Durante muitos anos, as pessoas com doença renal crónica foram frequentemente aconselhadas a limitar alimentos ricos em potássio, incluindo determinadas frutas e vegetais. Um novo estudo publicado em agosto de 2026 sugere que esta abordagem poderá ser demasiado restritiva para alguns doentes, desde que exista acompanhamento médico e controlo adequado do potássio no sangue.
A alimentação na doença renal crónica (DRC) pode ser complexa.
Dependendo do estádio da doença, dos valores de potássio, fósforo e sódio, da medicação e da existência de outras doenças, determinados alimentos podem precisar de ser ajustados.
A fruta e os vegetais são um dos exemplos mais interessantes.
São alimentos associados a uma alimentação saudável e fornecem fibra, vitaminas, minerais e numerosos compostos bioativos. No entanto, muitos deles também contêm potássio, um mineral que pode acumular-se no sangue quando a função renal está significativamente diminuída.
Daí surgir uma questão importante:
Será que todas as pessoas com doença renal avançada devem evitar ou limitar fortemente fruta e vegetais?
Um novo ensaio clínico publicado online em 24 de agosto de 2026 procurou responder a esta questão.
Porque é que o potássio preocupa na doença renal?
Os rins desempenham um papel fundamental na regulação dos níveis de potássio no organismo.
Quando a função renal diminui significativamente, a capacidade de eliminar potássio através da urina pode ficar comprometida.
Se o potássio no sangue subir demasiado — situação conhecida como hipercaliemia — podem existir consequências importantes, sobretudo ao nível do coração.
É por isso que algumas pessoas com doença renal avançada recebem recomendações para limitar determinados alimentos ricos em potássio.
O problema é que uma restrição demasiado abrangente pode reduzir o consumo de alimentos nutricionalmente interessantes.
Frutas, vegetais, leguminosas e frutos secos podem fazer parte de uma alimentação de elevada qualidade, mas são precisamente alguns dos alimentos que podem contribuir para uma maior ingestão de potássio.
A questão passa, portanto, por encontrar um equilíbrio entre controlar o potássio e manter uma alimentação saudável.
O novo estudo de 2026
O estudo foi publicado online em 24 de agosto de 2026 no Journal of Renal Nutrition.
Tratou-se de um ensaio clínico randomizado, cruzado e de não inferioridade, realizado em pessoas com doença renal crónica avançada que estavam a tomar medicamentos que atuam sobre o sistema renina-angiotensina-aldosterona.
Participaram 16 pessoas com doença renal crónica.
Durante o estudo, os participantes seguiram, em ordem aleatória, dois períodos alimentares:
- a sua alimentação habitual;
- uma alimentação enriquecida em potássio.
Na dieta enriquecida foram acrescentados aproximadamente 40 mmol de potássio por dia, através de fruta, vegetais e frutos secos.
O objetivo principal era perceber se esta maior ingestão de potássio provocaria uma elevação inaceitável do potássio no sangue.
O que aconteceu ao potássio?
Os resultados foram interessantes.
Ao fim de seis semanas, não existiu uma diferença significativa nos níveis de potássio sérico entre o período de alimentação habitual e o período de alimentação enriquecida em potássio.
A diferença entre as duas fases foi de apenas 0,03 mmol/L, com um valor de p de 0,850.
Ou seja, neste pequeno grupo de pessoas com doença renal crónica avançada, aumentar a ingestão de alimentos ricos em potássio não provocou uma subida significativa do potássio sérico em comparação com a alimentação habitual.
Mas existe uma informação importante.
Nem todos os participantes responderam exatamente da mesma forma.
Dois participantes desenvolveram hipercaliemia
Durante o estudo, dois participantes desenvolveram hipercaliemia, com valores de potássio de 5,9 e 6,1 mmol/L.
Esses participantes receberam sodium zirconium cyclosilicate (SZC), um medicamento que se liga ao potássio no aparelho digestivo, ajudando a reduzir a sua absorção e a controlar os níveis de potássio.
Depois do tratamento, conseguiram continuar a alimentação rica em potássio sem nova ocorrência de hipercaliemia.
Este pormenor é fundamental.
O estudo não demonstra que qualquer pessoa com doença renal avançada possa simplesmente começar a comer grandes quantidades de fruta e vegetais sem preocupação.
Demonstra que, num grupo cuidadosamente acompanhado, uma alimentação mais rica em potássio pode ser possível, com monitorização e intervenção quando necessário.
