Relógios inteligentes podem não perceber bem a qualidade do nosso sono

Relógios inteligentes podem não perceber bem a qualidade do nosso sono September 7, 2026Leave a comment

Sleep trackers, Apple Watch, Fitbit e outros relógios inteligentes tornaram-se ferramentas populares para monitorizar o sono. Todas as noites, estes dispositivos apresentam informações como duração do sono, eficiência do sono, número de despertares e, em alguns casos, estimativas das diferentes fases do sono.

Mas será que aquilo que o relógio diz corresponde realmente à forma como dormimos?

Uma nova revisão sistemática publicada em agosto de 2026 na revista Sleep Medicine sugere que a resposta é: nem sempre.

Os investigadores analisaram cinco estudos, envolvendo 2.006 participantes, e concluíram que os dispositivos comerciais de monitorização do sono apresentam uma concordância apenas baixa a moderada com a qualidade do sono percecionada pelos próprios utilizadores. (ScienceDirect)

O estudo foi realizado por Narat Srivali, da Duke University School of Medicine, e Wisit Cheungpasitporn, da Mayo Clinic.

O que descobriu o estudo mais recente?

A revisão sistemática, intitulada “Concordance of wearable device sleep metrics with patient-reported sleep quality: A systematic review”, analisou estudos que compararam os dados fornecidos por dispositivos de pulso com avaliações subjetivas e validadas da qualidade do sono.

Os investigadores pesquisaram bases de dados científicas como PubMed/MEDLINE, Embase e Cochrane Library até outubro de 2025.

Dos milhares de artigos inicialmente identificados, apenas cinco estudos, envolvendo 2.006 adultos, cumpriram os critérios definidos para a revisão.

A conclusão foi clara: os dados dos dispositivos explicavam apenas 2,5% a 16,2% das diferenças na qualidade do sono relatada pelos participantes. (ScienceDirect)

Isto não significa que os relógios inteligentes sejam inúteis.

Significa que medir o sono não é exatamente a mesma coisa que perceber como uma pessoa dormiu.

O relógio pode dizer que dormimos bem quando sentimos o contrário

Imagine uma pessoa que passa oito horas na cama.

O relógio pode indicar:

  • 7 horas e 20 minutos de sono;
  • boa eficiência do sono;
  • poucos períodos acordado;
  • determinada quantidade de sono profundo.

No entanto, essa pessoa pode acordar cansada, sentir que passou grande parte da noite às voltas na cama ou recordar vários despertares.

Qual das duas informações está correta?

Na realidade, podem estar ambas a descrever aspetos diferentes.

O relógio está a tentar estimar determinados parâmetros fisiológicos através de sensores.

A pessoa está a avaliar a experiência subjetiva do sono.

E estas duas dimensões não são necessariamente iguais.

A diferença é ainda maior nas pessoas com insónia

Um dos resultados mais interessantes da revisão apareceu quando os investigadores compararam pessoas que dormiam bem com participantes com insónia.

Nos indivíduos classificados como bons dormidores, a concordância entre o dispositivo e as avaliações utilizadas como referência foi de aproximadamente 82,4%.

Nos participantes com insónia, essa concordância caiu para apenas 39,4%.

A diferença foi estatisticamente significativa. (ScienceDirect)

Este resultado é extremamente importante.

Uma pessoa saudável que utiliza um smartwatch para acompanhar a duração do sono pode obter informação relativamente útil sobre tendências.

Mas alguém com insónia, despertares frequentes ou sono fragmentado pode descobrir que aquilo que o relógio apresenta não corresponde à sua experiência.

Por que razão os relógios podem falhar?

A maioria dos dispositivos comerciais não mede diretamente o sono da mesma forma que uma avaliação clínica.

Os relógios utilizam sensores, como acelerómetros e sensores de frequência cardíaca, para estimar quando a pessoa está a dormir e determinados parâmetros do sono.

O problema é que estar imóvel não significa necessariamente estar a dormir.

Uma pessoa pode estar deitada e acordada durante vários minutos sem grandes movimentos.

Da mesma forma, pequenos despertares durante a noite podem não ser corretamente identificados.

Este problema torna-se especialmente relevante na insónia.

