para todas as pessoas.
Duas pessoas com diagnóstico de condição pós-COVID podem ter capacidades físicas completamente diferentes.
Uma pode conseguir caminhar, treinar força e realizar as suas atividades habituais.
Outra pode apresentar sintomas importantes mesmo após pequenos esforços.
Por isso, o exercício depois da COVID persistente deve ser individualizado.
Mais exercício é sempre melhor?
Não.
Esta é provavelmente a mensagem mais importante quando falamos de atividade física em pessoas com sintomas persistentes.
Para a população saudável, aumentar progressivamente a atividade física é geralmente uma estratégia importante para melhorar a saúde.
Mas a situação pode ser diferente quando existe uma doença com sintomas persistentes e intolerância ao esforço.
Um estudo qualitativo publicado anteriormente na própria PLOS ONE, em maio de 2026, entrevistou 34 adultos com Long COVID. Cerca de 64,7% dos participantes disseram ter sentido agravamento dos sintomas com atividade física, enquanto 14,7% relataram melhorias. Entre os problemas referidos estava o agravamento pós-esforço dos sintomas. (PLOS)
Este estudo também tem limitações — era qualitativo e baseado na experiência relatada pelos participantes — mas reforça a necessidade de não assumir que aumentar simplesmente a quantidade de exercício será benéfico para todas as pessoas.
O perigo de ignorar os sintomas
Uma das abordagens menos adequadas é pensar que uma pessoa com fadiga persistente deve simplesmente “forçar-se” a treinar.
Se determinado nível de esforço provoca uma deterioração clara dos sintomas, continuar a aumentar a carga sem avaliação pode ser contraproducente.
O objetivo deve ser encontrar uma quantidade de atividade que seja tolerável e adequada à capacidade atual da pessoa.
Isto pode significar começar com períodos muito curtos de movimento.
Em algumas pessoas, caminhar alguns minutos pode ser suficiente.
Noutras, podem ser adequados exercícios de força muito leves.
E noutras, sobretudo quando existem sintomas importantes, o primeiro passo pode ser uma avaliação clínica antes de iniciar ou aumentar o treino.
E o treino de força?
O treino de força pode ser uma ferramenta importante quando a pessoa apresenta capacidade suficiente para o realizar.
Depois de períodos prolongados de inatividade, é possível ocorrer perda de força muscular e de capacidade funcional.
Nesse contexto, exercícios progressivos podem ajudar a recuperar capacidades físicas.
Mas o princípio fundamental é progressão individualizada.
Não existe uma quantidade universal de treino adequada para todas as pessoas com COVID persistente.
Um programa pode começar com exercícios simples, poucas repetições e períodos de recuperação adequados.
À medida que a pessoa tolera o estímulo, a carga pode ser aumentada progressivamente.
Se os sintomas piorarem de forma significativa, o programa deve ser reavaliado.
Caminhar pode ser suficiente?
Para algumas pessoas, sim.
A atividade física não precisa de começar num ginásio.
Caminhar, realizar movimentos funcionais, subir pequenos lances de escadas ou fazer exercícios simples em casa podem constituir formas de aumentar gradualmente o movimento.
O importante é distinguir entre atividade física tolerável e esforço que desencadeia uma deterioração significativa dos sintomas.
A intensidade deve ser determinada pela resposta individual.
Uma pessoa pode considerar uma caminhada de 20 minutos extremamente fácil, enquanto outra pode ter sintomas importantes depois de cinco minutos.
Comparar diretamente estas duas pessoas não faz sentido.
O estudo prova que fazer exercício melhora a COVID persistente?
Não.
É essencial deixar isto claro.
O estudo publicado em 1 de setembro de 2026 não foi um ensaio clínico que comparou pessoas submetidas a um programa de exercício com um grupo de controlo.
Foi uma análise transversal.
Os investigadores observaram os níveis de atividade física e analisaram quais os fatores associados a esses níveis.