Mais fruta e vegetais podem melhorar a qualidade da alimentação
Existe outra razão pela qual este tema é importante.
Quando uma pessoa recebe uma lista extensa de alimentos para evitar, pode acabar por reduzir precisamente aqueles que fazem parte de uma alimentação considerada saudável.
Fruta e vegetais fornecem:
- fibra;
- vitaminas;
- minerais;
- compostos antioxidantes;
- polifenóis e outros fitoquímicos;
- diferentes tipos de fibra alimentar.
Além disso, substituir alimentos ultraprocessados por alimentos vegetais pode melhorar globalmente a qualidade da alimentação.
Por isso, a questão não deveria ser simplesmente “quanto potássio tem este alimento?”
É necessário olhar para o padrão alimentar completo.
O que acontece quando se aumenta o consumo de fruta e vegetais?
Embora o estudo de agosto de 2026 tenha sido pequeno, os resultados mostram que é possível aumentar a ingestão de alimentos ricos em potássio em determinados doentes com doença renal avançada, desde que exista acompanhamento.
Os participantes aumentaram o consumo de fruta, vegetais e frutos secos.
Durante o período de alimentação enriquecida, a ingestão de fruta aumentou para cerca de 3,4 porções por dia, enquanto os vegetais chegaram a aproximadamente 2 porções diárias. O consumo de frutos secos também aumentou significativamente.
A ingestão de fibra aumentou de aproximadamente 19 para 25 g por dia.
Também foi observada uma melhoria no índice de adequação nutricional utilizado pelos investigadores.
Isto sugere que permitir uma maior variedade de alimentos vegetais pode contribuir para melhorar a qualidade nutricional da dieta.
Um estudo anterior chegou a conclusões semelhantes
Este não é o primeiro trabalho a questionar uma restrição excessivamente rígida de alimentos vegetais na doença renal.
Em 2024, investigadores avaliaram uma alimentação predominantemente vegetal em 26 pessoas com doença renal crónica nos estádios 4–5 e hipercaliemia, que receberam sodium zirconium cyclosilicate.
Durante três semanas, os participantes seguiram uma alimentação com maior quantidade de fruta, vegetais, leguminosas, frutos secos e cereais integrais, enquanto o SZC era ajustado de acordo com os níveis de potássio.
O potássio no sangue manteve-se controlado, embora alguns participantes tenham apresentado episódios de hipercaliemia ligeira a moderada que exigiram ajustes do tratamento.
Mais uma vez, a mensagem não foi “o potássio deixou de ser importante”.
A mensagem foi que a gestão individualizada pode permitir uma alimentação mais saudável sem necessariamente provocar hipercaliemia persistente.
Então quem tem doença renal pode comer toda a fruta e vegetais que quiser?
Não.
Esta seria uma interpretação errada do estudo.
A doença renal crónica apresenta diferentes estádios e diferentes graus de risco.
Uma pessoa com função renal ligeiramente diminuída não é igual a uma pessoa com doença renal avançada.
Da mesma forma, duas pessoas com a mesma taxa de filtração glomerular podem apresentar níveis de potássio diferentes e utilizar medicamentos diferentes.
Por isso, não existe uma quantidade universal de fruta ou vegetais que seja segura para todas as pessoas com doença renal.
O que este estudo sugere é que uma restrição automática e indiscriminada de alimentos ricos em potássio pode não ser necessária em todos os casos.
O potássio deve ser avaliado através das análises
Uma das melhores formas de tomar decisões sobre a alimentação é conhecer os valores laboratoriais.
No caso do potássio, uma análise ao sangue pode ajudar a determinar se existe hipercaliemia.
É especialmente importante acompanhar o potássio quando:
- existe doença renal avançada;
- são utilizados medicamentos que podem aumentar o potássio;
- existem episódios anteriores de hipercaliemia;
- são introduzidas alterações importantes na alimentação.
Assim, a alimentação pode ser ajustada de acordo com a resposta real do organismo.
E o sodium zirconium cyclosilicate?
O sodium zirconium cyclosilicate, conhecido pela sigla SZC, é um quelante intestinal de potássio utilizado no tratamento da hipercaliemia.
No estudo mais recente, foi utilizado quando os níveis de potássio ultrapassaram determinados valores.
Depois de controlada a hipercaliemia, os participantes puderam continuar a alimentação rica em potássio.
Isto abre uma possibilidade interessante: em determinadas circunstâncias, pode ser possível combinar uma alimentação nutricionalmente mais liberal com tratamento farmacológico e monitorização.