Se uma pessoa acorda várias vezes durante a noite, mas permanece relativamente imóvel, o dispositivo pode interpretar alguns desses períodos como sono.

O tempo total de sono é mais fácil de estimar

A revisão encontrou uma relação moderada entre o tempo total de sono medido pelos dispositivos e os registos feitos pelos próprios participantes.

A correlação foi de r = 0,367 nos diários preenchidos no próprio dia.

Isto sugere que os dispositivos podem fornecer informação útil sobre tendências relacionadas com a duração do sono.

Por exemplo, se uma pessoa dorme habitualmente cerca de seis horas e, durante várias semanas, começa a dormir apenas cinco horas, essa alteração pode ser relevante.

O problema surge quando tentamos utilizar o dispositivo para responder a perguntas mais complexas:

“A qualidade do meu sono está boa?”

É aqui que a precisão parece diminuir consideravelmente. (ScienceDirect)

E o sono profundo?

Muitos relógios apresentam gráficos coloridos com sono leve, sono profundo e sono REM.

Estas informações são interessantes e podem ajudar a acompanhar tendências, mas não devem ser interpretadas como se fossem equivalentes a uma avaliação clínica do sono.

A revisão mostra que existe uma diferença importante entre estimar parâmetros do sono e avaliar a experiência subjetiva de dormir.

Por isso, não devemos ficar excessivamente preocupados porque uma aplicação indica que tivemos uma determinada percentagem de sono profundo numa noite.

Uma noite isolada de dados também diz muito pouco sobre a saúde global do sono.

Comparação com a polissonografia

Os investigadores também analisaram a concordância entre dispositivos e polissonografia, o método de referência utilizado em laboratório para estudar o sono.

Os resultados voltaram a mostrar limitações.

A eficiência do sono apresentou apenas uma concordância moderada, com coeficientes de correlação intraclasse entre 0,478 e 0,570.

Os dispositivos também apresentaram tendência para sobrestimar a eficiência do sono entre 1,75% e 7,9%.

Além disso, o tempo que uma pessoa permanecia acordada depois de adormecer era frequentemente subestimado, em aproximadamente 7 a 30 minutos. (ScienceDirect)

Outro resultado particularmente interessante surgiu relativamente ao tempo necessário para adormecer.

A correlação entre o tempo estimado pelo dispositivo e o tempo relatado pelos participantes foi muito baixa, com r = 0,033.

Ou seja, saber exatamente quanto tempo demorámos a adormecer é muito mais difícil do que simplesmente estimar se estamos ou não a dormir.

Não devemos deixar de usar o smartwatch

A conclusão deste estudo não é deixar de utilizar relógios inteligentes.

Pelo contrário.

Estes dispositivos podem ser bastante úteis para acompanhar determinados padrões ao longo do tempo.

Por exemplo, podem ajudar a perceber se:

  • estamos a dormir mais ou menos horas;
  • os horários de sono estão a mudar;
  • existe maior regularidade;
  • a atividade física está associada a alterações no nosso padrão de sono;
  • determinadas rotinas parecem melhorar ou piorar o descanso.

O problema aparece quando transformamos estes dados numa espécie de diagnóstico.

Um smartwatch não deve substituir uma avaliação médica ou uma ferramenta clínica validada.

O que sentimos ao acordar também conta

Uma das principais mensagens desta revisão é que a experiência subjetiva do sono continua a ser importante.

Se uma pessoa acorda diariamente cansada, sente que dorme mal, demora muito tempo a adormecer ou passa grande parte da noite acordada, esse relato não deve ser ignorado apenas porque o relógio indica oito horas de sono.

A pessoa é uma parte essencial da avaliação do sono.

Aliás, ferramentas clínicas como o Pittsburgh Sleep Quality Index (PSQI) foram desenvolvidas precisamente para avaliar a qualidade subjetiva do sono através de diferentes componentes.

Os investigadores defendem que os dados dos dispositivos devem complementar, e não substituir, avaliações subjetivas validadas. (ScienceDirect)

E se o relógio disser que dormimos mal?

Também pode acontecer o contrário.

O relógio pode apresentar valores aparentemente maus numa determinada noite, mas a pessoa acordar bem-disposta, com energia e sem sonolência durante o dia.

