O transtorno de défice de atenção e hiperatividade (TDAH) pode estar associado a uma maior frequência de sintomas gastrointestinais. Uma nova revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 encontrou uma associação significativa entre o TDAH e vários problemas digestivos, incluindo obstipação, síndrome do intestino irritável, diarreia, dispepsia e dor abdominal.
O estudo é particularmente interessante porque não se limitou a analisar doenças gastrointestinais diagnosticadas. Os investigadores procuraram perceber se pessoas com TDAH apresentam mais frequentemente sintomas gastrointestinais funcionais, uma área que até agora tinha sido menos estudada de forma sistemática.
O que descobriu o novo estudo sobre TDAH e intestino?
Sarah Blake, Hugo Cannon e Saran Shantikumar, da Warwick Medical School, realizaram uma revisão sistemática seguindo as recomendações PRISMA 2020. Foram pesquisadas as bases de dados MEDLINE, Embase e APA PsycInfo até 12 de maio de 2026.
Dos 9613 registos inicialmente identificados, 23 estudos preencheram os critérios de inclusão, envolvendo mais de 1,9 milhões de participantes. Os estudos incluíam crianças, adolescentes e adultos e utilizaram diferentes métodos para identificar o TDAH e os sintomas gastrointestinais.
Na análise global, as pessoas com TDAH apresentaram 48% mais probabilidades de apresentar sintomas gastrointestinais do que os grupos de comparação. O resultado correspondeu a um odds ratio de 1,48.
A associação foi observada em diferentes tipos de sintomas, embora a magnitude variasse entre eles.
Obstipação: uma das associações mais fortes
Um dos resultados mais relevantes foi observado na obstipação. A meta-análise encontrou um odds ratio de 1,97, o que corresponde a uma associação próxima do dobro das probabilidades de obstipação em pessoas com TDAH.
Este resultado é particularmente interessante porque a obstipação não é apenas uma questão relacionada com a alimentação. O funcionamento intestinal depende de fatores como motilidade gastrointestinal, sistema nervoso autónomo, comportamento, rotina diária, hidratação, ingestão de fibra e perceção dos sinais corporais.
Os autores consideram que algumas características frequentemente observadas no TDAH podem contribuir para alterações dos hábitos intestinais, como horários alimentares irregulares, dificuldade em reconhecer ou responder atempadamente à vontade de evacuar e escolhas alimentares mais restritivas.
Síndrome do intestino irritável e TDAH
A síndrome do intestino irritável (SII) também apresentou uma associação significativa com o TDAH. A análise encontrou um odds ratio de 1,58, correspondendo a aproximadamente 58% mais probabilidades de SII no grupo com TDAH.
A SII é uma perturbação funcional caracterizada por sintomas como dor abdominal, alterações do trânsito intestinal, diarreia, obstipação ou uma combinação destes problemas.
O resultado é importante porque reforça a possibilidade de existir uma interação entre cérebro, sistema nervoso autónomo e intestino. Esta comunicação é frequentemente designada por eixo intestino-cérebro.
Outros sintomas gastrointestinais associados ao TDAH
A revisão encontrou associações significativas para vários outros sintomas.
- Dispepsia: odds ratio de 1,52;
- Diarreia: odds ratio de 2,18;
- Dor abdominal: odds ratio de 1,88;
- Problemas inespecíficos do estômago ou intestino: odds ratio de 1,82;
- Encoprese: odds ratio de 4,32.
No caso da diarreia e da dor abdominal existia uma heterogeneidade estatística considerável entre os estudos. Isto significa que os resultados não foram completamente uniformes e que diferentes formas de definir ou identificar os sintomas podem ter influenciado os resultados.
Por isso, estes números devem ser interpretados como associações estatísticas e não como uma previsão individual do risco de determinada pessoa desenvolver um problema gastrointestinal.
O que pode explicar a relação entre TDAH e intestino?
Os investigadores não apresentam uma única explicação. Pelo contrário, consideram provável que vários mecanismos possam contribuir simultaneamente.
Uma das hipóteses envolve o microbioma intestinal. Alguns estudos anteriores encontraram diferenças na composição das bactérias intestinais entre pessoas com TDAH e grupos neurotípicos. No entanto, ainda não está esclarecido se estas alterações são uma causa, uma consequência ou simplesmente uma característica associada ao TDAH.
Outra possibilidade está relacionada com o nervo vago, uma das principais vias de comunicação entre o cérebro e o aparelho digestivo. O sistema nervoso autónomo participa na regulação da motilidade intestinal, da sensibilidade visceral e de processos inflamatórios.
Também podem existir fatores comportamentais. Horários alimentares irregulares, refeições saltadas, episódios de ingestão alimentar impulsiva, menor consumo de fibra ou maior preferência por determinados alimentos podem modificar o funcionamento gastrointestinal.