Mas isso não significa que o SZC deva ser utilizado simplesmente para permitir que qualquer pessoa com doença renal coma grandes quantidades de alimentos ricos em potássio.
A decisão de utilizar este medicamento pertence ao médico responsável pelo acompanhamento do doente.
A alimentação mediterrânica pode ser compatível com doença renal?
Uma alimentação baseada em vegetais, legumes, fruta, azeite, cereais integrais, peixe e outros alimentos pouco processados apresenta características que podem ser interessantes para a saúde cardiovascular e metabólica.
No entanto, adaptar uma alimentação deste tipo à doença renal pode exigir alguns ajustes.
Por exemplo, o consumo de determinados alimentos ricos em potássio pode precisar de ser individualizado.
Também pode ser necessário controlar outros nutrientes, dependendo do estádio da doença e dos resultados das análises.
Por isso, uma alimentação saudável para uma pessoa com doença renal não deve ser necessariamente uma dieta extremamente restritiva.
Deve ser uma alimentação equilibrada e personalizada.
Fruta e vegetais podem fazer parte da alimentação de quem tem doença renal
A principal mensagem deste novo estudo é precisamente essa.
Em pessoas selecionadas com doença renal crónica avançada, uma alimentação com maior quantidade de fruta, vegetais e frutos secos pode ser possível sem provocar uma elevação clinicamente significativa do potássio, desde que exista monitorização adequada.
Algumas pessoas poderão necessitar de tratamento com SZC para manter o potássio controlado.
O estudo também mostra que dois participantes desenvolveram hipercaliemia, demonstrando que o risco não desaparece.
Portanto, a abordagem mais adequada parece ser individualizar em vez de proibir automaticamente.
O que este estudo ainda não responde?
É importante reconhecer as limitações.
O estudo teve apenas 16 participantes e durou seis semanas.
Um estudo tão pequeno não permite concluir que os resultados serão iguais para todas as pessoas com doença renal avançada.
Também não demonstra que uma alimentação rica em potássio melhora diretamente a função renal ou aumenta a sobrevivência.
O principal objetivo foi avaliar a segurança relativamente aos níveis de potássio.
Serão necessários estudos maiores e mais prolongados para determinar se permitir maior consumo de fruta e vegetais produz benefícios cardiovasculares ou renais a longo prazo.
Conclusão
A ideia de que todas as pessoas com doença renal devem evitar fruta e vegetais está a ser questionada por investigação mais recente.
O ensaio clínico publicado em 24 de agosto de 2026 mostrou que, em 16 pessoas com doença renal crónica avançada, uma alimentação enriquecida com aproximadamente 40 mmol adicionais de potássio por dia através de fruta, vegetais e frutos secos não provocou uma diferença significativa no potássio sérico após seis semanas.
Dois participantes desenvolveram hipercaliemia e foram tratados com sodium zirconium cyclosilicate, conseguindo posteriormente continuar a dieta sem nova ocorrência de hipercaliemia.
A conclusão mais prudente é, portanto:
Quem tem doença renal não deve assumir automaticamente que precisa de eliminar fruta e vegetais da alimentação.
O potássio continua a ser um fator importante, sobretudo na doença renal avançada, mas a quantidade adequada de fruta e vegetais deve ser determinada individualmente, tendo em conta a função renal, os níveis de potássio, a medicação e o acompanhamento médico.
A tendência da investigação parece apontar para uma abordagem mais personalizada: menos proibições automáticas e mais monitorização, qualidade alimentar e adaptação às características de cada pessoa.
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Links das fontes
Estudo mais recente — Journal of Renal Nutrition, publicado online em 24 de agosto de 2026:
PubMed — Liberal fruit and vegetable intake in patients with advanced CKD with or without Sodium zirconium cyclosilicate
Artigo do estudo — Journal of Renal Nutrition:
Journal of Renal Nutrition — Liberal fruit and vegetable intake in advanced CKD
Registo do ensaio clínico:
ClinicalTrials.gov — Sodium Zirconium Cyclosilicate to Allow Liberal Fruit and Vegetable Intake for Patients With CKD Stage 3b and 4
Estudo de 2024 sobre alimentação vegetal e SZC em doença renal crónica:
American Journal of Clinical Nutrition — Plant-based diet in hyperkalemic CKD patients receiving sodium zirconium cyclosilicate
Texto completo do estudo de 2024:
PubMed Central — Plant-based diet in hyperkalemic chronic kidney disease patients