Quando colocamos resistência durante um sprint, estamos a tornar a corrida mais difícil. Mas será que essa dificuldade adicional se transforma realmente em melhor desempenho quando retiramos a resistência?
Esta é uma questão importante porque, no treino, nem sempre aquilo que melhora num exercício se transfere automaticamente para outra tarefa.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 analisou precisamente esta questão. Os investigadores reuniram 66 estudos independentes, envolvendo 1945 participantes, para perceber os efeitos do treino de sprint resistido na aceleração, nos saltos verticais e horizontais e na capacidade de mudar de direção.
Os resultados são interessantes, mas talvez ainda mais importante seja aquilo que não encontraram: não existe uma carga, uma dose ou uma modalidade de sprint resistido que possa ser considerada universalmente superior.
O que é o sprint resistido?
O sprint resistido consiste em correr contra uma resistência adicional.
Essa resistência pode ser criada de diferentes formas, por exemplo através de um trenó, de um sistema de resistência elástica ou de outros dispositivos que dificultem a aceleração.
A lógica é relativamente simples. Ao aumentar a resistência durante os primeiros metros, aumentamos a exigência para produzir força contra o solo. O atleta precisa de aplicar força suficiente para deslocar o próprio corpo e a resistência adicional.
O objetivo não é simplesmente tornar a corrida mais cansativa. A intenção é criar um estímulo específico para determinadas características da aceleração.
É aqui que entra um dos conceitos que considero fundamentais no treino: a especificidade.
Treinar mais uma capacidade não significa melhorar todas as outras
Seria fácil assumir que, se o sprint resistido melhora a capacidade de acelerar, também deverá melhorar automaticamente o salto ou a mudança de direção.
Mas o corpo não funciona dessa maneira tão linear.
A aceleração, o salto e a mudança de direção têm características comuns, mas também apresentam exigências próprias.
A aceleração exige aplicar força rapidamente para deslocar o centro de massa. Um salto exige produzir força vertical ou horizontal de forma explosiva. Uma mudança de direção acrescenta ainda a necessidade de travar, controlar o corpo e voltar a produzir força numa nova direção.
Por isso, um exercício pode produzir uma adaptação interessante numa capacidade sem necessariamente ser a melhor ferramenta para todas as outras.
O que encontrou esta nova revisão?
Os resultados foram globalmente favoráveis ao treino de sprint resistido.
Na aceleração, o efeito médio foi positivo. Também foram encontrados efeitos positivos no salto vertical, no salto horizontal e na capacidade de mudança de direção.
O efeito mais evidente apareceu na mudança de direção, enquanto a aceleração apresentou uma evidência considerada de maior certeza.
Mas há uma particularidade importante: os intervalos de previsão cruzaram o valor zero para a aceleração, para o salto vertical e para a mudança de direção. Isto significa que, apesar do efeito médio ser favorável, existe uma maior incerteza relativamente ao que poderá acontecer num novo contexto ou num indivíduo diferente.
O salto horizontal apresentou uma situação mais consistente.
É uma distinção importante porque uma média estatisticamente favorável não significa que todas as pessoas vão responder da mesma forma.
Mais carga não significa necessariamente melhores resultados
Um dos resultados que considero particularmente interessantes é a ausência de uma relação clara entre a carga externa utilizada, a dose de treino ou a modalidade de sprint resistido e os resultados obtidos.
Ou seja, esta revisão não permite dizer que existe uma determinada percentagem do peso corporal, uma carga específica no trenó ou uma quantidade fixa de séries e metros que seja a melhor para todos.
É uma conclusão muito útil para a prática.
No treino, existe frequentemente a procura pela “carga ideal”. Mas a carga ideal depende do objetivo, do nível do praticante, da capacidade de manter a qualidade do movimento, do momento da época e da relação entre o estímulo e aquilo que pretendemos desenvolver.