As diferenças no processamento sensorial também podem ter importância. Algumas pessoas com TDAH podem apresentar maior sensibilidade a texturas, sabores ou cheiros, levando a uma seleção mais limitada de alimentos. Se essa seleção resultar numa alimentação pobre em fibra ou pouco diversificada, poderá contribuir para alterações do trânsito intestinal.
O papel do stress e do sono
O estudo também discute a influência da regulação emocional e do stress. O aumento da reatividade ao stress pode modificar a perceção das sensações provenientes do aparelho digestivo e contribuir para sintomas como dor abdominal ou desconforto.
O sono constitui outro possível elo. Perturbações do sono são frequentes em pessoas com TDAH e podem influenciar a motilidade gastrointestinal, a regulação autonómica, a resposta imunitária e a sensibilidade visceral.
Assim, a relação entre TDAH e sintomas gastrointestinais provavelmente não depende de um único mecanismo. Alimentação, comportamento, sono, sistema nervoso autónomo, microbioma e fatores biológicos podem interagir.
E os medicamentos para o TDAH?
Existe ainda uma questão importante: parte dos sintomas gastrointestinais poderá estar relacionada com o próprio tratamento.
Alguns medicamentos estimulantes utilizados no tratamento do TDAH podem provocar efeitos secundários gastrointestinais, incluindo diminuição do apetite, náuseas, dor abdominal e alterações do trânsito intestinal.
Os autores destacam esta limitação porque muitos dos estudos analisados não separaram adequadamente os participantes de acordo com a utilização de medicação. Consequentemente, não é possível determinar quanto da associação observada resulta do próprio TDAH e quanto poderá estar relacionado com o tratamento.
Ao mesmo tempo, a associação particularmente forte observada para obstipação e encoprese sugere que poderão existir outros mecanismos para além dos efeitos farmacológicos.
O TDAH causa problemas intestinais?
Não é possível afirmar isso com este estudo.
Esta é provavelmente a conclusão mais importante. A investigação demonstra uma associação entre TDAH e maior frequência de sintomas gastrointestinais, mas não prova que o TDAH seja a causa desses sintomas.
A maioria dos estudos incluídos era observacional, pelo que existem vários fatores que podem influenciar simultaneamente TDAH e saúde gastrointestinal. Além disso, os métodos utilizados para identificar os sintomas variaram entre estudos, desde códigos médicos até questionários preenchidos pelos próprios participantes ou pelos pais.
Também não foi possível avaliar adequadamente o potencial viés de publicação e muitos estudos não permitiram separar os resultados de acordo com a utilização de medicamentos.
O que significa isto na prática?
Os resultados sugerem que os sintomas gastrointestinais não devem ser automaticamente considerados um problema independente quando aparecem numa pessoa com TDAH.
Quando existem obstipação, diarreia recorrente, dor abdominal, distensão, alterações persistentes do trânsito intestinal ou sintomas compatíveis com síndrome do intestino irritável, pode ser útil considerar o contexto global: alimentação, horários das refeições, ingestão de fibra e líquidos, atividade física, sono, stress e eventual medicação.
Isso não significa atribuir automaticamente sintomas digestivos ao TDAH. Sintomas persistentes ou intensos devem ser avaliados clinicamente para excluir outras causas.
Conclusão
Esta nova revisão sistemática e meta-análise acrescenta evidência importante sobre a relação entre TDAH e saúde gastrointestinal. Em mais de 1,9 milhões de participantes, o TDAH esteve associado a maior probabilidade de vários sintomas digestivos, incluindo obstipação, síndrome do intestino irritável, dispepsia, diarreia e dor abdominal.
Os resultados apoiam a importância de olhar para a pessoa de forma integrada. O cérebro e o sistema gastrointestinal comunicam através de complexas vias nervosas, hormonais, imunológicas e metabólicas, mas ainda não sabemos exatamente como estas relações funcionam no TDAH.
Mais estudos longitudinais serão necessários para perceber se determinadas alterações gastrointestinais aparecem antes ou depois do diagnóstico de TDAH e qual é a contribuição relativa da alimentação, comportamento, sono, medicação, microbioma e fatores biológicos.
Posso ajudar
Posso ajudar a estruturar o exercício, sono e hábitos de vida de forma individualizada, respeitando limitações, objetivos e a necessidade de acompanhamento por profissionais de saúde quando indicado.
Referências
- Blake S, Cannon H, Shantikumar S. The Association Between Attention-Deficit Hyperactivity Disorder and Gastrointestinal Symptoms: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of Attention Disorders. 2026. DOI: 10.1177/10870547261469626
- PubMed. The Association Between Attention-Deficit Hyperactivity Disorder and Gastrointestinal Symptoms: A Systematic Review and Meta-Analysis. 2026. PubMed
- University of Warwick. People with ADHD more likely to suffer from gut problems. 2026. University of Warwick