Nesse caso, não devemos necessariamente concluir que tivemos uma noite de sono inadequada.

O sono varia naturalmente de noite para noite.

Stress, treino, alimentação, temperatura do quarto, horários, álcool, cafeína, exposição à luz e inúmeros outros fatores podem modificar temporariamente os parâmetros do sono.

É mais importante observar tendências ao longo de semanas do que reagir a uma única noite.

O risco de ficar obcecado com os dados

Existe ainda outro problema potencial.

Algumas pessoas começam a controlar o sono de forma tão intensa que ficam ansiosas quando o relógio apresenta valores abaixo do esperado.

Podem acordar e verificar imediatamente a aplicação.

Se o dispositivo indicar pouco sono profundo, podem passar o dia preocupadas.

Esta preocupação pode, paradoxalmente, contribuir para aumentar a ansiedade relacionada com o sono.

O objetivo da tecnologia deveria ser ajudar a compreender melhor os nossos hábitos, e não transformar cada noite numa avaliação.

Como utilizar corretamente um sleep tracker?

Uma boa estratégia é utilizar o dispositivo como uma ferramenta de acompanhamento, e não como uma autoridade absoluta.

Em vez de olhar apenas para os números, podemos cruzar a informação com aquilo que sentimos.

Por exemplo:

Relógio: dormi 6h30.

Pessoa: acordei bem e tive energia durante o dia.

Conclusão: provavelmente não existe razão para preocupação apenas por causa do número.

Outro exemplo:

Relógio: dormi 8 horas.

Pessoa: acordei várias vezes, sinto-me cansado e tenho sonolência durante o dia.

Conclusão: vale a pena investigar melhor, mesmo que o relógio apresente oito horas de sono.

Esta abordagem é muito mais equilibrada.

Sono, exercício e saúde

A qualidade do sono deve ser analisada juntamente com outros comportamentos relacionados com a saúde.

A prática regular de exercício físico pode contribuir para melhorar a qualidade do sono em muitas pessoas.

Caminhar, fazer treino de força, praticar exercício cardiovascular e manter horários relativamente regulares são estratégias importantes.

Também é útil evitar excesso de cafeína nas horas que antecedem o sono, limitar álcool e criar condições adequadas no quarto.

Mas se existirem sintomas persistentes de insónia, ronco intenso, pausas respiratórias durante o sono, sonolência excessiva durante o dia ou despertares frequentes, o mais adequado é procurar avaliação profissional.

A conclusão da ciência em 2026

A revisão sistemática publicada em agosto de 2026 na revista Sleep Medicine apresenta uma mensagem simples:

um relógio inteligente consegue medir alguns aspetos do sono, mas ainda não consegue compreender completamente a qualidade do nosso sono.

Foram analisados cinco estudos com 2.006 participantes e os dispositivos explicaram apenas 2,5% a 16,2% da variação na qualidade subjetiva do sono.

A diferença foi particularmente evidente nas pessoas com insónia, nas quais a concordância foi de apenas 39,4%, comparativamente com 82,4% nos bons dormidores. (ScienceDirect)

Por isso, se o seu Apple Watch, Fitbit ou outro dispositivo disser que dormiu mal, não entre imediatamente em pânico.

E se disser que dormiu maravilhosamente, mas acorda todos os dias cansado, também não ignore o seu corpo.

Os melhores dados continuam a ser a combinação entre tecnologia, sintomas, hábitos e, quando necessário, avaliação clínica.

Posso ajudar

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Nota importante

Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui avaliação médica. Problemas persistentes de sono, insónia, sonolência excessiva ou suspeita de apneia devem ser avaliados por um profissional de saúde.

Links e fontes

Estudo mais recente – Sleep Medicine, agosto de 2026: revisão sistemática de cinco estudos e 2.006 participantes sobre a concordância entre dispositivos wearable e qualidade subjetiva do sono. Ver o estudo completo na ScienceDirect

Resumo científico – PubMed: referência bibliográfica, autores, resultados e conclusões da revisão sistemática. Consultar o estudo no PubMed

DOI oficial: referência permanente do artigo publicado na Sleep Medicine. Consultar o DOI do estudo