Por isso, o estudo não permite concluir que aumentar a atividade física trata a condição pós-COVID.
Também não permite concluir que a menor atividade física seja a causa da fadiga.
Pode existir uma relação entre as duas variáveis, mas podem existir múltiplos mecanismos envolvidos.
Os próprios autores afirmam que não é possível estabelecer relações causais a partir destes resultados. (PLOS)
O que podemos retirar desta investigação?
Apesar das limitações, o estudo fornece uma informação importante.
Pessoas com condição pós-COVID podem apresentar níveis baixos de atividade física, e a capacidade funcional parece estar relacionada com a quantidade e intensidade do movimento realizado.
Isto sugere que a avaliação da capacidade funcional pode ser uma componente importante na definição de estratégias de atividade física.
Em vez de recomendar simplesmente “faça mais exercício”, pode ser mais adequado perguntar:
Quanto consegue fazer atualmente?
Que sintomas aparecem durante ou depois da atividade?
Quanto tempo demora a recuperar?
A sua capacidade está a melhorar, estabilizar ou diminuir?
Estas perguntas permitem uma abordagem muito mais individualizada.
Como deve ser o regresso ao exercício?
Para quem apresenta sintomas persistentes depois da COVID, o regresso ao exercício deve ser gradual e adaptado.
Uma estratégia pode incluir:
- avaliação da capacidade física atual;
- identificação dos principais sintomas;
- exercícios de baixa intensidade inicialmente;
- períodos de recuperação adequados;
- progressão apenas quando existe boa tolerância;
- monitorização da resposta durante e depois do exercício;
- redução ou adaptação da carga quando os sintomas pioram.
Quando existem sintomas importantes, especialmente dor no peito, falta de ar inexplicada, palpitações, tonturas, desmaios ou intolerância marcada ao esforço, é importante procurar avaliação médica antes de aumentar a intensidade do exercício.
Conclusão
O estudo mais recente sobre atividade física e condição pós-COVID foi publicado em 1 de setembro de 2026 na PLOS ONE.
Entre 141 participantes com dados válidos, os investigadores encontraram níveis relativamente baixos de atividade física e observaram associações entre atividade física, fadiga, outras doenças crónicas e capacidade funcional. Pessoas com maior capacidade funcional apresentavam maior atividade física. (PLOS)
Mas é fundamental não interpretar estes resultados como prova de que fazer mais exercício cura ou melhora diretamente a COVID persistente.
O estudo é transversal e observacional.
A melhor conclusão é mais prudente: a atividade física pode fazer parte da estratégia de recuperação de algumas pessoas com sintomas pós-COVID, mas deve ser adaptada à capacidade individual e à resposta aos esforços.
Para algumas pessoas, aumentar gradualmente o exercício poderá ser adequado.
Para outras, sobretudo quando existe agravamento dos sintomas após esforço, será necessário muito mais cuidado.
Depois da COVID persistente, a pergunta não deve ser apenas “quanto exercício devo fazer?”.
A pergunta mais importante pode ser:
“Qual é o nível de atividade que o meu organismo consegue tolerar e recuperar?”
Posso ajudar
Posso avaliar a sua capacidade física e adaptar um programa de exercício progressivo, respeitando sintomas, limitações, recuperação e objetivos, sem aumentar a carga de forma inadequada.
Nota: este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Em pessoas com sintomas persistentes após COVID-19, a prescrição de exercício deve ser individualizada e adaptada à capacidade funcional e à resposta aos esforços.
Fontes e links
- Estudo mais recente — PLOS ONE: Physical activity in post-COVID-19 condition: A cross-sectional study
https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0357465 - Estudo sobre impacto da atividade física em pessoas com Long COVID — PLOS ONE, maio de 2026
https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0350121 - Estudo sobre sintomas e atividade física na Long COVID — PLOS ONE
https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0280343