O sprint resistido não substitui o sprint livre
Outro ponto importante é que o sprint resistido parece funcionar melhor quando é entendido como uma ferramenta complementar.
Se queremos melhorar a capacidade de correr rapidamente, faz sentido treinar também a própria corrida rápida.
O sprint resistido aumenta determinadas exigências durante a aceleração, mas correr sem resistência permite expor o atleta às velocidades e às características mecânicas que existem na corrida rápida.
Por isso, não vejo o treino resistido como uma alternativa ao sprint livre. Vejo-o como uma possibilidade dentro de um programa que pode combinar diferentes estímulos.
Esta ideia é coerente com o princípio da especificidade: quanto mais próximo estivermos da capacidade que queremos melhorar, mais importante se torna praticar essa capacidade.
E para quem não é atleta?
É aqui que devemos ter algum cuidado.
Os participantes desta revisão eram predominantemente atletas e a evidência disponível é sobretudo masculina. Portanto, não devemos transportar automaticamente estes resultados para qualquer pessoa que treina num ginásio ou que simplesmente quer melhorar a sua condição física.
Para um adulto com mais de 40 anos, por exemplo, a questão pode não ser melhorar a aceleração máxima.
Pode ser recuperar capacidade para correr, jogar futebol, mudar de direção, subir uma escada rapidamente ou reagir a uma situação inesperada.
Nesses casos, o princípio continua a ser útil, mas a aplicação deve ser adaptada.
Nem sempre precisamos de sprint resistido. Pode ser mais importante desenvolver primeiro força, coordenação, capacidade de travagem, equilíbrio ou tolerância progressiva às cargas.
O exercício deve responder ao objetivo
Este estudo reforça uma ideia que considero fundamental na construção de um programa de treino.
Não devemos perguntar apenas se um exercício é “bom”. Devemos perguntar: bom para quê?
Um exercício pode ser excelente para desenvolver uma determinada capacidade e ter uma transferência limitada para outra.
O sprint resistido parece ser uma ferramenta interessante para trabalhar a aceleração e pode produzir efeitos positivos noutras capacidades relacionadas com o desempenho explosivo. Mas isso não significa que devamos abandonar o sprint livre, a força, a pliometria ou o treino específico da modalidade.
Na minha experiência, é precisamente esta combinação que torna um programa mais interessante: utilizar diferentes estímulos, mas sabendo porque estamos a utilizá-los.
O que retiro deste estudo?
Para mim, a principal mensagem não é que todos devemos começar a correr com um trenó.
A mensagem é outra.
O treino pode produzir transferência entre capacidades relacionadas, mas essa transferência não é garantida nem uniforme. O exercício escolhido deve fazer sentido dentro do objetivo que queremos alcançar.
O sprint resistido pode ser uma excelente ferramenta para desenvolver a aceleração, sobretudo quando integrado com sprint livre e outros métodos adequados ao atleta.
Mas não existe uma receita universal. A carga, o volume, a frequência e a modalidade devem ser ajustados à pessoa e ao contexto.
É também por isso que gosto de pensar no treino como um processo de construção. Não procuro simplesmente acumular exercícios. Procuro perceber que capacidade falta, que estímulo pode ajudar a desenvolvê-la e como esse estímulo se encaixa no restante programa.
No fundo, a pergunta continua a ser simples: o treino que estamos a fazer aproxima-nos realmente daquilo que queremos conseguir?
Posso ajudar?
Ajudo a estruturar treino individualizado para força, corrida, potência e desempenho, adaptando exercícios, carga e progressão às características, objetivos e contexto de cada pessoa.
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Referências
- Li C, Chen L, Zhang Q, Xin X, Li X. Is Training Transfer Uniform? A Systematic Review and Three-Level Meta-Analysis of Resisted Sprint Training Effects on Acceleration, Jumping, and Change of Direction Performance in Athletes. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports. 2026;36(10):e70375.
- DOI: 10.1111/sms.70375